A História de Karin
27 A Hyourinmaru que não machucava
Notas iniciais
Soul Society
O trio de shinigamis se deslocava pela aldeia, rodeados por uma densa neblina que dificultava a visão dos mesmos. Por vezes diferenciavam alguns destroços pelo caminho entre a nuvem próxima ao solo. No meio dessas ruínas, começaram a surgir alguns cristais discretos, os shinigamis sorriram de canto sabendo que o seu alvo estava cada vez mais próximo.
Karin aparentava estar calma no entanto era a mais ansiosa do grupo; seu coração palpitava violentamente contra o seu peito com a antecipação de rever o capitão. Ironicamente, enquanto ela pensava nele, e quando menos se suponha, sem qualquer aviso prévio, ela o vê... Toushirou estava de costas para o grupo e foi-se virando lentamente para os encarar, no tempo em que a terceira oficial prendeu a respiração em êxtase.
— Shirou-chan!
— Matte, Hinamori!
A tenente do quinto esquadrão absorta na euforia lançava-se veloz para a direcção de Hitsugaya, porém Karin a agarra bruscamente pelo braço esquerdo evitando que esta se aproximasse do capitão, surpreendendo não só a morena como o próprio Kira.
— Kurosaki-san? O que está fazendo?
— Não é o Toushirou.
— Nani? Eu reconheço o meu amigo de infância!
— Então veja os olhos dele e diga-me se encontra lá o Toushirou que conhecemos!
Momo ergueu uma sobrancelha céptica, descrente das palavras da oficial. Mas optou por a escutar e atender ao seu pedido, direccionando-se para fitar novamente o capitão do décimo bantai, focando seu olhar no dele, e um pavoroso calafrio desce por sua coluna. Medo! Ela recordava perfeitamente aquele olhar… Era idêntico de quando a atacou. Seus lábios estavam tiritantes, levemente pálidos, e sem perceber seu braço que ainda era segurado por Karin começou a tremer.
Kira já suspeitava de algo estranho no albino e a reacção de Hinamori só confirmara seus palpites. Quando salvara a tenente não teve tempo para analisar o albino e perceber as suas mudanças. Izuru não evitou sentir-se culpado pelo pouco que fizera para socorrer a ex tenente de coque.
— Até quando pretendem ficar aí parados a falarem de mim? Vocês, shinigamis, são ridículos…
A Kurosaki liberta o braço de Momo para o loiro se antepor na sua frente, em posição de combate. Mas a tenente os espanta, recompondo-se e colocando-se em posição de ataque também, acenando com a cabeça confirmando que tudo estava sob controle. O zombie se limitava a entreolhar cada membro do grupo, com desdém.
— Vejo que o lixo recuperou do ferimento que causei, devo-lhe agradecer por ter despertado o meu poder tão cedo...
Hinamori estremeceu ao perceber que o inimigo a reconhecera… Temia que ele mencionasse o beijo. Para além de ser uma situação extremamente constrangedora receava as suas consequências. A sua relação com a Kurosaki podia ficar abalada e principalmente ficava apavorada com o que Kira poderia pensar a respeito desse assunto, apesar de ela duvidar que ele desconhecesse o acto, preferia não arriscar.
— E esse foi quem a salvou não é mesmo? Pelo menos é rápido a fugir.
O tenente Izuru ignorou totalmente a provocação dirigida a si. Não se sentia um cobarde por ter escapado, simplesmente fizera o melhor pela sua nakama. Fora a atitude mais sã nas circunstâncias a que estava subjugado. Salvar Hinamori era a prioridade e não derrotar um zombie.
— E obviamente… Não me esqueci de você, shinigamizinha… Teve sorte uma vez, mas não espere que isso ocorra pela segunda vez. Esses distúrbios do destino são diminutos.
A oficial do décimo esquadrão mirou-o em absoluto desprezo, não se preocupando com nada do que este pronunciava, reconhecendo a sua técnica. Um vulgar jogo psicológico. Seu objectivo era provocá-los e distrai-los, aproveitando as inúmeras aberturas que eles teriam no auge da sua frustração. Deliciosamente, a brisa despertou refrescando os seus pés, balançando levemente o kimono.
Nenhum dos shinigamis tinha conhecimento contudo Hitsugaya presenciava toda a cena. Estava aliviado e feliz por enxergar Momo recuperada e também por não odiá-lo. Do mesmo modo, estava surpreso por deparar-se com o tenente do terceiro esquadrão, arriscando seu cargo para o socorrer. Porém o mais inédito foi a sua subordinada ou melhor o objecto peculiar em seu pescoço. Aquilo era seu cachecol? O que ela fazia com ele? Ou seria mais adequado perguntar: porque ela o usava!?
Karin sempre fora imprevisível, até nos mais pequenos gestos.
Por um lado esse seu lado o assustava, mas por outro o encantava. Nunca iria admitir mas apreciou o que vira, e era obrigado a reconhecer que o objecto lhe assentava na perfeição. Toushirou sorriu, preso em sua mente, infelizmente a curvatura não chegou ao seu rosto. Em vez disso uma carrancuda do zombie era revelada. Este ergue a zanpakutou, enjoado de tanto falatório.
— Souten ni Zase, Hyourinmaru!
O ataque abrangia uma vasta área para desse jeito conseguir atingir os três de uma só vez. Eram insectos que precisavam ser exterminados o mais rápido possível, o hollow não queria desperdiçar muito do seu tempo com quem não merecia nada. Dispensava ter mais trabalho do que o necessário.
Momo ao assistir à mesma investida novamente remete-se para o passado e não evita sentir-se responsável por todo o mal que sucedia. Ela era a causadora de todo aquele trágico incidente… Seu amigo de infância era controlado e dois nakamas estavam em perigo por conta de um desvario seu. Num rápido momento, ela observa Karin e sente uma terrível inveja. A morena estava determinada, decifrou um brilho feroz em seu olhar ónix, certamente não iria desistir. A tenente por um momento quis ser como a outra e principalmente ter o que ela tem… Até mesmo o zombie parecia estar mais interessado na Kurosaki do que nela. E isso a revoltava, queria afogar esses sentimentos dentro de si mas eles sempre voltavam à superfície.
A investida, como era pressuposto, agride os três shinigamis. Kira fora o mais lastimado que tinha sido arremessado contra uma árvore próxima, quebrando os ossos da perna direita; por sua vez, Momo tivera múltiplos rasgões pelo corpo. Contudo, Karin limitara-se a ter suas vestes ligeiramente rasgadas. Singularmente ela não ficara machucada, surpreendendo a todos, inclusive a ela própria.
— Não se preocupe Karin-dono, eu a protegerei.
— Yukino!? E a Fujin...?
— Nesta luta me manuseará a mim... Serei mais útil contra a Hyourinmaru. O gelo dele não me afecta.
— Vocês as duas me ficam a dever muitas explicações depois de isto terminar.
— Como desejar, Karin-dono.
A oficial se ergue sem dificuldades para incredulidade do zombie e dos outros dois shinigamis que testemunhavam a luta. Por algum motivo surreal, o gelo não a lesionava.
Arrepiou-se ao sentir sua costumeira brisa em torno do corpo, como uma resposta à neve usada no ataque do aliado dos quincys… Porém estes ventos não a pareciam proteger mas fundir-se com o próprio gelo.
— Como é possível…? Como esquivou do meu golpe!?
— Ainda não percebeu?
— O quê?
— Eu não esquivei nenhum golpe… Só não me faz efeito.
As palavras da morena pasmou tanto o inimigo quanto o Toushirou que estava cada vez mais interessado nas novas habilidades de sua subordinada.
— Isso é impossível!
Uma curvatura era desenhada no rosto bem moldado de uma Kurosaki presunçosa.
— Ora, ora… Você é ridículo zombie, não consegue perceber algo tão simples?
O hollow rosnou pela resposta à sua provocação anterior. Ela era audaz e perspicaz, até forte, mas ainda não desenvolvera suas aptidões por completo, ele poderia derrotá-la usando essa informação.
— Tenha cuidado Karin-dono, ele vai atacar.
— Se é a minha parte bankai, como me pode ajudar nesta luta Yukino? Eu ainda não…
— Eu sei, mas precisa tentar.
— Agora?
— Karin-dono… A Hyourinamu não a afecta porque sou eu que estou aqui, por ser a sua protecção contra o gelo.
— Se não usar a bankai não terei a barreira contra os ataques de gelo... E os ataques da shikai farão pouco efeito por ser inexperiente e por o inimigo estar no nível de um capitão, é isso que quer dizer?
— Hai. Mas tenho de alertá-la mestre… É um perigo para si usar a bankai, mesmo que a obtenha pode ficar ferida e…
— Me diga o que fazer.
Kira e Momo ficaram estupefactos quando o solo abaixo dos pés da Kurosaki congelou e esta inesperadamente reabre os olhos, invocando sua zanpakutou enquanto seus cabelos negros aclaravam para um branco alvo.
— Sutōmu no Aisu ("Tempestade de Gelo")!
Um clarão súbito vai de encontro ao peito do zombie que ruge de dor, Toushirou cerrou os olhos instintivamente, aguardando a dor que viria. Porém tal como a Karin, os ventos não o feriram, abismando o capitão. Afinal todas as lesões que o seu corpo recebia, mesmo na posse do parasita, ele também iria sofrer as consequências. O albino sorria satisfeito ouvindo os resmungos do hollow que se erguia mas a visão seguinte o alarmou, desmanchando seu sorriso o aterrorizando.
A oficial em segundos alcança a bankai e em milésimos de segundo a perde, retomando à normalidade. Contudo um estranho fenómeno acontece, enquanto a zanpakutou nas mãos de Karin tomba no piso, uma camada cristalina se forma no olho direito ónix, a cegando. Hitsugaya assiste angustiado quando ela desaba inconsciente de encontro à superfície, desesperado ele clama como nunca antes pela libertação de seu corpo.
— Karin!
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