A História de Alastair Tremaine
3 Uma reunião com a princesa
Eles chegaram em silêncio e muito rápido em casa. A mãe sabia que havia ganhado na argumentação. Naquela mesma tarde, uma nova carruagem passou por lá, deixando uma nova carta, constando a atualização da data do baile, o que já sabiam, mas Tremaine achou sensato da parte de Cinderella levar-lhes o comunicado de forma oficial, era sua obrigação, afinal.
No dia seguinte, Alastair saiu de casa durante a tarde sem avisar ninguém e caminhou até o grande palácio. Requereu aos guardas uma reunião com a princesa, que foi negada logo de cara. Teria que esperar até o dia de atendimentos oficiais, quando alguém da realeza ouvia as queixas do povo e decidia acatar ou não seus pedidos. – Você sabe com quem está falando!!!? – vociferou ao ver o príncipe saindo com alguns camaradas com armas para sua caçada matinal e perceber que era sua chance de causar uma cena e conseguir a atenção do mesmo. Teve a ideia ao se lembrar de quando a mãe se apresentava como membro da família real. – Eu sou Alastair Tremaine! Irmão da princesa Ci… Ella!
De fato, chamou a atenção do príncipe Henry. – E o que diabos você está fazendo aqui!? – ele gritou, ainda de longe, sacando sua espada e caminhando na direção do rapaz. Todos os guardas ali perto também sacaram suas espadas simultaneamente e apontaram ameaçadoramente em sua direção.
— Eu sou um membro da família real! – o jovem gritou encarnando sua mãe, embora nem ele mesmo acreditasse no que estava dizendo. – Exijo falar com a minha irmã!
— Tsc, você sequer sabe o que significa ser um membro da família real, mas posso lhe informar que definitivamente não é um! – respondeu o príncipe em uma mistura de ódio e desprezo com um sorriso nervoso.
Em meio à comoção, surgiu do alto de uma janela uma cabecinha loira e sem graça, Cinderella, para o alívio de Alastair. – O que está acontecendo!? Alastair? Parem com isso agora! – e sumiu para dentro, deixando um silêncio constrangedor lá fora. Podiam até escutar seus passinhos abafados descendo os vários lances de escada do castelo. Henry guardou sua espada, contrariado. Alguns guardas fizeram o mesmo, outros preferiram manter-se precavidos.
A porta principal se abriu e dela surgiu Cinderella em um belíssimo vestido prata. – Alastair? Pelo amor de Deus, o que faz aqui a essa hora e por quê o escândalo? Você não tem ideia do quanto precisei mover montanhas para fazer com que me deixassem convidar você e seu irmão para o baile de máscaras!
— Pois que se dane você e seu baile de máscaras egoísta! — bradou furioso. Suas veias até saltaram por seu rosto e todo corpo. Em fração de segundos, príncipe Henry agarrou-lhe pelo colarinho, erguendo-o a quase três palmos do chão, mostrando-lhe os dentes como um cachorro.
— Solte-o! – Cinderella se manifestou e seu tom era de ordem para o príncipe, que o soltou sem titubear. Alastair teve de recuperar seu equilíbrio para não cair.
O jovem conseguiu a tão esperada reunião com a irmã postiça mas não resolveu nada. A princesa lhe contou que o baile era um evento organizado pelo rei, pai de Henry, uma tradição entre alguns dos reinos da região, uma comemoração antiga entre reinos em que a cada ano um reino diferente sediava a festa, sobre a qual ela não tinha controle algum. Apenas considerou ser uma boa oportunidade para os irmãos, levando em conta também o desespero de sua madrasta para casá-los.
O baile em que conhecera o príncipe, alguns anos atrás, teria sido um outro tipo de evento e que tinha um dedo de Henry nessa história de convidar todas moças independentemente de título de nobreza.
No entanto, a situação não foi inútil. Alastair se desculpou pelas palavras ofensivas que usou mais cedo. Não tinha coragem de expor isso, mas queria mesmo se desculpar por todas palavras ofensivas que já tinha dirigido à irmã. Eles se abraçaram. Tinha sido o primeiro abraço de toda vida entre os dois. Ele se sentiu desconfortável no começo porque o gesto tinha partido de Ella, mas logo que o rapaz retribuiu, a trouxe para si com força. O abraço da irmã tinha sido mais carinhoso e aconchegante que qualquer abraço que já recebera de sua mãe em toda sua vida.
Estava tarde e, embora tivesse sido convidado por Ella a jantar, preferiu ir embora para não deixar a mãe ainda mais preocupada e tirar o gostinho de Daniel de pensar que ele tinha morrido e que seria o único herdeiro dos poucos centavos dos Tremaine.
Estava passando pela praça da fonte, na vila, sob o céu já escuro e estrelado, quando notou uma movimentação estranha não muito longe. Um grupo de homens gritavam e se mexiam de maneira suspeita. Estariam brigando? Alastair era curioso mas igualmente medroso. Passou pelo outro lado da fonte e tentou espiar a agitação, torcendo o pescoço.
Somente quando os homens se dispersaram e foram tomando seus rumos que o jovem entendeu o que estava acontecendo. Havia uma pessoa no chão, movendo-se com dificuldade e tossindo sangue. Alastair já estava a uma distância considerável, mas quando julgou seguro voltar, o fez. Correu para ver quem tinha apanhado para contar a fofoca para a mãe quando chegasse em casa. Sua surpresa, no entanto, não foi nada boa.
— James? Óh céus, James! – o ruivo correu para o encontro de seu amigo e tentou levantá-lo, mas este gemeu de dor. – O que houve? Por que te bateram?
O rapaz ensanguentado não conseguiu responder, apenas começou a chorar. Sem pensar muito, Alastair fez a mesma coisa que Cinderella havia feito com ele que lhe causou um sentimento tão bom de paz e acolhimento: o abraçou. O abraçou mais forte que havia abraçado a irmã, sem perceber que estava machucando ainda mais o pobre rapaz. Mas este, apesar da dor, lhe retribuiu na mesma intensidade.
Depois de algum tempo, abraçados em silêncio, James finalmente conseguiu falar, em meio a choro e soluços. – Você tem que ir embora, Alastair. Não pode ser visto comigo.
O jovem Tremaine afastou-se o suficiente para enxergar o rosto do amigo, sem soltá-lo de seus braços. – Não, digo, pelo menos não até que me conte o que lhe aconteceu. Diga, homem! Por que te fizeram isso?
Quase se arrependeu do pedido pois ouviu a história mais cruel e dolorida de todas que já tinha ouvido. Marcel, pai violento e alcoólatra de James, havia lhe espancado mais uma vez para corrigir-lhe e tomar “jeito de homem”, porque segundo o velho, James era afeminado demais. Não satisfeito, decidiu tornar-lhe homem de uma vez por todas.Levou-o a um prostíbulo e tentou forçá-lo a ter relações com uma das damas à força, com o pai assistindo. James lhe implorou para que tivesse piedade e não fizesse aquilo. A moça, desconfortável e assustada, tentou amenizar a situação e fez seu melhor para conciliar pai e filho. Mas Marcel a agarrou pelos cabelos e tentou enfiar um de seus seios na boca do garoto, que escapou do ato violento e proferiu a seguinte frase: "Pare com isso, pai! Eu não gosto disso!”. Isso foi suficiente para levar o homem à loucura. “Não gosta disso, é? Seu mulherzinha!”, respondeu o pai, desafivelando o cinto. James previu outra surra e a dama acompanhante saiu correndo assustada, chorando com as mãos sobre o rosto. Mas não foi uma surra que recebeu. Seu pai lhe castigara de forma bem pior, a pior agressão que qualquer ser humano pode ter, o garoto teve sua honra violada.
Depois disso, o homem teria voltado para casa sozinho. James sem saber o que fazer, desnorteado e abalado física e psicologicamente, tentou voltar para casa também, mas foi impedido pelo pai, que o proibiu de adentrar a casa e até mesmo atirou alguns pertences pessoais do garoto, em chamas, pela janela.
Segundo James, aqueles homens teriam lhe espancado a mando do pai. Talvez como uma última retaliação, talvez com a intenção de matá-lo.
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