A Ilha
13 Olá?

Alguém, ou algo, estava seguindo Jimin.
Desde aquele estalo nos arbustos perto do rio, ele sabia. Não era paranóia. Não era imaginação. Era a presença de alguém.
E o mais estranho? Jimin não estava com medo.
“Se quisesse me matar, já teria feito isso quando eu estava pelado no rio” — pensou, arqueando uma sobrancelha.
“Convenhamos, seria até uma cena dramática.”
A floresta ficava cada vez mais fechada, e a sombra das árvores se alongava com o cair do sol. Jimin estava exausto. As pernas doíam, a garganta secava, os olhos piscavam mais devagar. Seu corpo implorava por descanso, mas sua mente continuava em alerta. Dormir com algo o observando não parecia uma boa ideia, por mais que ele estivesse acostumado a viver perigosamente.
O que quer que estivesse o seguindo, era esperto. Jimin já tentara várias vezes surpreender a criatura. Corria em silêncio para os arbustos, se escondia, espiava. Nada. Nem um vulto, nem uma sombra. Apenas silêncio. Mas o som de passos, galhos quebrando suavemente e folhas pisoteadas retornava sempre que ele recomeçava a andar.
“Não é um animal”, concluiu. “É inteligente demais, cuidadoso demais. Me analisa.”
Começou então a analisar também as pegadas que, vez ou outra, apareciam na trilha de terra úmida. Pegadas humanas, grandes, firmes. Um homem. Mas o mais intrigante era que ele usava botas.
Botas. Não pés descalços cobertos de terra, como Jimin imaginava de um possível nativo.
Eram botas pesadas, de sola marcada.
“Então não é um nativo... ou, se for, é um nativo estiloso.”
A presença dele era constante. Não hostil, não amigável. Apenas observadora. E por isso mesmo, tão incômoda.
Jimin sorriu de canto.
“Se quer tanto me seguir, por que não aparece logo? Medo de um homem cansado, faminto e levemente irritado?”
Jimin continuou andando, agora de propósito, em linha reta e com passos mais lentos. Sabia que, se fingisse fraqueza, talvez o observador se revelasse. E caso isso acontecesse, ele estaria pronto. Ou ao menos acordado.
Jimin suspirou, os ombros afundando com o cansaço.
— Olá...? — chamou, a voz ecoando suavemente entre as árvores densas e a vegetação selvagem ao redor.
Nenhuma resposta.
“Deve falar outro idioma” — pensou.
Tentou cumprimentar em inglês, espanhol, francês, coreano, até em latim e em alguns fragmentos de línguas indígenas que lembrava de ter escutado uma vez. Mas, novamente, só o silêncio lhe respondeu.
Jimin deu de ombros.
— Tudo bem... vou falar sozinho então. Já tô ficando acostumado — murmurou.
Olhou em volta, em tom de conversa casual continuou falando.
— Eu sei que você está aí. Não precisa se esconder. Eu não sou uma má pessoa. Pelo menos não aqui, né — disse com um sorrisinho debochado.
Pôs as mãos na cintura, encenando um monólogo.
— Tá a fim de conversar? Trocar uma ideia? Me contar onde você mora? Quem sabe me oferecer um lanchinho? Tô morrendo de fome.
Nenhum som. Nem um galho quebrando. Nem um farfalhar de folhas.
“Quem eu tô querendo enganar? Tô falando sozinho. Esse nativo safado me espiou pelado no rio e nem teve a decência de me dar uma banana, no caso, a fruta.”
— Você não vai falar comigo mesmo?
O silêncio respondeu mais alto que qualquer grito.
Cansado, Jimin se deixou cair no chão. Sentou-se encostado no tronco de uma árvore grossa, os pés latejando de dor. Deixou a cabeça cair para trás, encarando as folhas que se misturavam no céu lá no alto. Sabia que estava sendo observado. Aquilo ainda o inquietava, mas a exaustão começava a vencer o medo.
Os olhos pesavam. Lutava para mantê-los abertos. Percebia o tempo todo a presença à espreita, invisível entre as sombras da floresta. Talvez esperando. Talvez apenas curiosa.
Mas Jimin não aguentou. Aos poucos, como se a floresta o embalasse em silêncio, ele adormeceu.
…
Ainda com os olhos fechados, Jimin sentiu um cheiro doce pairando no ar. Aroma de frutas frescas, maduras, recém-colhidas. Seu estômago roncou antes mesmo de ele abrir os olhos.
Piscou devagar, acostumando-se com a claridade que atravessava as copas das árvores. Quando se lembrou de onde estava, sentou-se num sobressalto, os olhos varrendo a floresta ao redor.
A mata continuava silenciosa, viva e estranhamente acolhedora.
Um esquilo o observava a poucos passos de distância, com um amendoim entre as patinhas. Jimin o encarou, surpreso. O bichinho também se assustou com o movimento repentino e correu para dentro da mata, sumindo como um raio entre os galhos.
Jimin bocejou, se espreguiçando. Foi então que notou algo incomum ao seu lado e se sobressaltou.
Ali, dispostas com um cuidado quase ritualístico, havia frutas. Muitas frutas. Maçãs vermelhas, uvas, mangas, laranjas suculentas, kiwis cortados ao meio, pedaços de melancia... Era quase uma pintura tropical servida num banquete silencioso.
Seu olhar correu ao redor, tentando captar algum movimento entre as árvores.
— Olá...? — chamou, hesitante. — Foi você que deixou isso aqui pra mim? Se foi, muito obrigado! Eu estava mesmo morrendo de fome.
Esperou alguns segundos.
— Você não quer comer comigo? — tentou mais uma vez, com um sorriso. — É meio chato fazer piquenique sozinho.
Nenhuma resposta. Só o som dos pássaros e o vento brincando com as folhas.
Jimin suspirou. Pegou uma uva e a levou à boca, fechando os olhos brevemente com o gosto doce.
— E então, Senhor Nativo Bonzinho… quantos anos você tem? Mora aqui há muito tempo? Fala meu idioma? — sorriu, olhando ao redor — Qual o seu nome? Eu adoraria saber o nome do meu provedor de frutas.
Sem resposta.
Imaginou que o tal nativo — ou seja lá quem fosse — já tivesse ido embora, ou estava apenas assistindo de longe, como sempre. De qualquer forma, não podia desperdiçar aquele banquete.
Com o estômago finalmente sendo atendido, Jimin fez seu desjejum em paz, ainda falando sozinho de vez em quando, como se fosse um participante do reality show Largados e Pelados.
As frutas estavam deliciosas, suculentas, com um sabor tão fresco que Jimin teve certeza de que tinham sido colhidas pouco antes de ele acordar. Agora de barriga cheia, bem alimentado e hidratado, sentia-se revigorado, pronto para continuar sua missão, que era explorar aquela ilha misteriosa e descobrir, de uma vez por todas, onde estava e com quem estava lidando.
Levantou-se, alongou os braços e girou os ombros, espreguiçando-se como um gato preguiçoso. O sol ainda estava alto, o dia era longo e a floresta tinha muito a revelar.
Enquanto caminhava por entre árvores tropicais e arbustos espessos, Jimin tagarelava. Falava sozinho, mas não exatamente. Falava com ele, o Nativo. Mesmo sem vê-lo, mesmo sem ter certeza se estava ouvindo, Jimin narrava sua vida como se estivesse escrevendo uma carta falada para um amigo.
Contou sobre o pai, que já não estava mais ali, mas que ainda vivia em suas memórias e em algumas das músicas mais absurdas que aprendera na infância. Falou dos tempos de faculdade, das noites mal dormidas, dos roubos mais engraçados que já cometeu, os não tão engraçados ele preferiu omitir, por ora. Gostava de imaginar que alguém o escutava. E, de fato, não estava sozinho.
Começou a cantarolar uma daquelas músicas bobas e esquecidas no tempo. Uma que seu pai cantava enquanto cozinhava.
— As ilhas do sul são quentinhas… Paina puru puru… suas cabeças ficam quentes e são todos uns idiotas...
Cantava pulando entre as pedras, fazendo dancinhas improvisadas, como se estivesse em um musical.
— As ilhas do norte são frias… Hyakoi koi koi… suas cabeças ficam arrepiadas e são todos idiotas...
Saltou, girou, fez pose. Foi então que ouviu uma risada. Baixa. Contida. Engraçada.
Parou no mesmo instante, os olhos varrendo os arbustos com atenção aguçada.
Silêncio.
Mas ele tinha ouvido. Era real. Não era o vento, nem sua imaginação.
— Você tá aí, né, Senhor Nativo Bonzinho? — Jimin falou em voz alta, sorrindo — Gostou da minha música? Da minha dancinha? Se você aparecer, posso te ensinar.
Silêncio de novo, mas a tensão no ar era diferente. Leve. Como um jogo entre dois estranhos que ainda não se viram, mas já sabem que estão brincando de esconde-esconde.
Pela risada, Jimin arriscava um palpite: era um homem jovem. E mesmo sem entender suas palavras, ou talvez entendendo até bem demais, ele parecia se divertir com Jimin.
E isso, no meio daquela floresta inexplorada, era um ótimo sinal.
— Obrigado pelas frutas — disse Jimin, olhando para a copa das árvores, como se pudesse enxergar o dono do banquete invisível entre as folhagens — Sei que foi você quem deixou. Estavam deliciosas. Da próxima vez, me traz um whisky também, ok?
Riu sozinho da própria piada. No fundo, não era tão brincadeira assim. Um gole de álcool cairia bem. Mesmo que fosse dividido com um nativo misterioso no meio de uma ilha que nem devia existir.
Como de costume, silêncio.
O “Senhor Nativo Bonzinho” não respondeu, mas Jimin sabia que ele estava por ali. Sempre estava. Sentia seus olhos escondidos atrás dos arbustos, entre os galhos, acima das árvores. E por mais que estivesse sozinho, se sentia constantemente acompanhado.
Seguiu caminhando com a mesma leveza de sempre, cantarolando baixinho enquanto afastava folhas com as mãos.
Até que parou abruptamente.
— O que é isso?
Ali, entre as árvores, um pilar. Um enorme pilar de concreto, coberto por raízes grossas, trepadeiras entrelaçadas e camadas de folhas secas. Contrastava com a natureza ao redor, era claramente obra humana.
O coração de Jimin bateu mais rápido.
Correu até o pilar, afastando as plantas com as mãos ansiosas, revelando a superfície manchada, mas ainda firme, marcada por inscrições que pareciam gravadas. Passou os dedos pelo relevo das letras como quem toca um segredo antigo.
— Tem inscrições aqui… — murmurou, ofegante, com os olhos brilhando — Isso não é daqui.
Limpou o máximo que conseguiu com as mãos nuas, ofegando de excitação.
— Que idioma é esse? — murmurou, examinando os símbolos com cuidado — Seriam... símbolos maias?
Inclinou a cabeça, franzindo o cenho.
— Não. Não são. Também não parecem sumérios… nem nada que eu já tenha visto.
Os traços não eram familiares, mas havia uma estranha harmonia nos símbolos. Como se, de alguma forma, estivessem tentando falar com ele.
— Senhor Nativo Bonzinho, alguma dica? Isso é do seu povo? Ou… você também não entende isso?
Nada além do farfalhar das folhas ao vento.
Jimin suspirou e voltou os olhos para o pilar. Entre as inscrições, um símbolo em particular chamou sua atenção. Era diferente dos outros. Havia algo... familiar. Um espiral com linhas cruzadas que pareciam vibrar em sua memória como um eco distante.
Sem pensar, Jimin tocou o símbolo com a ponta dos dedos.
No instante em que o fez, uma onda de lembrança invadiu sua mente como uma maré. Jimin recuou, trêmulo, o coração disparado.
— O que foi isso...? Eu… eu já vi esse símbolo antes.
Jimin congelou diante do símbolo. Seus dedos ainda estavam pousados sobre o relevo da pedra quando a memória o atingiu como uma maré repentina, arrastando-o para um passado distante.
Tinha doze anos.
Era uma tarde nublada e, como de costume, ele vasculhava as coisas do pai em busca de aventuras escondidas em cadernos, mapas e gavetas esquecidas. Entre as pilhas de livros e anotações, encontrou o velho diário de viagem do Senhor Park. O diário tinha a capa de ouro gasto, folhas amareladas e rabiscos enigmáticos por todo lado.
Curioso como sempre, folheou o diário sem entender quase nada, até que uma figura desenhada em tinta preta lhe chamou a atenção. Era aquele símbolo. O mesmo símbolo cravado no pilar diante dele agora, anos depois, no meio de uma floresta desconhecida.
Lembrou-se nitidamente da conversa.
— Papai, o que significa isso? — perguntou, pequeno, com o dedo apontado para o desenho.
O Senhor Park suspirou com leveza, embora seu olhar tivesse endurecido por um instante.
— Jimin, quantas vezes eu tenho que te pedir pra não mexer nas minhas coisas?
— Desculpa, papai… foi sem querer. O diário caiu sozinho no chão e abriu nessa página. Eu fiquei curioso.
Seu pai o observou por alguns segundos e, então, sorriu. Sabia que Jimin era como ele. Inquieto. Observador. Tinha fome de mistérios.
— De todos os símbolos que desenhei aí, por que esse chamou a sua atenção?
Jimin inclinou a cabeça, analisando a figura com o olhar inocente.
— Porque ele é bonito, parece dois passarinhos se beijando.
O Senhor Park soltou uma risada baixa e sincera.
— Realmente parece. Esse símbolo significa “Alma Gêmea”.
— Alma gêmea? Tipo namorados?
— Muito mais que isso.
— Mais? Tipo casados?
— Quase. “Alma gêmea” é a sua metade. Nem sempre é sobre romance. É alguém que compartilhou o mesmo corpo que você em outra vida. É o amor mais puro e verdadeiro que existe.
Jimin sorriu encantado.
— Eu quero encontrar a minha alma gêmea também! O senhor já encontrou a sua?
O pai sorriu de volta, mas havia algo diferente naquele sorriso. Um traço de saudade e de dor.
— Encontrei.
— E onde ela está?
Ele apontou para o peito, onde o coração batia.
— Está guardada aqui.
Na época, Jimin imaginou que ele estivesse falando da mãe.
Nada daquilo fazia sentido, mas, ao mesmo tempo, tudo começava a se encaixar.
Olhando para aquele mesmo símbolo anos depois em uma ilha misteriosa, Jimin tentava entender como seu pai sabia sobre aqueles símbolos que aparentemente só existiam ali.
— Será que… meu pai esteve aqui?
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