A Ilha
10 Baú de Tesouros

Mingi caminhava pela borda da praia, atento aos detalhes que a maré deixava para trás, quando algo entre pedras grandes chamou sua atenção.
Um brilho semi-enterrado na areia.
Seu coração acelerou com a curiosidade, e ele correu até o local, ajoelhando-se para examinar melhor. Começou a afastar a areia com as mãos, sentindo a adrenalina subir.
Adam o avistou de longe e, como sempre, movido mais pela ganância do que pela curiosidade, correu até ele.
— O que é isso? — perguntou, inclinando a cabeça com aquele sorriso irritante de sempre.
— Um baú de tesouros. — Mingi respondeu com sarcasmo. — Agora me ajuda, ao invés de ficar aí falando.
Adam se abaixou ao lado dele, e mesmo relutante, começou a ajudar, movido pela possibilidade de encontrar algo valioso.
Cavaram com as mãos, ansiosos e sujos de areia, até que a estrutura inteira do objeto se revelou.
Era, de fato, um baú antigo, com ferragens enferrujadas e madeira escurecida pelo tempo. Quando finalmente o puxaram da areia, caíram sentados, exaustos, os peitos arfando.
— Vamos abrir. — Adam disse, ofegante, já se esticando em direção à tampa.
Mingi o olhou com desprezo. Não fazia questão de esconder, odiava Adam. Odiava a forma como tratava Hoseok, como achava que podia manipular tudo e todos ao redor.
Sem dizer uma palavra, afastou a mão de Adam e começou a colocar as combinações na tranca.
— Como você sabe a combinação desse baú? — Adam perguntou, franzindo a testa.
Mingi, concentrado nos encaixes, respondeu sem nem olhar para ele:
— Porque ele é meu.
Adam arregalou os olhos, surpreso.
— Seu? E o que tem aí dentro? Armas? Dinheiro? Diamantes?
— Coisas valiosas. — disse simplesmente.
— Coisas valiosas… — repetiu Adam, e o brilho ganancioso em seus olhos foi instantâneo.
Mingi soltou uma risadinha discreta, e finalmente escancarou a tampa do baú, revelando o conteúdo.
Livros.
Empilhados cuidadosamente, protegidos por plásticos resistentes, todos intactos.
Adam se ajoelhou em choque, a decepção estampada no rosto.
— Você me fez cavar essa droga por isso? Por livros?
— São coisas valiosas. — Mingi respondeu com um sorriso de canto, dando de ombros como se fosse óbvio.
Adam bufou, bateu a mão na própria perna, se levantou e saiu reclamando, chutando areia e xingando como uma criança contrariada.
Mingi apenas riu.
Seu baú precioso havia resistido à água, e à ilha misteriosa. Ele retirou o primeiro livro do topo, segurando-o como quem reencontra um velho amigo.
Era o seu favorito, a história de um homem que precisou roubar joias de um inimigo monstruoso para oferecer a outro homem, e assim ganhar o direito de se casar com a filha dele, uma elfa que cantava e dançava como se embalasse a alma em paz.
Mingi sorriu. Já lera aquela história milhares de vezes, mas ela nunca perdia o encanto.
Ergueu os olhos e, mais adiante, avistou Hoseok. O ruivo estava distraído, sozinho, mas perto o suficiente para que Mingi pudesse admirá-lo em silêncio. Aproveitando a ausência de Adam, que havia se afastado resmungando, Mingi se levantou e caminhou em direção a Hoseok.
— Oi… — Mingi se aproximou com cautela, a voz baixa, quase um sussurro.
— Oi — Hoseok respondeu, desviando o olhar e lançando olhares rápidos ao redor, como se esperasse Adam surgir a qualquer momento.
— Fica tranquilo… Adam saiu, foi resolver alguma coisa — Mingi notou a tensão evidente nos olhos do ruivo — Você está bem?
— Estou sim. Mas… obrigado por perguntar. E não precisa se preocupar comigo.
— Hoseok, já se passaram três dias desde a queda. A gente não sabe quanto tempo vai levar pra sermos resgatados… Precisamos confiar uns nos outros. Quero que saiba que você pode contar comigo — disse com sinceridade.
Hoseok esboçou um sorriso frágil, mas seus olhos logo se perderam no chão, tristes.
— Ainda vamos ter que voltar à vida real… se é que vamos sair daqui. E, quando isso acontecer… ninguém vai poder me ajudar.
As palavras dele foram um golpe no peito de Mingi. Sabia que por trás do jeito calado e gentil de Hoseok havia muito mais. A relação com Adam era tóxica, marcada por abusos que todos do grupo já testemunharam em silêncio. Ele mesmo, junto com Jin e Taehyung, havia interferido mais de uma vez para impedir o pior. Mas Hoseok sempre pedia que deixassem pra lá.
E esse pedido, mais do que qualquer grito, dizia tudo.
— Eu posso te ajudar aqui… e também lá fora. Sei que a gente não se conhece tão bem, mas… posso ser um apoio pra você.
— Obrigado — Hoseok suspirou, com um sorriso apagado nos lábios.
Mingi percebeu o peso da tristeza no ar e resolveu mudar de assunto.
— Bem, eu… trouxe algo pra você.
— Pra mim?
— Sim — disse, entregando-lhe cuidadosamente o livro que mais gostava.
Hoseok o pegou com cuidado, estranhando o gesto.
— Um livro? — sorriu de leve — Obrigado.
— É um presente ruim?
— Não, não… é só que… nunca ganhei algo assim. E, pra ser honesto, nunca tive o hábito de ler.
— Então talvez essa seja uma boa hora pra começar.
— Sim. Vou ler porque foi um presente seu. — Hoseok sorriu um pouco mais.
— É uma boa história. Tenho certeza que vai te prender.
— Obrigado, Mingi. De verdade.
Aquele sorriso, simples e vulnerável, fez algo dentro de Mingi se partir em silêncio. Ele queria protegê-lo. Queria tirá-lo dali, daquele medo constante, daquele homem. Mas não sabia como.
— Bom… eu vou ajudar o Jin. Mas se precisar de qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, eu tô aqui, tá?
— Tá bem. E… — Hoseok o encarou com os olhos brilhando, prestes a transbordar — Obrigado. Mais uma vez.
Mingi assentiu, engolindo em seco, e saiu com o coração pesado e esperançoso ao mesmo tempo.
…
Hoseok lia distraidamente, imerso na história, quando Adam surgiu de repente.
— O que é isso? — perguntou em tom ríspido, arrancando o livro de suas mãos.
— Adam, é só um livro.
— Eu sei muito bem quem te deu isso. Aquele professorzinho de merda.
— Ele só quis me distrair, mais nada. Não tem nada demais nisso.
— Ah, claro. Está transando com ele, é isso? É a putinha dele, agora?
Hoseok apertou os lábios, engolindo o orgulho. Sentia-se humilhado. Agradecia por ninguém estar por perto para presenciar aquela cena vergonhosa.
— Adam, ele só deu livros pra várias pessoas. Não tem nada entre a gente. Me devolve o livro, por favor.
Adam riu, cruel.
— Quer tanto assim essa porcaria? — abriu aleatoriamente uma página e rasgou-a sem cerimônia.
— NÃO! — Hoseok se lançou pra frente, desesperado — Por favor, não faz isso!
Adam o empurrou com força. Hoseok caiu na areia.
— Vai mesmo levantar a voz pra mim?
— Me desculpa… só me devolve o livro, por favor — implorou ele, a voz embargada, segurando o choro.
— Não estou com vontade — respondeu Adam, tirando o isqueiro do bolso.
Antes que Hoseok pudesse reagir, o fogo já consumia as páginas. Ele ficou ali, paralisado, vendo as chamas transformarem aquele presente em cinzas. Além de ter vindo de Mingi, Hoseok estava sinceramente envolvido com a história. Um romance doce entre dois personagens que ele queria ver se reencontrando, se amando até o fim. Agora, tudo o que restava era um montinho de cinzas levadas pelo vento.
Adam se afastou com indiferença, e Hoseok ficou ali, sozinho, desabando em lágrimas.
…
O sol já começava a se esconder no horizonte quando Jin resolveu dar uma volta com Namjoon, na esperança de encontrarem algum animal pequeno e fácil de abater para o jantar.
Namjoon suspirou profundamente. Jin, atento, desviou o olhar para ele.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou, com preocupação.
— Só o fato de estarmos presos nessa ilha já é o suficiente, não acha?
Jin assentiu, compreensivo.
— Sei disso. Mas precisamos manter a cabeça erguida. Pensar positivo e ser fortes.
— Jin, já se passaram três dias. Três dias sem qualquer sinal de resgate. Não sabemos onde estamos, e quanto mais o tempo passa, mais começo a pensar que ninguém virá nos buscar.
— São só três dias, Namjoon. Paciência. Vamos sair daqui. Até lá, precisamos manter a calma e cuidar dos outros.
— Eu tento, mas não é fácil. Eu tinha compromissos importantes, uma reunião crucial daqui duas semanas…
— Você ainda está preocupado com trabalho? — Jin soltou uma risada amarga — Isso ainda é o mais importante pra você?
Namjoon hesitou.
— Você também é importante… mas...
— Esquece, Namjoon. Cansei desse assunto — disse Jin, cortando a conversa e apressando os passos.
Namjoon o seguiu, contrariado, mas sem dizer nada. Jin, no entanto, seguia com os sentidos aguçados. Algo no ambiente chamou sua atenção, um som suave, constante. Seu coração bateu mais rápido.
Ambos pararam, estupefatos. Diante deles, um rio de águas cristalinas corria em meio à vegetação. Os olhos de Jin brilharam com a descoberta.
— Graças a Deus... — murmurou, e correu até a margem.
Ajoelhou-se, lavou o rosto e os braços, lágrimas se misturando à água fresca. Era como encontrar ouro.
Namjoon ficou parado, observando. Jin parecia iluminado naquele momento. Ele não se lembrava da última vez que o tinha visto tão genuinamente feliz. Nem da última vez que realmente o tinha observado. Jin ainda era bonito, como nos tempos de juventude. E ali, banhado pela luz do entardecer, parecia mais bonito do que nunca.
Namjoon sentiu algo apertar dentro de si. Talvez, naquela ilha esquecida, ele pudesse finalmente enxergar o que por tanto tempo deixou passar.
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