A Hospedeira 2 - Depois do fim
7 Capítulo 7 - Descobertas
Notas iniciais
POV — John
O caso da garota que encontramos e conseguimos capturar junto com os humanos havia sido designado a mim. Eu podia jurar que aquela garota era uma alma, mas acompanhei o processo de inserção de perto e a curandeira não consegui tirá-la do corpo hospedeiro, então eles inseriram outra alma na hospedeira, o que ia ser feito de qualquer forma. A garota não demorou muito a acordar, quando isso aconteceu ela parecia meio desnorteada, tanto que nem me notou recostado numa das paredes do quarto, assim que acordou fez algumas perguntas a curandeira e logo adormeceu novamente. No dia seguinte vigiamos o quarto o tempo todo esperando que acordasse, mas ela só se despertou no meio da tarde. A ajudante da curandeira veio nos avisar e fomos ao quarto. Quando entramos ela nos avaliou, primeiro a mim depois a curandeira. Me peguei olhando para ela num gesto quase automático, passei a mão nos cabelos bagunçando-os um ato que herdei de meu hospedeiro, sempre fazia isso quando estava nervoso. Para minha surpresa a garota cravou os olhos nos meus e não consegui desviar o olhar, para minha sorte a curandeira começou a conversar com ela.
Sentei-me numa cadeira encontrada no canto do quarto e me continuei olhando a garota chamada Lua, segundo as palavras da curandeira Flores para o sol. Era algo estranho para mim. Antes ela era uma humana, desde que cheguei a este planeta os humanos eram algo que me enojavam. Não seus corpos, seus atos, eles eram frios e cruéis, não tinham amor por nada nem por ninguém. O único humano que me simpatiza era meu hospedeiro, John. Quando criança ele sofreu muito. Perdera seus pais muito cedo e acabara indo para um orfanato. Ele não se enturmava nem tinha amigos, não confiava nas pessoas em sua volta. Sua única amiga morrera junto de seus pais num assalto a casa deles, John conseguiu escapar mas se fechou num casulo frio onde não viviam emoções por pessoas que conhecia. Vivo neste casulo até hoje, John era muito parecido comigo. Ele exercia a profissão de policial, isso foi um grande fator para minha escolha do chamado. Optei também por usar se nome, ele era o único humano que tinha meu respeito. Nos completávamos, ambas personalidades fortes que se ajudavam na construção de uma nova pessoa.
A curandeira saiu do quarto ao terminar os exames pendentes em Lua que continuava a me observar. Ela parecia curiosa em questão a mim. Depois de alguns minutos presos em meus devaneios me levantei da cadeira para começar meu trabalho. Eu não sabia como começar nem por onde começar.
— Olá. — Lua disse com voz baixa, como se tentasse fazer com que eu não a escutasse.
— Olá. — respondi meio sem saber o que estava fazendo. Era estranho. Eu, um buscador experiente, que sempre conseguia descobrir o que as pessoas escondiam, estava sendo intimidado por uma garota? Não, isso não ia acontecer. — Tudo bem Lua. Podemos começar nosso trabalho.
— Trabalho? Que trabalho? — ela realmente não sabia o que estava dizendo.
— Conte-me o que sabe sobre os humanos. Precisamos dessas informações para capturá-los. — tentei ser o mais direto possível.
— Eu não sei de nada sobre os humanos. Minhas memórias não tem acesso algum. — ela disse mais baixo tentando esconder o rosto entre os cabelos.
— Bom, vamos começar com perguntas mais diretas então. — disse sem me importar com ela, que já estava ficando assustada. — Quantos eles são?
— Eu não sei! — ela respondeu empurrando o medo para um lado e buscando se tornar mais forte.
— Onde eles estão?
— Eu não sei!
— Para onde eles estavam indo naquela noite?
— Eu não sei!
— Quem são aqueles que estavam com ela no carro? — apontei para a hospedeira.
— Eu não sei! — ela dizia aquelas palavras no modo automático. Enfatizando cada uma delas.
— Você sabe quantos olhos você tem? — disse meio que gritando já estava cansado desse joguinho de mentiras que pareciam verdades.
— Eu nã... — ela parou a frase e olhou para mim com os olhos arregalados. — Por que fica me perguntando essas coisas. Eu não sei de nada sobre os humanos que estavam com Peregrina, não sei onde eles estão, não seus nomes. Por que insiste? Eu também gostaria de saber sobre eles, mas não sei. Não consigo encontrá-los em minhas memórias. — ela começou a chorar, estava dizendo a verdade eu sabia disso. Cheguei mais perto dela e afaguei seus cabelos. Ela me abraçou e chorou mais forte molhando toda a minha camiseta. Não sabia onde clocar os braços então a envolvi como uma criança que acabou de se machucar após correr e cair no chão.
— Me desculpe. — essas palavras saíram de meus lábios sem nem ao menos eu ter permitido. Saíram como um sussurro. Ela se acalmou e olhos nos meus olhos pela primeira vez naquele momento.
— Eu não sei seu nome. — disse enxugando as lágrimas com as costas das mãos. — Me chamo Raios da Lua sobre o gelo, mas acho que você já me conhece o suficiente.
— Prazer, John. — respondi me afastando dela e abaixando o olhar. — Acho melhor você comer seu lanche. — disse apontando para a bandeja de biscoitos na mesinha ao lado cama, apenas para fugir daquela conversa inesperada.
— Sim, é melhor. — respondeu me oferecendo um dos biscoitos. Neguei com a cabeça e voltei a me sentar na cadeira no canto do quarto.
As cenas ocorridas a poucos minutos atrás passavam na frente de meus lhos como um filme. O que fazia com que eu não parasse de pensar em Lua. Era estranho. A descobertas de sentimentos que nem ao menos sabia o nome fizeram com que um pouco do casulo de gelo que me envolvia se derretesse, sentimentos que eu nem sabia que poderiam vir a existir em mim. Eu não me conhecia mais.
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