A História de Alastair Tremaine
5 Miau!
Com as palavras da fada e um movimento com a varinha, as luzes azuis tocaram o garoto que se transformou num gato rajado do mesmo tamanho de Lúcifer. O gato saltou no colo de Alastair e miou para ele. – Ele pode me entender? – perguntou o ruivo.
— Sim, ele pode! – respondeu-lhe prontamente a fada. – Mas você não entenderá ele, é claro.
— Tudo bem. – ele segurou o gato em seus braços, empurrou com o pé para baixo de um dos montes de feno, todos objetos que levara para James passar a noite. Abaixou-se e pegou o lampião com o cuidado de não queimar o gato. – Minha mãe gosta de gatos. Vou dizer que resgatei este para fazer companhia a Lúcifer. É a minha melhor chance.
— Mas lembre-se de levá-lo consigo ao baile! Tem que ficar de olho nele!
— Como um gato? Porque eu desejei que ele fosse um gato temporariamente, mas não pensei até quando!
— Não, criança. – a fada riu delicada, cobrindo a boca. – Como um gato não. E temporariamente será. Eu voltarei, até o baile! – e acenando com uma de suas mãos, houve uma pequena explosão de luz azul e ela desapareceu na escuridão.
Os três dias que se seguiram, passaram muito rapidamente. Alastair pôde levar James para dentro de casa, houve resistência de sua mãe no começo mas foi bem pequena, ele havia instruído o amigo para que fingisse mancar, então contou à sua mãe que havia resgatado um gato machucado e não poderia soltá-lo até que estivesse bom. Lúcifer que teve uma crise de ciúme, o novo gato estava nos braços do Tremaine mais novo o tempo todo. Este alimentava o gato com leite e pães que comprou dele mesmo, o que era bem irônico. Se recusava a dar a comida de gato de Lúcifer para ele, o que ninguém na casa entendia, mas tolerava, afinal o gato era problema dele. Alastair amava poder acariciar o gato sem parecer estranho, afinal, era um gato, não um homem adulto. James se esticava e até oferecia a barriguinha para ser coçada.
Eis que chegou o grande dia do baile. Tanto Alastair quanto James começaram a se arrumar desde a tarde, exageraram no perfume e andavam prontos pela casa de um lado para o outro. Lady Tremaine havia gasto grande parte de suas economias com o aluguel de uma carruagem para seus meninos chegarem com algum estilo e decência ao grande evento. Mas chegou a hora combinada e nada da carruagem aparecer para buscá-los.
Daniel estava inconsolável. Alastair a ponto de ter um infarte com seu gato nos braços, abriu a porta da sala principal e foi para fora, observar a luz da lua. – Onde diabos está essa fada? – disse para si mesmo baixinho e pôde sentir a cabecinha do gato pressionando contra seu peito como se o abraçasse em consolo.
E então, da direção da lua, surgiu aquele brilho conhecido e uma vozinha agradável a cantarolar. – Salagadula Mexegabula, Bibidi-Bobidi-Boo…Junte isso tudo e teremos então… Bibidi-Bobidi-Boo!— ele teve que desviar o olhar de tão forte que a luz estava e James escondeu sua cabecinha de gato debaixo do braço do rapaz. – Salagadula Mexegabula Bibidi-Bobidi-Boo… Isso é magia, acredites ou não, Bibidi-Bobidi-Boo!— a Fada Madrinha desceu do céu e Alastair podia jurar que a própria lua se transformou nela. Teve que olhar novamente para o céu para conferir, mas inexplicavelmente, a lua estava lá.
— Você voltou! – Alastair exclamou com os olhos brilhando.
— É claro, eu disse que voltaria, não? – a fada sacudiu um pouco de brilho mágico de suas roupas. – Hum, vejamos. – ela sacudiu a varinha sem dizer nada e o gato caiu dos braços do garoto e antes de chegar no chão, transformou-se em luz, que foi tomando o formato de James, seus pés alcançaram o chão e ele esticou a coluna como quem se levanta de um agachamento. James estava ainda vestindo os pijamas de Lord Tremaine. – Oh, e isso! Ah, nós temos que dar um jeito nisso. – ela preparou-se para sacudir sua varinha e saltitou por ali. – Isso é magia, acredites ou não, Bibidi-Bobidi-Boo!— ela riu de si mesma. – Como eu amo essa canção!
Mais e mais brilho cercou o ambiente e os pijamas foram se transformando em um elegantíssimo traje de festa combinando perfeitamente com os de Alastair de forma oposta: a cor predominante era o branco e todos os detalhes eram em salmão. James estava maravilhado. Nunca se sentira tão lindo e elegante em toda sua vida. Até mesmo seus cabelos estavam perfeitamente penteados. Alastair não podia deixar de sorrir também vendo tanta felicidade estampada no rosto do loiro.
O que não tinham notado era que pela fresta da porta entreaberta, Lúcifer tinha passado e assistido a toda cena, inclusive vendo o outro gato se transformar em um homem. Possesso de ciúme, ele foi se aproximando do rapaz com um miado estridente e ameaçador. Os dois jovens olharam para trás e viram o gato pular no ar em direção às belíssimas roupas novas de James com suas garrinhas afiadas e…”Bibidi-Bobidi-Boo!”.
— Acho que você vai precisar disso. – disse a doce senhora recolhendo a máscara branca de gato caída no chão, que um dia fora Lúcifer. – Mas lembrem-se! – e agora ela virou seu rosto para Alastair. – Você tem até a meia noite para salvar seu amigo. A propósito…as roupas, a máscara… tudo voltará a ser o que era quando o relógio marcar 12 horas!
Os dois rapazes se olharam e concordaram com a cabeça, ainda que James estivesse um pouco confuso.
— Lúcifer? Lúcifer, querido!? – Lady Tremaine saiu a procura de seu gato acompanhada de Daniel que estava com os olhos molhados, segurando o choro para proteger sua masculinidade. – Não! – ela exclamou com as mãos sobre a boca ao ver quem seu filho estava em companhia.
— Ok, estamos com pressa! – disse a fada arregaçando as mangas. – Bibidi-Bobidi-Boo! Bibidi-Bobidi-Boo! Bibidi-Bobidi-Boo!— ela arremessou seu brilho mágico por toda parte e uma bota velha perdida na grama se transformou numa linda carruagem de madeira e um casal de vagalumes dois lindos alazões. – Vamos, garotos! Vamos! – e ela gesticulou para que entrassem na carruagem e assim fizeram. A própria fada tomou as rédeas dos cavalos e guiou a carruagem, que partiu em disparada.
Com a porta aberta, Alastair colocou seu corpo para fora e viu a imagem da mãe em pânico ficar para trás, junto do irmão que não conseguiu mais segurar as lágrimas. Ele não conseguiu ou precisou pensar antes de estender sua mão. – Daniel! – o irmão entendeu imediatamente. Olhou uma última vez para conferir o olhar de desaprovação de sua mãe e então correu em disparada em direção a carruagem. James olhava pela janelinha do lado oposto sorrindo e a fada também notou a situação ao olhar para trás, sorrindo orgulhosa.
Daniel alcançou a carruagem e seus dedos tocaram os do irmão, mas não conseguiu segurar sua mão e a carruagem ficou ainda mais distante, há quase um metro. Estava pensando em desistir mas a fada desacelerou os cavalos o suficiente para que ele alcançasse a carruagem e o irmão e este o puxasse para dentro. O moreno se sentou no primeiro lugar que viu, ficando ao lado de Daniel e de frente para Alastair. Os três seguraram suas máscaras em seus colos e se entreolharam, rindo, sem dizer nada.
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