A História dos Selvagens - Parte 2 - Raiva
7 Fernando: Aliado ou inimigo?
Jaqueline bateu na nossa porta por volta das seis horas da noite. Acompanhamos ela até o refeitório, onde nos sentamos à mesa que estava mais à esquerda. Jaqueline se sentou entre mim e meus amigos, o que me deixou meio tenso.
Ela disse que o "dia de notícias" começava por volta das seis da noite. Por algum motivo, houve um atraso naquele dia. Jaqueline aproveitou esse atraso para conversar comigo.
_Ahn, Fernando, posso te perguntar uma coisa?
"Tô ferrado", pensei.
_Claro._ Falei vagarosamente.
_Somos amigos, não é?_ Perguntou ela, fazendo uma careta.
_Ahn, sim._ Respondi, sem muita segurança.
_Então,... me diz, você já pensou em desistir de tudo?
Eu franzi a testa.
_Como assim?
_Sabe, esquecer de tudo o que você já passou. Esquecer a sua realidade e tentar achar uma nova.
Eu não achei uma resposta para aquilo, então, "respondi" com uma pergunta.
_Por que me pergunta isso?
Ela deu de ombros.
_Você sabe como a vida sem os pais é difícil. Às vezes, parece até sem sentido.
_Sim, eu sei de tudo isso.
_Então, você pensa em desistir?
Eu tive que pensar um pouco mais. Dessa vez, achei a resposta.
_Pensar, eu penso. Afinal, eu vivo no meio de uma floresta.
Ela olhou pro nada por alguns segundos.
_E como você faz pra eles irem embora? Digo, os pensamentos.
Suspirei.
_Bem, eu tento pensar que isso é uma vantagem, e não o contrário.
Ela franziu a testa.
_Como assim?
Eu dei de ombros.
_Eu penso: "Hey, eu consegui viver 15 anos sem os meus pais, por que não conseguiria viver mais um dia, mais um mês, mais um ano?"
Ela assentiu, embora parecesse que ainda não havia entendido.
_E você?_ Perguntei. _Você já pensou?
Ela assentiu.
_E o que você fez?
Ela suspirou e fechou os olhos. Estávamos entrando num assunto delicado.
_Eu tentei fugir._ Disse ela. _Duas vezes.
Eu arqueei as sobrancelhas.
_Como?
_Quando eu tinha doze anos, eu estava cansada e deprimida. Estar no exército era, e ainda é, muito difícil. Temos leis próprias a cumprir, além das leis públicas. Temos um treinamento muito mais duro, e trabalhamos duas vezes mais do que qualquer outro. Eu pensei que não ia aguentar.
Ela olhava pro nada enquanto falava, e continuou olhando quando terminou. Eu olhei para ela, um tanto quanto impressionado. Sempre pensei que a vida fora da floresta era fácil. Agora, não tinha tanta convicção naquilo.
_Por onde você tentou fugir?_ Indaguei, pensando que a resposta talvez fosse útil.
_Há túneis no subsolo do Governo. Todos os cômodos têm uma saída de emergência que levam até esses túneis. E há uma saída na porta do Governo.
Eu assenti, descobrindo como eu ia para a sala de relatórios.
Jaqueline olhou para uma mesa que estava no centro do refeitório. Um homem de pele escura e com barba estava sentado àquela mesa. Parecia que esperava um toque, pois tinha cara de ansioso.
_Vai começar._ Disse Jaqueline.
O homem se levantou, e imediatamente, o burburinho que havia no refeitório cessou. Ele, claramente, era o líder. Usava camisa branca, como quase todos, mas usava um casaco azul claro.
_O que aquilo significa?_ Perguntei no ouvido de Jaqueline.
_Significa que ele era um cientista, antes de ser Governante.
_Governante?
_É como chamamos o líder do Governo.
_E qual o nome dele de verdade?_ Perguntei, de testa franzida.
Ela olhou pra mim, muito séria.
_Acho que você vai descobrir.
Eu não sabia o que aquilo queria dizer.
O Governante pigarreou. Tinha cara de confiante, mas sua postura denunciava o contrário.
_Senhores,..._ Disse ele. _Vivemos mais uma semana. Muita coisa aconteceu, e esse dia é reservado para noticiar tudo._ Aquelas palavras pareciam ensaiadas. _Cientistas, o que vocês tem pra me contar?
Um homem se levantou da mesa que estava na outra ponta do refeitório. Usava uma camisa da mesma cor do casaco do Governante.
_As florestas parecem estar crescendo. Acho que isso se deve ao fato do grande número de eco sobreviventes em nossa sociedade.
_Os camisas azuis escuras nos ajudam bastante._ Disse o Governante. Apenas eu parecia ter ouvido aquilo. _E quanto à camada de ozônio?
_Está na mesma._ Disse o cientista, com uma expressão que parecia pedir perdão.
O Governante suspirou, e pareceu dizer "sempre está" para ele mesmo.
_Soldados._ Chamou o Governante. _ O que vocês têm a dizer?
Alex se levantou da mesa onde a gente estava. Respirou fundo antes de começar a falar.
_Os Revolucionários atacaram duas cidades. A Cidade da Floresta e a Cidade do Mar. Na Cidade da Floresta, eles não fizeram nada. Na Cidade do Mar, eles sequestraram algumas pessoas. Teria sido pior, mas, aparentemente, três adolescentes mataram dois Revolucionários e fugiram, dando chance para alguns reféns fugirem também.
O Governante ia responder, mas foi interrompido por um homem que estava sentado ao lado dele.
_Falando em três adolescentes, senhor._ Disse o homem. _ Temos três novos "habitantes".
_Se levantem._ Sussurrou Jaqueline.
Eu, Felipe e Letícia obedecemos. Comecei a sentir todos os olhos em cima de nós. O homem ao lado do Governante disse:
_Eles são eco sobreviventes.
O Governante ficou tenso imediatamente. O burburinho do refeitório começou de novo. " O que fazem aqui?", ouvi um perguntar. "Mais três sequestrados? Achei que ele havia parado com isso" disse outro.
_Silêncio!_ Gritou o Governante, fazendo todos se calarem. _Digam seus nomes._ Ordenou ele, olhando para nós.
A primeira a se pronunciar foi Letícia. Depois, Felipe falou nome e sobrenome.
_Fernando, senhor._ Disse, quando chegou a minha vez.
_Fernando de quê?_ Perguntou o Governante, com uma sobrancelha erguida.
Eu temia que ele perguntasse aquilo. Naquele momento, fiquei em dúvida se falava o sobrenome do meu suposto pai (Lima), ou se falava que não tinha um. Respirei fundo.
_Fernando..._ Estava pronto para falar "Lima", mas Jaqueline interrompeu.
_Ele não tem sobrenome, senhor. Ele nunca conheceu os pais.
Eu tive medo que o Governante desconfiasse daquilo. Porém, ele fez algo estranho. Olhou pra mim, e pareceu me reconhecer. Fez uma careta, e se dirigiu a outra pessoa.
Eu franzi a testa e me sentei. Jaqueline também se sentou.
_O que foi aquilo?_ Perguntei.
_Não tenho ideia._ Disse ela com uma expressão preocupada. Ela sabia do que eu estava falando.
Olhei para meus amigos, procurando uma resposta, mas eles pareciam perdidos também.
O resto da reunião foi totalmente entediante. Quando finalmente terminou, Jaqueline levou eu e meus amigos de volta para nosso quarto. Eu estava logicamente ansioso. Eu não ia dormir naquela noite. Procurei a tal saída de emergência que Jaqueline havia falado. Achei ela num canto da cozinha. Esperei Letícia e Felipe dormirem para arrumar minhas coisas. Peguei a espada e uma lanterna (onde eu havia conseguido uma lanterna?). Depois, peguei a máscara de bode. Fiquei indeciso em levar ela ou não. Decidi deixá-la ali, para não arriscar.
Fui para a saída de emergência (que, por sinal, tinha o formato de um alçapão). Pensei duas vezes antes de abri-la, mas então, decidi que era hora de descobrir a verdade. Abri o alçapão e desci para o subsolo.
Eu não sei se aquela foi a melhor ou a pior decisão que eu já tomei.
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