A Ilha

11 Floresta Misteriosa



Mingi notou de longe que Hoseok estava encolhido, com as pernas dobradas e o rosto escondido entre os joelhos. O ruivo parecia quebrado. Adam não estava por perto, era a chance perfeita para se aproximar e ver se ele precisava de algo.

— Hoseok?

O ruivo ergueu lentamente o rosto. Os olhos estavam vermelhos, inchados.

— Hum?

— Meu Deus… você está bem? — Mingi se abaixou depressa ao lado dele, tocando seu rosto num gesto instintivo.

— Estou… estou sim — Hoseok respondeu, quase num sussurro, afastando a mão de Mingi com delicadeza.

— Você não parece bem. Estava chorando? Aconteceu alguma coisa?

Hoseok soltou um longo suspiro, desviando o olhar.

— O livro…

— Que livro?

— Aquele que você me deu...

— O que tem ele?

— Eu… deixei cair numa poça de lama. — mentiu. — Ficou encharcado. Não consegui salvar. Me desculpa… sei que era importante pra você.

Hoseok realmente estava triste, não só pelo livro, mas por tudo. E por ter que esconder a verdade.

Mingi, no entanto, sorriu com leveza.

— Ei, acidentes acontecem. Não tem problema. É só um livro. E eu tenho outro em casa.

— Obrigado por ser tão compreensivo — Hoseok sorriu de leve, mas havia algo preso em sua garganta — Mas...

— Mas?

— Eu não sei como termina… e eu queria saber.

— Posso te contar. Se quiser.

— Você se lembra?

— Como se fosse um filme. Já li tantas vezes que está gravado na minha cabeça.

— Eu adoraria ouvir. Só que… tem que ser quando o Adam não estiver por perto. Ele não gosta de ver você perto de mim.

— Por quê? Você não pode ter amigos? Não pode conversar com outras pessoas? — Mingi o encarou, incrédulo — Seu namorado é um idiota.

— Ele não é meu namorado — Hoseok respondeu, sem hesitar — E sim, ele é um idiota.

A resposta deixou Mingi confuso. Ele sempre pensou que os dois fossem um casal.

— Então por que deixa ele te tratar assim?

Hoseok hesitou por alguns segundos.

— É complicado. Eu tenho... um tipo de compromisso com ele. Só isso.

Mingi não entendeu completamente. Mas, mesmo sem conhecer Hoseok tão bem, já sentia uma vontade genuína de protegê-lo daquilo.

— Como eu disse antes, se precisar de mim… estarei aqui. Pra te ajudar. E pra te proteger.

Hoseok olhou para ele com um olhar que misturava gratidão e tristeza.

— Obrigado, Mingi. Mas… não se preocupe tanto comigo.

Mas Mingi sabia que não conseguiria não se preocupar.

Nesse momento, foram surpreendidos pelos gritos de Adam ecoando pela praia.

— O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO?! — ele vociferou, avançando furioso até Hoseok e o puxando bruscamente pelo cotovelo.

A reação de Mingi foi instantânea. Sem pensar duas vezes, empurrou Adam para longe.

— Solta ele! — rosnou, colocando-se imediatamente entre os dois. — Se quer brigar com alguém, briga comigo — disse com o peito estufado, encarando Adam sem vacilar. Era mais alto, mais forte. E naquele instante, inabalável.

Adam recuou um passo, hesitante. Sabia que não teria chance se Mingi partisse para cima.

— Isso é entre mim e o meu namorado. Não se meta. — tentou, ainda com arrogância.

— Me meto sim. E vou continuar me metendo. Você não vai mais encostar um dedo nele. Entendeu?

Adam soltou uma risada seca e venenosa.

— Já se apaixonou por ele? — zombou, e lançou um olhar de puro ódio para Hoseok — Quanto ele está te pagando, hein?

— A conversa é comigo, não com ele — Mingi respondeu, firme, impedindo até mesmo o olhar de Adam de alcançar Hoseok. Era como um escudo humano.

Adam cerrou os dentes, frustrado.

— Sabe que ele é um garoto de programa, né? E mesmo assim vai defender?

— O que ele é ou deixa de ser não me interessa. O que me interessa é que você é um covarde que acha que pode controlar alguém pelo medo. Mas isso acabou. Você vai ter que passar por cima de mim pra tocar nele.

Adam cuspiu no chão, o rosto transbordando ódio.

— Você vai se arrepender disso, Hoseok — ameaçou, tentando mais uma vez furar o bloqueio de Mingi com os olhos — Quando a gente sair dessa ilha, não vai ter esse palhaço pra te proteger.

E com isso, virou as costas e saiu, bufando como uma tempestade prestes a estourar.

Mingi permaneceu imóvel por alguns segundos, atento. Só depois se virou lentamente para Hoseok, que tremia levemente, o olhar num misto de gratidão, medo e alívio.

Mingi respirou fundo, aliviado. Apesar de ter enfrentado Adam sem hesitar, não gostava de confrontos. Preferia o silêncio, a conversa, a calma. Sentou-se novamente ao lado de Hoseok e lhe ofereceu um sorriso gentil.

— Como você está? Assustado? — perguntou com voz suave.

— Um pouco — Hoseok respondeu com um sorriso trêmulo, tentando parecer mais firme do que realmente estava. — Mas… o meu príncipe encantado me salvou. — Brincou, deixando escapar um riso tímido.

— Só faltou o cavalo branco — Mingi entrou na brincadeira, aliviando o clima.

Hoseok o observou por um instante, o sorriso se tornando mais sincero. Sentia-se seguro, pela primeira vez em muito tempo.

— Então, príncipe… você me conta o final da história do livro? Beren e Lúthien ficam juntos?

— Claro que conto. Já chegou na parte em que eles enfrentam Melkien?

— O gato meio humano? — Hoseok arqueou as sobrancelhas, curioso.

— Esse mesmo — Mingi riu, e logo começou a narrar com entusiasmo o desfecho da história dos dois elfos.

Hoseok o ouvia encantado, com um brilho nos olhos e um sorriso leve. Pela primeira vez, sentia que alguém o via com respeito, sem segundas intenções. Mingi era diferente. E naquele instante, cada palavra dele era como uma cura silenciosa para tudo o que Hoseok havia suportado.

…

Todos dormiam profundamente quando Jimin acordou, desconfortável. A noite estava abafada, e o calor só aumentava com o corpo de Yoongi grudado ao seu, como um coala carente. Yoongi era quente demais, bom para Taehyung, talvez, mas péssimo para ele naquela circunstância.

Com cuidado, começou a afastá-lo. As algemas dificultavam os movimentos, e ele tentava a todo custo não fazer barulho com o som metálico das correntes. Não queria acordar ninguém. Não naquela noite. Tinha um plano em mente, e aquele era o momento.

Virou o rosto e viu Taehyung dormindo do outro lado, respirando pesadamente. Parecia até um anjo, se esquecêssemos que era ele quem o mantinha preso.

Com mãos cuidadosas e tremendo de leve, Jimin tateou o bolso de Taehyung. Seu coração disparou ao sentir o colar com a chave. Puxou com lentidão, rezando para que ele não acordasse. Taehyung resmungou algo, talvez o nome de Yoongi, mas continuou dormindo.

Com a chave na mão, Jimin se afastou devagar, cada passo medido como se o chão fosse feito de vidro. Libertar-se das algemas foi simples, quase poético. Massageou os pulsos marcados, sentindo o alívio escorrer por suas veias. Estava livre, ou quase, afinal, ainda estava preso numa ilha desconhecida no meio do nada.

Mas havia algo ali, naquela ilha. Algo que chamava por ele. Era quase como um sussurro antigo enterrado sob as raízes das árvores. A selva o aguardava com seus mistérios, perigos e segredos do passado.

Jimin olhou uma última vez para trás. Yoongi dormia tranquilo, agora abraçado a Taehyung, que retribuía o abraço inconscientemente. Aquela imagem o fez sorrir de canto. Que trio peculiar eles formavam.

Então, voltando-se para a escuridão adormecida da floresta, ele respirou fundo e deu o primeiro passo. A aventura o chamava, e Jimin jamais dizia "não" a um bom mistério.

…

Taehyung ainda estava de olhos fechados quando sentiu um corpo quente se aconchegando ao seu. Instintivamente, retribuiu o abraço. Era confortável, quase familiar. Mas algo não parecia certo.

Ao abrir os olhos, deu um pulo, assustado ao ver o rosto de Yoongi a poucos centímetros do seu, ambos grudados como se fossem namorados de longa data.

— Tae? — Yoongi murmurou, ainda sonolento, despertando com o susto do outro.

— O q-que… o que você tá fazendo aqui?! — Taehyung gaguejou, completamente perdido.

— Dormindo, oras — respondeu Yoongi, se espreguiçando como se nada estivesse fora do comum.

— Colado em mim?!

— Eu gosto de dormir abraçado em alguma coisa — deu de ombros.

— Eu sou uma coisa agora?!

— Você só tava mais perto, então eu... — Yoongi parou de falar de repente, arregalando os olhos. Seu rosto empalideceu. — Cadê o Jimin?

A pergunta, dita em voz baixa e desesperada, cortou o ar. Taehyung congelou. Só então se deu conta da ausência de Jimin. Num segundo, estava de pé. No seguinte, corria pela praia como um louco, olhos varrendo em busca de qualquer sinal do prisioneiro. Chegou a perguntar para quem encontrava pelo caminho, mas ninguém o tinha visto.

Jimin havia desaparecido.

— A culpa foi minha — Yoongi fungou, com os olhos marejados. Era a vez dele de fazer a vigia, e ele sabia disso.

Taehyung, mesmo completamente frustrado, não conseguia brigar com ele. Bastava olhar para aqueles olhos vermelhos, a boca trêmula e as bochechas coradas pelo choro, que tudo aquilo desmontava qualquer raiva.

— Tudo bem… não se sinta mal. Nós vamos encontrá-lo de novo — Taehyung esticou a mão para afagar os cabelos de Yoongi, mas parou no meio do caminho. Pensou que talvez fosse “gay demais” pro seu histórico de reputação hétero impenetrável. Recolheu a mão discretamente.

Jin chegou perto, preocupado.

— Yoon, não chora. Não foi culpa sua — disse, puxando Yoongi para um abraço apertado.

Taehyung observou em silêncio. Queria poder abraçá-lo daquele jeito também, como fazia antigamente, sem pensar, sem medo de parecer outra coisa. Mas desde o beijo de Yoongi, as coisas tinham mudado. Agora, até um toque era complicado demais.

— Encontrei isso aqui — disse Jin, entregando a ele as algemas e a chave.

Taehyung suspirou, balançando a cabeça. Mais uma fuga de Jimin. Mais uma vez ele foi enganado.

— Ele não deve estar longe. Vou atrás dele — murmurou, encarando as algemas com frustração.

— Eu vou com você — Yoongi se adiantou.

— Não, você está com o pé machucado. Fique aqui.

— Tae, já disse, foi só um corte superficial. Já estou bem. Eu preciso ir com você.

— Não, você precisa ficar aqui e descansar.

— Descansar do quê? Já estamos aqui há cinco dias. E mais: ele estava sob minha responsabilidade. Não tô pedindo, tô avisando. Eu vou com você.

Taehyung bufou alto e revirou os olhos, rendido.

— Tá bom, tá bom. Vai, então. Você que sabe. Não é mais uma criança.

Yoongi sorriu, satisfeito, mas se controlou para não abraçar o outro ali mesmo.

— Levem frutas e um pouco de água, vou preparar pra vocês — disse Jin, já se afastando para cuidar dos suprimentos.

E assim, os dois partiram juntos em busca de Jimin, cada um carregando seus próprios conflitos e talvez sentimentos não tão bem resolvidos assim.

…

Jimin caminhava despreocupado, os olhos atentos a cada detalhe ao redor. Tinha o costume de cantarolar, e fazia isso o tempo todo, inclusive enquanto andava sozinho por uma floresta misteriosa.

As árvores altas projetavam sombras frescas e acolhedoras, um alívio para o calor do dia ensolarado. Aquele era o seu dom: explorar florestas inabitadas e decifrar lugares esquecidos pelo tempo. Isso era o que ele sabia fazer. Claro, seria muito mais fácil se tivesse ao menos uma faca ou uma corda, mas daria um jeito. Sempre dava.

Os sons da floresta preenchiam seus ouvidos: o sussurrar do vento nas folhas, o canto dos pássaros cruzando o céu como flechas coloridas, o farfalhar sutil da mata viva ao seu redor. Havia um cheiro doce no ar, uma mistura de flores silvestres e frutas maduras, mesclado ao perfume úmido da terra molhada pelo orvalho da manhã.

Jimin examinava as plantas com interesse. Não era biólogo, muito menos geólogo como Mingi, mas reconhecia: estava em uma floresta tropical. E ainda assim, aquela ilha sequer deveria existir, pelo menos não no meio do Oceano Pacífico. Mas ali estava ela. Real, densa, viva.

"A não ser que eu tenha morrido e isso aqui seja o paraíso" — pensou, com ironia.

"Não. Não pode ser o paraíso. Estou com fome, com dor, e tenho dois cães farejadores da polícia atrás de mim. Se fosse o paraíso, eu estaria em um harém cercado por homens lindos, fortes… e nus. Me servindo uvas e vinho."

Sacudiu a cabeça para espantar os pensamentos pervertidos e voltar ao foco. Estava ali por um motivo. Precisava descobrir os segredos daquela ilha e, principalmente, encontrar um jeito de sair dela.

Já era meio-dia quando Jimin avistou um rio de águas límpidas e correntes. Nunca imaginou que ficaria tão feliz ao ver água. Seus pés doíam após mais de três horas caminhando sem parar, sem sinal de civilização, sem vestígios humanos. Parecia mesmo uma ilha inóspita.

Precisava descansar antes de continuar. E, com o calor do dia, um banho naquele rio parecia a recompensa perfeita.

Assobiando uma melodia improvisada, Jimin começou a se despir. Primeiro os sapatos, depois a blusa colada de suor, a calça, e por fim a peça íntima. Ficou completamente nu diante do rio. A brisa fresca acariciava sua pele, e por um instante ele se sentiu livre. Verdadeiramente livre.

Agachou-se, formou uma concha com as mãos e bebeu a água, aliviando a sede que já latejava em sua garganta. Molhou o rosto, deixando a água escorrer pelo pescoço, sentindo-se revigorado. Colocou um pé no rio e se arrepiou com a temperatura gelada. Depois o outro. Entrou devagar, até que seu corpo se acostumasse à água fria e cristalina.

Mergulhou com os olhos fechados, permitindo que tudo o envolvesse: o silêncio, o frescor, a leveza. Por alguns minutos, acreditou estar de férias em uma ilha paradisíaca. Nadava de um lado ao outro, cantarolando sozinho, despreocupado. A água cantava com ele, e sua voz suave ecoava pela floresta como mais um dos pássaros soltos no céu.

Mas a magia se quebrou quando ouviu um farfalhar nos arbustos próximos. Jimin parou de cantar imediatamente.

Ficou imóvel.

— Olá? — chamou, os olhos fixos nas folhas que ainda tremiam — Tem alguém aí?

Nada. Apenas o som do vento e o leve bater da água contra as pedras.

Um calafrio subiu pela sua espinha. Não era medo exatamente, era um aviso interno: atenção. A ilha, que minutos antes parecia um paraíso escondido, agora parecia observá-lo de volta.

Sem tirar os olhos da mata, Jimin saiu da água e vestiu suas roupas com rapidez. Talvez fosse apenas um animal, talvez nada demais. Mas talvez fosse o começo de algo. Algo importante.

Olhou para a floresta densa à sua frente. Os galhos altos pareciam se curvar em sua direção. Como se o chamassem.

E sem hesitar, ele foi.

Notas finais
Quem será que estava observando o Jimin?