A História da Grand Chase
13 O Templo Oak
Notas iniciais
A segunda parte da missão no Templo Oak - Lire tinha caído desmaiada por um bombom envenenado, e Lothos distribuiu um líquido, provavelmente um antídoto, pra todas elas. Boa leitura!
Algo uivava. O som era áspero e inconstante, forte, e vinha de toda parte. Como se ela estivesse dentro de uma nuvem feita de uivos. Lire reconhecia o som do vento, mas era estranho porque o vento, quando soprava forte, tinha um som fulminante e selvagem, não aquele tom de aspereza, como o som de chuva sobre uma lixa. Ficava às vezes mais forte, às vezes mais fraco, e às vezes estalava seus ouvidos com toda a força de algo que não parecia a natureza.
Queria enxergar ao redor, mas estava cega — um capuz lhe cobria a cabeça e a deixava quase sem ar. Minúsculas partículas chocavam-se contra o pano, e logo sentiu-as nas pernas e nos braços, como um comichão ardente. Deu um estremeção de susto e no mesmo instante amaldiçoou-se pela imprudência, deveria ter ficado quieta. Acabara de perceber que estava sendo carregada no ombro de alguém.Seu carregador parou. Depositou-a no chão com leveza e puxou-lhe o capuz no rosto. E pela segunda vez, no mesmo dia, esteve diante de alguém que pensou ser um inimigo, mas era na verdade uma pessoa conhecida. Reconheceu Lothos em sua armadura vermelha e dourada, o rosto meio oculto por tecido e Arme ao lado dela. Mas a visão só durou um segundo, pois grãos de areia amontoaram-se em seus olhos como se o único objetivo deles fosse entrar bem fundo nas suas pálpebras. Percebeu então o que era aquilo que lhe pinicava o corpo. Estava dentro de uma tempestade, mas em vez de chuva, era areia.—Estou bem — ela conseguiu responder às perguntas de Arme, e de Elesis que estava atrás dela. Esfregou os olhos, e quando voltou a abri-los, o fez de forma muito deliberada e não os abriu completamente — O que aconteceu? Aqueles doces... Estão todos bem?—Estamos todas bem — garantiu-lhe a espadachim, mas a voz dela parecia distante. O vento arenoso jogava e levava as palavras para longe, fazia-as rodopiar e confundia o som — Você foi a única que desmaiou. Graças às Deusas tomou o antídoto a tempo!—Mas... Só eu que desmaiei? Você não sentiram nada?—Lire — a voz de Lothos estava um pouco rouca da areia — Não vamos discutir isso aqui, no meio do deserto, com areia entrando na boca e perto de enfrentar o chefe dos Oaks. A situação sobre os chocolates é séria, mas prometo, vou lhe contar tudo depois que sairmos daqui.A arqueira assentiu, e como já estava em condições de andar, Lothos deixou que caminhasse com elas. Notou que Elesis carregava a espada, e a comandante lhe devolveu o arco e a aljava que tinha deixado na estalagem. Deu-lhe o capuz que lhe tinha coberto a cabeça antes, uma peça de pano marrom feita exatamente para proteger da areia do deserto, que cobria o nariz e a boca e protegia parcialmente os olhos. Mas ainda assim não era uma jornada fácil.Virou a cabeça o tempo todo, para olhar ao redor e para afastar as picadas da areia no pescoço. Alguns metros à esquerda, a Guarda caminhava usando a mesma versão de capuz que ela e as companheiras. Além deles, paisagem era composta por dunas de areia constantes, num amplo mar de areia que só não parecia espalhar-se até o infinito porque a tempestade não permitia que enxergassem mais longe que dez metros. Vez ou outra, uma rocha aparecia meio enterrada. Uma vez encontraram uma coluna de pedra, no meio de uma base quadrada e erguendo-se um pouco menor que uma pessoa.—O que é isso? — Arme perguntou e então praguejou — Essa areia! Não consigo enxergar nada, quero sair daqui!—Então abre os olhos, ora! Você não consegue aguentar uma tempestadezinha de nada? — Elesis respondeu e de acertou a cara na pilastra — Arme! Foi você quem colocou isso aqui, não foi?—Não! Mas foi você quem acabou de pisar no meu pé!—Se você não consegue ver, como sabe que fui eu? — Elesis esperava, com isso, ganhar a discussão, mas Arme prontamente respondeu:—Não tem como errar, Elesis! Seu pé é grande e você pisa muito pesado!A mão de Lothos soou como uma palma abafada na nuca das duas, por causa do vento.Caminharam por cerca de meia hora. Elas agora andavam numa fila reta, com a comandante à frente seguida de Elesis e Lire, e Arme no final. A garota bufava e batia-se como se estivesse o tempo todo espantando mosquitos, mas a verdade é que ela se encontrava na posição mais privilegiada, já que as três recebiam o impacto da areia antes dela. Embora fosse difícil dizer, já que a tempestade vinha de todos os lados.Lire estava outra vez tendo uma experiência nova em Vermecia, e não estava gostando. Nunca tinha visto um deserto de areia, muito menos uma tempestade dela. A areia sob seus pés era um chão estranho, granulado e pouco firme, que não a deixava com risco de cair, mas que era muito estranho. Mas pelo menos se a areia se mantivesse quieta no chão! Em vez disso, ela voava por toda parte e irritava a pele, e mesmo com a proteção de pano, sempre havia aquele grãozinho aventureiro que conseguia esgueirar-se para dentro de um olho. Elesis perguntou-se por que viajavam isoladas e não no meio da Guarda, onde os homens serviriam como um escudo protetor. Em meio a um passo, Arme parou e pôs a mão na barriga.
—O que foi? O que houve, maguinha? É o veneno? — as palavras saíam como um raio pela boca de Elesis — O antídoto, rápido!—Deusas — Arme a ignorou completamente. Sua boca se abriu como se uma espada lhe tivesse perfurado o corpo — Minhas Deusas... Tem uma magia muito má aqui. Ah, Deusas, me ajudem... Eu sinto ela, é tão maligna!—Eu também estou sentindo — a comandante disse calmamente, mas seus punhos estavam cerrados. A boca por trás do capuz comprimiu-se com firmeza excessiva.—Não devíamos descansar? — Lire sugeriu com preocupação na voz, que Elesis negou estalando os lábios.—Pra nos demorarmos mais? Não precisa disso. Eu não estou sentido nada. Vamos descanar quando acabar, podemos muito bem seguir em frente.E foi o que fizeram, mas foi como se de repente cada passo se tornasse mais difícil que o anterior. O vento criava resistência contra as pernas e a areia já quase não machucava a pele anestesiada. Arme andava quase arrastando os pés, quase como se ela estivesse sendo obrigada a caminhar, como se cada nervo de seu corpo insistisse para que ela parasse. Curiosamente, ela seguiu todo o resto do trajeto calada e parecia muito abalada, mas continuou andando, sem se queixar uma única vez sequer. E com que num passe de mágica, saíram da tempestade.As três meninas pararam, de súbito estupefatas. O deserto ainda se estendia por toda parte, mas já podiam ver as montanhas escarpadas ao longe, e também as cobertas de verde. Viam construções, torres de pedra, como uma cidade abandonada, antigas, mas bem-conservadas de um modo que não sugeria abandono. Atrás delas estava a tempestade, como se fosse uma bolha de areia e vento e elas tivessem acabado de sair dela.—Essa tempestade não é natural — Arme falou — É magia.—Foi conjurada pra nos impedir — Elesis deduziu. Tirou a espada das costas.Havia uma pequena torre branca perto dali, grossa e atarracada, pouco mais alta que uma casa. A entrada era aberta e não havia porta. Dela, vieram os primeiros Oaks.Criaturas verdes, grandes e musculosas. Meio atarracadas, cabeças pequenas em comparação ao corpo e orelhas grossas e pontudas, feições abrutalhadas e narizes largos. Todos usavam tangas de pele de animal e uns usavam camisas limpas, outros tinham o peito nu. Eram onze ao todo. A maioria estava armada com clavas de madeira ou espada, mas havia alguns que seguravam longos bastões de madeira, finos e com uma pedra vermelha na ponta.—Desde quando Orcs são capazes de magia? — Lire disse tensa.Era como se estivessem esperando por elas. Os Oaks gritaram em desafio, abrindo as enormes bocas com dentes que mal cabiam nelas e distorciam seus rostos ainda mais. Como se fossem um só, atacaram.Elesis foi a primeira a revidar. A garota parecia um borrão vermelho investindo em fúria, mas o Oak que alvejava não teve a chance de provar sua espada. Lothos passou por ela como um raio e atacou o peito da criatura numa diagonal. A espada subiu, desceu e recuou, tomou impulso e perfurou, não com facilidade, o peito do Oak. Deu um puxão rápido e a espada, ao sair, já se virava para outro Oak.Elesis chegou logo depois, golpeando peito, braços e pernas, e esquivando-se de clavas e espadas. As flechas de Lire mal causavam efeito, a maioria batia na pele dura como se fosse feita de pedra. Quando Arme levantou o cetro para ajudar, Lothos mandou que parasse.—Cuide dela — ordenou ela a Lire. Arme cruzou os braços.—Por que a Lire tem que me proteger? Eu uso magia!A comandante a ignorou, pois a luta exigia toda a sua concentração. Oaks não eram, nem de longe, oponentes fáceis, e enfrentavam um número duas vezes maior. Acontece que eles lutavam contra duas excelentes espadachins, treinadas para aquele tipo de situação. Eram rápidas demais e os Oaks não conseguiam acertá-las, e se não podiam acertá-las, não poderiam feri-las. Mesmo assim, sabiam que um golpe de sorte de um dos Oaks, ou uma esquiva mal-executada, poderia ser o fim. Elesis chegou a sentir uma clava passando a dois dedos de sua cabeça, roçando a orelha bem de leve.Mas o último Oak caiu sob a espada da comandante, e logo havia no deserto uma mancha de carne verde e vermelha. Arme torceu o nariz, repugnada. Sempre ouvira dizer que os exércitos de Serdin eram tropas galantes, que lutavam contra monstros em batalhas cheias de glamour, protegendo o reino de monstros, enquanto poetas eternizavam as batalhas em canções e crônicas. Na realidade havia, entretanto, pouco desse glamour. Os Oaks caíam em posições estranhas, os corpos perfurados. A areia ficava vermelha onde bebia o sangue escuro que escorria dos ferimentos, e o cheiro metálico que se desprendia, atenuado pelo calor, era pior que a tempestade.—Vamos, em frente! O Templo Oak é por aqui!Elas continuaram andando e perguntaram-se como Lothos sabia para onde estavam indo, mas então viram que não havia como se confundir. Bastava seguir as construções de pedra, que ficavam cada vez maiores. Passavam por torres, pátios e salões abertos, enormes casas que pareciam castelos, e uma vez viram uma magnífica escada solitária que subia por vinte metros e terminava em lugar nenhum.Ouviram gritos ao longe e viram a guarda enfrentando Oaks, que iam pra cima deles surgindo de todos os lugares. Pareciam ignorar as quatro mulheres. Oaks eram guerreiros, e certamente julgavam que trinta homens seriam uma luta melhor. Vinham de toda parte e agora parecia que uma centena se amontoava ao redor dos soldados, um número que só aumentava. Elesis parou.—Não pare! Eles estão aqui pra isso. Nosso objetivo é o líder. Ande! Ande! — Lothos mandava antes mesmo que a espadachim pudesse sugerir que ajudassem a guarda.—Devemos ir todos juntos — Lire protestou.—Não, Lire. Só precisamos matar o líder — insistiu Lothos.Ela discordava, Elesis também, mas estava sob as ordens da comandante, então fez o que lhe era mandado. Continuou em frente e logo a guarda saiu de vista, mas ainda era possível ouvir o barulho da luta. Vez ou outra, elas topavam com Oaks, mas Lothos insistia para que desviassem deles, e não lutassem. Agora estavam correndo. Arme foi a primeira a parecer cansada. E finalmente, chegaram,Era um lugar onde a areia formava uma colina muito baixa, e tão larga que seria possível construir uma vila ali, e foi isso mesmo que os Oaks fizeram. As construções de pedra eram mais numerosas e mais funcionais, dispostas num círculo grosseiro, e no centro encontrava-se um chão de pedra do tamanho de um campo, onde elas pisavam agora. Colunas erguiam-se nas bordas de dois lados, apontando para o céu. Um altar erguia-se perto da extremidade, entre as duas filas de colunas, branco, e atras dele estava o maior Oak que já tinham visto.O líder Oak em Serdin era maior que os demais, mas aquele fazia todos os outros parecerem crianças, e crianças anãs. Era tão musculoso que as veias, grossas como cabos, estriavam pela pele como um cobertor ondulado no peito nu e nos braços. Os olhos amarelos eram grandes e brilhantes, brilhavam mesmo, como que iluminados. Os dentes inferiores saíam da boca e subiam até alcançar o nariz. As pernas eram grossas como troncos de árvore, e a tanga, presa por um largo cinto de couro e metal enfeitado com crânios, nenhum deles humano.Estava curvado sobre o altar, que, notaram, brilhava como se estivesse pegando fogo — mas era um fogo roxo e estranhamente escuro. O mal que se desprendia dele era uma energia quase palpável que parecia encher o Oak de força. Viu as invasoras, deu a volta no altar e fitou-as.—Os oaks... Não acredito que fracassaram em matar quatro garotas. Quatro garotas!Lire aproximou-se um pouco.—Então você é o responsável pelos ataques. Olha, que tal pararmos com tudo isso agora mesmo? — seu tom era conciliador — Não precisamos de luta. Todos queremos uma boa Vermecia!O Oak riu e bateu no peito. Elesis rangiu os dentes.—Acho que persuasão não vai funcionar com ele, Lire...—Covarde! — gritou o Oak — Está com medo? Venha e me enfrente! Vou esmagá-la como a um porco!—Como a um... porco?O Oak rugiu. Bufou, sacando das costas a arma que as meninas não tinham notado antes, ofuscadas pelo horror que era a criatura em si. Mas agora que ele a punha à frente do corpo, não havia como não notar. Um martelo duplo, completamente negro, maior que o Oak. Os dois imensos cubos eram presos ao cabo e tinham duas pontas, ambas em forma de pirâmide. No ponto onde os cubos se juntavam, o cabo continuava mais um pouco e terminava numa esfera púrpura, entalhada com inscrições antigas.
Ele atacou, e era quase tão rápido quanto era grande. Em três passos chegou à frente das meninas e girou seu martelo. Arme e Lire recuaram, Elesis e a comandante Lothos saltaram um para cada lado. A garota golpeou várias vezes, deixando finos riscos na pele verde que nem chegavam a deitar sangue. Do outro lado, a espada de Lothos não obtinha melhor sucesso. O oak recuou a arma para outro golpe e riu.—Vocês vêm a mim com palitos de dente? Olhem só o que é uma arma de verdade!Subitamente, ele virou o martelo para um golpe à esquerda, bem na direção de Elesis. Ela pulou para atrás dele e pôs-se a atacá-lo, mas a parte traseira era tão dura quanto a frontal.Ela e Lothos circularam pelo oponente, procurando algum jeito de derrubá-lo. Oaks podiam ser lentos, mas aquele tinha braços muito fortes e conseguia manejar o machado com bastante rapidez. Arme jogava suas magias, mas era como se a criatura nem as sentisse. E Lire ficava mais afastada, incapaz de fazer qualquer coisa.Houve um momento em que ele bateu o martelo com força no chão e Lothos o contornou, ficando bem próxima à pele verde. O Oak dançou alguns passos, confusos — não poderia atacar com a comandante tão perto. Ela tentava acertar-lhe o pescoço, que era bastante alto para ela, então subitamente o Oak virou o cabo do martelo para cima e puxou-o para si.A comandante foi esmagada entre a perna dura e a pedra negra ainda mais dura. Soltou um suspiro de surpresa e arqueou as costas. Arme gritou. O Oak a agarrou com a mão e a atirou longe, onde rolou pesadamente numa confusão de grama e metal.A criatura rugiu em triunfo enquanto Lire corria para acudir a comandante. Elesis sentiu um repentino lampejo de raiva e pulou girando a espada, girando o corpo e dando um impulso no próprio ar, mergulhando, a espada apontada para baixo. Energia vermelha saía dela, rápida como o relâmpago.A garota atingiu o pé do Oak, e dessa vez, perfurou-lhe a pele, e a ponta da espada só parou ao bater no osso. Sangue vermelho espalhou-se e cobriu o pé da criatura, que tentou chutar, mas Elesis já recuava. Desceu a lâmina na região ferida e abriu mais o corte. O Oak rugiu, de dor e fúria, e bateu o pé com força no chão, fazendo-o tremer. Elesis perdeu o equilíbrio por um momento, mas conseguiu evitar ser atingida pelo martelo que veio em sua direção.Aconteceu numa fração de segundo. Assim que a arma bateu o chão, um vulto dourado subiu por ela, pisou no cabo e saltou, os raios de sol refletindo na armadura. Lothos gritou e desceu a espada com toda a sua força, mirando o pescoço do Oak. Foi a mesma coisa que atingir uma pedra de granito. A espada deslizou quase inofensivamente, criando um pequeno corte, e a comandante bateu a cabeça no ombro do Oak ao cair.Uma pedra estilhaçou-se contra o rosto do Oak. Depois um raio. Mas as magias de Arme de nada adiantavam. O Oak mal teve tempo de gritar um desafio quando a comandante fez algo inesperado: sacou uma pequena faca, uma lâmina minúscula, e a usou para espetar o centro da tanga que cobria a cintura.Desta vez, o grito do Oak era de pura agonia. O que as grandes espadas tinham dificuldade em cortar, a pequena lâmina trespassava sem problemas, com toda a força da ponta concentrada num único ponto. E Lothos atingira a parte sem osso e onde a pele era mais macia. Algo caiu da tanga do Oak, carne verde totalmente coberta de vermelho. E, mais inesperadamente ainda, Lothos fugiu.O Oak agora sentia dor, mas estava furioso como nunca. Ignorando Elesis completamente, pôs-se a correr, a lentidão de seu corpo compensada pelos passos mais longos. Seus olhos amarelos fixavam-se nas costas de mesma cor da comandante, e ele não via mais nada além da inimiga. Então, de súbito, Lothos se virou e se agachou, passando por baixo das pernas do Oak.O corpo, grande e pesado, demorava um pouco para parar uma vez que estivesse correndo. E só então a criatura reparou que Lothos a atraíra para o meio de duas fileiras de homens, dispostos em dois corredores. Os homens ficaram logo ao seu lado, ergueram cajados e varinhas. E então as três meninas, que observavam a cena, lembraram-se de que aquela guarda vinha de Serdin.O reino da magia. Energia azul brotou das armas dos guardas, que recitavam encantamentos, faziam gestos com os braços e com os bastões. Uma fina camada de gelo começou a cobrir todo o corpo do Oak, surgindo de vários pontos e espalhando-se por toda a pele. O frio penetrava nos músculos, reduzia-lhes a mobilidade, até que ficou grossa o bastante e o Oak foi paralisado. Ficou parado com uma perna no ar, o corpo curvado como se tivesse sido congelado no meio de um tropeço.Mas podiam sentir que ele resistia e lutava contra o gelo. Os guardas de Serdin ergueram a mão que não apontava para o Oak, levantando-nas para o céu, e num segundo nuvens baixas condensaram-se e ficaram negras. O raio que se desprendeu dela foi como o próprio céu se rachando, o trovão que veio em seguida pareceu o som do próprio mundo partindo-se em dois. A visão ficou delineada contra o céu por uma fração de segundo, mas ficou gravada por bastante tempo nas retinas de quem observava pela primeira vez. O barulho foi tão alto que os ouvidos apitaram por vários minutos.E tão rapidamente como começou, terminou. As nuvens se dissiparam no céu, os guardas se separaram na terra e o Oak tombou de bruços. Parecia intacto, sem um único arranhão além daqueles produzidos pelas duas guerreiras, mas Arme estremeceu. Conhecia a natureza daquela magia, sentira o quão era poderosa. O gelo que cobria o Oak servira como um condutor, levando a eletricidade por todo o corpo, fritando-o por dentro. Era surpreendente que o Oak ainda tivesse forças para tentar se erguer, conseguindo apenas cair novamente, dessa vez de costas. O martelo permanecia no chão ao seu lado, o cabo firmemente seguro pela mão pesada.O breve atordoamento que se seguiu foi interrompido quando a comandante subiu no peito largo e apontou a espada para sua garganta.—Onde está Cazeaje? Sua líder, onde ela está?O Oak olhou para ela, confuso. Lothos repetiu a pergunta. Ele grunhiu, mas ninguém compreendeu. Com evidente esforço, abriu a boca e disse:—Não... sei.A voz soava mais como um grunhido rouco, mas não havia nada que indicasse mentira. Estavam todos próximos dele agora, e era evidente que sofria. Então ele ergueu a cabeça, para encarar a comandante nos olhos. Eram amarelos, mas não mais brilhavam como antes, o único brilho que via neles era o orgulho selvagem, os olhos de um Oak. As narinas abriam e fechavam conforme ele respirava.—Valeu — disse, provavelmente porque "obrigado" exigia um esforço maior. E com essa última palavra, ele largou o cabo do martelo, libertando-se da magia negra que era a única coisa que o alimentava e o prendia à vida. Os olhos perderam o pouco do brilho que restava e a cabeça tombou para um lado. Lothos se endireitou e desceu de cima dele. Estava morto.Ninguém comemorou, nenhum homem da Guarda gritou em triunfo. Tinham vencido, mas era como se uma cortina pesada estivesse sobre eles. E Lothos sabia o que era, que ainda não tinha terminado.—Arme — chamou, sobressaltando a maga — Venha cá.A menina aproximou-se, nervosa. Lothos a fez dar a volta no Oak, onde as outras meninas não podiam vê-la. Lá, estava o grande martelo, pousado no chão. A mão do Oak estava puxada a vários centímetros longe do cabo, como se ele tivesse afastado-a o máximo possível da arma quando a largou.—Você consegue sentir, não consegue?A garota assentiu.—A sua missão, como Grand Chase, é destruir o mal criado pela nossa inimiga. E essa é a primeira grande fonte de magia negra de Cazeaje. Como maga, o seu dever é destruí-la.—Não — Arme sacudiu a cabeça com veemência — Senhora, eu não consigo — e pensava isso mesmo. Como poderia? Suas magias não causavam nenhum efeito no Oak, por que conseguiriam destruir a arma que ele usava?—Existe muita diferença entre derrotar um inimigo na luta e derrotá-lo quando ele está caído — Lothos parecia ler os pensamentos da garota — Alguns consideram o calor da luta mais fácil e não têm coragem de executá-los a sangue frio. Outros, porém, conseguem. Isto é magia poderosa, Arme, e se você deixá-la aí, ela vai penetrar na terra, corrompê-la e dominar outra criatura, talvez mesmo outro Oak. —Nós o derrotamos... O Oak morreu...—O Oak não era mau, ou talvez até fosse, mas a verdadeira maldade estava nesse martelo. Ainda está. Foi Cazeaje quem o controlou, Arme, e o fez mandar todos aqueles ataques. Ela possuiu o rei de Canaban, depois a rainha, depois fez o mesmo com Serdin. Você acha que ela iria parar por aí? O único jeito é destruir todo o tipo de magia negra em Vermecia, e aqui está um bem grande. Vamos, destrua.Simples assim. Ela afastou-se, como se realmente fosse assim tão óbvio. Arme permaneceu parada, encarando as duas pedras quadradas. Ergueu a mão e tentou conjurar uma bola de fogo, mas vacilou tanto que a magia não apareceu. Olhou para Lothos em busca de ajuda, mas a comandante apenas ergueu a sobrancelhas.—Vai querer que eu chame a Elesis pra fazer isso?Arme franziu a testa, e isso foi o que despertou um sentimento estranho dentro da garota. Elesis era uma guerreira, que não entendia absolutamente nada de magia! E a comandante tinha falado com certo desdém na voz, como se duvidasse de suas habilidades. Não, era como se ela estivesse desafiando-a a destruir aquilo. Arme, inocente como era, não percebeu isso, mas seu subconsciente sim. Captou o desafio escondido naquelas palavras e encheu-a de uma emoção brava. Ela olhou bem para o machado, ergueu seu cetro e pensou num relâmpago, o maior, mais poderoso e mais destruidor que pudesse criar.Em vez disso, o martelo foi envolvido por uma luz púrpura, brilhando de uma forma que parecia sugar a luz que havia ao redor. A garota levantou mais o cetro e o martelo subiu. Flutuou um metro no ar, dois, três... Então caiu de volta com estrondo, uma explosão de luz negra saindo de seu interior.Houve um grito que pareceu interminável, o de uma mulher em sofrimento que fazia gelar o sangue e arranhava os ossos. Elesis chegou a sacar a espada. Arme rangeu os dentes, gritou em seguida, e finalmente conjurou seu raio. Foi uma faísca roxa, que surgiu do céu e cobriu o martelo de fagulhas.Arme piscou. Não tinha percebido que caíra de joelhos. Sentiu a mão grossa do Oak perto de si, apoiou-se nela para levantar... E contemplou, assombrada demais, seu trabalho.O imenso martelo jazia afundado quase meio metro no chão, os dois quadrados que o formavam separados do cabo agora partidos em três pedaços. Lascas e pó negro cobriam o que restava da arma e também o chão ao redor. Não parecia nada assustador. Arme, exausta, não sentia mais nenhum poder nele.—Muito bem — Lothos aproximou-se, a garota não tinha percebido que ela tinha se escondido atrás do Oak. Agora estava ao lado dela, ajudando-a a se manter em pé com um sorriso de aprovação.—Mas eu não sei bem o que eu fiz — Arme normalmente estaria orgulhosa, mas em vez disso, parecia muito confusa — Eu nunca tinha feito isso, é como se, tipo, eu sei fazer, mas não sabia que sabia... não sei...Lothos a segurou quando ela ameaçou tombar de cansaço, e ajudou a levá-la até a Guarda. Dessa vez, houve vivas e aplausos, e mesmo cansada, a menina conseguiu olhar radiante para as outras meninas que observavam, perplexas — a uma distância bastante afastada do Oak e do martelo, Arme notou.—Eu consegui! — ela disse para Elesis — Eu destruí... ah... destruí.—Boa, Arme! — Elesis disse, mas não soube se a maga chegou a ouvi-la. Adormeceu nos braços da comandante Lothos.
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