A História da Grand Chase
7 Nos Arredores do Muro de Serdin
Notas iniciais
Elesis dormia num dos aposentos de hóspedes do vilarejo da Torre Sombria. Horas atrás, ela e as companheiras haviam jantado a comida dos goblins, enquanto Lothos contava o plano de Bjorlam: tinha ido a Serdin para pedir ajuda para matar Wendy, a "gorila" que vinha fazendo mal ao vilarejo. A rainha aproveitou a oportunidade para pôr a Grand Chase à prova, e por isso o homem careca os conduziu durante aquele trecho de viagem: para levá-los até onde a gigante gorila vivia, na Torre Sombria — agora um monte de ruínas empilhadas.
Agora, o vilarejo não precisava mais entregar um sacrifício por noite. Lire ainda estava perplexa — a idéia de uma criatura fazer tal exigência era impensável para ela. Lothos, com severidade, replicara que isso acontecera por causa da magia de Cazeaje, tão maligna que poderia corromper a mente e trazer as piores idéias à tona — foi quando Elesis cansou-se do falatório e retirou-se.
Os goblins eram pequenos, mas tinham edifícios que serviam como hotéis projetados para seres humanos, de forma que as três dormiriam com os pés num colchão naquela noite. Ali era confortavelmente mais frio à noite, e a localidade ao pé das montanhas criava uma sensação de natureza e paz, sendo possível desfrutar de um sono pesado, silencioso e tranquilo — pelo menos até Arme chegar e sacudir Elesis perto das cinco da manhã.
–Ah... Me deixa só mais... Arme! — ela gritou de repente, sentando-se completamente desperta — O que foi?
Arme usava seu vestido violeta e as botas, como que pronta para sair. Fungava e olhava a outra com os olhos marejados, como se tivesse acabado de chorar.
–Elesis... Me ajude. Você precisa me...
Ela soluçou fortemente, os ombros tremendo e fechando os olhos. Elesis suspirou profundamente, controlando-se ao máximo:
–Não consegue dormir? O quê, está com medo do escuro ou...
–Não — gaguejou ela com veemência — É... Serdin. Serdin, Elesis. Minha cidade... Meu... meu avô... — e soluçava mais e mais, cobriu a boca com as mãos, seu corpo inteiro se sacudiu — Eu sinto... Sinto que...
–Eu sinto sono — Elesis disse a ela — Conte logo, menina.
–S-Serdin... — repetiu ela, parecia em vias de perder o controle e começar a chorar — Elesis, Serdin vai ser atacada! Um mal... Um mal terrível... Hoje de manhã e-eles... Vão...
–Opa, calma aí, calma aí! Tem certeza que...
–Não foi um pesadelo, eu não dormi a noite toda! — Arme gritou, e Elesis a repreendeu para que falasse baixo — Desculpe... Eu não sei o que aconteceu, mas eu acordei com uma sensação horrível, só pensando no meio reino, no meu avô... Elesis, não sei o que é, mas Serdin vai ser invadida pouco de-depois do sol amanhecer!
–Você já contou à Lothos? — perguntou a outra, levantando-se. Arme sacudiu a cabeça.
–Não... Não sei se ela acreditaria em mim. E disse que só partiríamos amanhã, lembra? Por favor... M-me ajude, precisamos fazer alguma coisa! Sei que... Sei que pode parecer besteira, mas por favor, por fa-vor, eu sei...
–Acredito em você — Elesis pôs a mão no ombro da maga que não aguentava mais segurar o choro — Controle-se, maguinha, seu avô não ia querer ver você desse jeito. Chorar não vai adiantar nada, precisamos manter a calma. Vai chamar a Lire enquanto eu me visto.
–T-Tá — Arme fungou e assentiu várias vezes, depois correu para fora. Elesis tirou a camisola emprestada que usava e vestiu suas roupas curtas vermelhas: short liso e tira de tecido vermelho no peito. Prendeu os cabelos com um elástico, já estava acostumada a ser acordada no meio da noite, para seções de treino em Canaban. Só que aquilo não seria um treino, nem para ela, muito menos para Arme. E enquanto se vestia, enquanto via a maga voltando com a arqueira que também já estava vestida para sair, a expressão no rosto da maga era tão urgente e desesperada que o pensamento de que Arme estaria inventando tudo aquilo nunca lhe ocorreu.
–O que houve? — Lire perguntou impassível, porém com olhos que brilhavam de preocupação: certamente Arme a chamara com a mesma urgência a que chamara Elesis.
–Serdin está em perigo — esclareceu a espadachim — Já estamos todas prontas, não há tempo a perder. Se partirmos agora, talvez consigamos chegar a tempo.
Felizmente, Lire não fez mais perguntas — como Elesis, viu a expressão desconsolada de Arme e acreditou nela. Sugeriu que chamassem Lothos, mas Elesis negou.
–A comandante disse para que ficássemos aqui — insistiu Lire enquanto corriam para fora da vila.
–Não! — Arme implorou — Por favor, Lire, não há tempo...
–E não sabemos onde ela está, levaria um tempão para procurá-la — tornou Elesis, mas havia ainda um outro motivo. Ela queria provar a Lothos que podiam se virar sozinhas, sem necessidade de procurar a ajuda de um adulto para tudo. Já haviam tomado a estrada quando interromperam-se de súbito.
Tinham chegado ao que restara da Torre Sombria, mas a construção não estava em ruínas como elas deixaram. Em vez disso, as pedras estavam mais espalhadas, como uma pilha de tijolos em construção — e era impossível que o corpo de Wendy estivesse no meio dali. Um grupo de goblins trabalhava nela, tirando as pedras com os próprios braços pequenos e fortes. Atentos, notaram a aproximação das garotas e quatro deles foram averiguar.
–Onde está Wendy? — Elesis perguntou, desconfiada.
–Você não esperava que fôssemos deixar o corpo apodrecer lá pra sempre, não é? — retrucou um dos goblins — Eu é que pergunto, aonde vão vocês?
–A Serdin — contou Lire, ignorando os protestos silenciosos de Elesis: se fossem sair, seria sensato contar aos goblins para que pudessem informar Lothos, caso a comandante notasse que não estavam mais lá — Precisamos chegar lá depressa. Vocês podem nos emprestar alguns cavalos?
Um goblin recuou um passo para trás, os olhos arregalados.
–Não vou me transformar naquele animal pesado e fungante de novo! — disse rapidamente, a carinha torcida de raiva — Mas temos algo melhor, se estiverem interessadas.
Os rostos dos outros goblins iluminaram-se, três deles assobiaram e das florestas surgiram três estranhos animais com formato de barril alongado, quatro patas musculosas e pêlo cinza-escuro, focinho longo e molhado e olhinhos pretos e pequenos. Um par de dentes curvados como sabres saía das bocas, apontados para cima.
–isso são... Porcos? — Arme perguntou hesitante. Pelo menos os animais a distraíram um pouco.
–Javalis — disse um goblin, sorrindo para ela — Muito rápidos e fortes, nós os usamos para caçar ou mesmo passear. SAR-DIN! — virou-se repentinamente para os animais, depois voltou-se para as garotas — Pronto. Montem e eles as levarão direto até Serdin.
–Muito obrigada — agradeceu Lire, montando em seu javali. Elesis pulou no seu, Arme hesitou mas por fim agarrou-se no lombo do terceiro animal. Os goblins moveram as mãos, animados, e gritaram:
–Breeeeelfik!
Não demorou até que Arme, Lire e Elesis compreendessem as expressões travessas e o brilho maroto no olhar dos goblins quando acenaram em despedida. Pois, mal eles gritaram, os animais voltaram-se para a estrada e aceleraram com as pernas curtas, que moviam-se com rapidez surpreendente e faziam um "ploc ploc ploc ploc" de cascos leves na terra.
Os javalis corriam mais do que qualquer outra coisa que as três já tivessem visto, como que apostando entre si para ver quem chegaria primeiro. Arme gritava que iria escorregar o tempo todo — Lire segurava-se com mais tranquilidade, o corpo inclinado de bruços e a cabeça fixa no terreno à frente, mas sem ousar mover-se. Já Elesis abraçava o peito do animal e tentava curtir o passeio.
O chão passava rapidamente abaixo delas e o vento açoitava-lhes os cabelos, o terreno mudando de planície curva para algo mais acidentado, mais montanhoso. Em cerca de vinte minutos puderam ver as torres mais altas do castelo de Serdin. Sem aviso, os javalis mostraram que eram tão bons em frenar quanto em acelerar, fincando as patas no chão e parando quase que instantaneamente, atirando as três garotas para longe de seus lombos.
Arme caiu primeiro, Elesis foi jogada em cima dela e a maga gritou de dor. Lire tentou um hábil rolamento para escapar, falhou e bateu um lado da cara na grama. As três levantaram-se meio desorientadas e cheias de dor.
–Seu braço — lembrou Elesis, ajudando Arme a se levantar — Você está bem?
–Tô sim, obrigada — respondeu ela — Acho que já melhorou.
Lire aproximou-se das duas e olhou para Serdin.
–Bem, estamos aqui. Estranho eles terem dado a volta e nos deixado de frente para a entrada principal, ao sul, se viemos do norte... São mesmo boas montarias, apesar da parada. Mas o que fazemos agora?
A pergunta permaneceu no ar junto com o resfolegar tranquilo dos javalis que agora caminhavam despreocupados pelas redonzedas. Estavam no topo de um morro e viram, abaixo e ao longe, a capital do reino da magia. Viram as construções brancas, os jardins, as torres altas com ponta de lança azul, o palácio destacando-se atrás de tudo. Serdin era organizada, majestosa, bonita e imponente. E, para todos os efeitos, segura — não se parecia com um lugar que estava prestes a sofrer um mal terrível.
A estrada principal descia uma colina e chegava a um terreno plano, cercada de dois lados por paredes de pedras que transformavam-se em montanhas verdejantes mais acima. A estrada em si serpenteava entre essas duas elevações.
–Eu... Não sei — Arme respondeu finalmente, hesitante. No início estavam ansiosas com a urgência e o desespero da garota, mas agora que tinha chegado e a situação arrefecera, não sabiam o que fazer — Não sei... Estranho, não consigo sentir nada errado por aqui...
–Silêncio — Lire pediu de repente, jogando-se de bruços e colando o ouvido ao chão. Esperou, como que atenta a algo, então levantou-se séria.
–O chão treme com o som dos passos — disse ela — Toda uma tropa, e pelo som... Eu não diria que são humanos.
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Logo as suspeitas de Lire se confirmaram, quando esta pediu para que se aproximassem de um pequeno morro. A garota subiu lentamente, o peito colado ao chão. Elesis e Arme, no pé da colina, acharam curioso o fato de que, envolta em sua capa que mais parecia a de um mendigo, Lire confundia-se com a grama verde e parecia quase um borrão movendo-se. Permaneceu no topo da elevação por alguns minutos e voltou, os olhos verdes muito sérios.
–São orcs. Dez deles, descansando à frente de um grupo muito maior, com pelo menos duzentos. Mas esses dez estão separados dos outros.
–Deve ser um grupo de reconhecimento — deduziu Elesis.
–Precisamos avisar os guardas de Serdin — falou Arme, mas Lire sacudiu a cabeça.
–Não há tempo. Devem estar se preparando para partir, além disso, estão no meio da estrada principal. Nos veriam facilmente se tentássemos chegar até a cidade por ela, e se dermos a volta, levaria tempo demais. Os orcs parecem estar no final de uma refeição.
–Oaks — corrigiu a espadachim.
Lire a olhou meio confusa.
–Não, são orcs, tenho certeza. Grandes, verdes, musculosos e com dentes amarelos que não cabem na boca...
–Sim, chamamos eles de "oaks" — Elesis franziu a testa. Lire deu de ombros, e ela continuou: — Mas eu tenho um plano. Observem — e, puxando a espada, saiu de trás do morro e entrou na estrada, bem no campo de visão dos oaks.
–Ô — chamou. Os oaks, sentados devorando coxas de algum animal grande, viraram-se — Sou Elesis, da guarda de Canaban. Vocês estão invadindo. Saiam daqui agora e não terão que enfrentar nossa terrível ira.
–Canaban — repetiu um oak, a voz grossa e engrolada. Então todos os oaks se viraram para um oak em particular: — Mas você disse que aqui era Serdin!
–O mapa diz que é Serdin! — defendeu-se o oak, curvando o corpo — Aqui, dá uma olhada: "in-va-são-de-Ser...Din"... Bem aqui, é esse o lugar, não entendo...
–Aqui é Serdin! — gritou Elesis, furiosa por estar sendo ignorada — É que Canaban enviou apoio, e temos um exército só esperando minha ordem para atacar. Se não saírem agora, usaremos nossa magia em vocês.
"Não saiam, não saiam..." desejou a garota. Por mais que soubesse que não conseguiria derrubar duzentos oaks, tinha certeza de que daria conta daquele grupo. Dentro de si, seu sangue borbulhava com o instinto e a vontade de investir e lutar. Mas forçou-se a usar uma estratégia simples dos Cavaleiros Vermelhos.
Os oaks levantaram-se, rosnando e abrindo as bocas sujas e dentudas em sorrisos cruéis e selvagens. Como Lire descrevera, eram muito musculosos, a pele era de tom verde-claro e tinham rostos abrutalhados. Estavam armados com lanças, espadas e principalmente porretes de madeira, que ergueram para ela. Elesis não se intimidou.
–Mais um passo, e usaremos nossa magia.
–Assim? — desafiou um oak, pisando duro à frente no mesmo instante em que uma flecha vinda da colina penetrou-lhe um olho. Berrou, e a mão que levou ao rosto só serviu para quebrar a flecha e enterrá-la ainda mais profundamente.
Os oaks, concentrados no companheiro que pareceu ter sido atingido por algo invisível, descuidaram-se da garota de vermelho — Elesis saltou e desceu a espada no oak ferido, abrindo-lhe um corte na barriga. Desferiu mais três golpes e a criatura caiu ao chão.
Mudou para o oak seguinte, atingindo-lhe a lateral do corpo, depois estocando-lhe a barriga, recuando e girando para uma cortada lateral. Sabia que os oaks eram fortes e tinham pele resistente, músculos rígidos e ossos duros — mas a espada de Elesis era igualmente firme, forte e fora temperada com o cuidado e precisão para penetrar o mais tenaz dos monstros da região. Ela girava, cortava e perfurava, um atrás do outro.
Os oaks, porém, não caíam tão facilmente, gritavam e batiam no peito para atacar. Embora lentos e desajeitados, podiam ganhar velocidade numa investida. Quando Elesis já tinha matado três, os outros sete juntaram-se e correram para ela como um grupo de touros furiosos.
Uma bola de fogo explodiu no peito de um oak, outro sentiu uma ferroada aguda no pescoço quando a flecha de Lire penetrou ali e a investida ficou desorientada, mas Elesis não pretendia fugir: correu também, chocando-se peito a peito com um dos oaks, a espada apontada para a frente de modo que penetrou no peito do oak até o cabo, e ela teve que empurrá-lo com o pé para tirar.
Mal puxara a espada do oak e um outro tentou dar-lhe uma porretada, Elesis pulou para o lado e ele acertou o chão. Como era mais alto que ela, curvou o corpo automaticamente — e a espadachim decepou-lhe a cabeça abaixada, saltando então para desviar a lança de um outro oak e esticando o braço para uma série de estocadas rápidas com a ponta larga da espada. O oak caiu no chão e ela virou-se para outro.
–Elesis, volte! Deixe-o ir!
Restava apenas um oak e Lire queria que sobrevivesse — já que tinha um exército deles perto dali, seria bom que ele avisasse que Serdin estava bem protegida. Afinal, na cabeça dura de um oak, o que havia acontecido foi que uma menina derrotou nove oaks musculosos, auxiliada por forças mágicas invisíveis. Seria o bastante para deixar um exército em dúvidas — mas Lire não sabia que os oaks, se soubessem disso, sentiriam-se desafiados e ainda mais motivados a atacar.
De qualquer maneira, Elesis a ignorou. O último inimigo restante usava uma pesada clava e atacou sem medo, mesmo com todos os seus companheiros mortos. Elesis rolou para um lado, e atacou lhe o braço duro — mas seu golpe desajeitado cortou apenas a pele. Estava atrás dele e poderia ter acertado-lhe as costas, mas ao ver que se tratava do último inimigo, esperou que se virasse e fez algo diferente.
Desferiu um corte de cima a baixo, numa diagonal da perna direita ao ombro esquerdo. Com o impulso da espada levada para cima, saltou e girou o corpo, fazendo uma cortada no ar que criou um arco vermelho, quase que uma magia, na direção do inimigo. Em seguida, em pleno ar, impulsionou o corpo num mergulho com a espada apontada para o peito do oak. O arco de energia atingiu o oak formando um "X" com o primeiro corte, e a ponta da espada de Elesis entrou bem onde as linhas se cruzavam.
O oak caiu de costas ante a força daquele golpe. Aparentemente, aquilo teria cortado metal em dois, mas os ossos e músculos daquele monstro eram duros demais: seu corpo permaneceu inteiro, com um imenso talho aberto no peito por onde o sangue jorrava tingindo de vermelho a pele verde. Arme e Lire aproximaram-se.
–Caramba — fez Arme, estremecendo diante da cena dos corpos cortados de oaks.
–É o Crítico X — respondeu Elesis com um sorriso selvagem — Meu pai o criou e me ensinou, há alguns anos.
–E você decide usar justo agora? — Lire ralhou irritada — Era pra você ter deixado um vivo pra avisar... Ah, esquece.
O som de duzentos oaks correndo era em fúria era como uma manada de elefantes, somada aos gritos e urros enfurecidos — certamente ouviram os gritos dos companheiros. Apareceram detrás de uma colina: eram muitos, armados com porretes e espadas, vestidos com shorts velhos ou tangas rasgadas. Elesis pareceu considerar a possibilidade de enfrentá-los, mas Lire a puxou pelo braço e a fez correr.
Os oaks viram os colegas mortos e gritaram de raiva, acelerando a corrida. Se as três garotas fossem pegas, seriam esmagadas sem chance de escapar. Estavam descendo a colina e o chão começava a se aplainar, mas ainda faltava muito até a cidade...
–Bola de fogo!
O grito veio de umadas elevaçõs que ladeavam a estrada, dado por sete magos que, para o alívio das garotas, desciam para posicionar-se entre elas e os oaks. A bola de fogo saiu como um imenso globo que explodiu na linha de frente dos oaks.
–Para trás! — disse um homem — Vão até Serdin e busquem reforços!
Elesis retrucou indignada que não, mas o mago deu-lhe as costas e voltou a se concentrar na luta. Os oaks aproximavam-se cada vez mais, então os magos executaram uma série de movimentos com os braços e os cetros parecidos com o de Arme. Juntos, apontaram os cetros para o céu.
As nuvens juntaram-se em uma só, ficando negra, e buracos saíram dela quando imensos pedaços de pedra, pegando fogo e deixando riscos no céu, caíram ao chão como meteoritos. Arme olhou admirada a coordenação e o poder incrível que acabara de ser conjurado diante dela — os oaks também, mas não tão animados.
As pedras atingiam a massa de oaks, explodiam, lançavam estilhaços quentes como bombas. Mas embora tenha sido uma magia poderosa e devastadora, não tinha sido a melhor escolha. As pedras caíam muito separadas umas das outras, de modo que apenas umas quatro realmente chegaram a acertar os monstros. Várias caíram no chão sem causar dano. De fato, aquela magia custava muita energia para ser conjurada, de modo que ela mais drenou a força dos magos do que matou oaks. Mais de cem ainda estavam de pé, correndo enfurecidos e ignorando os colegas que caíram.
Os magos criaram um domo de magia arcana enquanto conjuravam suas magias, mas os oaks não hesitavam ou fraquejavam. Elesis, que resolvera atacar os oaks que estavam mais sozinhos, acabou recebendo um golpe de porrete na barriga e Lire rapidamente distraiu o inimigo, cobrindo-o com uma sucessão rápida de flechas.
–Cadê mais magos? — Arme berrou para o grupo que concentrava-se em mantero escudo de energia protetora. Os oaks haviam chegado até eles e golpeavam a barreira mágica com os punhos e armas.
–Alguém precisa avisá-los — respondeu uma mulher — Vimos porque estávamos em exercício e ouvimos o barulho. Mas estamos muito longe para que alguém de Serdin nos ouça aqui!
–Também é longe para corremos até lá, até voltarmos, vocês estarão mortos! — Lire retrucou impotente.
–Não é assim — Elesis olhou para as companheiras — Precisamos derrotar o líder. Quando se vence o mais forte, os demais se desmoralizam. Ele deve estar atrás das legiões!
Arme gritou que a idéia parecia loucura, mas por fim seguiu a garota quando ela e Lire saíram da bolha mágica, enquanto uma das magas corria até Serdin para chamar reforços. Os seis magos restantes desfizeram a bolha protetora e conjuraram uma dezena de golens de rocha. Eram poucos diante do esmagador número de oaks, mas eram muito duros e um pouco maiores que as criaturas. Posicionaram-se entre o exército e os magos, defendendo-os como uma parede móvel, enquanto estes conjuravam fogo e raios contra a massa de oaks.
Enquanto isso, as três garotas corriam ao lado do exército — não tiveram problemas, pois os oaks não eram rápidos para persegui-las. Seguiram ao sul, deram a volta na massa de oaks e chegaram a um espaço aberto cheio de morros, cercado por árvores. Depararam com alguns oaks solitários pelo caminho, todos caindo pela lâmina de Elesis. Alguns, do exército inicial, voltaram-se e perseguiram-nas.
Os instintos de Lire alertaram para uma presença atrás de um conjunto de árvores, e estavam para se dirigir até lá quando o líder dos oaks apareceu urrando e arrancando árvores do chão.
A criatura era imensa, as únicas diferenças físicas em relação a oaks comuns era o fato de ser duas vezes maior e ter o corpo coberto por ranhuras e saliências, mostrando seus músculos saltados e poderosos. Os olhos amarelos eram claros e a boca tinha dentes mais retos, dois deles projetando-se para cima como as presas dos javalis. Usava um par de ombreiras azuis espinhudas e um elmo da mesma cor, bem como uma tanga escura e braceletes e tornozeleiras de aço. Nas mãos, levava uma clava e um martelo alongado, negro, com uma ponta em forma de pirâmide em ambas as extremidades e o desenho de um sol amarelo cercado por um brilho vermelho.
–Não é coisa que um oak possa forjar — Arme disse trêmula — Isso...
–Cazeaje — Elesis terminou por ela.
O oak as viu e torceu a boca num sorriso. Ao lado dele havia pelo menos mais dez oaks e, atrás das garotas, vinha pelo menos mais uns quinze.
–São muitos — choramingou a maga — Como vamos pegar todos?
–O maior é meu — Elesis disse sem a menor sombra de medo — Quando eu acabar com ele, ajudo vocês com os demais. Ao ataque!
–Calma, só precisamos derrotar o líder primeiro. Eu tenho uma idéia — falou Lire, adiantando-se.
Soltou os cabelos que caíram até os ombros, na cor bege-pálido que eram. Sorriu docemente para o oak e deixou o arco nas costas, embora pudesse pegá-lo em uma fração de segundo se quisesse.
–Yua'hi — disse num tom gentil, obviamente um cumprimento. O oak a encarou sem interesse, fungou e bateu o martelo no chão à frente dela. O impacto fez a garota cair enquanto o oak levantava a arma novamente. Elesis a puxou, levando-a para fora do alcance do monstro.
–O que estava fazendo? — Elesis gritou para ela enquanto o oak dava um soco no próprio peito em desafio — Lire? O que foi? — agora estava um pouco assustada: Lire parecia atônita, desligada e muito confusa.
–Eu... Não entendo. Meu charme... Não funcionou?
–Lire!!!!!!!!!!!!
Elesis sentiu vontade de estrangulá-la, mas notou que o oak investia e esqueceu a ingenuidade da arqueira. Virou-se, espada na mão para responder ao desafio.
Ela mal tinha dado dois passos quando alguém gritou.
Da floresta veio um borrão negro que saltou na frente do líder oak e pulou em seu peito, derrubando-o no chão com um chute e retalhando-o com um par de lâminas, espalhando sangue por todo lado. Os demais monstros viraram-se para enfrentá-lo, uma lança foi atirada no peito de um oak e o vulto pulou em outro, cortando-lhe a cabeça com a espada.
As três observavam, atônitas, enquanto o guerreiro recuperava a lança e matava um oak atrás do outro. Foram completamente ignoradas pelos oaks que as tinham seguido: todos concentravam-se no novo oponente, que parecia uma máquina de destruição mortal. Ele movia-se a uma velocidade impressionante, desferindo estocadas e cortadas com a lança e a pequena espada, e nenhum oak tinha a sorte de acertá-lo. Por fim, quando todos caíram, ele embainhou a espada e guardou a lança nas costas.
–Goblins — disse numa voz enérgica, surpreendentemente jovial — Não mudaram em nada, invadem-nos ainda hoje...
–Não são goblins, são orcs — protestou Lire.
–Oaks– corrigiu-a Elesis — E quem é você? — perguntou ao homem.
O homem voltou-se para as garotas, analisando-as friamente. Ele era caucasiano, alto e vestia uma cota amarelo-dourado, calças e botas de um preto desbotado e uma capa negra atrás dele. O corpo ereto, parecia firme e imponente, os cabelos negros desgrenhados conferindo um certo toque rebelde. Quando Elesis falou, baixou a cabeça e suspirou, como que entediado.
–Não esperava mesmo que me reconhecessem — seu tom, surpreendentemente jovem, saiu um tanto decepcionado — Hoje não é qualquer um que se lembra de figuras lendárias como Sieghart, lendário espadachim de Canaban. É como se fosse só um velho mito esquecido.
–Veja lá como você fala dos meus antepassados! — Elesis gritou furiosa.
–Perdão? — o homem olhou-a indiferente, com a testa franzida — Acho que você não entendeu, ruivinha. Eu sou Sieghart.
–Sieghart... — Arme franziu a testa, tentando decifrar por que o nome lhe soava tão familiar. Também Lire o olhava com a testa franzida, pois o nome também não lhe era estranho(e porque achou-o bastante bonito, também).
Mas nenhuma delas estava tão atônita quanto Elesis, que chegou a recuar um passo, os olhos arregalados e a boca aberta sem acreditar. Será mesmo que...
–Impressionei você, ruivinha? — Sieghart sorriu notando-lhe a surpresa, mas errando o motivo — De qualquer forma, de nada pela ajuda. Estou procurando pela Grand Chase... Se virem por aí, digam para encontrar-me em Xênia. Claro que é improvável que encontrem um grupo de heróis como eles — acrescentou, mas então mudou de idéia: — Se bem que vocês me encontraram, então por que não a Grand Chase? Bem, preciso ir, não tenho tempo para conversa. Só tentem não sair sozinhas onde há monstros, garotas, pode ser perigoso. Adeus!
Antes que elas pudessem responder que ele estava de fato falando com a Grand Chase, Sieghart deu-lhes as costas e correu para a floresta. As três entreolharam-se.
–Que arrogância! — Arme falou indignada.
–Pode ser, mas admita que ele é bem charmoso — refletiu Lire.
–Vamos embora — Elesis disse de repente — Precisamos ver como os magos estão se saindo.
Se as outras duas estranharam a repentina mudança no comportamento da espadachim, o pensamento foi esquecido pela lembrança do grupo de magos. Pelo jeito, Sieghart não tinha visto ou tinha ignorado o exército. Mas agora não haviam sete magos, e sim cerca de duas dezenas, e mais aproximavam-se da estrada principal. Na verdade, as três chegaram em tempo de ver a invasão sendo contida por uma enxurrada de raios, pedras e golens monstruosos devoradores de oak.
–Arme! — gritou uma voz, e a garota correu para abraçar o avô — Ah, minha querida! Disseram-me que você estava no meio da luta...
–Vovô! — foi tudo o que ela conseguiu dizer. Não esperavam encontrar-se tão cedo, depois que ela deixou Serdin para entrar para a Grand Chase.
O diretor da academia fez questão de levá-las novamente até Serdin, mas Elesis e Lire recusaram — estavam no meio de uma missão perigosa e não teriam tempo para descanso, mesmo porque não haviam se ferido muito. E ao que parecia, ninguém mais sabia de Sieghart, e as meninas não fizeram questão de contar — exceto Arme, que nada escondia do avô.
–Sieghart... — ele disse em tom sério, quase parecendo decidir-se se acreditava ou não na menina. Ao ver que ela o olhava, acrescentou: — Não lembra-se dele? Ora, então quer dizer que você fingia estudar todos aqueles livros de história, enquanto eu pensava que você estava aprendendo?
–Claro que não! — Arme respondeu chorosa, e o avô sorriu e a abraçou- Eu sei que li sobre ele, mas...
–Fica como tarefa de casa pra você lembrar — riu Serre — Bem, se ele voltou realmente, é uma boa notícia, não?
Arme assentiu, dizendo que se lembraria. Ficou triste ao despedir-se do avô, mas precisavam partir. Anunciaram que iria a pé, mas um mago negou com a cabeça e assobiou três vezes.
–Por que ir a pé quando podem usar nossos javalis? — sorriu ele — Conheçam Nox, Ronan e Tunglan.
Eram, de fato, três javalis que olharam-nas com inocência, mas com um certo brilho estranho e familiar no olhar que deixou as garotas desconfortáveis...
–São criados originalmente na Torre Sombria — contou o homem — São muito rápidos. Só segurem-se neles com firmeza, gritem "Brelfik" quando quiser que andem e, não se esqueçam, digam "Akatoo" quando sentirem que estão chegando. Senão eles vão parar à maneira deles e... Bem, vocês não vão querer descobrir.
–Akatoo — repetiu Elesis, dirigindo a Lire e Arme o mesmo olhar das companheiras.
–E obrigado — Serre falou com cordialidade — Se não tivessem vindo e dado o alarme, os oaks certamente teriam feito um buraco em nossas muralhas. Teria sido uma confusão para derrotá-los enquanto estivessem em Serdin, e muito da cidade acabaria destruída por eles e por nossas próprias magias defensivas.
–Mas vocês não têm meios de usar magia para defender a cidade sem prejudicá-la? — Elesis perguntou franzindo a testa.
–Sim — Serre assentiu — Mas imagine as pessoas correndo em pânico, os oaks quebrando tudo de um lado para o outro... E teríamos sido pegos de surpresa. Tenho certeza de que eles não conseguiriam nos derrotar com toda a magia que temos, mas alguns de nós poderíamos ter morrido e parte da cidade teria sido afetada antes que pudéssemos contê-los. Mas graças ao que aconteceu, pudemos enfrentá-los em terreno aberto e longe dos nossos muros. Somos muito gratos a vocês, Grand Chase.
As três assentiram, agradecidas, sentindo um diferente tipo de orgulho à menção do nome Grand Chase. De repente, as três tiveram a plena consciência de que pertenciam a um grupo de elite, e a normalidade com que Serre pronunciava o nome mostrava que já não havia motivos para segredos. Afinal, até mesmo aquele tal de Sieghart sabia da existência dela.
Logo elas estavam sozinhas com os javalis enquanto, perto dali, Serre coordenava os magos de sua academia para cuidar dos corpos destruídos dos oaks. Estavam prestes a montar nos javalis quando Arme sobressaltou-se e arregalou os olhos.
–Espera, Elesis, agora me lembro! Sieghart... É o herói de Vermecia que limpou o continente de monstros e derrotou a própria Cazeaje num combate!
–Esse herói que é o Sieghart? — Lire virou-se também — Sim, também ouvi falar que ele podia destruir montanhas com a espada, e que jamais caía num combate. Ele derrotou Cazeaje... Mas isso foi há seiscentos anos!
–Ele desapareceu depois disso — concordou Arme — Além disso, segundo se dizia, ele é imortal. Mas Elesis falou algo sobre os antepassados dela, isso que dizer que...
–É — a espadachim disse sem olhar para elas. Desde que haviam despedido-se dos moradores de Serdin, ela parecia mais reservada, o que era incomum dela — Meu nome completo é Elesis Sieghart. Sou a atual líder dos Cavaleiros Vermelhos de Canaban, que o tem como ídolo... Além de Elscud, meu pai.
–O quê? — Arme a encarava com mais surpresa do que quando descobriu que Lire era uma elfa — Você é a líder dos Cavaleiros Vermelhos de Canaban, e descendente da grande família dos Sieghart? E seu pai é Elscud, o líder dos Rastreadores de Canaban! Isso é... Uau!
"Droga, ela tem mesmo do que se gabar!", pensou, dando-se conta de que Elesis tinha muitos mais movitos para se vangloriar.
–Foi o que eu disse — tornou a garota ruiva. Então olhou para as duas, sem emoção — Mas eu prefiro manter isso em segredo, e quero que não contem a ninguém. Não gosto de espalhar por aí.
A declaração chocou Arme.
–Mas você...
–Tudo bem — Lire assentiu e dirigiu um olhar significativo a Arme. A arqueira também parecia muito impressionada, mas mantinha a expressão controlada — Respeitarei isso. Agora precisamos voltar à Torre Sombria. Eu só queria saber como foi que você acertou sobre o ataque, Arme.
–Eu não sei — hesitou a garota — Eu só... Senti. Foi uma sensação muito forte que me atingiu... Profundamente, acho que é porque Serdin é meu reino e... Não sei. Devo estar ligada à magia daqui de alguma forma. Ahhh, esqueci completamente de perguntar ao vovô!
–Só espero que não aconteça de novo — Elesis falou com um pouco de sua intensidade habitual — Mas foi bom que viemos. E já que não pudemos pegar o líder oak... Acho que vou descontar em alguns goblins encrenqueiros.
–Duvido que você os encontre — Lire respondeu sorrindo, subindo em seu javali — E aí, vamos apostar uma corrida?
Surpreendentemente, os javalis escolheram aquele momento para resfolegar animados pareceu mesmo que as tinham ouvido,e casualmente posicionando-se um ao lado do outro numa fileira, com as garotas montadas.
–Tudo bem então — Lire deu uma risadinha — Todas prontas? — e gritaram juntas o comando para correr.
Mas tiveram que parar porque Arme quis ir ao banheiro e ali só havia árvores, depois recomeçaram a corrida.
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