A Ilha

27 O confronto da meia-noite



Os homens começaram a cercar Jungkook e Taehyung lentamente, movendo-se ao redor deles como predadores brincando com a presa antes do ataque final. O círculo ia se fechando pouco a pouco, deixando os dois encurralados no centro do acampamento improvisado. O clima era sufocante. O cheiro forte de sangue, terra molhada e madeira queimada impregnava o ar da floresta.

Um de costas para o outro, Taehyung mantinha a arma firme entre as mãos, os dedos tensos no gatilho, enquanto Jungkook exibia os caninos afiados numa ameaça silenciosa. Seus olhos vermelhos percorriam cada movimento dos Muller's, deixando claro que destruiria qualquer um que ousasse se aproximar demais.

— No três — Jungkook sussurrou sem desviar o olhar dos inimigos — Um… dois… três.

Jungkook avançou primeiro. Seu corpo se moveu numa velocidade absurda, quase impossível de acompanhar. Ele se lançou sobre um dos homens, derrubando-o violentamente no chão. O som do impacto ecoou pela clareira e, antes que o Muller pudesse reagir, Jungkook cravou os dentes em seu pescoço, rasgando a pele com brutalidade até arrancar sua jugular. O sangue espirrou quente sobre suas roupas e rosto, tingindo-o de vermelho.

No mesmo instante, um disparo cortou a floresta. Taehyung havia atirado em um dos Muller's que se aproximava pelas costas de Jungkook, pronto para atacá-lo de surpresa. O homem caiu imediatamente, e os outros finalmente voltaram a atenção para Taehyung, percebendo tarde demais que o humano armado era muito mais perigoso do que imaginaram.

Um deles investiu contra Taehyung numa tentativa desesperada de arrancar a arma de suas mãos, mas Jungkook apareceu novamente antes que o golpe o atingisse. Empurrou o homem para longe com força descomunal e caiu sobre ele, os dois entrando em um combate feroz no chão. Rosnados, socos e sangue se misturavam numa luta selvagem onde o prêmio para o vencedor era continuar vivo.

Taehyung conseguiu acertar mais um disparo antes de ser agarrado pelo braço. O caos tomava conta do acampamento. O chão estava coberto de sangue, transformando a terra numa poça escura e viscosa. Sua respiração saía pesada, irregular, o coração disparado pela adrenalina e pelo medo. Então ele olhou em volta. Os Muller's restantes estavam mortos ou desacordados. Sem perder um segundo, Taehyung correu até Yoongi.

— Yoon… — chamou com a voz falhando no meio do nome.

Se ajoelhou ao lado dele e o pegou nos braços. O corpo de Yoongi estava assustadoramente frio. Seu rosto, já naturalmente pálido, parecia sem vida, os lábios ressecados e esbranquiçados, os olhos fundos como se toda sua energia tivesse sido drenada junto com o sangue.

A cabeça de Yoongi tombou para o lado, e Taehyung não conseguiu sentir sua respiração. O mundo inteiro pareceu parar.

Jungkook limpou o sangue do próprio rosto com o antebraço e correu até eles assim que percebeu o desespero estampado na expressão de Taehyung.

— Como ele está?

Taehyung mal conseguia respirar direito.

— Eu… eu não sei… — murmurou, completamente destruído — Parece que ele não tem pulso… ele não tá respirando…

A ideia de perder Yoongi o consumia por inteiro. Era como se o chão estivesse desaparecendo sob seus pés, como se tudo dentro dele estivesse sendo arrancado junto com a vida de Yoongi.

Jungkook enxergou aquilo nos olhos dele, o medo, o amor e o desespero absoluto. Rapidamente, se abaixou ao lado dos dois e examinou Yoongi com atenção. Encostou os dedos em seu pescoço, fechou os olhos por um breve instante e então suspirou aliviado.

— Ele está vivo. O coração está fraco, mas ainda temos uma chance — disse Jungkook, sério — Mas precisamos agir rápido.

…

Quando Taehyung surgiu entre as árvores carregando Yoongi desacordado nos braços, Jin reagiu imediatamente. Sem perder tempo, correu até os poucos equipamentos médicos que havia conseguido recuperar do avião e começou a improvisar um espaço minimamente limpo dentro da caverna. Espalhou tecidos sobre o chão e organizou os materiais com rapidez e precisão, enquanto o restante do grupo observava em silêncio absoluto, tomados pelo medo.

— O que aconteceu com ele? — perguntou Jin. Sua voz saiu assustadoramente calma, fria e controlada.

Taehyung, no entanto, não conseguia sequer organizar os próprios pensamentos. Estava ajoelhado ao lado de Yoongi, segurando sua mão gelada enquanto lágrimas escorriam sem controle por seu rosto.

— Yoon… Yoon, por favor… — repetia, desesperado, como se chamá-lo de volta fosse suficiente para mantê-lo vivo.

— Os Muller's sugaram muito sangue dele — respondeu Jungkook no lugar dele.

Jimin permanecia próximo, tentando manter a compostura, embora sentisse o próprio peito desmoronar ao ver Yoongi naquele estado. Nunca o tinha visto tão frágil.

Jin rapidamente verificou os sinais vitais de Yoongi. Seus dedos tocaram o pescoço dele em busca de pulso, enquanto seus olhos analisavam cada detalhe do corpo pálido e imóvel. Então sua expressão mudou sutilmente.

— Ele perdeu muito sangue — disse com seriedade — Precisamos fazer uma transfusão imediatamente… ou vamos perdê-lo.

As palavras atingiram Taehyung como um disparo.

— Perdê-lo? — repetiu, olhando para Jin como se tivesse parado de entender o mundo. O rosto estava completamente sem cor.

— Não, Tae. Não fala assim — Jimin se aproximou rapidamente, segurando seus ombros — Nós vamos salvar ele. Tá ouvindo? Vamos salvar o Yoon.

Jin continuava focado, já preparando o que fosse possível naquele cenário precário.

— Qual é o tipo sanguíneo dele? — perguntou sem desviar a atenção.

— Tipo A… — Taehyung respondeu entre soluços — E nem nisso eu posso ajudar… eu não posso salvar ele… nem doar meu sangue eu consigo…

A culpa o esmagava por inteiro. Jimin o abraçou imediatamente quando ele desabou em choro, tentando segurá-lo enquanto Taehyung tremia nos seus braços.

Jin levantou o olhar para os sobreviventes reunidos ao redor.

— Precisamos de um doador universal.

O silêncio caiu pesado dentro da caverna. As pessoas começaram a se entreolhar, tensas, assustadas, mas ninguém parecia ser compatível.

— Eu posso ser o doador.

A voz de Jungkook ecoou firme pela caverna, sem hesitação. Jimin e Jin olharam para ele ao mesmo tempo, completamente surpresos.

— Você? — perguntaram em uníssono.

Jungkook assentiu.

— Não quero desmerecer sua intenção — Jin começou, cauteloso — Mas precisamos ser realistas. Você não é humano. Nós não sabemos como o seu sangue reagiria no organismo de Yoongi.

— Nós estudamos isso — respondeu Jungkook imediatamente — Podemos parecer retrógrados por causa do nosso modo de vida, mas acredite… cientificamente, estamos muito mais avançados do que os humanos imaginam.

Aquilo fez Jin estreitar os olhos, interessado apesar da tensão.

— Já fizemos pesquisas com o nosso DNA — continuou Jungkook — Houve testes de compatibilidade e transfusão. Os resultados foram positivos.

Ele fez uma pequena pausa antes de completar:

— Em animais.

O silêncio ficou ainda mais pesado.

— Quais seriam os riscos? — perguntou Jin, agora totalmente focado — Ele pode… se transformar?

Jungkook balançou a cabeça negativamente.

— Acredito que não. Hoseok foi mordido e não sofreu nenhuma transformação. Além disso, nossas cobaias nunca se transformaram após as transfusões. O máximo que observamos foi um aumento significativo na expectativa de vida, fortalecimento do organismo e melhora acelerada na recuperação física.

— “O máximo”… — Jimin repetiu, nervoso.

Jungkook desviou o olhar por um instante.

— Mas eu não posso garantir cem por cento de segurança. Nunca testamos isso em humanos.

Jin soltou um suspiro pesado, claramente fazendo cálculos mentais entre risco e necessidade. Então voltou sua atenção para Taehyung.

— Tae… eu preciso da sua autorização.

Taehyung levantou o olhar lentamente, os olhos vermelhos e inchados pelo choro.

— Você é a pessoa mais próxima de Yoongi aqui. — Jin manteve a voz calma — Quer prosseguir com a transfusão? Mesmo existindo riscos de rejeição ou possíveis efeitos colaterais que nós ainda desconhecemos?

Por alguns segundos, Taehyung apenas olhou para Yoongi desacordado. O peito dele mal subia, a pele estava fria e pálida, e aquilo destruiu qualquer dúvida que ainda pudesse existir.

— Eu não quero perder ele… — as palavras saíram entrecortadas pelos soluços — Faz o que for preciso. Qualquer coisa. — Sua voz falhou completamente no final. — Só… traz ele de volta pra mim, Jin. Por favor.

Jin se aproximou e colocou a mão sobre o ombro dele num gesto acolhedor. Então sorriu de leve.

— Nós vamos salvá-lo.

Jin começou imediatamente a distribuir ordens pela caverna, transformando o caos em movimento organizado. Cada pessoa recebeu uma tarefa: ferver água, separar tecidos limpos, improvisar suportes ou iluminar melhor o ambiente. A pequena área da caverna foi rapidamente adaptada para funcionar como uma espécie de sala de transfusão improvisada. Muitos dos equipamentos haviam sido recuperados dos destroços do avião, mas diversos materiais precisaram ser substituídos por soluções improvisadas. Não era o ideal, longe disso, mas era a única chance que Yoongi tinha.

Jin trabalhava com uma concentração assustadora, os movimentos precisos apesar da tensão evidente em seus olhos. Pediu para que Jungkook se deitasse ao lado de Yoongi e começou a preparar tudo cuidadosamente, verificando os instrumentos mais de uma vez. Aquela experiência o aterrorizava. Não apenas pelo estado crítico de Yoongi, mas porque estavam prestes a misturar algo completamente desconhecido ao corpo humano.

Taehyung permaneceu ao lado de Yoongi o tempo inteiro, segurando sua mão fria entre as suas como se aquilo, de alguma forma, pudesse mantê-lo vivo. Seus olhos não desgrudavam dele nem por um segundo.

Jungkook, deitado ao lado oposto, desviou o olhar até Jimin. Havia um pedido silencioso em seus olhos. Talvez apenas um gesto pequeno da parte de Jimin, um toque, ou quem sabe ele pudesse segurar sua mão também, como Taehyung estava fazendo com Yoongi. Mas Jimin travou.

Seu peito apertou ao encontrar os olhos de Jungkook o encarando daquela forma tão vulnerável. O vampiro parecia implorar por um mínimo de afeto, por algum sinal de que não estava sozinho naquele momento. E isso assustava Jimin mais do que deveria. Porque ele sabia que se cedesse àquele impulso simples de tocar sua mão, estaria alimentando ainda mais aquelas ideias perigosas sobre alma gêmea, amor verdadeiro e destino. E a pior parte era que uma parte dele queria ceder, atravessar aquela distância e confortá-lo.

Jimin desviou o olhar rapidamente e soltou um suspiro pesado. Sentia emoções demais ao mesmo tempo. O medo por Yoongi, a culpa, a tensão e Jungkook bagunçando sua cabeça de um jeito que ele não conseguia controlar. Aquilo estava se tornando sufocante. Sem dizer nada, apenas se afastou da improvisada sala, incapaz de permanecer ali por mais tempo.

Jungkook observou suas costas desaparecendo em silêncio. E então fechou os olhos por um instante. Enquanto isso, Jin iniciou a transfusão. Suas mãos permaneceram firmes, mas, por dentro, o medo o consumia. Sabia dos riscos, sabia do quanto aquilo era incerto, porém, se não tentasse, Yoongi morreria diante deles. E Jin não estava disposto a deixar isso acontecer.

…

Yoongi abriu os olhos lentamente, ainda sonolento, como alguém retornando de um lugar muito distante. Sua respiração estava mais estável agora, e a cor, antes inexistente, havia finalmente voltado ao seu rosto. Ainda parecia fraco, mas estava vivo.

— Yoon! — Taehyung segurou sua mão com força assim que percebeu que ele havia despertado.

Ele não tinha saído do lado dele nem por um minuto sequer. Já fazia mais de vinte e quatro horas desde a transfusão, e Taehyung passou cada segundo ali, observando cada respiração de Yoongi como se dependesse daquilo para continuar existindo.

— Yoon… tá tudo bem agora — disse com a voz embargada, incapaz de conter as lágrimas de alívio enquanto distribuía pequenos beijos no dorso de sua mão — Você tá seguro. Eu tô aqui.

Yoongi piscou devagar, tentando entender o que estava acontecendo ao redor. O corpo parecia pesado, estranho, como se ainda estivesse preso entre o sono e a consciência.

— Tae… — murmurou com dificuldade, tentando se erguer.

— Não, não — Taehyung imediatamente o segurou com cuidado, impedindo que fizesse esforço — Você precisa descansar. Ainda tá muito fraco.

Se inclinou um pouco mais, analisando seu rosto com preocupação genuína.

— Como você tá se sentindo?

Yoongi fechou os olhos por um instante antes de responder:

— Meio… sonolento.

Taehyung soltou uma risada fraca, aliviado por ouvir a voz dele novamente.

— Então descansa, logo você vai ficar bem de novo.

O sorriso em seus lábios desapareceu aos poucos, substituído por culpa.

— E… me desculpa.

Yoongi o olhou confuso.

— Pelo quê?

Taehyung abaixou o olhar, apertando a mão dele entre as suas.

— Eles levaram você debaixo do meu nariz. Eu devia ter percebido, devia ter protegido você.

Yoongi observou o desespero silencioso escondido naquela voz e sentiu o peito apertar.

— A culpa não foi sua, Tae — respondeu com suavidade — Eles são caçadores. Sabem exatamente o que fazem.

Mesmo fraco, conseguiu esboçar um pequeno sorriso.

— O importante é que você me encontrou e me trouxe de volta.

Taehyung sentiu os olhos arderem novamente.

— Eu não vou mais sair do seu lado — prometeu, a voz falhando outra vez — Não vou deixar ninguém encostar em você nunca mais.

Yoongi sentiu o coração aquecer de um jeito perigoso ao ouvir aquilo. Taehyung parecia genuinamente abalado, como alguém que quase perdeu a coisa mais importante da própria vida. E aquilo era assustadoramente adorável.

— Obrigado, Tae… — sussurrou, ainda segurando sua mão.

— Eu fiquei com medo de te perder — confessou Taehyung em voz baixa, levando a mão de Yoongi até o próprio rosto, quase como se precisasse sentir aquele toque para acreditar que ele realmente estava bem.

— Ficou? — Yoongi perguntou suavemente, acariciando sua pele com o polegar.

Taehyung fechou os olhos por um instante, se inclinando contra a palma dele como alguém finalmente encontrando abrigo depois de uma tempestade.

— Yoon… eu não consigo imaginar uma vida sem você. Eu preciso de você. — Sua voz falhou no meio da frase, carregada de emoção. — Eu te amo.

Yoongi o encarou, completamente paralisado. Ele conhecia Taehyung há anos. Anos esperando por aquilo. Anos amando sozinho, escondendo sentimentos, se contentando com migalhas de esperança. E agora estava ouvindo exatamente as palavras que sempre sonhou escutar.

— Você… me ama? — perguntou quase sem voz, os olhos enchendo de lágrimas — Me ama mesmo? Tipo… amor de casal? Não amor de amigo… nem de irmão?

Taehyung riu entre o choro, completamente desmontado emocionalmente.

— Sim! Desse jeito! Como um casal — respondeu rápido, como se tivesse medo de Yoongi duvidar — Eu te amo muito. Muito mesmo. Acho que amo você do tamanho do universo inteiro.

Aquilo foi o suficiente para quebrar as últimas barreiras dentro de Yoongi.

— Tae… — murmurou antes de puxá-lo para um abraço apertado — Eu esperei tanto tempo pra ouvir isso.

Sua voz saiu embargada.

— Eu também te amo tanto…

Taehyung o abraçou de volta imediatamente, enterrando o rosto em seu pescoço, como se finalmente pudesse respirar de verdade depois de anos sufocando os próprios sentimentos.

— Me desculpa, Yoon… — confessou, ainda abraçado a ele — Eu fui um covarde todos esses anos. Sempre te amei, mas tinha medo da minha família, medo do que os outros iriam pensar, medo de assumir quem eu era.

Ele se afastou apenas o suficiente para olhá-lo nos olhos.

— Mas eu não me importo mais. Não depois de quase perder você. Eu só quero ficar ao seu lado. Quero enfrentar qualquer coisa por você, se for preciso.

Taehyung segurou o rosto dele com as duas mãos, sorrindo entre lágrimas.

— Eu quero ser seu namorado, seu noivo, seu marido, quero ser o amor da sua vida. — Respirou fundo, nervoso como nunca esteve. — Então… Min Yoongi… você aceita namorar comigo?

Yoongi o encarava com os olhos brilhando tanto que parecia impossível conter toda aquela felicidade dentro do peito.

— Isso é real? — perguntou, rindo choroso — Eu não tô sonhando? Você tá mesmo bem com isso?

— Eu nunca tive tanta certeza de alguma coisa — respondeu Taehyung sem hesitar — Não quero perder mais nenhum segundo longe de você.

Yoongi sorriu e então o beijou. Foi um beijo lento e calmo, mas carregado de anos de espera. Os lábios se encontraram com cuidado, quase tímidos no começo, como se ambos ainda estivessem tentando acreditar que aquilo finalmente estava acontecendo. Taehyung segurou o rosto de Yoongi com delicadeza, os polegares acariciando sua pele enquanto lágrimas quentes escapavam dos dois durante o beijo.

Não havia pressa, só um amor tão profundo que parecia transbordar em cada toque, em cada suspiro e em cada vez que seus lábios se encontravam de novo como se quisessem recuperar todo o tempo perdido.

Yoongi sorriu contra a boca dele, emocionado demais para esconder.

— Sim, Tae… — sussurrou entre pequenos beijos — Eu quero ser seu namorado.

Notas finais
Ahhhhhhhhhhhhhh que romântico (づ ̄ 3 ̄)づ O Yoon com o sangue do Kook.... será que vai dar bom? (*  ̄︿ ̄)