A Hospedeira 2 - Depois do fim
8 Capítulo 8 - Coração arrancado
Notas iniciais
POV — Lua
John não parecia ser uma pessoa fria. Talvez um pouco fechado, mas não do jeito que aquele interrogatório o fez parecer. Mas como todo gelo derrete não demorou muito para que ele mostrasse seu melhor lado. Eu realmente não sabia as respostas para as perguntas dele, Peregrina não havia liberado nenhuma brecha para que eu entrasse em seu mundo. Mas e se eu soubesse as respostas? Eu lhe contaria a verdade? Eu não sabia. Quanto mais perguntas ele fazia mais frustada eu ficava. Ele parecia ficar bem nervoso a cada uma de minhas respostas. Seu semblante se fechava a cada uma de minhas palavras, até que soltou uma pergunta idiota cheio de fúria que fez com que minhas estruturas se rompessem me fazendo desabar em lágrimas soltando tudo que queria falar. Tudo o que eu sentia em relação aquilo. Após minhas palavras saírem como jorro entrelaçadas aos soluços enterrei meu rosto em minhas mãos tentando me esconder de tudo. John acaricia meus cabelos com uma de suas mãos e sem pensar me jogo em seus braços o abraçando e chorando cada vez mais forte encharcando sua camisa com minhas lágrimas. Seus braços, primeiro sem saber o que fazer, logo me envolveram me embalando como um pai faz com sua filha quando acaba de cair no chão se machucando.
"Me desculpe."
Foi tudo o que ele disse. Mas essas simples palavras acalmaram todo o meu coração. Olhei em seus olhos que transmitiam, ao redor de seu verde esmeralda brilhante, amor. Me afastei dele e enxuguei as lágrimas que ainda rolavam pela minha face com as costas das mãos.
— Eu ainda não sei seu nome. — disse tentando acalmar aquela cena que acabara de ocorrer. — Me chamo Raios da Lua sobre o gelo, mas acho que você já me conhece o suficiente.
— Prazer, John. — ele respondeu abaixando o olhar e se afastando mais um pouco de mim. — Acho melhor você comer seu lanche. — ele apontou para os biscoitos ao lado cama, ao que me parecia, apenas para fugir de qualquer outro assunto que pudesse vir a ocorrer.
— Sim, é melhor. — respondi pegando a bandeja e oferecendo um dos biscoitos a ele, que negou com a cabeça e foi se sentar de volta na cadeira no canto do quarto.
Comecei a comer um dos biscoitos e os enjoos voltaram a me perturbar. O filhinho de Peregrina não iria nos deixar comer nunca? Mesmo assim me concentrei em comer sabendo que mais tarde iria colocar tudo pra fora. As vezes pegava John me observando com o canto dos olhos ele parecia muito concentrado em alguma coisa que passava em sua cabeça.
Peregrina não se manifestou mais depois que a nossa "conversa" fora interrompida. Ela estava lá, mas se mantinha distante, talvez pensando em sua vida deixada para trás. Não a perturbei. Não havia mais nada que pudesse fazer. John continuava sentado na cadeira longe de mim, Peregrina estava distante, a maior parte dos biscoitos haviam acabado, os enjoos continuavam, e a noite caia lentamente por fora da pequena janela envidraçada. Eu não podia fazer nada a não ser tentar dormir. Virei-me para o lado e fechei os olhos.
—Jamie tome cuidado com isso. — disse Melanie aborrecida com Jamie que segurava uma caixa com barras de granola, pacotes de biscoitos, e algumas maçãs.
— Mel, deixe o menino! Ele só está animado. — Disse a ela que olhava para ele sumindo em direção a sala de jogos.
Havíamos acabado de jogar uma partida de futebol e ficamos encarregadas de levar o lanche para todos que ainda estavam lá. Jamie levava a caixa mais pesada, devido a sua teimosia. Melanie e eu carregávamos cestas com pacotes de biscoitos crocantes com gotas de chocolate por cima.
— Nosso Jamie está crescendo! — ela suspirou com um sorriso triste nos lábios.
— Sim, está! Lembro-me de quando chegamos aqui e ele ainda era bem menor. — respondi com o mesmo sorriso triste usado por ela.
Entramos na sala de jogo e fomos recebidas por Ian e Jared que pegaram as cestas de nossas mãos dizendo que não queriam que carregássemos coisas pesadas. Mel e eu soltamos um suspiro indignado cruzando os braços. O que fez com que Ian me abraçasse por trás deixando uma trilha de beijos pelo meu pescoço.
— O que foi querida? Não posso me preocupar com a mulher mais linda do mundo?
Não respondi.
— Peg! Pare com isso! Você sabe que eu te amo e que não quero que se machuque não é mesmo?
— Isso não quer dizer que não posso fazer nada! — minha voz saiu fria e rígida.
— Não, não quer dizer! Mas também não quer dizer que não posso te ajudar quando estiver livre. — se virou de frente pra mim olhando em meus olhos. O fogo gelado que queimava em seus olhos de safira.
— Me desculpe! — minhas voz provocativa e doce. O abracei.
Ele se afastou de mim e pegou meu rosto com as duas mãos. Um beijo leve e suave que fazia com que a lava derretida escorresse de nós moldando-nos como um só. Eu o amava.
Me despertei num susto. Minhas mãos suavam frias e lágrimas silenciosas escorriam pelas minhas bochechas. Peregrina continuava calada num canto de minha mente. Agora uma parte de peito havia sido arrancada de mim. Doía. A saudade de Ian doía tanto em mim quanto em Peregrina. Era difícil ter de suportar a dor de nós duas que chorávamos caladas olhando para a Lua e lembrando-me dos olhos azuis que faziam meu coração se dilacerar. A lembrança que eu tanto queria finalmente havia chegado até meus olhos. E essa lembrança fez com que meu coração parecesse arrancado.
Meu estomago se revirou com força. Peguei uma vasilha que estava por perto e coloquei tudo o que havia comido para fora. O barulho fez John, que ainda estava sentado na cadeira, só que adormecido, se despertar e vir correndo até mim segurando meus cabelos e evitando com que eu caísse para fora da cama. Quando terminei e coloquei a vasilha no chão John se virou para mim, olhando-me com cuidado.
— Tudo bem? O que houve? Quer que chame Flores para o sol?
— Não, me sinto melhor. Obrigada.
— O bebê não te deixa em paz não é mesmo? — perguntou com olhando para mim com preocupação.
— Não, não mesmo. — respondi sorrindo meio de lado para John.
— Ma não parece ser só isso. Está realmente bem? Não aconteceu nada?
— Tive um sonho que me perturbou um pouco. — respondi hesitando um pouco.
— Sonho? Com quem? Com o que? — perguntou olhando em meus olhos. Ele realmente parecia muito preocupado comigo.
— Não me lembro bem. Mas me machucou. — respondi. Eu confiava em John, não sabia exatamente porque, mas confiava.
Ele me abraçou fazendo com que novas lágrimas surgissem em meus olhos e escorressem. Não lágrimas aflitas mas lágrimas doloridas. Senti meu coração se juntando. A dor que parecia inacabável estava se acabando o abraço de John me acalmava e fazia com que eu me sentisse bem, amada. Ele começou a cantar uma canção para mim, e adormeci ali, em meio de seus braços.
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