A Ilha
28 Sangue, suor e lágrima

Depois de verificar os sinais vitais de Yoongi mais uma vez, Jin soltou um suspiro discreto. Aparentemente, tudo estava estável. A respiração havia se normalizado, a cor voltou ao rosto e o pulso permanecia firme. Ainda assim, ele não conseguia relaxar completamente. Não era todo dia que se realizava uma transfusão de sangue de um vampiro para um humano.
Jin não acreditava que Yoongi fosse se transformar em um vampiro. Aquilo parecia fantasioso até mesmo para os padrões absurdos daquela ilha. Sua preocupação era muito mais prática. O organismo humano era complexo e imprevisível. O sangue de Jungkook podia provocar rejeições, reações tardias ou efeitos que nenhum deles era capaz de prever. Por isso, mantinha-se atento a cada alteração, por menor que fosse. A experiência havia sido bem-sucedida até o momento, mas ele sabia que ainda era cedo demais para baixar a guarda. Mas Jin não era o único vigilante.
Taehyung havia praticamente se tornado a sombra de Yoongi. Desde que ele acordou, recusava-se a ficar longe por mais de alguns minutos. Se dependesse dele, Yoongi não pisaria os pés no chão nem para caminhar alguns metros. Estava sempre oferecendo ajuda, segurando sua mão, ajeitando sua manta ou perguntando pela décima vez na mesma hora se ele estava se sentindo bem. Era um comportamento quase exagerado, mas ninguém teve coragem de comentar. Depois do susto que havia passado, todos entendiam perfeitamente.
Enquanto isso, o restante do grupo se preparava para partir. Mochilas improvisadas eram organizadas, provisões separadas e equipamentos conferidos. O próximo destino seriam as terras dos Jeon's.
Entre todos, Jin era quem parecia mais preocupado.
Embora Jungkook tivesse provado inúmeras vezes que queria ajudá-los, uma parte de sua mente se recusava a ignorar os riscos. Eles estavam prestes a atravessar territórios desconhecidos para confiar suas vidas a um povo que mal conheciam. E se estivessem cometendo um erro? E se aquilo fosse algum tipo de armadilha? E se Jungkook, apesar de toda a boa vontade demonstrada, estivesse levando todos diretamente para a própria morte?
Essas dúvidas o acompanhavam em silêncio. Mas, ao mesmo tempo, Jin sabia que não possuíam alternativas. Permanecer ali significava esperar pelo próximo ataque dos Muller's. Significava viver escondidos, acuados, perdendo pessoas aos poucos até que não restasse mais ninguém para salvar.
Por mais arriscada que a proposta parecesse, seguir com Jungkook era a única esperança concreta que possuíam. E, naquele momento, esperança era um luxo valioso demais para ser desperdiçado.
…
Taehyung caminhava com um sorriso impossível de esconder, segurando a mão de Yoongi como se tivesse medo de que ele desaparecesse caso a soltasse. Havia algo triunfante em sua postura, como alguém que finalmente conquistou aquilo que desejava há anos. De vez em quando, lançava olhares para as mãos entrelaçadas e voltava a sorrir sozinho, arrancando pequenas risadas de Yoongi, que achava aquilo adorável.
Ver Taehyung tão feliz aquecia seu coração de uma forma que ele nem tentava disfarçar. Ainda assim, diferente dele, mantinha os pés firmemente no chão. Sabia que o maior desafio não tinha sido sobreviver aos Muller's ou escapar da morte. O verdadeiro desafio começaria quando saíssem daquela ilha.
Ele conhecia o pai de Taehyung, conhecia sua família, conhecia os preconceitos, as expectativas e a pressão que o aguardavam do lado de fora. Por isso, mesmo amando Taehyung com todo o coração, Yoongi não se permitia criar ilusões fáceis. O caminho seria difícil. Haveria conflitos, discussões, rejeições e obstáculos que nenhum dos dois poderia evitar.
Mas aquilo não o assustava porque agora não estava mais sozinho. Se fosse necessário enfrentar o mundo inteiro para permanecer ao lado de Taehyung, então enfrentaria, e faria isso de cabeça erguida.
À frente da caravana, Jungkook e Jimin guiavam o caminho pela floresta. Jungkook conhecia aquelas terras como a palma da própria mão e conduzia o grupo por trilhas seguras, enquanto Jimin caminhava ao seu lado, fazendo perguntas sem parar e arrancando respostas pacientes do vampiro.
Logo atrás vinham Jin e Namjoon, auxiliando os mais idosos e verificando constantemente se todos estavam conseguindo acompanhar o ritmo. Apesar do cansaço acumulado dos últimos dias, ambos mantinham a postura firme, determinados a levar todos em segurança até o destino.
Mais atrás, Hoseok e Mingi se encarregavam das crianças, garantindo que ninguém se afastasse ou se perdesse entre as árvores. Mingi transformava tudo em uma aventura para distraí-las, enquanto Hoseok distribuía sorrisos e palavras gentis sempre que alguém reclamava do calor ou do cansaço.
A fila de sobreviventes avançava lentamente pela mata fechada. O caminho seria longo, difícil e exaustivo. Mas, pela primeira vez desde a queda do avião, todos caminhavam em direção a algo que lhes dava mais esperança.
…
O sol já começava a desaparecer no horizonte quando Jin decidiu que era hora de parar. Haviam caminhado durante horas sem interrupção, atravessando trechos difíceis da floresta, e todos demonstravam sinais claros de cansaço. Precisavam descansar, se alimentar e recuperar as energias antes de continuar a jornada no dia seguinte.
Assim que o grupo se acomodou, cada um assumiu uma tarefa. Taehyung e Jungkook partiram mata adentro para caçar algo que pudesse servir de jantar. Enquanto isso, Mingi se dedicava a montar a fogueira, organizando cuidadosamente os gravetos e galhos secos que Hoseok e Yoongi haviam recolhido pelo caminho. Logo as primeiras chamas começaram a crepitar, espalhando calor e uma agradável sensação de conforto pelo acampamento improvisado.
Perto dali, Jimin ajudava Jin a preparar os ingredientes da refeição. Sentados lado a lado, cortavam legumes que haviam encontrado durante a caminhada. A ideia era simples, mas bastante convidativa: um ensopado de vegetais fumegante acompanhado da carne que Taehyung e Jungkook trariam para assar sobre as brasas.
Yoongi observou a movimentação por alguns instantes antes de se aproximar de Hoseok. O amigo estava sentado sobre um tronco caído, completamente concentrado na leitura de um livro que Mingi havia lhe dado.
— Oi.
Hoseok levantou os olhos da página e abriu um sorriso imediato.
— Yoonie! Como você está?
— Estou bem — respondeu Yoongi, levando a mão ao curativo em seu pescoço. A região ainda latejava de vez em quando — Ainda dói um pouco.
— Vai passar — disse Hoseok com um sorriso tranquilo.
Yoongi observou as duas pequenas marcas já cicatrizadas no pescoço dele e apontou para as próprias.
— Agora temos cicatrizes iguais.
Hoseok levou a mão até o pescoço e tocou os pequenos furos deixados pela mordida.
— Somos irmãos de cicatriz.
Os dois riram.
— Sinceramente? — Yoongi suspirou, olhando para o céu que ganhava tons alaranjados. — Nunca imaginei que acabaríamos sendo atacados por vampiros. Pensei em ursos, leopardos, tigres... talvez até unicórnios assassinos.
— Unicórnios assassinos? — Hoseok arqueou uma sobrancelha.
— Claro. Já estamos numa ilha habitada por vampiros. Unicórnios assassinos nem parecem tão absurdos assim.
Hoseok soltou uma gargalhada.
— Essa ilha é uma loucura — suspirou, mas logo abriu um sorriso tão grande que Yoongi precisou rir da mudança repentina de humor.
— Loucura? Você quase morreu e tá sorrindo desse jeito?
— Porque, apesar de tudo, essa ilha é meio... mágica. Na verdade, acho que ela é uma ilha do amor.
Yoongi arqueou uma sobrancelha.
— Ilha do amor?
— É sério! — Hoseok respondeu animado. — Olha em volta. O Nam e o Jin reacenderam o relacionamento deles. Eu nunca vi duas pessoas tão apaixonadas. Eles andam por aí trocando olhares como adolescentes no primeiro namoro. Aí tem o Jimin, que conseguiu arrumar um nativo misterioso no meio da floresta. E não adianta ele fingir que não, porque aqueles dois têm alguma coisa especial acontecendo.
Yoongi soltou uma risada.
— O Jimin vai te matar se ouvir isso.
— Eu corro o risco. Depois tem você e o Tae. Finalmente! Depois de anos daquela enrolação interminável, o Tae finalmente criou coragem para assumir o que sente.
Yoongi sorriu involuntariamente ao ouvir aquilo.
— E tem você — completou.
O sorriso de Hoseok ficou mais suave.
— É... e tem eu.
Seu olhar se perdeu por alguns segundos na direção da fogueira, onde Mingi ajudava algumas crianças a espetar legumes em gravetos para assar.
— Eu encontrei o homem mais perfeito do universo inteiro — confessou baixinho. — Eu amo o Mingi. Amo mesmo. Mais do que achei que fosse capaz de amar alguém.
Yoongi observou a expressão dele com atenção.
— Então qual é o problema?
Hoseok soltou uma pequena risada sem humor.
— O problema sou eu.
— Lá vem.
— É sério, Yoon. Olha quem ele é. O Mingi é inteligente, gentil, educado, bonito e respeitado. Ele dá aula nas melhores universidades do mundo, participa de pesquisas importantes, tem uma carreira brilhante pela frente… — A voz dele foi diminuindo. — E eu sou só eu.
Yoongi imediatamente revirou os olhos.
— Ah, pelo amor de Deus.
— Não faz essa cara.
— É impossível não fazer essa cara.
Hoseok sorriu sem alegria.
— Aqui está tudo bem. Aqui somos apenas duas pessoas tentando sobreviver numa ilha maluca. Mas quando voltarmos pra casa... eu vou desaparecer da vida dele.
— Você vai fazer o quê?
— Vai ser melhor pra ele.
Yoongi passou a mão no rosto, incrédulo.
— Minha vontade é mandar você ir se foder.
— Yoon!
— Não, fala sério. Você escuta as coisas que fala?
Hoseok desviou o olhar.
— Eu só estou sendo realista.
— Não. Você está sendo cruel consigo mesmo.
— Hobi, presta atenção em mim — continuou Yoongi, mais sério agora. — Se o Mingi está com você, é porque ele quer estar com você. Não porque sente pena. Não porque está entediado. Não porque não encontrou alguém melhor. Ele escolheu você.
Hoseok permaneceu em silêncio.
— Você vive olhando para o seu passado como se ele definisse quem você é. Não importa o que você fez ou deixou de fazer. O Mingi se apaixonou por você. Pela pessoa que você é de verdade.
Os olhos de Hoseok começaram a ficar marejados.
— Você não entende...
— Entendo mais do que você imagina. Passei anos achando que não era bom o suficiente para alguém também. E olha onde isso me levou.
Yoongi apontou discretamente para Taehyung, que estava do outro lado do acampamento observando-os de longe, claramente tentando fingir que não estava observando.
— Algumas pessoas simplesmente nos amam, Hobi. E a única coisa mais triste do que nunca ser amado... é ser amado e não acreditar nisso.
Hoseok abaixou a cabeça, queria acreditar. Mas aquela voz dentro dele, construída por anos de abandono, humilhação e dor, continuava sussurrando que pessoas como ele não mereciam finais felizes.
Ainda assim, quando levantou os olhos e encontrou Mingi sorrindo para ele do outro lado da fogueira, seu coração vacilou por um instante. Talvez, Yoongi estivesse certo.
…
A noite estava agradavelmente fresca. Depois de um dia inteiro sob o calor intenso da floresta, a brisa fria que soprava entre as árvores parecia um presente. O vento balançava suavemente as copas, carregando o perfume da mata e o som distante dos insetos noturnos.
Era a vez de Jungkook assumir a vigia.
Taehyung e Yoongi haviam acabado de encerrar o turno deles e finalmente se recolhido para descansar. O restante do grupo também dormia aos poucos, embalado pelo crepitar constante da fogueira.
Para Jungkook, permanecer acordado não era um problema. Seu povo precisava de muito menos sono que os humanos, e ele costumava passar noites inteiras observando as estrelas sem sentir qualquer cansaço.
Sentado ao pé de uma árvore centenária, mantinha os olhos voltados para a lua cheia que pairava sobre a floresta. A luz prateada atravessava os galhos e desenhava sombras suaves sobre seu rosto.
— Oi, senhor vampirinho.
A voz fez seus lábios se curvarem instantaneamente. Jungkook virou o rosto e encontrou Jimin se aproximando.
— Jimin.
Sem perceber, ele endireitou a postura.
— O que está fazendo acordado? Você deveria estar descansando. Ainda temos uma longa caminhada pela frente até chegarmos à minha cidade.
— Vim ficar com você.
Jungkook piscou algumas vezes.
— Comigo?
— Sim, com você — respondeu Jimin como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — É um saco ficar de guarda sozinho. A hora demora uma eternidade pra passar.
Antes que Jungkook pudesse responder, Jimin sentou-se ao seu lado e apoiou a cabeça em seu ombro.
— E também porque tá frio — acrescentou com naturalidade. — Você é quentinho e seu ombro é confortável.
Jungkook sentiu o coração tropeçar dentro do peito. Tentou manter a expressão séria, tentou agir normalmente, mas falhou miseravelmente.
— Entendi — respondeu, fingindo uma calma que não sentia.
Jimin sorriu, percebendo o efeito que causava nele.
Depois de alguns minutos em silêncio, Jungkook passou um braço ao redor de sua cintura e o puxou delicadamente para mais perto. Quando percebeu que Jimin não protestaria, o acomodou em seu colo com todo o cuidado do mundo.
— Assim é melhor.
— Hum... — Jimin murmurou, já se ajeitando.
Agora sua cabeça repousava contra o peito de Jungkook, que podia sentir os cabelos macios roçando em seu pescoço. Instintivamente, o vampiro o envolveu em um abraço protetor. Jimin fechou os olhos. O som do coração de Jungkook era calmo, constante e reconfortante. E, por mais que tentasse negar para si mesmo, havia algo naquele abraço que o fazia sentir-se seguro.
Pouco tempo depois, sua respiração tornou-se lenta e regular, ele havia adormecido. Jungkook abaixou o olhar para observá-lo. A luz da lua iluminava parte de seu rosto, destacando os cílios longos, os lábios levemente entreabertos e a expressão tranquila que raramente exibia quando estava acordado. Parecia um anjo. Um anjo teimoso, sarcástico e impossível. Mas ainda assim um anjo.
Jungkook permaneceu imóvel por longos minutos, apenas admirando-o. Sentia o calor do corpo de Jimin contra o seu e o peso confortável de sua cabeça apoiada em seu peito.
Naquele momento, a floresta inteira desapareceu. Não existiam Muller's e nem perigo nenhum. Só existia o arqueólogo Park Jimin em seu mundo.
E foi observando o rosto da pessoa que mais amava que Jungkook acabou relaxando pela primeira vez em dias. Seus olhos fecharam e ele adormeceu sorrindo.
…
Jungkook despertou de repente ao sentir uma enxurrada de água gelada atingir seu rosto e seus cabelos. O choque foi tão brusco que ele se levantou num sobressalto. Jimin, que ainda dormia aconchegado em seu colo, caiu assustado, completamente desnorteado.
— Que diabos...? — murmurou Jimin, piscando várias vezes enquanto tentava entender o que estava acontecendo.
A resposta veio imediatamente.
Diante deles, dois homens altos observavam a cena com expressões divertidas. Os cabelos claros, da cor da areia iluminada pelo sol, contrastavam com os olhos frios e predatórios. O sorriso estampado no rosto de ambos não tinha nada de amigável.
Jungkook reconheceu aqueles rostos na mesma hora. Seu corpo inteiro ficou tenso.
— Muller's — rosnou entre os dentes.
Um dos homens inclinou levemente a cabeça e abriu um sorriso debochado.
— Bom dia, Príncipe Jeon. Vejo que teve uma ótima noite de sono.
O sarcasmo escorria de cada palavra. Jungkook ignorou a provocação e rapidamente examinou os arredores. Seu coração afundou, pois o acampamento inteiro estava cercado.
Dezenas de Muller's haviam surgido durante a madrugada sem que ninguém percebesse. Os sobreviventes estavam rendidos, cercados por vampiros armados e muito mais fortes que eles. Alguns tinham facas encostadas ao pescoço dos prisioneiros. Outros mantinham as mãos firmemente apoiadas em seus ombros para impedir qualquer reação.
Do outro lado da clareira, Taehyung estava imóvel, o corpo rígido de tensão. Um Muller mantinha Yoongi preso pelos braços, tão próximo que bastaria um movimento brusco para colocar sua vida em risco.
Quando seus olhares se encontraram, Taehyung fez um discreto sinal negativo com a cabeça para que Jungkook não tentasse atacar, pelo menos não naquele momento. Jungkook compreendeu imediatamente. Taehyung estava disposto a lutar contra qualquer coisa. Mas não arriscaria Yoongi.
Jungkook respirou fundo e obrigou a própria raiva a permanecer sob controle. Seus punhos estavam cerrados com tanta força que as unhas quase perfuravam a pele.
A situação era péssima. Os Muller's eram numerosos e, pior ainda, haviam escolhido o momento perfeito para agir. Os humanos estavam exaustos da caminhada dos últimos dias. E além disso, estavam desarmados e vulneráveis.
Mesmo Jungkook, sendo o único não humano entre eles, sabia que não teria condições de enfrentar tantos adversários sozinho. Os Muller's pertenciam a uma linhagem muito mais agressiva e fisicamente superior à dos Jeon's. Uma luta naquele momento seria um massacre.
Ele lançou um rápido olhar para Jimin, que permanecia ao seu lado tentando disfarçar o próprio medo. Depois observou Jin, Namjoon, Hoseok, Mingi, Taehyung, Yoongi e todos os outros. Precisava encontrar uma saída, porque uma coisa era certa, ele não permitiria que ninguém ali se transformasse em refeição.
…
Jungkook e Jimin haviam sido colocados dentro de uma grande gaiola de ferro. As grades grossas impediam qualquer tentativa de fuga, e uma lona escura cobria toda a estrutura, bloqueando completamente a visão do exterior. O ambiente era abafado, cheirava a metal enferrujado e terra úmida. Eles não conseguiam ver o que acontecia lá fora, mas não era difícil imaginar. Muito provavelmente, os outros sobreviventes estavam aprisionados em gaiolas semelhantes, espalhadas pelo comboio dos Muller's.
Jungkook observava Jimin sentado em um canto, os braços apoiados sobre os joelhos. Havia algo diferente nele. Aquele não era o mesmo arqueólogo tagarela que fazia piadas nas piores situações possíveis. Nem o homem teimoso que discutia com qualquer um sem medo das consequências. Ele parecia cansado, como alguém que começava a perder a esperança. Aquilo doeu mais em Jungkook do que as correntes que prendiam seus pulsos.
— Jimin... — chamou baixinho. — Eu prometo que vou tirar a gente daqui.
Jimin levantou os olhos apenas por um instante. Encontrou o olhar determinado de Jungkook e então voltou a encarar o chão.
— Kookie... isso não é responsabilidade sua. — Sua voz dele saiu totalmente sem energia. — Não existe nada que você possa fazer.
— Existe, sim — respondeu Jungkook imediatamente. — Eu não vou deixar eles fazerem o que quiserem com a gente.
Jimin soltou uma risada sem humor.
— Eles não vão te matar. Você sabe disso.
— E você também sabe que eu não vou abandonar vocês.
— Não é algo que você possa escolher. Como eu disse antes, eles não vão fazer nada com você. Fico mais aliviado quanto a isso. Você é um Jeon. Se os Muller's encostarem um dedo em você, vão provocar uma guerra entre os dois povos. — Ele suspirou profundamente. — Mas nós somos humanos. Nós somos o alimento deles.
Jungkook sentiu o peito apertar. Jimin nunca falou daquele jeito.
— Estamos condenados, Kookie.
— Não fala isso.
— É a verdade. — Jimin ergueu a cabeça e finalmente o encarou. Os olhos azuis estavam apagados. — Você ouviu o que eles disseram. Somos estoque de comida. Eles vão nos manter vivos o máximo possível e depois...
A frase morreu antes de terminar. Os dois sabiam exatamente o que aconteceria. Jungkook se aproximou até ficar diante dele e se ajoelhou.
— Olha pra mim.
Jimin obedeceu.
— Eu não vou deixar isso acontecer.
— Como? — perguntou Jimin com um sorriso triste. — Mesmo que você seja um vampiro, você está sozinho. E, convenhamos, você mesmo disse que não tem a força física dos Muller's.
Jungkook permaneceu em silêncio por alguns segundos. Então segurou as mãos dele.
— Na verdade... talvez exista um jeito.
A voz de Jungkook saiu baixa, quase perdida em meio aos próprios pensamentos.
Jimin ergueu a cabeça imediatamente.
— Que jeito?
Jungkook demorou alguns segundos para responder. Seus olhos permaneceram fixos nas grades da gaiola, como se estivesse travando uma batalha interna.
— Eu poderia derrotar todos eles.
Jimin arqueou uma sobrancelha.
— Certo... e por que isso soa tão ruim?
Jungkook soltou uma risada amarga.
— Posso facilmente ficar muito mais forte, mas…
— Precisa beber sangue humano — Jimin completou a frase entendendo tudo — Que obviamente seria o meu.
— Exatamente isso… e é claro que eu jamais faria.
— Mas você acabou de dizer que é a única forma.
— E por isso mesmo não é uma opção.
Jungkook passou a mão pelos cabelos, frustrado.
— Você não entende. Não é só uma questão de força. O sangue humano desperta instintos que nós passamos séculos aprendendo a controlar. Eu poderia ficar mais forte que todos os Muller's juntos.
— Mas?
— Mas eu também poderia perder o controle.
Aquelas palavras pesaram dentro da gaiola.
— E se eu machucasse você? E se eu machucasse os outros? E se eu me tornasse exatamente igual a eles?
Jimin ficou observando seu rosto por alguns segundos. Via o medo ali, não medo de morrer, muito menos medo dos Muller's. Era medo de machucar alguém. Medo de machucá-lo.
Mesmo com os pulsos presos pelas cordas, Jimin se aproximou até ficar diante dele. Então ergueu os braços amarrados e os acomodou ao redor de seu pescoço, puxando-o para perto.
Jungkook ficou imóvel.
— Jimin...
— Olha pra mim.
Os olhos dos dois se encontraram.
— Jungkook, eu confio em você.
Jungkook balançou a cabeça imediatamente.
— Você não deveria.
— Mas eu confio.
Jimin aproximou a testa da dele.
— Confio minha vida a você.
A respiração de Jungkook vacilou.
— Jimin...
— Eu sei quem você é, Kookie. Sei que você não é um monstro.
— Você não pode ter certeza disso.
— Posso, sim.
Jimin sorriu de leve.
— Porque eu conheço o vampiro que me seguiu pela floresta durante semanas, me cobriu quando eu estava com frio, cuidou de mim enquanto eu dormia e quase teve um ataque cardíaco porque eu beijei ele.
Mesmo naquela situação, Jungkook soltou uma pequena risada.
— Você não vai me machucar.
— Como pode ter tanta certeza?
— Porque eu vou estar com você. Não vou deixar você perder quem você é.
Jungkook sentiu o peito doer. Porque era exatamente aquilo que mais temia. Perder a si mesmo. Perder Jimin. Perder tudo.
Mas enquanto observava aqueles olhos azuis cheios de confiança, uma verdade dolorosa se tornava impossível de ignorar. Se não fizesse nada, os Muller's matariam Jimin. E essa era uma possibilidade que ele simplesmente não conseguia aceitar.
— Eu realmente não quero te machucar... — confessou Jungkook com a voz embargada pela culpa e pelo medo.
Jimin sorriu de leve e aproximou o rosto do dele.
— Ei, eu sou o Park Jimin. O arqueólogo mais imprudente que já existiu. Já levei tiro, já fui mordido por animais selvagens, já despencaram pedras na minha direção, já caí de lugares perigosos, quase me afoguei, sobrevivi à queda de um avião... sinceramente, minha ficha já parece uma coleção de acidentes ambulantes.
Jungkook soltou uma pequena risada apesar da tensão.
— Isso não é exatamente reconfortante.
— O que eu quero dizer é que sou mais resistente do que pareço. Eu sobrevivi a muita coisa porque sou forte. E vou sobreviver a isso também.
O vampiro abaixou o olhar.
— Mas, Jimin...
— Vai doer? — Jimin o interrompeu.
Jungkook hesitou por um instante.
— Não vai. Não vou fazer doer. Eu só preciso que você mantenha o controle, não perca a consciência, isso vai ser a coisa mais… gostosa e excitante que você já viveu.
— Falando assim eu fico até empolgado — Jimin sorriu para passar tranquilidade.
— Jimin, isso não vai ser gostoso só pra você, mas pra mim também. E se eu perder o controle?
— Você não vai. Eu confio em você, vai dar tudo certo e você vai virar um Super Sayajin e acabar com todos eles.
— Super o que?
— Esquece, você vai virar um super homem… quer dizer, um super vampiro e vai nos salvar.
O arqueólogo se aproximou e deixou um beijo suave em seus lábios.
— Super vampiro, é? Isso não existe.
— Existe sim. Acabei de inventar.
Jungkook balançou a cabeça, derrotado pelo sorriso dele. Jimin encostou a testa na sua.
— Você vai conseguir.
— Eu vou salvar você, prometo.
— Eu sei.
— Vou salvar todos eles.
— Eu sei disso também.
Por um instante, o medo pareceu menor. Jimin deixou mais um beijo em seus lábios antes de repousar a cabeça em seu peito.
— Vamos fazer isso, Kookie.
Jungkook segurou o rosto de Jimin entre as mãos e depositou um beijo demorado em sua testa.
— Prometo que não vou te fazer mal.
Jimin sustentou seu olhar por alguns segundos antes de sorrir suavemente. Então inclinou a cabeça, expondo o pescoço numa entrega que fez o coração de Jungkook disparar.
O vampiro se aproximou devagar. Como se quisesse decorar cada detalhe daquele momento.
A ponta de seu nariz roçou a pele de Jimin, inspirando seu perfume. Era um aroma impossível de descrever, algo que misturava calor, vida e uma familiaridade que fazia seu peito gritar.
— Kookie... — Jimin sussurrou.
Seu nome saiu quase como uma carícia. Jungkook fechou os olhos por um instante e se inebriou em seu cheiro e Jimin em seus toques. O vampiro não precisava usar seu poder de hipnose no arqueólogo, ele naturalmente ficava nesse estado sempre que ele tocava seu corpo de forma mais íntima.
Os dedos de Jungkook deslizaram suavemente por sua pele enquanto seus lábios percorriam seu pescoço em beijos lentos e demorados. Jimin gemeu baixinho ao sentir a língua úmida e quente dele lamber sua pele. Havia algo reverente na maneira como o tocava.
Jimin sentiu um arrepio percorrer todo o seu corpo. Cada toque parecia mais intenso que o anterior. Cada aproximação fazia seu coração acelerar ainda mais. Jungkook subiu lentamente até encontrar sua boca. O beijo aconteceu como uma necessidade, profundo, ansioso e desesperado.
Por alguns instantes esqueceram completamente onde estavam. As grades, os Muller's, o medo e o perigo desapareceram. Existiam apenas os dois.
Jimin tentou aproximar-se ainda mais, limitado pelas cordas que prendiam seus pulsos. Jungkook também buscava seu toque como podia, incapaz de se afastar.
Quando o beijo finalmente se desfez, seus rostos permaneceram próximos. As respirações se misturavam. Os olhos permaneciam presos um ao outro.
Jungkook voltou a percorrer sua pele com os lábios, descendo lentamente pelo maxilar, pelo pescoço e pela curva delicada de sua clavícula.
Jimin fechou os olhos. Sentia-se envolvido por completo. Estremeceu de excitação quando sentiu os dentes pontudos arranharem seu pescoço. Estava tão inebriado que não sentiu dor alguma quando sua pele foi perfurada.
Jungkook sugou seu sangue, e Jimin gemeu seu nome baixinho, nunca em sua vida tinha provado nada tão excitante quanto aquilo. Nada mais parecia importar, parecia que só existiam eles dois no mundo. Jimin sentia seu sangue ferver, sentia seu corpo quente, era como se quisesse se dar completamente para Jungkook, de alma, coração e sangue.
Era a primeira vez que Jungkook provava sangue humano e a sensação foi avassaladora.
Por um instante, sentiu que cada sentido se expandir. Conseguia ouvir o vento atravessando as árvores lá fora, o movimento distante dos Muller's ao redor das gaiolas e até as batidas aceleradas do coração de Jimin. O poder corria por suas veias como um rio intenso e difícil de controlar.
Mas havia algo mais forte do que aquilo. Jimin. O amor que sentia por ele era a única âncora que o mantinha consciente em meio à tempestade.
Quando finalmente se afastou, sangue quente ainda marcava seus lábios. Parou antes que colocasse a vida de Jimin em risco.
O arqueólogo estava apoiado contra ele, mole em seus braços, os olhos pesados e a respiração lenta. Ainda parecia inebriado pela experiência.
— Mais... pode pegar mais do meu sangue — murmurou baixinho.
Jungkook sorriu com tristeza.
— Não.
Com cuidado, rasgou um pedaço da própria blusa e o enrolou ao redor do pescoço de Jimin. Queria proteger o local e, principalmente, esconder o aroma doce que ainda o atraía perigosamente.
Quando terminou, segurou seu rosto entre as mãos.
— Jimin?
— Kookie...? — respondeu com a voz sonolenta.
Jungkook inclinou a cabeça.
— Você está bem?
Jimin levou alguns segundos para responder. Sentou-se com dificuldade, apoiando-se na parede da gaiola. A cabeça girava um pouco. Mas, estranhamente, sentia-se bem, leve e feliz.
— Estou bem, e você? É a primeira vez que bebe sangue humano.
Jungkook desviou o olhar.
— Estou me sentindo um pouco diferente.
— Diferente como?
— Um pouco sonolento.
— Mas isso não deveria te deixar mais forte? — Jimin o olhou confuso.
Jungkook fechou os olhos por um instante.
— E me deixou. Consigo sentir esse poder dentro de mim. Como se algo tivesse despertado. E isso me assusta.
Jimin observou seu rosto atentamente.
— Por quê?
Jungkook apertou os punhos.
— Porque sinto que, se eu baixar a guarda... se eu apagar por um segundo sequer... posso me tornar igual a eles.
— Kookie...
— É como se existisse uma fera esperando uma oportunidade. Uma parte de mim que quer assumir o controle. — Ele respirou fundo. — E eu não quero machucar você. Não quero machucar ninguém.
Jimin ficou observando-o por alguns segundos. Então se aproximou, segurou seu rosto e o beijou, sentindo o gosto metálico do próprio sangue. Quando se afastou, encostou a testa na dele.
— Você não vai machucar ninguém, vai dar tudo certo, meu amor.
Jungkook sentiu um calor agradável tomar seu peito ao ser chamado de “meu amor” por Jimin. E, por um momento, permitiu-se acreditar que tudo ficaria bem.
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