A Ilha

16 Inconveniente



Yoongi ainda estava em choque com a possibilidade de estarem sendo caçados pelos supostos nativos da ilha. A ideia de que poderiam ser canibais o deixava inquieto, por mais absurda que parecesse. Nada ali seguia a lógica comum.

Jin, como líder do grupo, sabia que precisava manter a calma. Não queria gerar pânico, mas também não podia esconder os fatos. Reuniu todos para uma conversa séria. Dos duzentos passageiros do voo, apenas metade sobreviveu à queda. Na noite anterior, os dez sobreviventes mais debilitados haviam desaparecido misteriosamente, levados sem deixar rastros, sem barulho, como se tivessem sumido no ar. E Jimin continuava desaparecido, sem sinal de vida.

Jin explicou que, apesar do cenário assustador, precisavam manter a racionalidade. Jimin era inteligente, estrategista. Provavelmente havia deixado pistas falsas de propósito para despistar Taehyung, que estava determinado a encontrá-lo. Ainda assim, a possibilidade de Jimin estar ferido ou em perigo deixava Taehyung em constante angústia.

— Se eles forem mesmo canibais... — Yoongi murmurou, mais para si do que para os outros.

— Então precisamos ser mais espertos que eles — Jin respondeu com firmeza. — Estamos vivos, e vamos continuar assim. Mas precisamos nos organizar melhor. Não podemos perder mais ninguém.

Os sobreviventes estavam em choque. O horror daquela noite deixou uma cicatriz coletiva e, a partir daquele momento, ninguém mais se atreveria a se afastar sozinho. Cada passo na mata ou na praia agora exigia cautela redobrada.

Segundo as observações de Mingi, tudo apontava para a existência de nativos. Um povo antigo, isolado, e muito provavelmente canibal. A ideia pairava como uma sombra sobre o grupo, silenciosa e ameaçadora.

Mas o que mais inquietava Mingi era a ausência de rastros. Nenhum corpo, nenhum osso, nenhuma gota de sangue. Os doentes simplesmente desapareceram. Como se tivessem evaporado da noite para o dia.

“Se fossem apenas animais selvagens, haveria vestígios”, ele pensou. “Mas isso... isso foi limpo demais.”

A hipótese de que os desaparecidos ainda estivessem vivos era, ao mesmo tempo, esperançosa e aterradora. Precisavam vasculhar os arredores, buscar qualquer pista. E mais do que isso, encontrar um local seguro. A praia era bonita, mas os deixava vulneráveis demais, como presas expostas ao predador.

Era hora de se mover, antes que mais alguém sumisse.

Jin aprovou a ideia e rapidamente organizou os grupos de busca.

Taehyung, Yoongi e Adam formaram o primeiro grupo, designado para explorar o lado sul da floresta. Adam, é claro, quis ir com Hoseok, mas Jin recusou sem pestanejar. O segundo grupo, composto por Hoseok, Mingi e mais dois homens, seguiu rumo ao norte. Já Jin e Namjoon permaneceram no acampamento, responsáveis por garantir a segurança dos que ficaram para trás.

Assim que tudo foi preparado, os grupos partiram, cada um rumo ao setor designado da floresta, atentos e armados com o pouco que tinham.

Desde o dia da queda do avião, Adam sequer se esforçava mais para manter uma fachada. Longe de seu ambiente social habitual, ele não fingia simpatia, nem usava o verniz de gentileza que costumava exibir. Ali, na selva, ele era apenas ele, ríspido e egoísta.

Esse Adam, o verdadeiro, só Hoseok conhecia antes. Agora, todos viam. E ninguém o suportava. Só era tolerado porque Jin, sempre justo, o tratava como a qualquer outro sobrevivente, dividia a comida igualmente, exigia que ele contribuísse com as tarefas mas, acima de tudo, impunha uma regra clara, manter distância de Hoseok.

Mas Jin sabia que, mais cedo ou mais tarde, aquilo explodiria.

…

Taehyung revirava os olhos a cada nova reclamação de Adam. Sua paciência com aquele homem já tinha se esgotado há muito tempo.

Durante uma breve pausa sob a sombra generosa de uma árvore, o grupo aproveitou para descansar um pouco. O clima estava abafado, e o silêncio da floresta só era quebrado pelos sons de insetos e do vento entre as folhas.

— Então… há quanto tempo você é policial? — perguntou Adam, dirigindo-se a Yoongi com um sorriso simpático, e claro, falso. Era a primeira vez que exibia aquele sorriso forçado desde que pisaram na ilha.

— Já tem alguns anos — respondeu Yoongi, tentando manter a educação, mas claramente desconfortável.

Sem aviso, Adam estendeu a mão e segurou a de Yoongi, encarando-o com um sorriso malicioso.

— Você parece tão frágil... tão delicado. Esse trabalho não é perigoso demais pra alguém como você?

Antes que Yoongi pudesse reagir, Taehyung já havia se colocado entre os dois, empurrando o braço de Adam com força e puxando Yoongi para trás de si.

— Se você tocar nele de novo, eu arranco sua mão fora — rosnou, com a voz baixa e ameaçadora. Seus olhos faiscavam de raiva. Não era só ciúmes, era proteção. Ele conhecia bem demais o tipo de interesse que Adam nutria por certos rapazes. E jamais permitiria que Yoongi se tornasse um alvo.

Adam ergueu as mãos, fingindo inocência, mas com um sorriso debochado nos lábios.

— Calma aí, policial bravo. O Yoongi é bonito, inteligente... só quis puxar conversa. Ou ele é seu namorado agora?

— Ele é meu parceiro de equipe. E você vai manter distância — respondeu Taehyung, firme.

— Ah, entendi... então ele não tem voz? Você que fala por ele? — provocou Adam, encarando Yoongi. — Quem sabe ele também não queira conversar um pouco comigo?

Taehyung deu um passo à frente, mas Yoongi o segurou levemente pelo braço, em silêncio. Ainda assim, o gesto foi o suficiente para Taehyung conter o impulso de partir pra cima.

O clima entre os três ficou tenso, pesado, como o ar antes de uma tempestade. E por um instante, o som da floresta pareceu sumir.

Taehyung lançou um olhar a Yoongi, que apenas suspirou, visivelmente cansado. Odiava discussões.

— Tae, obrigado por me proteger, mas estou bem. Não vou cair na lábia desse idiota — disse Yoongi com firmeza. — Além de ele não ser nem um pouco o meu tipo... estou apaixonado por outra pessoa.

Taehyung corou, pego desprevenido pelas palavras. Antes que pudesse reagir, Yoongi se colocou à sua frente, encarando Adam com um olhar sério e direto.

— Taehyung e eu cuidamos um do outro. Então, não me incomodo que ele me defenda, assim como faço o mesmo por ele quando posso. Mas, pra deixar bem claro: eu sei falar por mim mesmo. E digo, com todas as letras, que não tenho o menor interesse em conversar com você. Portanto, por favor, só me dirija a palavra se for algo realmente relevante para o grupo. Obrigado.

Taehyung não disfarçou o orgulho estampado no rosto. Ver Yoongi, geralmente calmo e sereno, colocar alguém em seu devido lugar era raro, e impressionante. Muitos o subestimavam, achando-o frágil e pacífico demais. Mas ele sabia bem que quando Yoongi se irritava, ninguém segurava. Ele mesmo já tinha experimentado isso certa vez, ao levar um soco por tê-lo provocado demais durante um dia estressante na delegacia.

O sorriso de Taehyung cresceu sem que percebesse.

“Esse é o meu Yoon.”

Logo depois, seu pensamento o pegou desprevenido.

“Meu? Por que ‘meu’? Ele não é meu... eu quis dizer ‘meu parceiro de trabalho’. Só isso. É só isso.”

Taehyung adorava enganar a si mesmo.

Adam estava visivelmente furioso. Seus olhos azuis, frios como gelo, encaravam Yoongi com desprezo. Vê-lo ali, parado com os braços cruzados, um baixinho de aparência inofensiva, teria parecido ridículo em qualquer outra circunstância. Mas o problema era o "armário" chamado Taehyung colado atrás dele, com um olhar que claramente dizia "tenta a sorte, eu te desafio."

Adam bufou, levantando-se da pedra em que estava sentado, resmungando xingamentos baixos e incompreensíveis. Rejeição era algo com que ele não sabia lidar. Era bonito, influente, rico... não estava acostumado a ouvir "não". E agora era a segunda vez naquela semana.

— Vamos logo procurar aqueles inúteis que já devem estar mortos. Não aguento mais olhar pra cara nojenta de vocês — disparou, cuspindo as palavras com raiva.

Taehyung e Yoongi trocaram olhares e reviraram os olhos ao mesmo tempo.

Seria uma busca longa... e especialmente irritante.

…

Após horas caminhando pela mata fechada, Taehyung avistou a entrada escura de uma caverna escondida entre as árvores e a vegetação. Fez um sinal discreto com a mão para Yoongi, que entendeu imediatamente.

— Adam — Taehyung sussurrou, olhando por cima do ombro — Fique aqui e espere. Vamos entrar primeiro pra verificar se é seguro.

Adam apenas deu de ombros, indiferente.

Taehyung puxou a tocha improvisada, acendeu-a e a entregou a Yoongi, que seria responsável por iluminar o caminho. Em seguida, sacou sua arma e apontou para a escuridão da caverna. Seu medo não era de animais selvagens. Era de humanos. Ou pior, de algo que parecesse humano, mas não fosse.

Ao se aproximarem da entrada, Yoongi parou bruscamente.

— Tá ouvindo isso? — sussurrou, abaixando-se. O chão vibrava sob seus pés. — Tem alguma coisa correndo na nossa direção...

Foi tudo muito rápido.

Um rugido ensurdecedor rompeu o ar. Num piscar de olhos, um enorme leão saltou da escuridão e caiu sobre Taehyung, derrubando-o com brutalidade. A arma voou de sua mão e deslizou pelo chão. A juba do animal caía sobre os olhos, e sua respiração quente e carregada de saliva gotejava no rosto de Taehyung, que usava todas as forças para manter a mandíbula cheia de presas longe de sua garganta.

Adam, sem hesitar, virou-se e correu. Desapareceu mata adentro em pânico, deixando Taehyung como isca viva.

— YOON! MINHA ARMA! USA A MINHA ARMA! — gritou Taehyung, desesperado, os músculos tremendo de esforço.

Yoongi olhou em volta e viu a arma caída. Com as pernas bambas, correu até ela. Mas assim que segurou o metal frio, congelou.

Uma lembrança brutal explodiu em sua mente. O dia em que, por engano, tirou a vida de um civil inocente. A culpa o corroía desde então. E cada vez que tocava em uma arma, o trauma voltava como uma onda paralisante.

Seu corpo começou a tremer. Gritava por dentro, em desespero, querendo agir. Taehyung precisava dele. Mas seus braços não obedeciam. As mãos apertavam a arma, mas ele não conseguia levantar.

Na sua frente, seu parceiro de equipe, seu amigo, o amor de sua vida, estava prestes a ser despedaçado, e ele não conseguia se mover.

Yoongi estava travado entre o passado e o presente. E Taehyung, ali no chão, lutava pela vida.

Notas finais
BOTA O CROPPED E ATIRA, YOON!