A História da Grand Chase
12 Uma boa, uma má notícia
Notas iniciais
Eu nunca gostei de "reduzir" um capítulo por ele ter ficado muito grande. Mas acontece que esse teve onze mil palavras, reescrevi e consegui chegar a cinco mil antes de terminá-lo... E, bom, eu queria terminar a missão do Templo Oak num só capítulo, mas não vou reduzí-lo, então vou postar a primeira parte. Logo mais, posto a segunda =D
Elesis e Lire acamparam naquela noite. Com bastante dificuldade, levaram a carroça para um arvoredo a algumas dezenas de metros da estrada. Depois soltaram os cavalos do outro lado, para que não atraíssem ninguém até elas.
Dormiram na carroça e não tinham cobertores, mas felizmente não choveu, e de qualquer maneira, não era como se elas conseguissem dormir. Lire, que tinha a audição mais aguçada, ficava escondida no mato próximo à estrada, para vigiar a aproximação de inimigos. Ficaram por dois dias sem saber o que fazer. Não havia como voltarem, tampouco sabiam onde procurar ajuda. Elesis passava a maior parte do tempo na carroça, zangada, enquanto o orgulho ferido recuperava-se da derrota. Ela dizia a si mesma que não tinha como poder ter vencido todos aqueles adversários e que fugir fora a melhor saída. Mas eram bandidos, e bandidos, mesmo que fossem em maior número, deveriam cair quando enfrentassem ela, a própria líder de um grupo de guerreiros de Canaban...Próxima à estrada, Lire vigiava absorta em suas próprias preocupações. Pensava em Arme(Elesis também se preocupava com a garota, embora nada dissesse), nos moradores da estalagem e em sua missão, mas acima de tudo, nos bandidos. Em Eryuell, vivia uma comunidade de elfos que não precisavam cometer qualquer ato de violência ou roubo — tinham uma floresta inteira para eles, com comida e água à vontade; o que iriam roubar? Lire nunca conhecera um criminoso antes. Por isso a idéia de existirem bandidos era uma coisa quase surreal para ela. Tinha sido alertada várias vezes sobre a realidade fora das ilhas onde nascera, mas mesmo assim estava surpresa. Aquele grupo tinha chegado no meio da noite e atacado sem motivo algum, no meio da noite! Elas nem tinham muito dinheiro. Por que então tinham atacado?As dúvidas e preocupações de ambas só lhes escaparam da mente quando foram emboscadas.Eram cerca de três horas depois do amanhecer do segundo dia, Elesis ainda dormia na carroça e Lire já estava de volta ao seu posto de vigia. Ela era assim: paciente, capaz de ficar parada por horas contemplando a beleza natural de um lugar. Tudo bem que estava ali para avistar bandidos, mas ainda assim não se podia negar que Vermecia era um lugar bonito. De onde estava podia ver a estrada cortando a grama, e além dela a relva, e as árvores mais ao fundo. Não via os cavalos, o que a deixou satisfeita — pelo menos eles estavam livres, e longe de preocupação.Então a quietude foi interrompida quando dois viajantes maltrapilhos passaram pela estrada, vindo da direção da Finestra. As roupas estavam rasgadas e rotas — e respiração de Lire, presa. Quando os viu, tinha ficado tentada a ajudá-los, mas lembrou-se de que poderiam pertencer ao grupo de bandidos. Não conversavam, somente caminhavam em passo moderado e em poucos minutos saíram do campo de visão da garota. Depois, outras dez pessoas vieram pelo mesmo caminho, e mais dez vindo da direção que os dois viajantes tinham tomado. Todos usavam uma capa marrom e velha que cobria o corpo e andavam depressa em direções opostas, como dois grupos a se encontrar. Então, subitamente eles viraram e tomaram a direção do acampamento.Lire já tinha saído de lá e corria o mais silenciosamente que podia para avisar Elesis e encontrou a menina já acordada, mas os invasores tinham sido mais rápidos do que ela. Quando deram por si, estavam cercadas.–Covardes! — Elesis gritou para o bando, pouco mais de trinta homens. Seu tom desafiava e ela não demonstrava medo, mas Lire estava aterrorizada. Era impossível que aqueles não fossem os bandidos, pois quem mais iria procurá-las exatamente ali? O bando aproximou-se e a elfa olhou a guerreira. Apesar da expressão que demonstrava, Elesis parecia controlada e não pronta para atacar, o que era bom. Se a garota tivesse uma explosão de fúria, poderia ser o fim para todas elas.Todos os homens deram um passo à frente. Um deles se aproximou mais, que provavelmente era o líder. Ele levou a mão ao rosto, puxou o capuz... E jogou a capa velha no chão.–Lothos? — Elesis recuou, entre surpresa e confusa.À sua volta, os outros também despiam os farrapos escuros, revelando corpos eretos e fortes e armaduras brilhantes, roxo sobre prateado nas braçadeiras, tornozelos e peitorais. Se olhassem atrás deles, veriam que a capa roxa e curta, que ia dos ombros até a cintura, tinha o emblema de Serdin desenhado em branco.–Mas... mas... — e enquanto Elesis não compreendia, dois deles afastaram-se e deixaram entrar uma pequena garota, também vestida com trajes violetas.–Gente! — Arme parou em frente ás duas, sorrindo, os olhos brilhando. Parecia agitada — Eu pensei que vocês duas tivessem se perdido, mas a Lothos sabia que estariam a salvo!A confusão de Elesis passou.–Você duvidou de mim, maguinha? — ela parecia mesmo com raiva. Alguns homens riram com prazer, o que a trouxe de volta aos acontecimentos — Quem são vocês? O que está acontecendo?–São o Quinto destacamento da Guarda de Serdin — contou-lhe Lothos — Eles estavam fazendo uma patrulha pela região. Parece que os vilarejos mais ao sul de Vermecia foram um pouco deixados de lado, e criminosos e salteadores aproveitaram a oportunidade. Quando fui enviar a mensagem, fui na verdade encontrar este grupo.
–Mas e os bandidos?–Amarrados, amordaçados e a caminho das masmorras de Serdin! — disse um dos homens — Vocês tinham que ter visto. Eles tomaram a estalagem onde vocês ficaram, e quando chegamos metade deles estava dormindo, e a outra metade se acabando nas bebidas. Foi a batalha mais sem graça que já tivemos!–Ah, eu não sei não — discordou um outro guarda — Eu ri bastante quando aquele cara tentou dar um murro no Desmond, todo cheio de coragem, e escorregou na própria. E aí caiu bem entre no meio das pernas do Desmond.O acampamento inteiro explodiu em risadas e a tropa voltou-se para um homem em particular, provavelmente o que se chamava Desmond, que exibia um sorriso tristonho e lutava para não acompanhá-los na risada. Arme, como que incapaz de continuar calada, falou:–Eu estava escondida fora das vistas o tempo todo. Quando a Guarda tomou o lugar de novo, Gamui me levou de volta na mesma hora. Vocês tinham que ver! Ele é tão galante!–Ele é, sim — Lire concordou com uma risada.Sentaram-se ao redor da carroça, e a guarda descontraída conversou o tempo todo. Lothos levou as três garotas para um lugar mais afastado e pôs a explicar-lhes o que fariam em seguida.–Essa decisão de vocês de seguir pela estrada também nos deixou mais próximas do nosso objetivo — ela disse, sem cerimônias — Vocês já ouviram falar do Templo Oak.–Já. Eu sabia que a gente estava indo pra lá! — Elesis socou o ombro de Lire, que poderia ter passado sem isso — Então eles não aprenderam a lição em Serdin?–Vai ser bem mais do que em Serdin — o sorriso de Lothos era meio torto — O Templo Oak é como um santuário para eles, onde Oaks de diversas tribos encontram-se por vezes. Isso nunca nos incomodou, já que ninguém mora muito perto do Templo, mas parece que essas reuniões estão muito frequentes e o número de Oaks está crescendo muito. Como se estivessem, todos eles, reunindo-se ali.–Como se estivessem formando um exército — colocou Lire.–Exatamente, e aquele ataque a Serdin ter acontecido durante esse tempo não pode ter sido coincidência. Acredito que a invasão teria sido naquele dia, mas quando o primeiro grupo foi derrotado, os Oaks resolveram aumentar mais suas forças. Por isso eles estão se reunindo no Tempo Oak.Arme engoliu em seco. Até mesmo Elesis não estava gostando daquilo:–Mas será que nós podemos enfrentar tantos deles? — perguntou. Lothos deu de ombros.–É por isso que estou trazendo a Guarda conosco. E o plano não é exterminar todos os Oaks, e sim o bastante para chegarmos até o líder. Possuir alguém consome muito poder, então somente o líder vai estar sendo controlado pela Cazeaje... Bem, foi o que os magos de Serdin disseram — ela bufou — Seja como for, uma vez que o líder seja derrotado, os demais Oaks vão nos deixar em paz.Arme e Lire não tinham cara que quem estavam convencidas, mas Elesis relaxou um pouco. Não era nenhuma novata em guerra e sabia o quanto a moral de um exército podia cair quando seu comandante, geralmente o mais forte, era derrotado. Que dizer então de uma sociedade primitiva como os Oaks, que valorizavam tanto a força? Lire, no entanto, tinha outra dúvida em mente.–Como sabemos disso?Lothos a olhou sem compreender.–Quer dizer... Como sabemos que os Oaks estão se reunindo no Templo Oak?–Ora... Os guardas que vêm aqui avisaram — a comandante respondeu, ainda sem compreender a dúvida da garota. Mas Lire sacudiu a cabeça.–Eu sei, mas por que eles vieram aqui ver? A senhora disse que ninguém mora perto do Templo Oak. E eu pensei ter ouvido que as patrulhas de Serdin não viessem muito por aqui. Que o sul de Vermecia estivesse meio que... Deixado de lado. Poucas patrulhas vêm aqui... Então quem contou sobre o Templo Oak?–Fontes secretas — a comandante respondeu simplesmente — Que não devem ser discutidas em território inimigo. As árvores têm ouvidos, Lire, e os espiões de Cazeaje estão por toda parte. Eu aconselho a você que tenha mais cuidado com o que diz.Lire baixou a cabeça, perguntando-se se realmente não havia um espião ali, ouvindo o que elas conversavam, pronto para denunciar-lhes a Cazeaje. E também se intimidou um pouco pelo tom inflexível da comandante, que não deixava margem para discussões. E logo a perspectiva do que iriam enfrentar tornou a pesar-lhe sobre os ombros, e ela ficou muiuto quieta. Lothos sorriu e, achando que era hora de mostrar-lhes a surpresa que vinha guardando, para aumentar os ânimos, virou-se e tirou um saco do monte de provisões dos guardas. Estendeu um pano no meio delas, como num piquenique, e despejou ali um punhado de esferas marrons do tamanho de bolas de golfe.–Trouxe isso lá do bar — jogou uma daquelas coisas na boca e ofereceu outra a Lire — Comam, é gostoso.Elesis pegou uma e a analisou, desconfiada. Nunca tinha comido nada marrom, e a idéia não lhe agradava muito. Mas deu de ombros e mordeu metade, mastigando.–Ooooooh — suspirou — Deusas, isso é delicioso!–Será que isso é... chocolate? — Arme mordeu lentamente o doce e fechou os olhos — É! Puxa, não como chocolate desde antes de entrar pra Academia. Há mais de onze anos!–Arme, você falou igualzinho ao guarda em uma história que eu li, há muito tempo — Lire riu, também adorando a surpresa — Ele também gostava de chocolate. Posso pegar mais um?–Antes que eu coma tudo — Lothos murmurou de boca cheia.Elas comeram com prazer, e era a coisa mais deliciosa que já tinham provado. Lire recostou-se numa árvore e pôs-se a observar o céu. Arme comentava como era estranho, já que chocolate era muito difícil de se produzir, e vinha de um fruto que crescia numa árvore cheia de frescuras para ser plantada e cuidada. Na verdade a única ocasião em que vira alguma daquelas árvores tinha sido em Serdin, nos jardins do palácio da rainha. Lothos respondeu dizendo que a Finestra Aperta tinha um pomar secreto e bem-guardado, onde cuidavam bem delas.–Por que você acha que eu escolhi aquele lugar pra pararmos? — a comandante riu com prazer.–Isso é mesmo muito bom — Arme suspirou, saboreando o doce e o descanso — Ei, Lire, posso pegar na sua orelha? Ela é tão pontuda e longa!–Por falar em parada, não já paramos demais? Os Oaks estão nos esperando! — Elesis esfregou as mãos com animação. Arme logo virou-se para ela.–Vamos ficar aqui... Eu passei uma noite complicada! Me deram sonífero e eu dormi tão mal...–E eu lutei contra um monte de bandidos — começou Elesis.–E perdeu! — Arme retrucou.–Mas... Você dormiu numa cama quentinha, enquanto nós ficamos na carroça dura, com medo dos bandidos!–Com medo? — Arme provocou com um sorriso — Você, Elesis, com medo?–Arme! Você... Você... Desisto — ela sacudiu a cabeça — Lire, conta pra... Ei, Lire, tudo bem?–Hã? — a arqueira baixou bruscamente a cabeça para encará-la e ficou olhando de uma para a outra. Tinha estado o tempo todo olhando para cima e parecia perdida — Desculpe... Não entendi o que você disse — as meninas riram — Acho que me distraí... Comandante, eu posso pegar mais um... ai! — comprimiu a barriga- Desculpe. Senti uma pontada no estôm... ai, de novo. Ah... com licença.Ela puxou um maço de ervas dos bolsos, daqueles bem verdes que vovó costuma usar para curar qualquer coisa, mas quando se levantou, suas pernas lhe falharam. Ela sentou-se de pernas cruzadas e encarou os pés.–Estranho... — seu rosto subiu para Elesis, que tinha a expressão confusa. E quando ela falou novamente, foi uma voz sonolenta, arrastada como a de um fantasma — Eleeeeesis...Elesis tinha a testa franzida, estupefata. Arme sobressaltou-se com o tom estranho na voz da arqueira, o coração socando-lhe o peito num susto. E Lothos... Lothos a olhava de cenho franzido, como que tentando entender. Lire semicerrou os olhos e parecia meio tonta, os dentes brancos à mostra quando uma terceira pontada de dor a atingiu, e Lothos a observava. Parecia não conseguir entender, mas com o canto do olho viu que Arme pegou um doce e o levava à boca... Arregalou os olhos. Estapeou o chocolate da mão de Arme e correu para onde ficavam as provisões dos guardas.–Ei! — Arme protestou, sem fôlego.–Não coma isso! — Lothos virou-se e apontou para ela — É o chocolate. Está envenenado!Elesis ergueu-se de um salto, praguejando. Lothos puxou uma garrafa de uma sacola e fez com que ela e Arme bebessem. Depois agachou-se e encostou-a nos lábios da arqueira.
–Beba! — ordenou, pois a garota, em seu torpor, forçava a boca para mantê-la fechada — Beba rápido! — e como não houve resposta, ela abriu a boca de Lire com o polegar e o indicador de metal e derramou o conteúdo da garrafa nela.Lire registrou vagamente esses fatos. A última coisa de que se lembraria então era a comandante bebendo da mistura ela mesma e o mundo desabando de lado.
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