A História da Grand Chase

8 Chegada à Praia Carry


A noite era escura e cheia de estrelas, como sempre era. Goblins moviam-se quase furtivamente em meio à grama macia e bem-cortada. Grunhiam cumprimentos de boa noite para a mulher que se aproximava na direção oposta, e logo ela estava sozinha, encarando a construção de pedras esverdeadas que era a Torre Sombria.

A torre erguia-se imponente e antiga em direção ao céu, inteira como era desde que havia sido construída. Ela tinha desabado em cima de Wendy na noite anterior, mas os goblins fizeram um bom trabalho. A um chamado da mulher, um vulto largo e branco saiu da Torre e aproximou-se, sonolento.

–Ah, olá — cumprimentou a gorila, com sua voz grave — Veio se despedir?

–Vim ver se está tudo bem — a mulher respondeu. Wendy deu de ombros, um gesto intimidador para alguém como ela.

–Estou sim, meus pêlos vão cuidar de me regenerar. Só preciso de alguns dias de descanso.

–Entendo — a mulher assentiu, pensativa.

–Ah, não se preocupe comigo — Wendy disse de repente — Eu faria isso de novo, se você tivesse me pedido. Quanto ás três garotas...

–Elas não sabem de nada — respondeu a mulher, rapidamente — Elas acreditam que mataram você e que você não vai voltar.

–Mesmo? — Wendy mostrou os dentres brancos e animalescos num sorriso — Pois eu diria que a arqueira suspeita de algo. Ela não se deixa enganar fácil.

–Já percebi isso — a outra concordou — Vou dar um jeito nela, pode deixar. Obrigada por tudo — acrescentou — Agora preciso passar para a próxima parte do plano.

–E eu preciso descansar — Wendy assentiu um tanto rabugenta — Foi um prazer ter lutado, mas acho que as subestimei demais. De qualquer forma, espero que o plano dê certo. Até mais, Lothos.

–Até — respondeu a comandante, vendo as costas da gorila enquanto esta caminhava de volta para a torre.

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Foi Lire quem percebeu primeiro que havia alguma coisa errada entre as árvores.

As três montavam os javalis cinzentos e de pêlo duro que corriam como o vento, saindo de Serdin após combater uma invasão de oaks. Agora rumavam de volta para a Torre Sombria, apostando uma corrida amistosa. O páreo era mais duro entre Arme e Elesis — o que era estranho, visto que Elesis era a mais pesada das três. Lire estava ligeiramente atrás.

O chão logo abaixo delas era de grama baixa com algumas árvores aqui e ali, e justamente naquele momento elas passaram rente a um pequeno conjunto de árvores, uma minúscula floresta um pouco maior que um pequeno parque. Os instintos de Lire se aguçaram, mas ela estava em alta velocidade e curvada sobre sua montaria, de modo que percebeu o perigo apenas vagamente e tarde demais. Houve um gritinho assustado e de repente algo muito rápido surgiu das árvores, arrancando Arme da sela.

Elesis demorou alguns segundos para perceber, mas ouviu Lire gritando "Akatoo!", a ordem para os javalis pararem. Ela fez o mesmo, e seu javali pareceu resfolegar irritado, parando de má vontade. No segundo seguinte, ela já corria em direção à floresta, seguindo Lire que tinha o arco nas mãos.

Tinham se passado apenas alguns segundos entre o tempo que Arme foi pega e quando as outras duas pararam, mas mesmo assim os dois javalis eram muito rápidos e tinham percorrido uma grande distância. Elesis corria sem pensar, a espada desembainhada. Estavam em campo aberto e a floresta era muito pequena, se houvessem muitos inimigos, estariam todos escondidos lá dentro. As duas, arqueira e guerreira, estavam a poucos metros das árvores quando o atacante saiu das árvores, e ambas estacaram de imediato.

Arme tinha o rosto torcido numa careta de dor, a cabeça inclinada para um lado enquanto a orelha esquerda era impiedosamente arrastada por uma mão forte coberta por uma luva de metal dourado. Parecia a ela que sua orelha iria se rasgar, mas Lothos não demonstrava o menos sentimento de compaixão.

–Quem mandou vocês saírem da Torre Sombria? — esbravejou a comandante, num tom que misturava irritação e desapontamento. Lire mexeu os pés nervosamente, mas Elesis não se deixaria intimidar tão fácil.

–Nós fomos porque quisemos — desafiou — E chegamos bem a tempo de salvar Serdin de um monte de oaks furiosos. En...

Ela ia dizer "[Enquanto você estava dormindo, nós salvamos a cidade", mas Lire percebeu o súbito lampejo de sarcasmo em seu olhar e deu-lhe uma cotovelada antes que ela pudesse começar qualquer insulto. Lothos não pareceu perceber nada.

–Comandante Lothos, desculpe-nos pelo que fizemos, mas Elesis tem razão. Se não tivéssemos chegado naquele momento, os oaks teriam atacado e, muito provavelmente, causado vários danos a Serdin. O próprio diretor Serre disse que poderiam ter sofrido algumas mortes.

O tom mais diplomático da arqueira fez Lothos pensar no assunto — esquecendo-se por alguns instantes de que ainda segurava a orelha de Arme. Distraída, ela a soltou, e a maga imediatamente a cobriu com a mão, aliviada.

–Vocês três evitaram uma invasão sozinhas? — Lothos perguntou por fim. Lire sacudiu a cabeça.

–No início sim, mas tivemos ajuda dos magos de Serdin depois de um tempo. Por fim, os oaks foram expulsos sem causar maiores problemas, e nenhuma baixa.

–E o líder deles usava uma arma diferente — lembrou Elesis — Um grande martelo negro diferente de tudo o que vi um oak usar. Era certamente um presente da Cazeaje.

–Entendo — Lothos assentiu devagar — Então acabaríamos chegando lá de qualquer jeito, e vocês adiantaram a missão. Bom trabalho — acrescentou, decidindo-se.

–Obrig... aaaai — fez Lire, quando a comandante inesperadamente deu um passo e agarrou a orelha de ambas, uma em cada mão.

–Mesmo assim, vocês não esperaram ordens e saíram sem avisar, em direção a um inimigo que não conheciam nem sabiam se conseguiriam vencer. Sou sua superior e vocês devem se reportar a mim antes de fazer qualquer ação desse tipo, mas vocês escaparam no meio da noite, como ladras, sem nem mesmo esperar meu consentimento. Não é o tipo de comportamente que eu espero da Grand Chase. Vocês entenderam?

–Siiim... aaah...

–[Você me entendeu?

–Entendi — Elesis gemeu por fim, massageando a orelha doída quando Lothos finalmente a soltou.

–Ótimo. Já que estamos todas aqui, podemos partir para o próximo lugar suspeito: a Praia Carry.

–A praia! — o rosto de Arme se iluminou — Eu sempre quis ir na praia!

–O que tem de errado lá? — Elesis quis saber, menos entusiasmada do que a companheira.

–Não sei ao certo, mas há relatos de ataques de criaturas gigantes e que se assemelham a pássaros. Elas chegam de dia e expulsam os banhistas. Pelo que ouvi dizer, hoje o lugar está deserto.

–Banhistas na praia Carry? — Lire se surpreendeu — Eu sempre ouvi dizer que o lugar era perigoso e infestado de harpias.

–Harpias? — espantou-se Arme — Infestação delas? Mas elas são muito fortes!

O olhar de Lothos endureceu ao encarar a arqueira.

–Você... Talvez tenha ouvido informações erradas. Há banhistas na praia, ou pelo menos havia. Mas recentemente recebemos notícias de que as harpias estão atacando, coincidentemente, desde que os ataques de monstros da Cazeaje atacaram.

Lire ficou quieta. Lothos estava errada — em Eryuell, ela tinha ouvido falar da praia e sempre soube que as harpias moravam ali. Elas eram enormes criaturas humanóides com penas e asas de pássaro e podiam ser mortais quando queriam, mas geralmente não causavam problemas aos humanos. Praia Carry sempre foi o lugar de morada delas, onde elas viviam à sua maneira sem incomodar ninguém. Mas Lire era nova ali, e não quis discutir com a comandante. Sua longa orelha ardeu só um pouquinho mais forte, como que num lembrete.

–Então Cazeaje também influenciou as harpias — comentou Elesis. Lothos assentiu.

–Imagino que elas devem estar muito mais fortes agora. Devemos ter cuidado e nossa melhor chance é chegar lá rapidamente, porque... — ela encarou o céu azul por alguns momentos — Acho que daqui a umas quatro horas será meio-dia. As harpias tendem a ficar mais fortes com a luz do sol, então precisamos nos mover antes que o sol esteja alto no céu. Vamos!

–Agora? — Arme perguntou desanimada — Mas acabamos de lutar contra oaks, preciso descansar!

Lothos dirigiu um olhar furioso a ela.

–A culpa é sua se estava lutando enquanto deveria estar dormindo. A intenção era irmos pra Serdin agora, e depois de um descanso, À praia Carry. Mas já que vocês estão tão ansiosas pra agir e não podem esperar...

Ela encarou as três com um leve brilho desafiador no olhar. Nenhuma das três questionou algo.

Caminharam voltando em diagonal ao caminho que tinham acabado de seguir, indo mais para o sul e em direção à praia. Agora que estavam sem a carroça, tinham que esforçar-se para acompanhar os passos longos e constantes de Lothos. Arme, que tinha as pernas mais curtas, precisava andar muito mais depressa, e logo começou a ofegar baixinho. Lire mantinha-se atenta a tudo. Elesis caminhava sem dificuldade, mas logo ficou entediada.

E à medida que as horas passavam, até ela começou a desejar que fizessem uma pausa. No entanto, a expressão séria e determinada de Lothos não era a de alguém que estava prestes a fazer uma parada, e nenhuma das três queria ser a primeira a sugerir um descanso. Era impressionante como a comandante conseguia manter o ritmo firme e inalterado, mesmo com todo o peso da armadura cobrindo seu corpo e os longos cabelos loiros caindo-lhe até a cintura, numa tira lisa onde se misturavam alguns galhos.

A comandante passou a mão deles distraidamente, sentindo várias folhas e farpas passando por sua mão, então parou e mandou que as três se sentassem. Elas obedeceram com prazer.

–Devemos chegar daqui a uma hora, ou uma hora e meia — informou, removendo a luva e passando a mão pelos cabelos. Era um membro delicado e, embora forte pelo manejar da espada, parecia menor do que o esperado sem a grossa proteção de metal que a cobria — Na verdade, uma hora e quarenta e cinco minutos. Uma hora e cinquenta — ela se corrigiu, olhando feio para um pedaço de folha particularmente grande que ficava preso em seus cabelos.

Ela pediu a Arme que a ajudasse e a maga obedeceu, hesitante, mas sentou-se de pernas cruzadas atrás da comandande e começou a alisar-lhe o cabelo com uma escova. Surpreendeu-se com o toque liso e sedoso dos cabelos dela — certamente não esperava que a cabeleira da Ríspida Comandante da Guarda de Serdin fosse tão bem-cuidado. Enquanto isso, Elesis e Lire aproveitaram um descanso silencioso, esta tirando uma pequena caneca lacrada de um dos bolsos.

–O que é isso? — Elesis perguntou com repulsa, vendo ela abrir a caneca cheia de um líquido verde-escuro muito denso — Deusas, Lire, que cheiro horrível! Você não vai... ah — ela fez uma ligeira caneca de nojo ao ver a menina esvaziar a caneca rapidamente. Lire baixou o frasco dos lábios e olhou a companheira que a encarava, confusa.

–Ah... Me desculpe. Você queria um pouco?

–Não, obrigada — a outra respondeu sem alterar a expressão.

Alguns minutos depois, estava de volta à caminhada, sob alguns protestos silenciosos de Arme. A breve parada tinha esfriado um pouco os músculos, e ela estava com dificuldade para acompanhar o ritmo. Quando, por fim, elas subiram uma colina(com "puf, puf!"s de Arme), ela esqueceu completamente as dores.

O grupo parou ao chegar no topo. À frente estendia-se os últimos metros do gramado baixo que vinham percorrendo, sendo substituído em seguida por uma longa e larga faixa de areia dourada em horizontal em relação ao ponto de vista delas, onde cresciam várias plantas densas cor de fogo. A areia ficava mais baixa até dar lugar a uma imensa extensão de água azul-escura.

–Noossa, que lago grande! — Arme comentou espantada.

–Isso é o mar — Lothos achou graça da ingenuidade da garota — Estamos na fronteira sul de Vermécia. Muitos exploradores construíram balsas para procurar mais terras pelo mar, mas não encontraram nada.

–Ouvi dizer que existe um grande continente ao sul daqui — disse Lire — Um mundo dourado cheio de fadas, duendes e criaturas pacíficas. Diz a lenda que aquele que navegar por estas águas durante cem luas...

Mas comandante sacudiu a cabeça com força.

–Isso é supertição. Muitas expedições foram feitas, e nenhuma encontrou nada. Nem mesmo a Grande Expedição de Um Ano, de exploradores de Canaban, que foram em vários barcos pequenos seguidos por um navio maior com suprimentos. Eles seguiram sempre para o sul durante um ano inteiro e levaram outro ano para voltar, mas não encontraram nada.

–Um ano navegando — Elesis repetiu — Puxa vida.

–Tem algo errado — Lire disse por fim — Eu não sei o que é, mas tem alguma coisa...

–A brisa marítima — respondeu a comandante Lothos — Deveríamos tê-la sentido desde antes de chegar aqui.

Lire arregalou os olhos ao compreender, assentindo em seguida. Além de Lothos, ela era a única que já tinha visto o mar, que cercava todos os lados da ilha de Eryuell, onde morava. E sempre que se aproximava do litoral, era possível sentir o cheiro inconfundível do sal marinho, levado pelos mesmos ventos que faziam as ondas quebrarem na areia. Ali, não havia esse cheiro.

–Eu não entendo — Lothos comentou abismada — Quer dizer...

–Acho... Acho que já sei o que é — Arme disse, engolindo em seco. Todos os olhares se voltaram para ela.

–O quê, maguinha? — Elesis perguntou sarcástica. Trêmula, Arme apontou para o grande lençol de plantas que cresciam juntas na areia.

–A... Aquilo. Estão vendo aquelas plantas ali?

–Claro que estamos, acha que sou ceg... ai! — Elesis parou a explosão ao receber um poderoso tapa de luva de metal na nuca. Lothos deu um olhar para que Arme continuasse, ela e Lire observando as plantas, sem entender ao que ela se referia. A menina engoliu em seco.

–Pois é... Não... não são plantas, são harpias dormindo.