A História de Alastair Tremaine
4 Uma fada no estábulo
Alastair não soube o que dizer. Apenas o abraçou de novo, trazendo a cabeça do loiro para perto do seu peito. A testa dele sujou a boca do ruivo de sangue, mas ele não se importou. Na verdade, beijou-lhe a testa fraternalmente e disse que ia ficar tudo bem. Ficaram assim abraçados por mais algum tempo, ao som dos grilos. Até que Alastair pegou-o pelo braço e o apoiou sobre seus ombros, levantando o rapaz com dificuldade pelo peso dele. O levou aos tropeços até a fonte se sentaram na borda. Então tirou um lenço que usava em seu pescoço e o mergulhou na água, torcendo-o para escorrer o excesso.
O jovem então passou a limpar o rosto do amigo e ali sob a luz do luar, pode ver em seus olhos de animalzinho abandonado toda sua dor e teve de engolir em seco ao perceber que ele estava bem mais machucado do que percebeu antes e seu rosto já começava a inchar. – Consegue andar? – Alastair perguntou passando o lenço úmido gentilmente pela bochecha do rapaz.
— Vou ter que conseguir se eu quiser me atirar no rio que corta este reino e acabar com meu sofrimento ainda hoje. — admitiu James, olhando para o chão.
— Você está doido?! – Alastair se levantou rapidamente, encarando-o feroz. – Você não vai acabar com sua vida. Você… você vai sobreviver a isso! E… – não conseguia pensar em nada para encorajá-lo a viver. Simplesmente não era bom em discursos motivadores.
— Eu não tenho para onde ir, meu amigo. Toda vila vai estar falando de mim pela manhã, rindo de mim ou até me agredindo. E logo todo o reino. Não posso viver assim, aliás, não vou durar mais uma semana desse jeito.
Alastair ficou calado, pensando. Não podia levá-lo para casa, embora quisesse. Sua mãe não aceitaria acolhê-lo. Ainda mais julgando o quanto ela tinha olhado estranho para ele quando estiveram juntos na padaria. Ela deveria já saber de algum rumor maldoso àquela altura. – Certo. – ele disse quebrando o silêncio. – Não posso te levar para dentro da minha casa. Mas me recuso a vê-lo morrer à míngua nas ruas. Temos um estábulo que não usamos na fazenda porque não temos mais cavalos. Só meu irmão entra lá às vezes para pegar alguma ferramenta, mas eu posso lidar com ele. Você me odiaria se eu te pedisse para dormir no estábulo essa noite? Até encontrarmos uma solução melhor para você?
Pela primeira vez James de fato precisava olhar para Alastair debaixo para cima, pois estava sentado. Seus olhos brilhavam e refletiam o lindo céu estrelado. O jovem padeiro sentiu-se como uma criança provando doce pela primeira vez. Não sabia ao certo o que estava realmente provando, mas era inédito.
Partiram vagarosamente pela estrada iluminada pela lua, com James apoiando-se em Alastair e tropeçando muitas vezes. Ao chegarem na fazenda, o menor acomodou o amigo sobre um monte de feno e pediu que aguardasse pois voltaria com lençóis, cobertores e um travesseiro de penas, tudo que pudesse levar para deixá-lo mais confortável.
Entrou na casa e sua mãe proporcionou um espetáculo, reclamando do sumiço do filho. O jovem contou a verdade até certo ponto, falando como foi seu dia até se despedir de Ella. Depois, contou que sofreu uma tentativa de roubo no caminho do palácio à vila e que teve de reagir e nocautear dois dos bandidos antes de fugir e por isso deu uma volta maior, chegando mais tarde na vila e consequentemente na fazenda. Achou que pareceria mais valente se inventasse a história do escape do roubo e que isso contentaria sua mãe. Ela o fez jurar que nunca mais reagiria a um assalto e o mandou dormir. Daniel que assistiu a tudo em silêncio com cara ruim subiu antes, um tanto indiferente.
O irmão mais novo quis esperar que a mãe também subisse e fosse para o quarto dormir, mas ela ficou na sala examinando os papéis das contas sob a luz de velas. Não conseguiria passar pela porta para levar as coisas para James sem que ela notasse.
Subiu contrariado e ficou em seu quarto recolhendo os objetos, aflito com a ideia de que James não estivesse mais lá quando conseguisse voltar. Devia tê-lo feito jurar que não iria embora.
Cansado de esperar e sem ouvir os passos de Lady Tremaine na escada, Alastair tomou a corajosa decisão de sair pela sua janela e ir descendo pelo telhado até alguma árvore por trás do castelo. Assim, amarrou seus pertences em um lençol numa trouxa, incluindo também roupas limpas e um livro qualquer sem escolher. Pegou o lampião, amarrou a trouxa em um de seus ombros e saiu descalço, já com suas roupas de dormir, pelos telhados do castelo. Quase caiu e morreu uma vez, mas conseguiu chegar em segurança até o estábulo. Quanto mais se aproximava da porta, mais seu coração batia acelerado. Por fim abriu a porta e para sua surpresa, lá estava James repousando em um monte de feno já com manchas vermelhas de sangue, que cobriu o rosto para proteger-se da luz do lampião.
O jovem abaixou o lampião e sorriu aliviado, seu coração começou a recuperar um ritmo normal de batimentos. Improvisou uma cama para o amigo e virou-se de costas para que ele colocasse suas roupas limpas, que ficaram um pouco curtas mas pelo menos pareciam largas e confortáveis. Era um conjunto de pijamas antigo feito sob medida para o Senhor Tremaine, pai de Ella, que Daniel e Alastair disputaram, mas Alastair acabou ganhando após socar o olho do irmão.
Alastair disse que teria lhe trazido algo para comer também, mas que sua mãe estava lá embaixo e não conseguiria passar pela cozinha sem ser percebido. James agradeceu e alegou não estar com fome, brincando que já estava cheio por ter bebido muito sangue. Alastair pousou o lampião no chão e mostrou o livro que deixaria para caso James quisesse ler um pouco antes de dormir, só então percebendo que se tratava de um livro de receitas, o que fez ambos rirem. O jovem levantou-se para voltar ao castelo, mas o padeiro agarrou seu pulso e lhe pediu para ficar até que pegasse no sono pois estava com medo de terem os seguido e temia ser espancado de novo até a morte. Que se lhe matassem enquanto estivesse dormindo, era menos mal.
— Que papo covarde para quem queria tirar a própria vida há poucas horas. – Alastair respondeu áspero, arrependendo-se em seguida. – Mas te acharia ainda mais covarde se tirasse a própria vida. – e sentou-se ao lado do rapaz, segurando os joelhos. – Talvez não seja má ideia. Descer por uma árvore foi complicado o suficiente, imagino para subir e sem luz. Posso ficar um pouco com você e quem sabe minha mãe já terá subido quando eu retornar. Assim posso voltar pela porta da frente.
— Se esta não estiver trancada. – acrescentou James sabiamente.
— Se esta não estiver trancada. – o outro repetiu.
Ficaram ali em silêncio, Alastair bocejava vez ou outra e o vento uivava gelado entre as frestas das tábuas de madeira. Isso fez com que o jovem tremesse e James percebendo, esticou um pedaço do próprio cobertor que lhe fora emprestado e atirou sobre as pernas do amigo.
Algum tempo depois, James pareceu dormir. Mesmo com o rosto todo arrebentado, cheio de hematomas e manchas de sangue seco, ao olhar para ele dormindo tão inocentemente, Alastair enxergava naquele garoto uma figura dócil e ingênua, alguém extremamente agradável de se olhar. Achava fofo como ele estava contorcido com as pernas juntinhas e as mãos gordinhas segurando o cobertor na altura do pescoço. Alastair não resistiu a levar suas mãos aos cabelos do rapaz e tirar-lhes da testa, acariciando-o cuidadosamente.
A gentil ação despertou James, mas este fingiu que ainda dormia porque teve medo que Alastair parasse. Alastair por sua vez sentia-se estranho em acariciar os cabelos de um homem adulto mas aquilo lhe trazia uma inusitada sensação de conforto. Com aquele carinho, James acabou pegando no sono de novo. Alastair sentiu seus olhos pesarem e seu corpo quase que involuntariamente se deitou ao lado do outro sujeito.
Ele ainda estava acordado, dividindo o mesmo cobertor com o amigo quando uma forte luz azul invadiu o estábulo. Ele olhou para James mas este parecia não perceber a luz, continuando a dormir tranquilamente.
A luz foi tomando forma. Uma mulher idosa, vestindo uma capa com gorro azul e um grande laço rosa no pescoço. Alastair despertou assustado e a senhora fez um sinal para que se acalmasse, sorrindo gentilmente para ele. De alguma forma, ela transmitiu calma e segurança para ele, que continuou ali deitado e coberto ao lado de outro rapaz, observando ansioso aquela figura intrigante. – Olá, querido. – a senhora disse com uma voz incrivelmente doce. – Tempos difíceis, hã? – o garoto fez que sim com a cabeça e em seguida olhou com pena para o rapaz adormecido ao lado. – Eu sou sua Fada Madrinha e estou aqui para lhe ajudar. Se estou aqui, significa que você ainda não perdeu toda sua fé de melhorar as coisas, mesmo diante de todos desafios que foram jogados a você.
— Desculpe, não consigo entender. – o garoto retrucou com uma lágrima a escorrer pela face. – Como pode dizer que preciso de sua ajuda, que tive muitos desafios… Se existe gente em situação muito pior? – ele olhou novamente para James, enxugando sua lágrima. – Se você é uma fada e pode ajudar alguém, ajude ele.
A Fada respirou fundo pelas narinas, com um longo sorriso de boca fechada. Se lembrou de quando apadrinhou Ella, anos atrás, e sentiu-se à época tocada por um coração tão puro quanto ao que o irmão postiço da garota tinha agora em seu peito. Ele era, de fato, a pessoa certa. – Oh, meu filho. Eu não posso mandar no destino. O que eu posso fazer é ajudar a você. Hoje, única e exclusivamente a você. Então me diga, meu jovem. O que posso fazer por você?
Alastair franziu as sobrancelhas, quase unindo-as em uma expressão de revolta. – Pois bem. A única coisa que pode fazer por mim hoje é ajudar a ele! – e apontou com ambas palmas de suas mãos para o rapaz que dormia ao seu lado. Pode curá-lo? E pode conseguir um lugar decente que ele possa ficar?
— Ai, ai, ai… – a senhora ajeitou-se em um monte de feno ao lado dos rapazes, sentando-se elegantemente como se aquilo fosse uma poltrona extremamente chique. – Bom, se é assim, você não me deixa escolha. Afinal, se é para seu bem… – e então ela tirou uma varinha de dentro de uma das mangas e proferiu algum encantamento muito rapidamente como se fosse algum afazer cotidiano muito simples: – Bibidi-Bobidi-Boo! – lançou uma luz na direção dos rapazes e se levantou, limpando as mãos depois do árduo trabalho.
— Esp…era! – Alastair começou a gritar no começo da palavra e terminou abaixando o som para não acordar o outro. – É só isso?
A fada Madrinha apontou para James com a cabeça e sorrindo com os olhos. Alastair acompanhou o olhar e viu os hematomas e ferimentos do rapaz desaparecerem magicamente um a um, até sobrar um pequeno roxo em seu olho direito e por fim, nada.
— Enquanto este jovem provar da sua bondade humana, está livre de todas suas lesões. No entanto, só estará permanentemente curado sob uma condição…
— “Sob uma condição”!? – Alastair protestou. – Você não pode aparecer só pra fazer o bem sem ver a quem e pronto? Sem colocar nenhuma condição?
— Oh, mas a mágica sempre vem com um preço, querido. Como eu ia dizendo… Ele ficará bem enquanto estiver aos seus cuidados. Mas você deve fazer algo em troca até meia noite de sábado.
— O dia do baile?
— Sim, querido. – ela continuou. – O dia do baile. Você terá até a badalada da meia noite para encontrar seu grande amor. Quando trocar um beijo de amor verdadeiro, a cura de seu amigo será permanente. Mas se não o fizer, todas suas lesões serão restauradas instantaneamente. E eu lamento lhe dizer, querido… – ela abaixou a cabeça. – o estado dele é crítico. Ele não tem muitas horas de vida se voltar a estar como estava.
O quê!? – ele gritou com os olhos quase saltando para fora.
Nessa hora, James acordou. – Com quem está falando? – ele disse baixinho, procurando alguém no escuro, sem enxergar a mulher ali com sua brilhante luz azul.
Ignorando a pergunta, Alastair dirigiu-se à fada: – E quanto a um lugar para ele ficar? Ainda não me ajudou nisso!
— Bom… – ela deu de ombros. – Estou sem ideias. Mas se tem algo em mente, meu bem, deseje forte com seu coração e eu o farei.
Alastair estendeu ambas as mãos para James que as segurou sem hesitar. – Você confia em mim? – o rapaz fez que “sim” com a cabeça em um movimento rápido que Alastair repetiu, virando-se para a fada.
Neste momento, uma forte luz azul acendeu-se para James e por alguns segundos, ele viu a imagem de uma doce senhora sorrir e piscar para ele. – Bibidi-Bobidi-Boo!
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