Chegaram ao palácio muito felizes e empolgados. A fada fez um gesto cordial se despedindo dos rapazes que subiram as escadas ansiosos juntos de outros convidados. Ao chegarem ao topo, aguardam sua vez e um dos guardas com um pergaminho enorme perguntou seus nomes, começando por James, que estava um pouco à frente. Ele disse seu nome inocentemente, com um sorriso no rosto. – Sou James Adalberts, senhor.

Os irmãos Tremaine se olharam. Alastair não tinha pensado em como faria para que a entrada do amigo fosse permitida. Daniel, entretanto, foi mais rápido. Assim que o guarda disse não haver nenhum James Alberts na lista, o moreno vociferou com o indicador na cara dele. – Você tem ideia de com quem está falando!? Como assim o nome do Duque de Poça-Nova não está na lista se ele foi convidado? – ele havia acabado de inventar esse luar – Pois se ele não entrar, nós também não entramos. Nós, os Tremaine, irmãos da princesa Ella, nos recusamos a participar deste baile se nosso amigo Duque também não puder.

Neste momento, burburinhos e uma pequena agitação começou com os convidados na fila. alastair sorria, sem saber como reagir. James também estava um pouco perdido e assustado.

— Quanta desorganização! Quanta incompetência! – o Tremaine mais velho continuou e foi acompanhado por mais alguns convidados: “Muita desorganização!”, “Que incompetência!”.

O caos estava formado. O guarda começou a suar frio, olhou para o outro que só fez um gesto para que não o envolvesse nisso. Os convidados estavam começando a ficar nervoso e a notícia foi se espalhando: além da demora estavam barrando duques importantíssimos, quem saberia o que poderia ser dito a algum deles para barrar-lhes a entrada?

— Mil perdões, meu senhor! – disse o guarda limpando o suor da testa. – Podem entrar, podem entrar, por favor. – e curvou-se em cumprimento enquanto os braços esticados para dentro os convidavam a entrar. Alastair pôde ver o homem arremessar o pergaminho fora pelo terreno escondido pela noite.

Nesse instante, pessoas na escada faziam sinais para que seus cocheiros e outros empregados subissem as escadas. Outros cocheiros corriam de volta para suas carruagens a altas risadas, provavelmente partindo em busca de seus familiares para levarem ao baile. Assim o salão foi se enchendo nas primeiras horas de festa enquanto alguns daqueles nobres reclamam, incomodados, de toda aquela gente mal vestida enchendo o castelo.

Enquanto Daniel zanzava para um lado e para o outro à procura de uma dama para flertar, Alastair e James aproveitavam todos os comes e bebes, imitavam os trejeitos daquelas pessoas chiques e se acabavam de rir. James disse a Alastair que aquele era o dia mais feliz de sua vida e o agradeceu por isso.

Mas à medida que o tempo ia passando, Alastair ficava mais e mais preocupado. Era impossível achar em meio àquela multidão a garota que seria o amor de sua vida e convencê-la a lhe beijar para salvar a vida de James antes da meia noite. – Ei, você está bem? – perguntou o último ao ver um pesar no olhar do amigo. Alastair gaguejou muitas coisas, mas não conseguiu falar nada. – Está tudo bem. Eu sei. Eu não me importo, tá bom? Os melhores dias que vivi foram proporcionados por você porque minha vida toda antes disso têm sido bem, bem ruim. Então está tudo bem se eu não sobreviver ao final desta noite. Os momentos que me proporcionou já vem por uma vida toda.

— Mas… Como você..!? – Alastair tremia. Tinha tido a conversa sobre as lesões fatais de James com a fada enquanto este dormia e ele só tinha a visto quando ela apareceu para ele também para lhe transformar em um gato, sanando o problema de um lugar para ficar. Como ele poderia saber que suas lesões voltariam quando o relógio marcasse doze horas?

— Não foi difícil deduzir. – o loiro disse virando uma taça de champanhe. – A fada disse que minhas roupas, a nossa carruagem, tudo voltaria a ser como era à meia noite de hoje. Eu não sei como sobrevivi àquela noite depois de perder tanto sangue e eu posso te jurar que alguma coisa estourou dentro de mim. Misteriosamente eu não sinto mais nada de errado comigo e ainda assim você está todo preocupado? Eu liguei os pontos. – e então James sorriu. – Mas eu aceito. É o suficiente pra mim. Obrigado!

Alastair não conseguiu olhá-lo nos olhos. James não sabia que havia uma chance de salvá-lo. Aliás, haveria, se não fosse algo tão impossível de realizar em uma só noite. Em uma hora, para ser exato.

Do outro lado do salão, Daniel se divertia na multidão. De alguma forma a notícia de um baile real em que não havia uma vistoria da porta havia se espalhado pela vila e havia gente de todo tipo, alguns com trajes de festa, máscaras improvisadas, outros nem isto. Daniel conheceu uma garota camponesa, que invadiu a festa com um vestido bonito. Seu nome era Brenda e sua pele marrom refletia as luzes dos candelabros de forma encantadora. Apesar da moça não ter nenhum título real, era a pessoa mais bonita, engraçada e alegre que o rapaz tinha conhecido naquela noite. E isso lhe chamou a atenção mais que qualquer riqueza que a garota pudesse ter.

A princesa Ella e seu marido Henry apareceram para performar uma dança no meio do salão, se exibindo para os convidados. Mas o povo, por falta de costumes, não entendia muito bem o que estava acontecendo e alguns não saíram para abrir espaço para os dois, alguns começaram a dançar próximos a eles e logo a bagunça se generalizou e todos se uniram a dança que antes era um momento especial e de status dos dois. Henry se incomodou, disse que queria expulsar aquele povo, mas sua esposa o acalmou e disse que não se importasse. Na verdade, ela estava feliz com aquilo. No fundo, sabia que tinha alguma coisa a ver com os irmãos que estavam em algum lugar por ali e ela estava orgulhosa da rebeldia deles.

Tudo ia às mil maravilhas até que o inevitável momento chegou. O ponteiro do relógio no centro da parede ao fundo do salão, bateu doze horas. A música não parou, as risadas e conversas altas também não. A festa continuou normalmente para todos ali, exceto para Alastair e James. “Au!”, exclamou o último quando perdeu o equilíbrio e caiu no chão, derrubando sua máscara e levando consigo o pano da mesa ao lado e algumas taças de bebida. O barulho chamou atenção de no máximo uma dúzia de pessoas ao redor, que não fizeram nada para ajudá-lo.

— James! – Alastair correu para segurá-lo, um pouco tarde para tanto. Nunca se sentiu tão impotente em toda sua vida. E sentia muita raiva. Raiva daquelas pessoas ao redor que continuavam felizes enquanto ele estava prestes a assistir à morte de seu melhor amigo e continuavam bebendo, rindo e conversando.

O olho direito de James ficou instantaneamente roxo. Sua máscara começou a se sacudir no chão até voltar a ser Lúcifer, que correu assustado no meio da muvuca de gente. James levou as mãos a um ponto específico da barriga, gemendo de dor. Suas roupas voltaram a ser o pijama de Lord Tremaine que rapidamente se encharcou de sangue.

— Me perdoe, me perdoe, me perdoe! – Alastair repetia reiteradamente enquanto abraçava o rapaz contra seu corpo, se manchando também de seu sangue.

A esta altura, um número maior de pessoas tinha percebido o que havia acontecido e um círculo se formou ao redor dos dois. Deste círculo de curiosos, surgiu Daniel, empurrando todos à sua volta até alcançar o irmão, que abraçava o rapaz em choro silencioso. Não muito depois, surgiu também Ella, acompanhada pelo marido e um par de guardas que abriu caminho para eles. Só então a música parou. O silêncio tomou conta, exceto pelo miado de Lúcifer e o grito de um guarda que foi atacado.

— Alastair… – James juntou todas suas forças e começou a dizer com muita dificuldade. – Se lembra de quando me perguntou se eu te odiaria se me pedisse para que dormisse em seu estábulo e então salvou minha vida? – Alastair olhou diretamente nos olhos dele, atento. – Eu não te odeio. Acho… Acho que o oposto, na verdade.

O ruivo podia escutar cada batida de seu coração acelerado e sentia sua pele dormente e os pelos de seu corpo todos arrepiados. Em seu estômago, sentiu a famosa sensação de borboletas qual nunca tinha sentido antes Ele segurou a cabeça de James cuidadosamente em uma de suas mãos, aproximou seu rosto do dele e o beijou. O beijou apaixonadamente. Sabia que James ia morrer, então morreria ali ao lado dele, assassinado pelos guardas ou algo assim. Nunca antes teve tanta certeza de algo que queria. O beijo foi correspondido e os tiveram certeza de que se amavam.

De fato, alguns guardas sacaram suas espadas. Daniel foi mais ligeiro que um deles e tomou sua espada antes que pudesse sacá-la, segurando-o por trás e colocando a espada contra seu pescoço. Nunca tinha empunhado uma espada antes, mas tinha tido aulas de teatro. – Nem pensem nisso! – ordenou.

— Todos, abaixem suas armas! – Ella tentou colaborar, mas desta vez não foi ouvida.

Enquanto o caos se instaurava à sua volta, Alastair viu James se recuperar, suas lesões e hematomas sumirem definitivamente e ele até conseguiu se levantar sozinho do chão. O sangue em suas roupas também desapareceu. – Eu não entendo… – murmurou o que ainda estava com suas roupas de festa para o rapaz de pijamas.

— Vamos! – James pegou a mão de seu amado e saiu o puxando, abrindo espaço em meio às pessoas enquanto fugiam dos guardas.

Daniel tentou lutar mas foi atingido por uma espada lhe rendendo um belo corte no braço e como sua cota de coragem tinha sido excedida, arremessou a espada que segurava no chão para poupar peso e correu em disparada, atrás do irmão, acompanhado pela bela camponesa que havia conhecido.

Com um grande estrondo as portas de madeira do castelo se abriram, uma delas sendo praticamente estourada. Delas surgiu uma carruagem dourada, guiada por um cocheiro musculoso de quase dois metros e um bigode invejável e seus dois cavalos pretos, igualmente musculosos, quase o dobro do tamanho dos cavalos que levaram os Tremaine e James para o baile. Abriu-se uma portinha delicada da carruagem de onde saiu uma simpática senhora de azul. – Vamos, meninos! Sua carona chegou!

Os garotos respiraram aliviados ao verem a fada. – Essa não é nossa carruagem. Ou nossos cavalos. – observou muito pertinentemente Alastair ao entrar no veículo e auxiliando James a fazer o mesmo.

— Oh não, querido. Bota e vagalumes. Já passou do seu horário. – e ela fez sinal para que se apertassem no banco. – Estou aqui por mais alguém também. O que posso dizer? Gosto de apadrinhar as pessoas. Ser uma Fada Madrinha é o que sei fazer! – e estendeu sua mão à Brenda, que lhe aguardava com um sorriso do lado de fora. A garota subiu, acompanhada de Daniel e os cinco se acomodaram ali, apertadinhos, indo embora rumo à fazenda.

— Eu achei que você fosse MINHA Fada Madinha! – resmungou Alastair. – Então quer dizer que é minha e dela? – apontou com o dedo indicador para a garota e em seguida lembrou-se dos modos que sua mãe lhe ensinou e o abaixou. – Nada contra você, inclusive. – acrescentou a ela, desconcertado. – E você mentiu para mim! – voltou-se à fada. – Disse que eu tinha só até meia noite para salvar o James! Como ele pode estar vivo? – então ele se virou para o rapaz e segurou sua mão. – Não que eu esteja reclamando, que fique bem claro.

— Veja bem, querido. – começou a fada muito calmamente enquanto a carruagem sacudia violentamente contra a estrada de pedras. – Seria muito egoísmo ter uma Fada Madrinha somente para si, não? Sim, eu escolhi ser sua Fada Madrinha e da Brenda também. Uma querida! Nos conhecemos essa noite, não é, Brenda? – e soltou uma risadinha gostosa que foi acompanhada pela garota, que se deitava no ombro de Daniel e em seguida lhe sussurrou que ficaria bem, pois este chorava de dor pelo corte do outro lado como se tivesse perdido o braço. – Eu inclusive fui Fada Madrinha de sua irmã há alguns anos atrás! – continuou a senhora. – Mas não, eu não menti. Na verdade, eu sou muito justa. Ajudo os necessitados. E aquela noite, apareci por você porque precisava de mim e você sem saber, me chamou. Mas não era a única pessoa que precisava da minha ajuda naquele celeiro. – ela tomou a atenção de todos outros quatro ali na carruagem, Daniel até mesmo tinha parado de chorar.

— Espera, você levou um homem pro nosso celeiro!? – o moreno protestou, mas foi respondido com um uníssono “shhhh!” de Alastair, James e Brenda.

A Fada Madrinha tomou a palavra novamente. – Eu concedi a você as duas coisas que mais queria, o bem estar de James e uma forma de abrigá-lo. Naquele momento, achei justo apadrinhá-lo também. E nada mais justo que lhe oferecer também duas “ajudinhas”.

— “Duas ajudinhas”? – questionou James. – A máscara com o gato contou como outra ajuda? Ou foi a carruagem? Os cavalos?

A Fada deixou escapar uma risadinha. – Não, não, querido. – Tudo isso foi a segunda ajuda que te dei, tudo parte de um só pacote. A primeira coisa que te concedi foi cinco minutos.

— Cinco minutos? – questionou o rapaz ajeitando seu pijama para cobrir a barriga que estava aparecendo.

— Sim, veja, eu imaginei que Alastair fosse demorar um pouco mais de tempo para entender que você era o verdadeiro amor dele. Então para você, estendi os efeitos da magia que ofereci a ele por mais cinco minutos. – Alastair não sabia se agradecia ou se pulava no pescoço daquela velha.

Naquela noite, todos chegaram juntos à fazenda da família Tremaine e Madonna recusou-se a abrir a porta para eles e os quatro tiveram de dormir no estábulo.

Conseguiram entrar no dia seguinte, depois de muita conversa e porque a senhora Tremaine não conseguia ficar longe dos filhos. Como o castelo do falecido Lord Tremaine era muito grande, Brenda e James foram acolhidos em quartos próprios para passarem a noite. Acontecia que James não tinha para onde ir e Brenda foi expulsa de casa nos próximos dias por querer noivar-se com Daniel, um homem praticamente falido.