A Ilha
15 Desaparecidos

Jimin caiu para trás, sentado no chão, tamanho foi o choque. Pela primeira vez desde que pisara naquela ilha, sentiu um medo real. Genuíno. Mas sua curiosidade, como sempre, era mais forte.
Enquanto recuperava o fôlego, puxando e soltando o ar em intervalos irregulares, tentava organizar os pensamentos que se atropelavam em sua mente.
"Será que são canibais? É por isso que ele está me alimentando… me engordando para o abate?"
A simples ideia fez seu estômago se revirar. Engoliu em seco. Ainda assim, se levantou. Não havia tempo para pânico. Tinha que analisar e entender. Como bom arqueólogo, sabia que ossos sempre contavam histórias, mesmo que em silêncio.
Ajoelhou-se e começou a examinar os restos mortais com cuidado. Eram ossos secos, limpos, sem qualquer sinal de decomposição recente. Passou os dedos por uma clavícula amarelada, observando as marcas do tempo.
"Dois anos, talvez um pouco mais," — estimou mentalmente.
Nenhum osso estava quebrado. Nenhuma fratura de defesa. Nenhum trauma visível. Aquelas pessoas não haviam lutado pela vida.
"Morreu em silêncio. De que forma?"
A pergunta ecoou dentro dele como um sussurro desconfortável. E, pior, sem resposta.
Jimin examinava atentamente cada esqueleto espalhado pelo chão da caverna. Percebia diferenças sutis entre eles, o estado de decomposição, a coloração dos ossos, o desgaste natural. Não podia datá-los com precisão sem seus equipamentos, mas sabia o suficiente para ter certeza de uma coisa: aquilo não era acaso. Era um cemitério. Um lugar de descarte. E ele definitivamente não queria ser o próximo. Engoliu em seco, os olhos vasculhando cada canto escuro da caverna.
"E se for ele? Meu amigo nativo? Meu anjo da guarda que me dá frutas e whisky… e depois vai me assar no espeto como prato principal?"
A ideia o fez franzir a testa, sentiu-se incomodado. Não que fosse absurda. Muitos povos antigos tinham rituais de canibalismo. Era raro, mas existia.
"Talvez ele esteja me alimentando, me protegendo… como quem engorda um gado. Esperando a hora certa para o banquete."
Jimin sentiu um arrepio subir pelas costas. Precisava descobrir logo quem era aquela criatura silenciosa. Precisava de uma conversa. Uma troca real. Nem que fosse pra convencê-lo a não devorá-lo.
"Se for pra ser comido, que pelo menos seja depois do café da manhã”.
Mas no fundo, algo nele duvidava que fosse isso. O cuidado, o manto bordado, o whisky. Parecia zelo, preocupação. Ou talvez até afeto.
De um jeito ou de outro, Jimin sabia que estava na hora de descobrir quem era o nativo por trás da sombra.
…
Namjoon estava sentado em silêncio, observando Jin a poucos metros dali. O marido cuidava de um dos sobreviventes com aquele sorriso gentil que ele conhecia tão bem, e que, de alguma forma, havia esquecido ao longo dos anos.
Um sorriso bonito, genuíno, que parecia iluminar até mesmo aquele lugar perdido no meio do nada.
Namjoon se flagrou sorrindo também. Sentiu um frio na barriga, conhecido mas há muito tempo adormecido. Era o mesmo friozinho que sentia quando começaram a namorar, mais de uma década atrás.
— Meu Deus… eu estou apaixonado pelo meu próprio marido — murmurou com um sorriso bobo, balançando a cabeça em incredulidade. — Como eu pude ser tão idiota esses anos todos?
Se ao menos pudesse voltar no tempo faria tudo diferente. Passaria mais tempo ao lado daquele homem incrível, escutaria mais suas histórias, riria mais de suas piadas ruins.
Suspirou, melancólico. Mas logo seu coração se aqueceu novamente ao ver Jin soltando uma gargalhada alta. Provavelmente contando uma de suas piadas, e o paciente, coitado, tentava rir por educação.
Namjoon não conseguiu evitar de rir também. E naquele instante, sentiu com toda a certeza do mundo que ainda havia tempo. E ele faria valer cada segundo ao lado de Jin.
…
Todos se ajeitaram para dormir. Taehyung, como sempre, ficou junto de Yoongi, embora ele insistisse em dizer que não era "junto", era apenas "perto". Precisava descansar para mais um dia vasculhando a floresta atrás do fugitivo Park Jimin.
Mal tinha ajeitado a “cama” improvisada feita de folhas de bananeira e Yoongi já estava entregue ao décimo sono, respirando fundo, tranquilo como uma criança. Taehyung ficou olhando. Yoongi era bonito, muito bonito. Tinha um rosto calmo, traços suaves mesmo depois de um dia cansativo. E era difícil não reparar.
“Homens acham outros homens bonitos. Isso é normal. Isso não me faz gay.” — tentou se convencer.
Mas então olhou para a boca de Yoongi. Sentiu um frio estranho no estômago, como se o mundo tivesse despencado. Queria beijar Yoongi novamente.
“Achar bonito, ok. Mas querer beijar? Isso já não é normal.”
Taehyung desviou o olhar, irritado consigo mesmo. Sentia-se sufocado ali, tão perto dele, com aquele desejo que insistia em voltar. O desejo que ele jurava que não existia. Se odiava por sentir aquilo. Se odiava por não conseguir controlar.
Sem pensar muito, levantou-se de súbito, foi até outro canto da clareira e se jogou no chão com raiva. Se enrolou no cobertor improvisado e virou de costas. Quanto mais longe de Yoongi, melhor. Talvez assim conseguisse dormir, ou pelo menos, não se odiar tanto.
…
Todos dormiam tranquilamente, embalados pelo som suave das ondas quebrando na praia. A luz da lua banhava o acampamento improvisado com um brilho prateado, e o clima fresco tornava a noite quase aconchegante.
Um barulho estranho despertou Jin. Ainda meio atordoado, abriu os olhos e olhou ao redor. Tudo parecia calmo, todos dormiam. Ou era o que ele achava. Uma movimentação sutil nos arbustos, à margem do acampamento, fez Jin se endireitar de repente. Talvez fosse apenas um animal, mas algo estava errado. Muito errado.
Quando seus olhos pousaram sobre a cabana onde descansavam os doentes e feridos, um frio cortante percorreu sua espinha. O lugar estava vazio.
Jin correu até lá, o coração disparado, sentindo o pânico crescer a cada passo. O leito dos debilitados estava completamente vazio. Todos tinham sumido.
“Isso é impossível…” — pensou, em desespero.
Alguns pacientes estavam em coma, outros com fraturas graves, era impossível que simplesmente tivessem levantado e saído por conta própria.
O terror tomou conta de Jin. Seu peito apertou, o ar faltou, as mãos tremiam. Sentia-se prestes a desabar, mas não podia. Precisava pensar. Respirou fundo e analisou o chão, havia marcas de arrasto na areia. A terra estava revirada, mas não havia sinais de luta. Nenhum grito, nenhum barulho, nenhum pedido de socorro. Eles tinham sido levados de forma passiva. Como se não tivessem resistido. Como se estivessem dormindo.
Jin tentou entender. Aquilo não era obra de animais selvagens. Não podia ser. Era preciso inteligência para mover corpos daquela forma sem deixar rastros evidentes. Aquilo era coisa de humanos. Ou de algo parecido com humanos.
Seu corpo estremeceu. Uma vontade súbita de chorar tomou conta dele, mas engoliu o choro com força. Ainda havia esperança. Talvez seus pacientes estivessem vivos. Talvez ainda desse tempo de salvá-los.
E mesmo com o medo latejando no peito, Jin sabia: ele não ia descansar até descobrir o que — ou quem — tinha levado seus pacientes.
Jin se levantou cambaleando, os olhos marejados e a respiração descompassada. Cada passo era pesado, como se carregasse o mundo nas costas. Caminhou até Namjoon e o sacudiu levemente, até vê-lo despertar.
— Jin? — Namjoon abriu os olhos, confuso, ao vê-lo com o rosto pálido e os lábios trêmulos. — O que aconteceu? Está tudo bem?
— Não… não está nada bem — a voz de Jin saiu baixa, quase sem ar. Ele tremia, com o olhar perdido, como se não estivesse mais ali.
Namjoon se levantou de imediato, o sono sumindo como vapor. Segurou as mãos frias de Jin, tentando acalmá-lo.
— Me diz o que houve.
— Levaram eles — murmurou Jin.
— Quem? Quem levaram?
— Os pacientes… os feridos que eu estava cuidando… levaram todos eles — sua voz quebrou no final, engasgada pela emoção.
Namjoon arregalou os olhos.
— Quem levou?
— Eu não sei. Alguém... ou alguma coisa. Entrou no acampamento, passou por todos nós… e os arrastou pra floresta. E ninguém ouviu nada.
O silêncio que seguiu foi tão denso quanto a escuridão ao redor. Namjoon olhou para a mata fechada, sentindo a inquietação crescer no peito.
— Vamos encontrá-los — disse, com firmeza, mesmo que sua própria voz tremesse. Colocou as mãos no rosto de Jin, o polegar acariciando sua bochecha. — Eu prometo. Mas agora você precisa respirar.
O calor das mãos de Namjoon trouxe Jin de volta à realidade. O desespero diminuiu, substituído por uma ponta de esperança.
— E se não encontrarmos?
Namjoon não tinha resposta. Estava tão assustado quanto ele, mas não podia deixar Jin desmoronar. Então, sem pensar duas vezes, puxou-o para um abraço apertado. Jin se agarrou a ele com força, como se tivesse encontrado um porto seguro em meio à tormenta.
Namjoon afundou o rosto nos cabelos do marido, fazendo carinho devagar, como fazia antigamente. Fazia tanto tempo desde o último abraço. Tempo demais.
Resolveram acordar Taehyung, Yoongi e Mingi, para fazer uma reunião de emergência sobre o assunto. Tentava na medida do possível manter a calma para não gerar uma enorme confusão no grupo.
Yoongi ainda estava sonolento quando se juntou aos outros ao redor da fogueira. Estavam mais afastados dos demais sobreviventes pois precisavam ter aquela conversa apenas entre eles.
Jin ainda tremia muito, tentava se manter calmo, mas a ideia do que poderia estar acontecendo com os passageiros lhe assustava. Namjoon segurou sua mão.
— Não tem como eles terem entrado no nosso acampamento e nós nem termos notado — Taehyung estava angustiado com aquilo. Tinha um sono leve e teria acordado ao menor sinal de invasão.
— Dei uma olhada no local — Disse Mingi olhando para fogueira — Pelo que pude perceber não houve resistência, não houve luta e levando em consideração que eles estavam debilitados, suponho que foram nocauteados antes mesmo de acordarem.
— Animais furtivos? — Yoongi perguntou, agora mais acordado do que nunca.
— Não são animais, são seres racionais… são humanos — Jin refletiu — Eles levaram apenas os enfermos e debilitados, não mexeram nos que estavam saudáveis.
— Como caçadores? — Yoongi interrompeu, assustado.
— Sim, Yoongi. Como caçadores… e acho que nós somos a caça.
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