A Ilha
14 Anjo da Guarda

A caminhada de Jimin seguia floresta adentro, seus passos firmes sobre a vegetação densa e úmida. Explorava cada canto com olhos atentos, tentando decifrar os segredos que aquela ilha escondia. Procurava por mais pilares como o que encontrara, estruturas que pudessem revelar mais fragmentos daquele enigma. Mas não encontrou nenhum outro em seu caminho. Ainda assim, não pensava em desistir tão cedo.
A possibilidade de seu pai ter estado ali reacendia uma chama dentro dele. Era como se, de repente, tudo começasse a fazer sentido, principalmente os dois anos misteriosos em que o Senhor Park desaparecera sem deixar rastros.
Quando voltou, estava bronzeado, mais magro e com o olhar perdido em memórias que nunca contou. Disse apenas que estivera em uma longa expedição pelo mundo. Nunca disse aonde, nunca explicou o porquê. E ninguém ousou perguntar.
Agora, Jimin começava a acreditar que seu pai passou todo aquele tempo ali, naquela ilha esquecida por mapas e pelo tempo.
O único vestígio concreto daquela história era o velho diário que ele deixou para trás, um caderno cheio de anotações desconexas, desenhos, símbolos estranhos e frases que, à primeira vista, pareciam delírios de um homem bêbado após algumas doses de whisky. Jimin o leu e releu inúmeras vezes, tentando entender. E só agora, diante daquela realidade viva e concreta, começava a perceber que talvez não fosse delírio algum.
Se Jimin estivesse certo, se aquela fosse mesmo a ilha descrita nas páginas enigmáticas do diário de seu pai, então eles estavam em sérios apuros.
As anotações eram escassas, vagas demais, como se alguém tivesse feito questão de esconder as verdades mais perigosas entre as linhas, mas Jimin sabia um pouco, tinha suas teorias.
O que seu pai registrou dizia pouco sobre a ilha, e absolutamente nada sobre os nativos. Haviam alguns enigmas e na maioria das páginas observações sobre a fauna e flora, belas, exóticas e letais em alguns pontos.
Jimin começou a suspeitar que o silêncio sobre os habitantes não era um esquecimento e sim uma escolha. Talvez seu pai quisesse proteger alguém.
Mas agora era a vez de Jimin. Ele estava ali. E iria descobrir tudo.
Foi então que um barulho cortou o silêncio, passos rápidos, algo se movendo entre os arbustos.
Jimin congelou por um segundo, os sentidos aguçados. Seu coração disparou. Não era medo, era adrenalina. Era ele, o Nativo.
— Não dessa vez — murmurou para si mesmo.
E sem hesitar, correu.
Mergulhou floresta adentro, desviando de galhos baixos e se embrenhando por entre cipós e vegetação densa. Seu corpo se arranhava com folhas cortantes e espinhos finos, mas ele nem sentia.
Corria como se a própria verdade estivesse prestes a escapar. Até que… parou de súbito. Ali, à sua frente, finalmente encontrou a razão daquele barulho.
Jimin parou bruscamente. Seu coração acelerado. Parado na sua frente, havia um leão grande e assustador.
O animal o encarava com olhos selvagens e famintos, o corpo tenso, pronto para o bote. Jimin recuou um passo instintivamente, e o leão avançou na mesma medida. Era como um jogo mudo, mortal. Um único erro, e seria o fim.
O tempo parecia se arrastar, cada segundo se esticando como um fio prestes a se romper. Jimin sentiu o suor frio escorrer por sua nuca. Precisava fugir.
Num impulso, girou nos calcanhares e disparou mata adentro. Correu com toda a força que seu corpo permitia, o coração martelando no peito, o som dos rosnados do leão cortando o ar atrás de si.
Era uma corrida pela vida.
Galhos arranhavam sua pele, o chão irregular ameaçava sua velocidade, até que seu pé enganchou-se numa raiz escondida e ele caiu.
O impacto foi brutal. O ar saiu de seus pulmões. Desnorteado, ficou deitado de olhos fechados, esperando o fim. Mas o fim não veio. Nada aconteceu.
O silêncio agora era ensurdecedor. Nenhum rugido. Nenhuma pata pesada esmagando folhas. Nenhuma dor. Jimin abriu os olhos lentamente, o corpo ainda em alerta. Olhou em volta. O leão havia sumido, como se nunca tivesse estado ali. A floresta estava novamente silenciosa. Assustadoramente silenciosa.
Jimin se levantou, o corpo ainda trêmulo, e caminhou com cautela, esgueirando-se por entre as folhas e os arbustos. Avançou devagar, como se o menor som pudesse despertar algo adormecido.
Então parou, boquiaberto. Ali estava o leão. Morto.
O enorme corpo jazia estirado no chão, o sangue formando uma poça sob os pelos dourados. Jimin se aproximou, agachando-se lentamente. Encostou dois dedos no pescoço do animal, apenas para confirmar o que já sabia. Nenhum sinal vital.
Mas o que realmente o assustou foi o corte — limpo, preciso, profundo — bem na jugular. Aquilo não tinha sido feito por um animal, foi alguém com técnica. Alguém acostumado a matar.
— Um caçador? — Jimin sussurrou para si. — Ou seria ele? Meu misterioso amigo nativo? Ou… algo pior?
Jimin olhou ao redor, os olhos buscando por qualquer movimento, qualquer sinal. O silêncio era absoluto. A mata, mais uma vez, escondia seus segredos.
— Foi você? — Jimin falou alto, encarando o nada — Você matou o leão… por mim?
Deu um passo, observando a mata densa, como se pudesse forçá-lo a sair com o olhar.
— Por que está me ajudando? Por que não fala comigo?
Seu tom era uma mistura de frustração e cansaço.
— É assim que vai ser? Um jogo de esconde-esconde? Eu não tenho mais fôlego pra isso.
A verdade era que Jimin estava exausto. Depois da corrida, do susto, do alívio repentino, seu corpo pedia descanso. Mas sua mente já começava a bolar um plano. Ele precisava descobrir quem era o seu misterioso amigo nativo. E se não aparecia por vontade própria, talvez fosse hora de obrigá-lo a sair das sombras.
…
Jimin despertou com um cheiro diferente no ar. Era forte, denso, inconfundível: fumaça defumada. Mas não era qualquer fumaça, tinha cheiro de carne assando. Seu estômago roncou alto.
— Churrasco? — murmurou, franzindo o cenho.
Aquilo, numa ilha misteriosa, não parecia um bom sinal. E mesmo assim era irresistível. Levantou-se num pulo. A fumaça dançava no céu claro, subindo por entre os arbustos baixos. O cheiro era convidativo, provocante, quase cruel para alguém que não comia carne há dias.
Jimin seguiu o rastro com passos rápidos, mas cautelosos, afastando galhos com as mãos e tentando não fazer barulho. A vegetação logo deu lugar a uma clareira escondida. E ali, no centro, pendurado de cabeça para baixo numa vara de madeira, estava o leão. Ou o que restava dele.
Sem pele, com as patas amarradas, o corpo do animal assava lentamente sobre um fogo improvisado. A gordura caía nas chamas, estalando, liberando um aroma tão delicioso quanto grotesco. A imagem era crua, brutal, mas Jimin só conseguia pensar em como aquilo cheirava bem. Uma semana sem proteína deixara seu corpo fraco, os músculos flácidos e a mente nebulosa. Já havia perdido peso. A fome gritava.
"Foi você, né… Senhor Nativo Bonzinho?" — pensou, com os olhos fixos no banquete macabro.
Ele não sabia quem tinha preparado aquilo, nem se era seguro. Mas naquele momento, com o estômago colado às costas e os joelhos bambos, fazer perguntas estava fora de cogitação.
Jimin se aproximou, hipnotizado pelo cheiro, o olhar dividido entre a carne e a floresta ao redor.
— Se foi você… obrigado. Mas se foi alguém com más intenções… por favor, só me deixe comer antes de me matar.
A barriga dele roncou mais uma vez.
No chão, ao lado das frutas, algo cintilou sob a luz do fogo: uma garrafa de vidro.
Jimin se aproximou, pegou-a nas mãos e a examinou. Não tinha rótulo, mas estava cheia de um líquido escuro e dourado.
Destampou com cuidado e levou até o nariz. O aroma era inconfundível, whisky. Mas não um comum. Deu um gole pequeno.
— Uau… — murmurou, sentindo a garganta aquecer. Era forte, artesanal, feito com mãos experientes e ingredientes que ele não saberia identificar. Um whisky caseiro, exótico, talvez até ancestral.
Olhou em direção à mata cerrada.
— Eu sei que você não vai responder… — disse, com a voz embargada de uma gratidão solitária — Mas obrigado pela carne assada e pela bebida. Prometo fazer bom proveito.
Sorriu de canto.
— Só preferia que você jantasse comigo, sabe? Comeria mais tranquilo com um amigo por perto.
Nenhuma resposta, como sempre. Mas o silêncio já fazia parte da companhia.
Ao lado da garrafa, havia algo dobrado cuidadosamente. Um tecido. Jimin pegou e o abriu. Era um manto. Feito de algodão macio e quente, com um tom terroso entre marrom e verde escuro. Cheirava a lavanda.
Passou os dedos pelas costuras, pela textura simples, porém firme. Era feito à mão. Cada ponto carregava tempo, dedicação e cuidado. Na barra, reconheceu alguns símbolos bordados com linha escura, os mesmos do pilar de concreto que encontrara mais cedo.
Aquele não era apenas um presente para espantar o frio. Era uma mensagem.
“Você é bem-vindo aqui.”
Jimin segurou o tecido contra o peito por alguns segundos, sentindo uma onda suave de emoção.
— Quem é você? — sussurrou para a floresta.
O fogo estalava ao fundo, como se risse baixinho do mistério.
Jimin estava determinado. Cada gesto deixado por aquele anfitrião invisível o instigava mais. Ele precisava conhecer esse povo. E principalmente, precisava conhecer ele. O Nativo Bonzinho.
Jimin sorriu, começava a se acostumar, e até gostar da presença invisível de seu misterioso anjo da guarda.
Fez uma refeição farta com a carne assada e frutas frescas, saboreando cada gole do whisky encorpado que lhe aquecia o peito e os pensamentos. Se pudesse, teria virado a garrafa inteira, mas sabia que precisava manter os sentidos alertas. Ainda estava em uma ilha desconhecida, e qualquer deslize poderia ser fatal.
Depois, deitou-se sobre a grama, envolto pelo manto perfumado de lavanda, observando o céu estrelado. Murmurava comentários soltos sobre séries de TV, como se o amigo nativo estivesse ali ao lado, rindo junto com ele.
A noite começava a esfriar, e Jimin se levantou devagar. Precisava encontrar um abrigo. Algo fechado e seguro. Uma caverna, talvez.
Jogou o manto sobre os ombros, pegou a garrafa de whisky quase cheia e seguiu sob a luz prateada da lua, que filtrava entre os galhos como pequenos fios de esperança.
Para sua sorte — ou azar — não demorou a encontrar uma entrada rochosa escondida entre samambaias e musgos. Um buraco escuro na encosta da montanha.
Sem hesitar, Jimin entrou. Medo não era uma palavra que estava no seu dicionário.
A caverna era pequena, do tamanho de um cômodo comum. Estava silenciosa, o ar levemente úmido, iluminada apenas pelo luar que escorria pelas fendas da pedra.
Deu dois passos e parou. Os olhos se ajustaram à penumbra. E então ele viu.
O chão estava coberto por ossos. Crânios humanos o encaravam em silêncio. Havia mais de um. Muito mais. Maxilares partidos, costelas espalhadas, pedaços de espinha retorcida. Jimin recuou um passo. O coração acelerou.
Aquele lugar não era um abrigo. Era um cemitério. Ou pior, uma sala de jantar.
E se o leão não fosse o único predador da ilha?
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