Notas iniciais
Uma transição de história antes de mais uma missão(afinal, a Grand Chase não passou só pelos lugares das missões, não é?). Novamente, se houver alguma parte confusa ou "mal-entendida", agradeceria muito que seja gentil e me avise num comentário ^^

Oito dias haviam se passado desde que a Grand Chase passara pela Praia Carry. Três para que Lire se recuperasse até que as dores sarassem e deixassem apenas marcas inflamadas, doendo apenas quando se tocava nelas. Dois dias para caçarem e se certificar de que teriam provisões para a viagem e mais dois para fazerem uma longa volta que passava o mais longe possível da praia Carry. Harpias eram muito orgulhosas, e a vingança poderia muito bem ser um defeito delas. Decidiram, sem muita discussão, que seria melhor ir para longe da praia Carry para depois voltar a pegar a estrada.

O oitavo dia Lothos reservou para treinar Elesis, algo que a garota encarou quase como uma afronta. Era, afinal, a líder dos Cavaleiros Vermelhos e filha do próprio Elscud dos Rastreadores de Canaban. Mas uma série de golpes rápídos da comandante a fez mudar de idéia. Elesis concluiu que talvez tivesse algumas técnicas a mais que poderia aprender.

–Você luta como um homem — disse Lothos, sem sinal de ser um elogio — Seu pai a treinou como homem. Por genética, as meninas têm o corpo mais flexível, e fato de nossos músculos nascerem menos fortes também os torna mais fáceis de dominar.

O que fez Elesis decepcionar-se por ter pensado que aprenderia golpes e estilos de lua novos. Lothos sentou-se com as pernas abertas em um ângulo perfeito de cento e oitenta graus, com armadura e tudo. Depois tocou os pés com as pontas dos dedos sem nenhum esforço, fazendo Arme estremecer. Aquilo parecia pior do que quando tivera aulas em Serdin, onde a mandavam tocar a ponta dos pés com as pernas esticadas.

O resto do dia passou assim, com Elesis contorcendo-se e curvando o corpo em posições nada lisonjeiras enquanto virava e soltava os músculos. Ela os tinha bem móveis e seu pai a ensinara muito bem — mas seus músculos eram de guerreira, não de acrobata. Lothos dizia que a flexibilidade era muito importante, pois permitia um maior controle corporal e evitava cãibras, torcicolos e contrações indesejadas.

–Se isso acontecer na batalha, é meio passo para morrer — disse a comandante, observando com olhar crítico enquanto Elesis sentava-se ajoelhada e curvava as pernas para fora, o máximo que podia.

–Nunca vi um grande herói que tenha morrido de torcicolo no meio da luta!

–É porque é um motivo tão vergonhoso que ninguém fala mais deles — Lothos respondeu sem se alterar.

Lá para as seis da tarde foi quando o treinamento acabou e Lothos mandou que seguissem. Arme dava risinhos e Lire sorria, solidária. Elesis as olhava carrancuda. Enquanto se torcia e se curvava, as duas tinham ficado conversando e admirando a floresta. Arme uma vez pedira para Elesis ir devagar, pois seus gemidos estavam perturbando a melodia dos pássaros. Elesis não a esganou, porque estava com as mãos segurando os pés atrás das costas.

Oito dias desde a luta com as harpias, saíram da mata e puseram-se a caminhar novamente pela estrada, quando Lothos achou que já seria seguro andar por ela. A praia Carry tinha ficado para trás, mas muitas outras praias a substituíram ao longo do caminho. Arme pareceu realmente chateada quando Lothos não as deixou brincar um pouco. Continuaram a caminhar, aparentemente as únicas passageiras naquele lado de Vermecia. A estrada virava para norte e logo elas perderam a visão do mar, voltando a estarem cercadas pela grama e pelas árvores. Chegaram por fim a um ponto onde a estrada serpenteava entre grandes e pequenos lagos, brilhantes como manchas azuis. No meio de uma ampla parte de terra com entrada voltada para a estrada, erguia-se um grande edifício.

Tinha três andares, simples e quadrado, de telhado triangular e feito de madeira marrom resistente. Uma varanda enfeitava a frente do estabelecimento, elevada como um palco, cercada por uma beirada de proteção onde se podia debruçar e observar, como a sacada no andar superior de um prédio. Era claramente uma estalagem, um lugar para descansar e dormir. Arme e Elesis desejaram sombriamente que pudessem fazer uma pausa ali. Surpreenderam-se quando Lothos parou.

–Vamos descansar e ficar aqui por algum tempo. Estamos chegando ao nosso destino e mais tarde poderemos seguir viagem — anunciou.

Entreolhando-se, mal acreditando no que ouviam, as meninas obedeceram mais do que satisfeitas. Subiram a pequena escada à varanda, já muito animadas.

–Será que eles servem jantar? Estou morrendo de fome! — Arme ergueu a mão para a maçaneta da porta no mesmo instante em que outra pessoa a abriu e se adiantou, bloqueando a entrada. Era um rapaz jovem, tão alto que seus cabelos negros roçavam o batente da entrada. Magro, vestido completamente de negro exceto pela camisa púrpuro-clara por baixo da jaqueta aberta. Ele as encarava de cima com os olhos escuros e risonhos, e seu sorriso era muitas coisas: sarcástico, conquistador, divertido, malicioso.

–É claro que servimos; os melhores doces para nossas mais doces senhoritas — ele piscou e fez um amplo gesto de "primeiro as damas", desbloqueando a porta. Elesis bufou e Arme deu risinhos, agradecida, e entrou. Elesis decidiu que não gostara muito do homem. Entrou com não mais que um aceno cordial de cabeça, e Lire, embora não tivesse conhecido ninguém assim, também não se simpatizou muito com ele. Parecia-lhe alguém que gostava de ficar rodeado por mulheres e que flertava com elas o tempo todo, o que a desagradava. Ela recusou quando ele lhe ofereceu a mão para entrar, mas quando pisou na soleira da porta, ele deu um passo para trás, encostou um joelho no chão e beijou as costas da mão da arqueira.

Elen silá lumen'otielvo– olhou-a, de baixo desta vez. Seu olhar brincalhão, cheio de uma sutil reverência enquanto os lábios roçavam-lhe a mão, deixou Lire tão vermelha quanto os cabelos da espadachim.

–Eu lhe... Digo o mesmo — foi o que conseguiu balbuciar. Desviou o olhar rapidamente, sem conseguir controlar o sorriso bobo que curvara seus lábios. O do rapaz alargou-se mais e ele lhe soltou a mão.

–Sou Gamui, e em que posso... — ele se calou quando a quarta integrante do grupo entrou, um pouco depois das três — Mas meus olhos me enganam. Comandante da Guarda Lothos, a que a Finestra Aperta deve a honra de sua presença?

–O fato de terem-na construído bem no nosso caminho — Lothos disse de bom humor. Gamui assentiu.

Enquanto as três meninas se sentavam numa das muitas mesas circulares, Lothos resolvia os preços e a estadia. Era um lugar fresco, bem iluminado por lamparinas e agradável, com praticamente todo o andar térreo servindo de sala de entrada, com mesas e cadeiras. Um balcão à esquerda funcionava como bar e recepção.

–Ahhh... Finalmente. Eu nem acredito que paramos. Achei que ia ficar andando para sempre! — comentou Arme.

Você estava cansada, maguinha? — Elesis respondeu com olhos arregalados de sarcasmo — Ficar olhando eu treinar contorções por horas te esgotou, foi?

–Minhas pernas são mais curtas que as suas! — a outra se defendeu no mesmo tom.

–E muito mais fracas, também — Elesis riu secamente.

–Não briguem — Lire pediu tão vagamente que as outras duas a olharam. Arme sorriu. A elfa encarava as próprias pernas, sonhadora. Elesis inclinou a cabeça.

–O que foi que ele te disse? — quis saber a menina — Aquela frase estranha, o que significa?

–É uma saudação élfica — Lire respondeu baixinho — Uma estrela brilha no momento de nosso encontro. É uma saudação incomum, muito solene e... bom...

A arqueira bufou e, sem dizer mais nada, pediu licença e se afastou. Arme riu. Podia ver que Gamui a tinha lisonjeado muito.

–Meus cumprimentos — saudou o rapaz do balcão do bar quando ela se sentou no banco alto — Você parece um pouco abatida. Uma boa bebida, gelada, é o que vai ser?

–Obrigada — Lire finalmente deixou o sorriso surgir, esperando que o homem não entendesse o motivo, e tirou um maço de folhas do bolso — Poderia fazer uma bebida com isso, sem retirar nada?

–Poderia — o homem mexeu as folhas nas mãos com suspeita — Não me parece bem o que eu escolheria, mas... — ele deu de ombros e pôs-se a bater as folhas em um pilão. Segundos depois, Lothos aproximou-se dela.

–Vamos ficar aqui esta noite — anunciou a comandante — Os quartos são no terceiro andar. Avise as outras, eu vou enviar uma mensagem a Serdin.

–É claro — Lire respondeu distraída — Para onde vamos depois?

Lothos não respondeu, disse apenas que receberia confirmação de Serdin, no que ela se retirou. Sacudindo a cabeça, ela voltou-se para olhar ao redor. Não tinham encontrado ninguém na estrada, mas mesmo assim o lugar estava ocupado por uma dúzia de pessoas. Havia espaço para todos e as risadas afastavam qualquer sensação de que se encontravam num lugar isolado. De repente, a garota sentiu-se seguramente confortável e entretida. Não havia bares ou tavernas em Eryuell, mas tinha ouvido falar que elas eram barulhentas, briguentas e fediam a bebida — quem quer que tenha lhe contado isso, certamente não tinha visitado a Finestra Aperta. Pessoas chegavam ocasionalmente, e o jovem Gamui atendia a todos com grande paciência e cortesia. Havia meninas entre os fregueses, mas reparou-se que ele não piscara nem se curvara para nenhuma delas, embora fosse extremamente simpático com todos.

–Aqui está, senhorita. Deseja mais alguma coisa? — o homem veio trazendo uma grande caneca cheia de um líquido denso e esverdeado, e quando a menina disse que estava satisfeita, ele deu de ombros — Bem, não vou cobrá-la por isto. Aproveite bem a sua estadia... E seja lá o que for isso aí que acabei de fazer.

Ele fez uma careta discreta quando a viu beber a mistura com gosto. A menina virou-se novamente, desta vez para observar a mesa onde se encontravam Elesis e Arme. Estava cheia agora — três homens haviam se sentado nela, um deles disputando quebra de braço com a espadachim. Ambos pareciam estar tendo dificuldade no embate. A arqueira viu os lábios do adversário se mexerem em algo que certamente não era um elogio, e certamente foi o que Elesis também achou — a expressão da garota ficou dura e ela socou o rosto do homem com a mão livre, imediatamente conseguindo deitar-lhe o braço na mesa.

Ouviram-se gargalhadas e um resmungo irritado, seguido pelo arrastar de cadeiras quando o próximo desafiante resolveu vingar o amigo em um outro round. Lire voltou a tocar os lábios na bebida depois de um suspiro. Por fim, levou uma boa meia hora até que os desafiantes deixassem a mesa de Elesis, que contara mais vitórias do que derrotas. Um dos homens, vencido, sorriu e lhe pagou uma caneca de vinho quente. Ela não gostava de vinho, mas aceitou, e aquele estava bom.

Mais clientes chegaram quando o sol se pôs — a maioria cansados e ofegantes, quase como se tivessem corrido o trajeto final para alcançar a estalagem antes que a noite caísse. O sul de Vermecia não era exatamente perigoso, mas os rumores sobre Cazeaje circulavam por toda parte e ninguém queria se ver sozinho na estrada, à noite, por isso procuravam instalar-se para viajar durante o dia. A isso, Elesis erguia uma sobrancelha com descrença. A Finestra Aperta, embora aconchegante, com homens que ela derrotava na queda de braço, não era o que ela chamaria de fortaleza defensiva contra monstros, mas os visitantes pareciam sentir-se mais seguros sob um teto e com bebidas para refrescar-lhes a garganta.

–Ouvi dizer que a rainha de Canaban resolveu finalmente agir — comentou Gamui — Ela e a rainha de Serdin estão juntando um enorme exército. Diz-se até que estão agora mesmo combatendo os monstros de Cazeaje.

–As Deusas sejam louvadas — comentou um carroceiro gordo e baixo.

Quando o térreo já estava bem abastecido de pessoas, Gamui aproveitou a deixa e foi a um lado, puxando uma harpa. Tocou várias músicas, acompanhado de um taverneiro que batia habilmente numa caixa. Depois ele passou para um instrumento estranho de cordas, tocando músicas agitadas e estimulantes e de novo à harpa, e no fim tocou uma lenta canção das ilhas élficas que levou lágrimas aos olhos de Lire. Depois da sessão, um chapéu foi habilmente estendido e as pessoas depositavam moedas ali. Elesis podia não ter gostado muito dele, mas gostava de sua música, e deu-lhe algumas moedas — ela tinha várias, resultantes das apostas de infelizes jogadores de queda de braço.

Por fim, até ela resolveu que tinha julgado mal o rapaz. De início pensara no jovem Gamui como um cara conquistador e superficial, mas agora via algo diferente nele. Ele fez várias visitas à mesa das garotas perguntando se queriam algo, e seus modos gentis a todas as pessoas não pareciam nem um pouco serviçais e aduladores. Ele falava com confiança e sua disposição era verdadeiramente sincera, e havia certo sarcasmo em sua expressão sempre que se curvava ou fazia alguma outra reverência. E conhecia ótimas piadas também. Notaram também que a estalagem tinha vários empregados, mas Gamui era sempre o mais convocado e o mais animado.

Foi uma noite deliciosa, mas não demorou até que Elesis, Lire e Arme se lembrassem do verdadeiro motivo de terem estado tão animadas para estar ali. Porém, Arme foi a primeira a se retirar — Lire queria experimentar vinho, e Elesis estava disposta a mais uma rodada de queda de braço, a que homens animados responderam com vontade. A arqueira suspirou enquanto provava a bebida. Talvez, refletiu ela, a Finestra Aperta se parecesse mais com as tavernas das quais ouvira falar do que tinha imaginado.

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–Lire. Levante.

À voz calma, a arqueira despertou e sentou-se na cama, espreguiçando-se com vontade. Fazia tempo que não dormia numa boa cama, e aquela era realmente uma das mais confortáveis. A garota abriu os olhos, meio sonolenta. Seus braços congelaram no ar quando ela viu a cena à sua frente.

Dois homens encapuzados e de boca coberta montavam guarda perto da porta e um terceiro, o que a chamara, estava parado de pé em frente à cama. Segurava uma Arme adormecida e que babava em seu braço — a mão dele segurava um punhal encostado à garganta da menina.

Lire adiantou-se por impulso e o homem recuou, fazendo um gesto de aviso com a mão que segurava a arma. A arqueira comprimiu os lábios e assentiu, encarando-o, uma pergunta no olhar.

–Vá na frente — ordenou, a boca movendo levemente o tecido que a cobria. Parecia não haver necessidade de dizer a ela que não tentasse nada. A menina desceu as escadas com tranquilidade, seguida pelos três homens. Era madrugada e o térreo estava vazio. A porta de entrada estava aberta, com mais dois homens armados.

–Entre — um deles apontou uma carroça estacionada do lado de fora da estrada. Ali amontoavam-se pelo menos uma dúzia de homens, com um pacote que se sacudia no meio deles. Lire notou que era Elesis, amarrada e amordaçada. Arme ainda dormia. Mesmo quando foi jogada em cima de Elesis, ela não acordou. Talvez tivesse sido nocauteada, pensou a arqueira.

Lire estava com o pé na borda da carroça para subir quando uma voz lhe disse, às costas:

–Esperem, senhores. Vocês vão partir tão cedo? Essa não é a melhor hora para se pegar a estrada.

–Poupe-nos — um dos homens resmungou para Gamui. Na escuridão, os homens na carroça juntaram-se discretamente para ocultar as duas garotas que transportavam — Temos ordens de Serdin para partir com ela agora mesmo.

Ordens de Serdin... Aquilo despertou algo estranho na mente da arqueira. Ainda pensava nisso quando Gamui virou-se para ela e curvou-se profundamente.

–É claro. Permitam-me, pelo menos, que eu lhe entregue algo. Você deve ter esquecido — ele sacudiu uma presilha de cabelo que Lire nunca vira na vida — Deixe-me prender para você.

Ele piscou e sorriu, aproximando-se dos cabelos loiros da menina. Ficou logo atrás da carroça ao fazer isso. Os homens grunhiram impacientes, mas Gamui apenas sorria, um sorriso que se transformou numa expressão maligna de sarcasmo. Sem aviso, empurrou Lire para longe da carroça e saltou sobre o veículo, movendo as mãos rapidamente. Pó branco espalhou-se dele — um saco de farinha rasgado — que cegou temporariamente os sequestradores. Quando recuperaram-se do susto, pouquíssimos segundos depois, Gamui desaparecera com as duas prisioneiras.

Um dos homens gritou e apontou, mas seu braço esticado foi subitamente dobrado e torcido para fora, deslocando-o. Com o peso do corpo, Lire subiu na madeira e o jogou para fora da carroça.

Dois homens moveram-se para agarrá-la. A arqueira usou os braços como espadas para mover um braço de cada oponente para cima, agarrando-os com a mão e torcendo com força. Um soco por trás a atingiu na orelha e quase a derrubou. Quando Gamui a empurrara, certamente esperava que ela aproveitasse o impulso fugisse, mas Lire tomara a decisão errada — atacara, pensando nas amigas, percebendo tarde demais que Gamui as tinha retirado de lá há muito tempo.

Por pouco ela conseguiu escapar de um segundo soco e pulou para fora da carroça. Restavam cerca de quinze homens, e agora que a surpresa havia passado, todos aglomeravam-se e corriam para enfrentá-la. Os que estava do lado de fora juntaram-se para cercá-la com os que estavam no veículo. Sem alternativas, a menina pôs-se a socar rostos com as mãos magras, inflingido golpes doloridos e desconcertantes.

Um rugido se fez ouvir e então o som de carne sendo esmagada quando um vulto vermelho pulou na carroça, o punho fechado esmagando-se no queixo de um homem. Ele caiu no mesmo momento, gemendo. Lire virou-se e viu que era Elesis.

Gamui devia tê-la soltado, pensou ela. A companheira ainda vestia os pijamas curtos de linho e seus cabelos estavam bagunçados, os dentes à mostra. Seus olhos cintilavam de fúria, socava e golpeava como um animal enjaulado finalmente liberto. Vendo a oportunidade, Lire agarrou o braço de um lutador e o torceu, depois pulou para fugir do alcance.

Aconteceu num instante. Os braços de Elesis foram subitamente agarrados por mãos fortes, depois um terceiro homem segurou-lhe as pernas. Quatro outros homens choveram sobre ela e viraram-lhe os braços para trás e fizeram-na ajoelhar no banco da carroça. Ela gritava insultos e debatia-se, mas as mãos que a seguravam resistiam com firmeza. Um homem gritou, um naco de carne do braço arrancado por uma feroz mordida. Elesis engoliu pele e sangue quando recebeu um soco no rosto em resposta. Sete homens agora a prendiam, e Elesis estava imobilizada.

A luta se acalmou, e por um momento a escuridão transformou a cena numa massa confusa de homens agitados dentro e ao redor do veículo. A carroça inteira solavancou e derrubou quase metade dos homens no chão quando Lire, em cima de um cavalo, bateu nele com uma grossa correia de couro. Fez o mesmo com o outro cavalo, que empinou, relinchando em protesto e instabilizando ainda mais a carroça.

Houve o som da madeira rangendo e então as rodas começaram a se mover, quando o primeiro cavalo correu para fugir da ponta do couro, que estalava como um chicote. O segundo cavalo, também atado à carroça, não teve escolha senão seguí-lo. O coração de Lire martelava no peito quando saltou repentinamente do animal para a carroça, empurrando um dos três homens que permaneciam nela, que caiu com violência no chão. Elesis ergueu-se de um salto e atirou os outros dois por cima da beirada.

Lire teve um súbito pressentimento de inspiração e pulou em cima de Elesis, derrubando-a de costas contra a madeira que sacolejava e pulava, à medida que os cavalos entravam em galope.

–Solta! Solta! Sai de cima de mim!

–Não, Elesis! — Lire gritou, e foi preciso toda a sua força de vontade para imobilizar a garota, um braço passando pelo ombro e pescoço de Elesis e o corpo em cima do peito dela. A espadachim bateu os pés e tentou libertar-se, mas a arqueira conseguiu vencer, mesmo com as sacudidas da carroça que atrapalhavam-na a manter a imobilização. Depois de alguns tensos momentos, a fúria nos olhos dela arrefeceu e Lire sentiu que era seguro libertá-la.

–A Arme! Precisamos voltar agora!

–Gamui estava com ela — disse-lhe Lire. Ambas agora seguravam-se com força nas bordas da carroça — Deve tê-la levado a algum lugar seguro. Ouvi cavalos atrás da pousada.

–Cavalos! — Elesis rugiu — E se os bandidos os usarem para vir atrás da gente?

Mas elas tinham mais com o que se preocupar do que em voltar. Passados alguns minutos, os dois cavalos viram que não estavam mais em perigo e reduziram a velocidade. Desta vez, foi Elesis quem bateu e gritou com eles, e Lire teve que admitir que a espadachim era mais eficiente do que ela quando se tratava de pôr cavalos para correr. Nenhuma delas tinha experiência em guiá-los, mas os cavalos pareciam saber por onde ir. Seguiram a estrada o tempo todo.

–Vamos para a grama — falou Lire quando achou que já estavam longe — Me ajude aqui!

Elas tentaram virar os cavalos para a esquerda, para sair da estrada e despistar os perseguidores, mas sem sucesso. A única direção que elas conseguiam incitar os cavalos era pra frente, mas então decidiram parar. Elesis agarrou as rédeas com ambas as mãos e as puxou, quase enforcando os cavalos e fazendo-os parar. Os animais pareceram entreolhar-se, como que se perguntando o que tinha acontecido com seus condutores e quem colocara aquela menina doida no lugar. Elesis e Lire desceram da carroça, agradecidas.

–O que acha que devemos fazer? — Lire perguntou olhando a estrada por onde tinham acabado de vir.

–Vamos seguir em frente — Elesis disse, sombria — Lothos deve voltar a qualquer momento e vai se livrar dos bandidos.

–Mas e a Arme?

–Ela vai ficar bem — Elesis garantiu — Você disse que Gamui a pegou e a colocou num cavalo. Se ele for esperto como pareceu, já vai estar bem longe.

–Eu disse isso, mas não tenho certeza... — Lire respondeu preocupada. Era estranho que há poucos minutos era Elesis quem quisera voltar, e agora dizia para seguirem viagem.

Mas logo a razão superou o instinto de voltar e salvar a amiga e as pessoas do bar. Eram duas e contando o fato de que Elesis tinha sido dominada na luta, elas teriam poucas chances. A melhor oportunidade era ficarem longe.

–Talvez possamos dar a volta e chamar reforços — sugeriu a arqueira. Elesis, que conhecia melhor a geografia de Vermecia que a elfa, sacudiu a cabeça.

–Não há cidades próximas o bastante em muitos quilômetros. Ia levar dias mesmo se soubéssemos andar a cavalo, e nós não sabemos — o olhar dela ficou duro — Nós vamos prosseguir. Lothos ia querer que fizéssemos isso, e vai nos encontrar depois.

–Você está supondo que a comandante Lothos vai voltar à pousada e vencer os bandidos — Lire falou — Mas ela é apenas uma...

–Mas é a comandante Lothos. Podem ser bandidos, mas tenho certeza que vão reconhecer a armadura superior da Guarda Real de Serdin. Eles sabem que as consequências por atacar um membro da realeza são ainda piores que a morte. Poderiam tentar matá-la e desfazer do corpo, mas eles são poucos contra ela. Lembra das harpias? Elas eram centenas, milhares e a Lothos foi quem menos se feriu.

–Dizer que a Lothos matou centenas de harpias não foi a melhor comparação — Lire lhe disse. Elesis fez uma careta.

–É, não foi mesmo — recordou ela.

–Mas já que você colocou assim, é bem verdade. Se voltássemos para lá... Só seríamos derrubadas. O melhor a fazer é fugir — de repente os olhos da arqueira brilharam — Elesis, você não acha que esses bandidos podem ter sido enviados pelo monstro da Cazeaje que estamos indo destruir? A comandante disse que estávamos perto... E se eles souberam de nós e vieram pra nos deter?

Elesis hesitou antes de responder. Seu olhar era severo.

–Bem pensado. Só reforça a idéia de que devemos seguir em frente.

–Sim... Mas para onde? Não sabemos pra onde... — ela viu o olhar da companheira e pausou — Você sabe de alguma coisa? Sabe pra onde a comandante queria nos levar?

–Se estamos indo por esta estrada — Elesis respondeu solidamente — Eu só consigo pensar em um lugar. Lothos estava nos levando ao Templo Oak.