A História de Karin
26 O Despertar dos Relâmpagos
Notas iniciais
Soul Society
A Sociedade das Almas sempre reinou em poderio e excelência porém a ambiguidade perfurou seus pilares considerados indestrutíveis, a devastação e a incerteza no amanhã aterrorizavam todas as almas. Muitos esperaram uma reacção positiva dos shinigamis, uma reviravolta do panorama, porém isso não aconteceu. O caos prosseguiu e mais shinigamis se convertiam aliados dos quincys, destruindo aos poucos toda a esperança que ainda existia.
No Departamento de Desenvolvimento Tecnológico, o capitão Kurotsuchi estava focado em seus relatórios, após explorar minuciosamente cada uma de suas cobaias recentemente adquiridas. Enquanto remexia na papelada, a sua tenente adentra pela sala encurvada, um claro sinal de respeito e reverência.
— Nemu.
— Hai, Mayuri-sama.
Mayuri mantinha um olhar intransigente, longe de qualquer entretenimento conforme seu queixo estava enrugado acompanhando a severidade de sua voz intimidante.
— Os hollows são mais espertos do que julgava… Supunha que fossem meros parasitas, que se infiltravam no corpo dos shinigamis.
Nemu não se atreveu a interrompê-lo, escutando silenciosa contudo curiosa. Era raro um detalhe passar despercebido a seu capitão, quanto mais um erro, e principalmente quando ele reconhecia sua falha.
— Mas eles podem apoderar-se também da mente dos shinigamis, devem usar métodos psicológicos para os abalar e os governam desse jeito.
— Se me permite perguntar Mayuri-sama, como então os podemos fazer voltar ao normal?
Sem responder, o cientista direcciona-se para a tenente que sentiu-se levemente amedrontada quando deparou-se com os olhos acusatórios.
— Nunca percebes nada mulher. Nós não podemos fazer nada nesse caso. Um corpo se move pela sua mente, os nossos membros são comandados pelo cérebro. Se os shinigamis chegaram a perder essa capacidade de pensar é como se tivessem morrido…
Os olhos cintilantes da tenente se esbugalharam, os seus lábios entreabertos numa exclamação inevitável.
— E os capitães… Tenentes… Muitos estão sob o domínio dos quincys…
— Esperemos que seja só pelo corpo, não é fácil manterem-se sãos mas é possível resistirem. Mesmo sendo escassa essa possibilidade. Com certeza, a maioria dos que estão na mão dos hollows não terão salvação.
Mayuri faz uma ligeira pausa para suspirar, tentando relaxar seus músculos tensos. Ele decide sentar-se na sua poltrona, acabando de preencher o relatório para o Capitão Comandante onde revela os resultados de suas pesquisas.
— Independentemente do que se suceda, a Seireitei se tornará um deserto. Muitos líderes nossos se perderão, a desordem permanecerá mesmo que vençamos esta guerra…
Nemu recebeu o relatório silenciosa, saindo cordialmente do laboratório, vendo pela primeira vez seu capitão alarmado com um determinado assunto. Inesperadamente ela recordou-se do quicy que a tentara ajudar, não conseguindo acreditar que ele era um dos que estava por detrás daquele plano macabro. Não evitou ficar deprimida por serem inimigos novamente mas rapidamente decidiu esquecer esses sentimentos incoerentes, substituindo-os por seus deveres e obrigações. Ela teria de ser cautelosa, aquele relatório não poderia cair em mãos erradas... As informações eram sigilosas, não poderiam ser divulgadas a toda a comunidade, isso iria instalar mais pânico e desordem. Naquele momento nada era mais importante que a restauração da paz e da ordem.
Kira e Momo encontravam-se um pouco afastados do Quarto Esquadrão esperando pela terceira oficial. Quando Karin aproximou-se deles, pode vislumbrar Matsumoto a dialogar com os mesmos. Ao acercar-se acaba por chamar a atenção dos três tenentes, deparando-se com as suas cómicas expressões quando constataram o seu recente acessório.
— Kurosaki-san encontrou o Capitão Hitsugaya?
— Iee…
— Então como tem o cachecol do taicho, Karin-chan?
A morena entrelaçou seus dedos numa ponta do tecido, remexendo carinhosamente nele, não percebeu que um sorriso se alargava por toda a sua face enquanto recordava o seu reencontro com o Toushirou. Embriagada com a felicidade, não captou o olhar atento de Momo sob si, sendo seus gestos analisados detalhadamente.
— Quando lutámos ele o deixou cair… Só o estou a usar, até poder devolve-lo…
— Que kawaii, Karin-chan!
— Uma atitude nobre, Kurosaki-san.
A ruiva eufórica e saltitona, não deixava de sorrir pelos sentimentos claramente expressos de sua amiga, foi abraçá-la como se assim a felicitasse. Não reparando que sufocava a mesma, que remexia seu rosto entre o avantajado peito de Matsumoto, procurando uma abertura para poder respirar. A tenente não alonga muito o momento separando-se de Karin, sem contudo desmanchar seu sorriso. Estava claramente animada.
— Quando vamos procurar o taicho?
— Nani? Como soube…?
A Kurosaki ficou surpreendida e ligeiramente ofendida, obviamente ela sabia que podia contar com o apoio de Rangiku mas não era suposto ela saber... E quanto mais pessoas conhecessem esse plano, mais riscos correriam de não o poder praticar. Hinamori interrompe o diálogo, respondendo à pergunta, uniforme e abatida, feita pela morena.
— A Rangiku-san veio visitá-la, e eu decidi melhor contar-lhe o nosso plano. Se desaparecêssemos poderia pensar que também virámos zombies e criar um enorme alarido, muitos nos iriam procurar e se nos encontrassem normais seria complicado justificar nosso comportamento.
— Hinamori-san isso irá acontecer.
— Eu sei Kira-kun, mas quanto mais tarde melhor... Irá dar-nos o tempo que precisamos.
— Hai Karin-chan porque não me contou!? Que cruel!
— Tem de voltar.
— O quê? Mas eu quero ajudar o taicho!
— E o nosso esquadrão? Quem o irá orientar? Sem capitão, sem tenente e sem terceiro oficial… Seria um desastre! Não podemos permiti-lo afinal temos de defender a honra do nosso bantai custe o que custar. E também precisamos de alguém infiltrado caso descubram alguma coisa, precisamos de você para nos informar.
A decepção e o espanto eram nítidos na expressão de Matsumoto mas esta modifica seu assombro por um sorriso fraterno. Karin tinha razão! A ruiva sentiu-se imensamente orgulhosa da menina-mulher que ela conheceu desde a sua estadia no Mundo Real. Sempre a caracterizou como forte e valente, todavia só agora compreendera o alargamento dessas qualidades.
— Capitão Komamura!
Todos se viram na direcção que o tenente Kira exclamou, assustados conforme encaravam a impotente figura com rosto de lobo, vendo-o a remexer em suas orelhas. A recente recruta do décimo esquadrão tremeu sob a roupa disfarçadamente, com temor de que agora pudessem ser impedidos de procurar o Toushirou, ia implorar caso fosse necessário pela sua compreensão e que ele ignorasse o que escutou, que só queriam salvar um nakama.
— Eu não ouvi nada.
O choque foi geral, todos sem nenhuma excepção foram surpreendido pela sua atitude. Contudo a Kurosaki foi a única que não se preocupou em disfarçar a felicidade que sentia. Komamura passou directamente por eles, indo visitar alguns feridos no esquadrão médico mas Karin elevou sua voz fazendo com que ele virasse para a encarar.
— Arigato, capitão.
A gratidão e a sinceridade expressas no olhar ónix de alguma forma convenceram Komamura.
— Tem cuidado garota, o Capitão Hitsugaya pode ser jovem mas é muito poderoso… Não será fácil fazê-lo voltar ao normal.
— Eu sei mas estou preparada para o que vier.
— Acredito que vá conseguir.
A morena o encarou admirada novamente mas este já estava demasiado longe para escutá-la e em forma de agradecimento pelo seu incentivo, a Kurosaki coordena os ventos na direcção do capitão, bagunçando delicadamente o pêlo do seu rosto que aceitou o gesto, deliciado com a frescura.
— Conto contigo garota.
Sem dizer mais nada ele some, entre a folhagem. Matsumoto pousa uma mão no ombro de Karin sorrindo em despedida, mas antes se inclina, sussurrando em seu ouvido.
— O distrito 80º de Rukongai tem tido alguns problemas, múltiplos destroços causados por shinigamis descontrolados… Talvez o taicho esteja entre eles.
— Obrigado Rangiku-san.
— Traga o taicho de volta, Karin.
Karin sorriu agradecida e emocionada, vendo a tenente sumir em direcção ao esquadrão delas. Tinha perfeita consciência do quanto Rangiku e Hitsugaya eram unidos, verdadeiros amigos, mesmo o jovem capitão tendo alguns problemas em admitir isso. Sentia-se culpada por afastar a ruiva mas temia as consequências para o décimo bantai. Sem delongas, ela junta-se a Kira e Momo para o local que a tenente indicara-lhe. Ela tinha noção da responsabilidade que acartara, Matsumoto confiava nela e não a podia desapontar.
Ao alcançarem o seu destino logo puderam confirmar as palavras da ruiva. O distrito estava penosamente arrasado. As casas de madeira já frágeis, estavam inabitáveis, e as ruas eram decoradas por fluídos de sangue e fogo que queimava o pouco que sobrara. Para além disso, o grupo de shinigamis chegou numa hora conveniente. Novamente o distrito estava a ser impiedosamente atacado! O trio de dividiu para assim alargarem o apoio aos aldeões que eram violentados por zombies. Karin prende a sua atenção numa criança encolhida num canto que chorava, em pânico com o agressor que a ia perfurar com uma zanpakutou.
— Fujin!
— Hai, pequena!
Karin apercebe-se de os ventos balançarem seus cabelos de uma forma incomum, a reaitsu que rodeia seu corpo, normalmente pacífica estava agressiva como se a chicoteasse com pequenas descargas eléctricas. A brisa que antes reconhecia como um frio agradável agora a empolgava para lutar. A morena pensa ter enxergado um brilho dourado em sua lâmina quando golpeou o shinigami, afastando-o da menina inofensiva. Sentindo-se mal por ter de combater com um companheiro.
— Pequena shinigami, concentre-se.
Ela não compreende ao inicio o significado das palavras de sua zanpakutou, porém seguindo o seu conselho, logo entende. A descarga eléctrica pelo seu corpo a fez sorrir presunçosa.
— Dansu to kagayaki, Ranjin no kaminari ("Dancem e brilhem, trovões de Ranjin")!
O shinigami fora electrocutado pela lâmina de Fujin distanciando-se da morena porém novamente a atacou, com mais potência. Numa medida de protecção, Karin desvia contudo com esse seu gesto a criança quase fora atingida que continuava imóvel no piso. A Kurosaki resmungou baixo, desejando que esta tivesse fugido, segurando o pulso do zombie o rodopiou veloz quebrando-o fazendo com que ele urrasse de dor, nesse instante Karin aproveita o tempo de distracção para tomar a criança desprotegida em seu braço, usando seu próprio corpo como escudo de qualquer investida contra a menina. Tendo na outra mão empunhada a zanpakutou.
A luta estava gratificante para Karin mas subitamente ela sente um ardor em suas costas largando instintivamente a criança, desabando em seus joelhos. Assistiu as chamas que a atingiram devorarem seu adversário, e suspirando levemente pela queimadura em suas costas, olha sob o seu ombro para encarar o atacante cobarde, ficando estática quando o enxerga.
— Nã…o po..de ser…
— Hinamori-san!
Kira mesmo estando longe pode assistir ao golpe de Hinamori a Karin, enquanto esta distraída lutava. Ele não queria acreditar que Momo os manipulara daquela forma… Fazer crer que estavam unidos pela mesma causa para depois a atacar desprevenida!? Que truque desprezível!
A Kurosaki ergue-se com uma ligeira dificuldade, não era nada grave: uma simples queimação que rasgara suas vestes nas costas revelando as fitas brancas que eram usadas para cobrir seu peito.
A tenente caminhava rumo a ela e Karin ia preparar-se para um eventual ataque contudo a Hinamori guarda a Tobiume. Para surpresa da oficial, ela não se dirigia a si e sim à criança estendida inconsciente no solo. A Kurosaki cega de raiva, constata que ela estava morta.
— O que você fez!?
— Esta criança… Era um zombie.
— Como?
Momo ajoelha-se junto do corpo, retirando das mãos pequeninas, um objecto pontiagudo com sequelas de veneno a gotejar, pelo seu estado iria ser usado prontamente, e pela sua cor vigorosa seria fatal. Aquela menina de aspecto angelical e inofensivo estava a pensar matá-la?
— Devem ter pressuposto que alguém viria e por isso ela estaria infiltrada. Como criança nós iríamos protege-la com prioridade e…
— Aproveitavam o facto de um de nós estar concentrado a lutar para nos inocular.
Kira surgiu ao lado delas, uma vez que eliminara os restantes invasores. Hinamori assentiu silenciosa, com vergonha e sentindo-se culpada não conseguia encarar directamente a Kurosaki, focando-se em seus pés.
— Desculpe, tentei não atingir-lhe… Mas se não o fizesse ela iria conseguir injectar-lhe o veneno.
A ex tenente de coque, desviou o olhar para a menina que se convertia em partículas espirituais que fundamentaria a Soul Society, aguardando alguma reacção por parte da Kurosaki. O seu silêncio e a falta de expressividade facial angustiava tanto Hinamori quanto a Kira, que temia que esta não fosse perdoada. Karin deslocou-se até Momo, a deixando inquieta, que se limitava a observar seus movimentos paciente.
A terceira oficial a observou, e agachando-se, inesperadamente abraça Hinamori que fica estupefacta. De todas as possibilidades que recolhera, esta não fora uma delas.
— Obrigada, Hinamori. Desculpe por ter percebido errado…
— Não tem problema, Karin-san.
A tenente, mesmo trémula, corresponde ao abraço no tempo em que Karin sorria estonteante. Fora salva da morte! E isso seria algo que estaria sempre grata a Momo, e ela não só a salvou como lhe deu a oportunidade de reencontrar e ajudar Toushirou, e isso ela nunca esqueceria de lhe agradecer mesmo que tivessem as suas desvaneças.
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