A História dos Selvagens - Parte 2 - Raiva

9 Fernando: A verdade sobre meu passado


Eu entrei nos corredores subterrâneos. O lugar parecia muito fantasmagórico, e me deixou com calafrios. Para minha surpresa, porém, era muito bem iluminado.

Eu comecei a fazer meu caminho, lembrando mais ou menos dos corredores da superfície. Algo que ajudava bastante era que em todos os alçapões havia os nomes das salas às quais levavam. Cada passo meu ecoava no chão de mármore, fazendo um eco que parecia se prolongar para sempre.

Eu comecei andar mais rápido. Não sabia o quão grande era a sala de relatórios, mas devia ser a maior sala do Governo, pelo fato de ter relatórios de todo ser humano na região. Achar o da minha mãe e do meu pai seria como achar uma agulha no palheiro.

Demorou uns cinco minutos até eu chegar ao alçapão que levava à sala de relatórios. Eu entrei e soube imediatamente que meus tremores eram reais. A sala de relatórios era, sem dúvida, a maior sala do Governo. Estantes de cerca de 15 metros de altura guardavam vários relatórios, guardados lado a lado. Havia cerca de 20 estantes, e eu percebi que era mais ou menos uma para cada letra do alfabeto, e eu percebi que seria impossível achar os relatórios do meu pai e da minha mãe. Quero dizer, eu sabia o nome do meu pai, mas não sabia o da minha mãe. Não tinha como eu ir chutando do “a” até o “z”.

“Você consegue, Fernando”, disse a voz da minha mãe na minha cabeça, fazendo com que eu me sobressalta-se. “Você sabe o meu nome, só precisa lembrar”.

“Ora, por que você não fala logo?”, perguntei mentalmente, irritado. Como não obtive resposta, eu comecei a me concentrar. Eu vasculhei em todos os cantos da minha memória (até uns que eu nem lembrava que eu tinha), e o nome dela veio. Imediatamente, comecei a correr pra estante correspondente e procurei. Demorou quase um minuto pra achar o relatório com o nome e a foto da minha mãe.

_Mamãe já foi._ Sussurrei pra mim mesmo. _Agora, cadê você, papai?

Eu só tive que andar uma estante pra começar a procurar. Foi bem mais rápido achar o relatório do meu pai. E então eu comecei a ir em direção ao alçapão, mas hesitei. Será que eu tinha um relatório? Eu já ia pensando em andar naquela direção quando uma voz (que dessa vez não estava na minha cabeça) me assustou.

_Ei, quem está aí?_ E, quem quer que fosse que havia falado, ligou uma lanterna.

Eu corri na direção do alçapão, sendo imediatamente perseguido. Eu ouvi o homem falar que havia um intruso na sala de relatórios, e comecei a correr mais rápido. Finalmente, eu cheguei no alçapão. O soldado (ou eu imaginava que era um soldado) que me perseguia avisou que eu havia entrado no subsolo. Em poucos minutos de perseguição, já haviam uns 10 soldados me perseguindo. Eu não atrevia olhar para trás, para não dar a chance de eles me reconhecerem.

“Assim não vai dar”, pensei. “Eu tenho que despistá-los, se não, nunca vou sair dessa”.

Foi aí que as coisas começaram a ficar estranhas.

Eu estava sentindo a mesma coisa que eu senti quando os lobos atacaram a mim, e aos meus amigos (algo que parecia ter acontecido há um ano atrás). Eu não tinha consciência do que estava fazendo, eu só estava fazendo. Eu comecei a correr em alta velocidade. O som dos soldados se distanciou, e, de repente, eu voltei a ter consciência. Eu franzi a testa, mas sabia que não tinha tempo de pensar no que aconteceu. Eu olhei para o teto e percebi que havia um alçapão ali. Para minha surpresa, era o alçapão do meu quarto.

Eu o abri, e entrei no quarto. Assim que me coloquei de pé, uma luz veio na minha cara. Eu entrei em pânico, pensando que havia um soldado ali dentro. Mas quando Letícia me deu um abraço de quebrar as costelas, eu me acalmei.

_Onde você estava?_ Perguntou ela.

Eu levantei os relatórios, fazendo com que Felipe (que segurava sua arma na mão, em pé) e Letícia fizessem caretas.

_Você foi sem a gente?_ Perguntou Felipe, indignado.

_Sim._ Respondi, em tom de desafio.

_Por quê?

_Porque eu não queria colocar vocês em problemas.

Felipe fingiu (eu acho) que não entendeu.

_Do que você tá falando?

Eu suspirei.

_Escuta, eu fui perseguido por mais de 10 soldados, e nem sei como consegui fugir. Imagina como seria se vocês dois viessem comigo? Vocês só vieram no Governo por minha causa, e agora estamos cheios de problemas.

Felipe e Letícia se entreolharam.

_Cara, tem noção de que você disse uma coisa muito idiota?_ Disse Felipe, com uma expressão de incredulidade.

Eu franzi a testa.

_O quê?

_É verdade de que estamos aqui por sua causa._ Falou Letícia. _Mas estamos aqui porque somos seus amigos. Faríamos tudo de novo se fosse preciso. Bom, pelo menos eu faria._ E lançou um olhar fuzilante a Felipe.

_Hey, eu faria também._ Protestou ele. _Agora, por que não lemos logo esses relatórios?

Eu dei um sorriso (provavelmente muito idiota) e tentei falar o quanto estava agradecido, mas eu não consegui encontrar palavras. Então, me sentei na cama, entre Felipe e Letícia, e abri primeiro o relatório da minha mãe. Letícia apontou a lanterna para o relatório, para que eu pudesse enxergar (logicamente).

O relatório tinha duas páginas. Falava que o nome dela era Mônica Sanchez, dizia que era eco sobrevivente, era esposa do meu pai, Nicolas Lima, e tinha um filho, eu, Fernando Lima. Havia nascido em 7 de julho de 2000. Eu fui lendo o restante do relatório, de um modo apreensivo, e demorei um segundo pra perceber o que a última linha dizia. Eu li de novo, então, e congelei. Felipe e Letícia olharam pra mim, com uma expressão de descrença. Eu senti lágrimas de raiva e tristeza virem ao meu rosto.

A última linha dizia que minha mãe havia sido assassinada pelo meu pai.