A Herdeira dos Sete Mares
12 Visitas totalmente estranhas
Voltamos ao acampamento, onde tudo piorou, as canetas viraram penas brancas, nos chalés os videogames sumiram, substituídos alguns por estantes de livros ou armamentos, meu saco de pancadas improvisado e melhorado havia desaparecido, as latas de refrigerante agora eram taças com sucos naturais, cadernos, livros com folhas amareladas limpas, as lâmpadas e abajures viraram velas e castiçais. Era como se estivéssemos mesmo na Idade Média.
– Acalmem-se todos! – Gritou Quíron para os semideuses inquietos. – Isto é só mais um truque de Hécate! Ela nos trouxe para o passado, onde não há tecnologia ou algo do gênero. Receio que a grande profecia tenha começado mais cedo do que esperávamos.
Muitos se assustaram, eu não... Eu estava desesperada. Não sabia lutar, não tinha experiência com nada, como poderia fazer isso? Sckart teve tempo para isso, eu não teria tanta sorte.
– Pimenta e Martinato, vocês podem zarpar hoje? – Pergunta Quíron. Lanço um olhar para o Marti, dando-lhe a vez de responder, ele engole em seco e assente de leve com a cabeça. – Ótimo! Cada conselheiro levará um acompanhante para o navio, vocês terão de ir ao pôr do sol.
Deixei todos lá e fui para o chalé 3, aquele lugar que era meu novo lar, com novos irmãos que eu passei a amar rapidamente, mesmo que nunca lhes disse a plena verdade. Olhei ao redor, temia não ser forte e jamais ver aquele lugar novamente. Temia fraquejar numa batalha e morrer covardemente. A verdade é que não sou Sckart, não sou Luana nem mesmo minha mãe, que morreu para me salvar. A verdade, é que não sou ninguém. E agora, naquele Acampamento eu era alguém, semideusa, irmã, suspeito ser cunhada do meu irmão, mas aí é outro caso. Lá é meu lar, temo nunca mais ver meus irmãos e amigos, mesmo se sobreviver e fracassar, não sei se terei coragem de voltar. Só sei que não quero vê-los pela última vez hoje. Caminhei aflita até uma árvore perto do chalé, ela tinha um tronco pequeno e tinha muitos galhos enormes, eu acidentalmente a chamei de “Árvore com galhos”, o que foi mais uma piada e uma boa lembrança para guardar. E se eu nunca mais a visse? Soube de muitos que não voltaram de suas missões, temo não ser diferente deles.
Voltei para o chalé, ia arrumar minhas malas quando lembrei que tinha roupas para mim e para Marti nas cabines, mas claro, sempre bom levar uns shorts e umas blusas do acampamento. Levei também algumas fotos que tiramos nesses dias que passamos, muitas estão feias, mas não ligo, apenas as coloco na mala. No final acabei levando muita coisa, digo, muita maquiagem, sabe-se lá quanto tempo ficaremos ao mar, não quero parecer uma bruxa na segunda semana.
Antes de sair, dei uma última olhada no chalé 3, Todos os enfeites e todas as camas bagunçadas, era o chalé da bagunça e da alegria também, sentirei saudades do conforto da cama e do som da fonte onde havia uma estátua de nosso pai, saudades de ser acordada aos berros toda manhã pelos mesmos, de conversar com Cy, com Gardênia, com Adriano e com Gabe Rezende. Temo fracassar, mas por eles, farei de tudo para voltar.
Não quis me despedir, afinal, “Adeus” e “Tchau” não dão certeza de volta, e eu quero uma certeza, eles saberão o que estarei fazendo. Sem despedidas, sem drama. Fui a primeira a pisar no convés, Me enfiei em minha cabine, arrumei as fotos colando-as no armário, as roupas eu coloquei no baú. Peguei as vestes da Capitã e decidi me trocar.
Fui me olhar no espelho depois de por suas botas, me assustei, parecia ela, nos meus sonhos, de como eu a imaginava, eu parecia até mais magra e bonita, muito mais bonita. Fiquei a me contemplar no espelho, tinha medo de piscar e não estar tão bela.
– Essa não é você, sou eu. – Eu disse, quer dizer, eu não, mas a minha imagem no espelho, era eu, mas era ela quem falava, a voz não era a minha, era mais séria, mais maliciosa e doce. Dei um pulo para trás, a imagem se aproximou curiosa, e eu também.
– O que é isso? – Perguntei assustada. Eu estava falando com o espelho?
– Não sou isso, sou Alguém, e sou quem você quer ser, mas não é. – Ela sorrio com superioridade, vi que era Sckart, seus cabelos, de um ruivo como o meu, porém mais longo e, aparentemente, sem o raspado da lateral.
– Sckart...
– Não, Capitã Sckart. – Me corrigiu a imagem. – Estou aqui, pois sou parte de você. Estamos ligadas como... Mãe e filha, goste você ou não, estarei sempre presente. Uma forma de nosso papai te ajudar. Lógico, ele sabe que não consegue sozinha, você é fraca, estou aqui para torná-la forte. Não controlamos apenas a água, sabe disso, controlamos o fogo, somos o fogo. Por isso ambas vivemos em conflitos internos. Somos o conflito. E você precisa controlar isso, pois já tem 15 anos, a chama está acendendo, se não controlar, queimará tudo ao seu redor, a sereia do fogo é feita de fogo.
– Espera, mas então... Como Poseidon e ela conseguiram...
– Assim como o Ying encosta no Yang. – Explicou como se fosse óbvio.
– Ah...
– Só tenho um aviso para você, jovem Sckart, este quarto foi feito para suportar o sol se for preciso.
– Entendi.
– Ótimo agora, desejo que a maré esteja ao seu favor.
Nisso ela se vai, se ela estava ali para me ajudar, não havia feito um bom trabalho.
– Hey Pimenta, venha, estamos nos reunindo no convés. – Chama Marti entrando no quarto, quando viu minha expressão assustada perguntou: — O que houve?
– Nada. – Algo me dizia que não deveria contar-lhe nada, era algo meu, apenas meu.
Fui para o convés onde todos se reuniram numa roda. Sentei ao lado de Cabeça de Trigo, filho de Deméter, olhei rapidamente para minha irmã e quem ela havia trago, o tal Léo, Lelo, eles estavam conversando e rindo. Olhei para Lyu e depois para o filho de Zeus, Dudu. Havia muitos na roda, mas não tinha cabeça para reconhecer todos que estavam lá.
– Gostei das roupas. – Comentou Gabrielli, filha de Dionísio.
– Achei na cabine de Sckart, resolvi experimentar. – Sorri para ela.
– Já sabemos para onde estamos indo? – Perguntou Caique, filho de Apolo que acompanhara Lyu na viagem.
Enquanto pensava vasculhei os bolsos de Sckart, achei nada mais do que uma bússola de prata e ouro. Era dela, mas inútil para descobrirmos o caminho.
– Eu apenas nos mantive perto do litoral, devemos estar passando pelo Rio de Janeiro, até a noite passaremos pela Bahia. – Avisou Marti. – Não achei nada nos diários ou na cabine do Capitão.
Eu me mantinha quieta fitando o chão. Quando ocorreu-me uma ideia.
– Procurou no colchão? – Perguntei sorrindo sem tirar os olhos do chão.
– Não, porque estaria lá?
– Por que, caso o navio fosse invadido ou roubado, ninguém nunca iria procurar no colchão. – Eu ainda mantinha meu sorriso e observei Marti se levantar e ir até sua cabine, e voltar com um pedaço de pergaminho enrolado em uma de suas mãos.
Ele abriu o Mapa, era antigo e tinha uma versão muito esquisita das terras do mundo.
– Tem alguma coisa errada... – Comentei, Marti me olhou, “Jura!?”
– O mapa é muito antigo, muitas terras foram descobertas depois, nós estamos aqui. – Marti apontou para um lugar vazio em meio ao Pacífico.
– Não tem nada aí. Pensei que estivéssemos contornando o litoral do Brasil. – Falou Anna, filha de Dionísio.
– E estamos. – Explica Marti. – Porém o Brasil não foi descoberto ainda, já que voltamos no tempo. Apenas o que está dentro do Acampamento se mantém, por isso se voltarmos encontraremos Quíron e o pessoal, porém, fora do acampamento, encontraríamos índios.
– Nessa época, os mundos eram misturados, os mortais sabiam dos monstros, os temiam, apenas não compreendiam o mundo em que viviam. E tem um portal que temos de atravessar, é uma terra de ninguém, totalmente mística, e foi lá onde a guerra de Hécate foi travada. – Disse.
– Tá e onde fica esse “portal”? – Perguntou Lyu.
Eu e Marti nos entreolhamos, decidindo mentalmente quem iria responder. E nós dois dissemos juntos:
– Groenlândia.
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