Notas iniciais
Um passeio à noite do nosso casal com Catherine e Rick. E um imprevisível encontro com Heather no dia seguinte em um supermercado.

Quando foi à noite, no horário e local combinado, nós nos encontramos com Catherine e Warrick.

—Quer dizer que vocês estão ficando mesmo? Quando a Catherine me contou fiquei surpreso, porque até outro dia ela disse que você tava ficando com a sua vizinha, e agora, tá com outra já. Sua fila não anda, ela voa, né?

Warrick me zoou sorrindo enquanto aguardávamos as meninas virem do banheiro. O espetáculo começaria às 19:30, e ainda faltavam vinte minutos pra isso acontecer. As meninas resolveram ir ao banheiro antes do show começar.

—Também não é assim, cara.

—É como então?

—Sinceramente nem eu sei explicar isso. Mas só sei que aconteceu de eu deixar de gostar da Heather e me apaixonar pela Sara de maneira inesperada e rápida.

—Relaxa! Não tem que me explicar nada. Só tava curtindo um pouco com você.

—Eu sei.

—Mas diz aí, você tá muito amarradão nela?

De todos os caras do meu grupo de amigos, o Warrick era o que eu mais tinha proximidade em confidenciar coisas já que ele era o cara mais centrado do grupo. Então, por isso mesmo, eu abri o jogo com ele.

—Demais, Rick!... Ela é uma coisa de louco. Justamente ela, me pegou de um jeito que eu nem imaginava.

—Eita! Você não tá amarrado... tá é apaixonado, com os quatro pneus arriados por essa garota, cara.

—Pois é. Só que eu tô bolado, porque no meio disso tem o Nick. Ele é meu amigo e também tá muito amarrado na Sara.

—Cara, eu não queria tá na tua pele. Mas ó... conversa com ele.

—Você sabe que conversar nessas horas não é o forte do cowboy.

—Não mesmo, mas também brigar não vai adiantar nada, não concorda comigo?

—Com certeza! Mas isso tem que dizer pra ele, não pra mim.

Avistamos as meninas vindo e demos o assunto por encerrado antes mesmo delas chegarem em nós. E logo, nós quatro já seguíamos em direção ao teatro.

Na entrada recebemos cada um, um folden que trazia uma pequena descrição do espetáculo que veríamos em alguns minutos. Entramos e lá dentro do enorme teatro encontramos bastante gente já acomodadas nas poltronas. Nos acomodamos também e enquanto o show não começava, a gente leu o papel que recebemos sobre o espetáculo, que dizia:

“O” é uma produção aquática do Cirque du Soleil, que explora um mundo além da imaginação. O nome do espetáculo é uma brincadeira com a palavra francesa “eau” , que significa água. Aqui você verá encenações sub aquáticas, tais como nado sincronizado, bem como outras
performances aéreas e no solo.

Inspirado no conceito de infinito da beleza e a forma mais pura de água, "O" presta homenagem à arte de jogar com a água, ao surrealismo e ao romance aquático — um lugar onde os sentidos são trazidos no jogo, um mundo onde todas as coisas são possível e onde o drama da vida se desenrola diante de nossos olhos.

O espetáculo possuí em seu elenco 85 artistas ( inclui-se nisso: acrobatas, nadadores sincronizados e mergulhadores) que se apresentam em (e acima de) uma piscina de mais de 5 milhões de litros. Fora que ainda contava com 150 assistentes de palco.

Dispondo de 11 atos no total e com duração aproximada de 90 minutos, "O" é livre para todas as idades.

—Nossa parece ser muito bom o que veremos, não acha?

—Sim. — Afirmei passando o braço sobre o encosto da poltrona de Sara, que se encontrava acomodada ao meu lado, pra trazê-la para bem perto de mim e assim lhe dar um beijo. Sara parecia empolgada com o espetáculo antes mesmo dele começar. Confesso que eu também estava assim. Não é sempre que você tem a oportunidade de ver um espetáculo do Cirque Du Soleil sem desembolsar nada.

—Ei, vocês dois, sem agarramento!

Ouvi Catherine me dizer cutucando meu ombro. Ela e Rick haviam se acomodado na fileira atrás da que Sara e eu estávamos.

Interrompi o beijo com Sara e virei-me pra Catherine.

—Não ferra, Cath. — Mandei pra ela que riu sendo acompanhada por Rick. Depois, voltei minha atenção a Sara e nós ficamos apenas conversando sobre o espetáculo.

Esperamos apenas em torno de mais alguns minutos mais para ver as luzes do teatro se apagarem, a cortina se abrir e o espetáculo começar.

Mas este ainda não foi o show principal. Foram apenas palhaços que apareceram para um "esquenta" antes do grande show começar. Usando o elemento água em seu número, eles nos divertiram por um par de minutos, enquanto carregam um salva-vidas gigante, molhando-se em um guarda-chuva cheio de buracos e esguichando água em pessoas distraídas do público.

Tão logo esse número dos palhaços acabou, é que começou o show principal, o aguardado por todos ali no teatro.

E quer saber?

Ele é incrível!

É um espetáculo que te prende do começo ao fim. Nele a gente viaja através das incríveis performances dos artistas. São cenas envolvendo humor, acrobacias, nados sincronizados, mergulhos, trapézios, saltos, malabarismos, pirotecnias, equilíbrios, contorcionismos e outros mais, tudo em torno de um palco que hora é firme e seco e hora é uma piscina.

Ainda que as cenas aquáticas sejam o maior destaque do show, não há como deixar de se surpreender com as performances aéreas e as que exibem o dualismo fogo/água, onde malabaristas demonstram uma habilidade ímpar ao mesmo tempo em que um homem nos surpreende ao manter-se calmo mesmo com o corpo coberto em chamas.

Havia também dois palhaços que garantiam as risadas através de atos espontâneos e um humor de qualidade exemplar. Contorcionistas que nos surpreendiam e encantavam ao colocar seus corpos em posições inimagináveis. Mergulhadores que saltavam de grandes alturas desafiando o perigo.

É uma coisa de louco!

Olhei em determinado momento pra Sara e ela tava vidrada no espetáculo, assim como, a grande maioria ali porque era de vidrar mesmo aquilo ali.

—Gostando do quê vê? — Sussurrei em seu ouvido.

—Muito! — Ela respondeu me olhando e dando um rápido beijo em mim.

Do show todo, sem dúvida alguma, um dos números mais surpreendentes é quando três mergulhadores talentosos saltam com perfeição de uma altura de 18 metros do palco em uma pequena seção triangular de 5 metros da piscina.

É genial!

E quando o espetáculo termina, uma hora e meia depois de ter iniciado, fica na gente a sensação de querer assistir de novo e de novo.

Sensacional e mágico!

...

—Cara foi demais o show todo.

Warrick tava em êxtase com o que viu e não conseguia esconder.

—E aquela parte dos mergulhadores?

Sara era outra que tava que nem o Rick. Os dois por sinal eram os mais empolgados de nós quatro, após o fim do espetáculo. E a empolgação deles fazia Catherine e eu rirmos deles.

—Ah, essa pra mim foi a melhor, Sara!

—Pra mim já foi o lance dos dois dançarinos do fogo havaiano, que giravam aquelas facas de fogo com uma habilidade e velocidade incríveis. — Sara relatou tentando imitar os dançarinos com as facas.

—Vocês gostaram mesmo do espetáculo, né?

—Sim!

Os dois responderam juntos e nós quatro acabamos rindo disso.

Como ainda faltava meia hora pra mãe da Cath vir nos buscar — ela deixaria Sara e eu em casa — nós quatro resolvemos ir comer algo numa famosa rede de fast-food que havia na área de lazer do Bellagio.

E assim que terminamos de comer, a tia Lilly ligou pra filha avisando que estava na frente do hotel cassino à nossa espera. Seguimos pra lá e um tempo depois, Sara e eu nos despedíamos de Cath, Rick e tia Lilly.

Entramos em casa ao mesmo tempo vimos minha mãe que vinha da cozinha com um copo de suco numa das mãos.

—Ei! E aí, como foi lá no teatro?

—Foi sensacional, tia Beth.

—Acho que "sensacional" é a palavra que descreve melhor mesmo o que a gente viu, mãe.

—A senhora precisava ver cada coisa que a gente viu, não foi, Gil?

Assenti e deixei por conta de Sara falar como foi tudo, já que ela era a empolgação em pessoa e nem me deixava dizer nada mesmo. Sorrindo, eu apenas a observava narrar toda sorridente as coisas que vimos no espetáculo. Era bom vê-la assim tão diferente da noite de ontem.

—Depois de ouvir tudo isso, eu fiquei até com vontade de assistir esse espetáculo.

Minha mãe comentou após Sara terminar de contar tudo.

—A senhora tem que ir é muito legal mesmo.

—Assino embaixo nisso que a Sara disse.

...

Empurrando um carrinho enquanto seguia com Sara ao meu lado por um dos corredores do supermercado, exatamente pela seção dos enlatados, a gente fazia umas comprinhas que minha mãe pediu pra fazermos, pois a dispensa tava já meio ficando vazia.

Com uma pequena lista que minha mãe já deixou devidamente feita antes de sair pra trabalhar naquela manhã, e a qual estava na mão de Sara agora, a gente ia se aventurando pelas seções do supermercado.

Em determinado momento, eu sorri discretamente e sem Sara ver, pois lembrei da primeira vez que nós viemos aquele lugar. Foi simplesmente uma experiência aterrorizante, porque Sara implicou comigo e me irritou durante o tempo inteiro, coisa totalmente diferente de agora.

—A gente tem que ir agora à parte dos legumes e verduras. Comprar tomate, cebola, essas coisas...

—Vamos lá então.

Pegamos tomates, cebolas, batatas, cenouras e mais outras coisas mais, além de algumas frutas também. Depois fomos pra fila esperar nossa vez de pesar cada coisa daquelas que pegamos.

—Depois daqui o que mais falta a gente pegar?

—Mais nada!

—Que bom.

Pouco instantes depois, nós já saímos dali da fila e seguimos pra ir enfrentar outra fila, a do caixa.

Parados e abraçados na fila aguardando a nossa vez chegar, eu em determinado momento não resisti a proximidade e roubei um beijo de Sara, depois outro e mais outro, e nisso quem pára ao nosso lado na outra fila?

Ela mesma, a Heather!

Eu não pude deixar de ficar sem jeito ao notar a presença dela ali, ainda mais, porque ela viu Sara e eu trocando aqueles beijos.

Sinceramente, eu não sabia o que fazer ou dizer. Cumprimentá-la ou não? Dizer apenas "oi" ou algo mais além disso?

Por sorte minha e desencargo das minhas dúvidas, foi Heather quem tomou a iniciativa de falar e cumprimentar a mim e também Sara. Ambos falamos com ela e foi inevitável não ficar um clima estranho ali. Eu podia ver o incômodo dela ao me ver abraçado à Sara, e também sentir o incômodo da própria Sara com a presença de Heather.

—Como vai você, Heather? — Tomei a liberdade de perguntar. Essa estava sendo a primeira vez que a encontrava depois de termos terminado.

—Bem!

Eu fiquei com a sensação de quê ela tava mentindo.

—E você, fez o que eu disse. Que bom! Fico feliz por você, de verdade, Gil.

Me limitei a apenas assentir. Torço pra ela encontrar um cara que goste dela assim como eu já gosto da Sara, de verdade. Heather merece alguém assim.

—Sara, você tem sorte de ter o Gil com você. Ele é um rapaz diferente da grande maioria.

—É, eu sei bem disso. O quatro olhos aqui é alguém... especial!

Eu juro que não esperava ouvir aquilo da Sara. De "nerd estranho" eu subi para o patamar de "alguém especial". Nunca imaginei uma coisa dessas.

—Especial! Essa seria bem a palavra mesmo pra defini-lo. — Heather concordou com Sara.

A caixa da fila em que Heather estava chamou pelo próximo cliente.

—Bom, minha vez chegou. Vou indo. Tchau pra vocês.

—Tchau!

—Ela ainda gosta de você. Tá na cara dela.

Sara falou logo que Heather se foi. Olhei pra Sara e ela me encarava. Realmente, ficou evidente os sentimentos que Heather ainda tinha por mim. E era compreensível que eles ainda estivessem nela, já que fazia pouco tempo que havíamos terminado mesmo.

—Me sinto culpado por isso.

—Por isso o quê?

—A tristeza nos olhos dela. Não notou?

—Nem reparei. Só vi que ela ainda gosta mesmo de você.

—Mas eu agora gosto de você! E à propósito, o que foi aquela declaração de que eu sou "especial"?

—Foi uma declaração. E não vem ficar se gabando por isso, não, viu?

—Imagina!

Isso fez nós dois rirmos.

Notas finais
O próximo trará a tão aguardada volta do Nick. Um grande beijo e até breve.