A História dos Selvagens - Parte 2 - Raiva
8 Lucas: Um dia, eu juro que enlouqueço
Eu não conseguia acreditar no que meus olhos viam. Por um momento, cheguei a pensar que eu finalmente havia enlouquecido, mas meus amigos também pareceram ver o homem de branco. Eu jurei a mim mesmo que da próxima vez que a mãe-natureza aparecesse num de meus sonhos, eu ia tentar estrangulá-la.
O Governante arqueou as sobrancelhas:
_Perdão, algum problema?
Eu me obriguei a afastar meus pensamentos e voltar à realidade. “Se ele está aqui, é porque vai nos ajudar”, pensei.
_Ahn, nos perdoe, é que nunca vimos num lugar como esse antes, e... bem, é bem diferente do que eu pensava.
Tatiane e Vitor também pareceram voltar à realidade, e assentiram para confirmar minha história. Devo dizer que a sala era realmente diferente do que eu esperava que fosse. Sabe, eu esperava que fosse algo tipo um seriado, com o cheiro e a fumaça de um incenso, um cara com um pano enrolado na cabeça, e coisa do tipo. Mas aquela era uma sala comum. Quase dava pra imaginar eu e minha família ali, num almoço de domingo, ou coisa do tipo.
O Governante sorriu de um modo amigável:
_Então, creio que eu deveria ajudar vocês, já que é a primeira vez de vocês aqui.
_Sim, por favor._ Disse Tatiane, com a voz tremendo.
Ele sentou-se numa cadeira em um dos lados de sua mesa, e fez sinal para que sentássemos em três cadeiras que estavam do outro lado. Obedecemos. Ele, então, colocou as mãos sobre as mesas, e suspirou.
_Tem algo que queiram saber?
Eu, Tatiane e Vitor balançamos a cabeça negativamente. O Governante assentiu, recostando-se na cadeira.
_Então, o que os trazem aqui?_ Perguntou, olhando diretamente nos nossos olhos (quase dando pra os sentir revistando a minha alma).
Tatiane e Vitor olharam pra mim. Eu ia responder “nada”, mas algo (não me pergunte o quê) fez com que eu hesitasse.
_Ahn..._ Comecei. _Bem, eu tenho tido uns sonhos estranhos.
Vitor e Tatiane olharam pra mim, como se eu fosse um louco. O Governante voltou a colocar as mãos sobre a mesa, chegando mais perto da ponta da cadeira.
_Sonhos?
_Sim._ Gaguejei.
_Que tipo de sonhos?_ Ele me olhou, definitivamente revistando cada pedaço da minha alma.
_Ahn, nesses sonhos, eu estou num mundo devastado._ E comecei a explicar a ele tudo que eu havia ouvido nas fitas, tirando os sonhos do próprio Fernando. Quando terminei, Tatiane e Vitor ainda me olhavam como se eu fosse louco, mas o Governante pareceu não ter reação.
_Hm._ Murmurou. _Isso é realmente muito estranho. Garoto, será que posso conversar com você a sós?
Eu olhei pra Tatiane e Vitor. O olhar deles me dizia que era melhor não, mas eu tinha que saber até onde aquilo ia. Além disso, a mãe-natureza disse que estava nos tentado ajudar na medida do possível, e eu torcia para que aquilo significasse que ela nos protegeria de alguma forma.
_Sim._ Respondi, finalmente.
Apesar de meio contrariados, Vitor e Tatiane saíram da sala. Quando eles fizeram isso, o Governante voltou a recostar-se na cadeira onde estava. Ele suspirou, fechou os olhos, e quando os abriu, eles estavam verdes.
_Você sabe quem eu sou, não sabe?_ Perguntou.
Eu tive muita vontade de responder sarcasticamente, mas me segurei e simplesmente assenti.
_Ótimo. Faz muito tempo que não nos vemos.
_Devo dizer, preferia que fosse muito mais tempo._ Falei. _Na verdade, nunca mais queria te ver.
O Governante assentiu.
_É compreensível. Saiba que eu também desejava isso.
_Então, por que está aqui? Achei que Fernando...
_O que Fernando fez não me atrapalha aqui._ Ele falou, com as sobrancelhas arqueadas.
_Por que não?
Ele suspirou.
_Escuta aqui, garoto. Eu estou aqui pra te dar respostas, mas não vou aceitar perguntas. Entendido?
Eu suspirei, fechei os olhos e assenti. Fiz um sinal para que ele falasse.
_Devo dizer, você compreende a situação de uma forma bem melhor do compreendia antes. Isso ajuda muito._ Ele fez uma pausa, como se esperasse receber um “obrigado”, mas isso não aconteceu. _Mas você ainda tem que entender muita coisa. Você e Fernando. Acredite se quiser, mas ele está tão confuso quanto você.
_É, mas Fernando tem uma espada._ Retruquei.
_E você tem seus pais._ Rebateu ele. _Agora, só escuta o que eu tenho a dizer. Seus amigos vão te ajudar muito, mas vai ser você que terá de resolver isso. Assim como terá de ser Fernando a resolver a questão Governo-Revolucionários. Não tenha medo do seu futuro. Apesar de você achar o contrário, você e Fernando são bem parecidos.
Ele fez sinal para que eu falasse algo, mas eu simplesmente não tinha nada a falar ou fazer, apenas absorver as informações.
_Tem mais algo que você queira dizer?_ Perguntei, e o Governante balançou a cabeça negativamente.
Eu levantei da cadeira e saí da sala, sem sequer olhar pra trás. Quanto mais cedo deixasse aquele lugar pra trás, melhor. Eu sabia que as palavras do Governante iam ficar na minha cabeça por muito tempo.
Tatiane, Vitor, e minha mãe vieram ao meu encontro.
_Então, como foi?_ Perguntou Tatiane.
_Ele se revelou._ Falei. _Ele realmente era o Governante.
Meus amigos receberam a notícia como uma pessoa recebe um soco. Minha mãe se limitou a olhar pra mim com um olhar de preocupação.
_O que devemos fazer agora?_ Perguntou Tatiane.
_Ir pro hotel._ Falei. _Dormir. E amanhã, assim que acordarmos..._ Eu pensei por um instante, e tomei a minha decisão. _vamos à praia.
Tatiane olhou pra mim, surpresa, mas Vitor pareceu feliz com a decisão.
_Finalmente vamos fazer algo legal._ Falou ele, e eu não pude deixar de sorrir. Tatiane até tentou reclamar quando chegamos ao hotel, mas nada poderia me fazer mudar de ideia (nem mudar a ideia da minha mãe, que me apoiou dizendo que eu precisava mesmo fazer algo pra me divertir).
_Você tem um plano, não tem?_ Indagou Vitor. _Era pra gente visitar o farol, não era?
_Sim e sim._ Respondi. _Mas, sei lá. A gente tem tempo, não tem? O farol vai continuar lá, não vai?
Vitor assentiu, sorrindo, embora eu sentisse que de alguma forma, ir à praia só me traria mais problemas.
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