A Herdeira dos Sete Mares

3 Tem um feiticeiro na casa da minha mãe


Quando os dois se lançaram um contra o outro, o professor parecia estar perdendo, a magrela pulou em cima dele, mas ele se levanta e desfere golpes falhos, a bruxa fez surgir uma espada preta e desferiu golpes que ele soube defender deixando um barulho estridente de metal se chocando. Ao vê-los num empate, pensei que uma espada poderia surgir na minha mão também, né? Mas o que eu faria com uma espada? Seria A piada. Há-há-há.

De repente um barulho ensurdecedor assusta a todos, o chão rachou e fitamos o animal com asas que pousara nada delicadamente na quadra. Felizmente Marina ficara mais perplexa e o Professor, vulgo seu pai, enfiou a espada na sua barriga, fazendo sumir a fumaça, ela fitou seu pai e disse:

– Vá pro Tártaro, papai. – Espero nunca ter uma filha assim...

A magrela ficou no chão, sangrando.

– Ela não é um monstro, é uma bruxa, vive muito mais que o normal para vocês, mortais, mas quando morrem, não se desfazem em pó, apenas morrem como mortais, a sua magia vai embora e ela vai para o submundo. – Falou ele enxugando a lâmina e depois se virando para o animal negro e com asas gigantes, um cavalo com asas, um pégasus? – Marley! Porque raios demorou tanto? Sabe o que isso poderia ter nos custado? – Ele foi com o seu olhar de advertência para o cavalo alado e depois lembrou. – Ah! Hm, Marley, essa é a Juliana Pimenta, ou só Pimenta, tanto faz, ela é filha de Poseidon e corre perigo. Menina, essa é Marley, seu Pégasus. – Olhei para Marley, o animal mais belo que já vi. Sua pele negra e seus olhos penetrantes. Lindos...

– Ahn, oi? – Cumprimentei, há, como se ela fosse responder. “Olá Senhorita Pimenta, é um prazer te conhecer!” – Ela fala? – Perguntei pasma, não sabia se estava ouvindo coisas ou realmente ela havia falado comigo.

– Bem, não, mas com você ele fala, pois é filha de Poseidon tudo o mais. Bom, mais tarde explico, temos de ir antes deles chegarem.

Então montei em Marley com certo receio, isso era muito, muito estranho, o sátiro sentou atrás de mim, quando saímos da quadra, pude ouvir o sinal tocando e os alunos gritando, comemorando, como queria estar lá também. Pousamos no telhado da casa de minha mãe Carol, que mora na Zona Leste de São Paulo, Marley fez um barulho que temi quebrar o teto, desci da égua voadora com ajuda do Sátiro, e com sua ajuda desci do telhado para a porta dela, meu Professor pulou e parou em pé.

– Manhê! – Gritei, logo ela abriu a porta, me olhou e me abraçou e depois olhou para o sátiro de cima para baixo, pensei que ela iria gritar e bater nele com o cabo de uma vassoura, mas ela apenas o cumprimentou.

– Gerson, há quanto tempo. – Ela abriu um sorriso. Meu professor me olhou e depois a fitou.

– Faz uns 14 anos, Carol.

– Ah, entrem, vejo que chegou a hora.

Continuando sem entender nada, entrei na casa de minha mãe, me sentei na cozinha, ela na minha frente e o professor entre nós duas.

– Bom, como foi me prometido, o dia que a resgataria, seria meu último dia aqui, finalmente, descansarei, ela tem que ir para o Acampamento Meio-Sangue, nós atrasamos muito por causa de sua segurança, mas agora é a melhor opção. Quando estávamos saindo, veio uma bruxa, logo chegará um feiticeiro, e depois, quem sabe um mago, e estou velho para lutar contra qualquer um deles.

– Eu entendo meu amigo, leve-a em segurança, eu a preparei no que pude só me garanta que ela estará bem, eu converso com a Rose.

– Gente, espera um pouco, alguém me explica o que está acontecendo? Essa maluquice toda? E que acampamento é esse? – Minha mãe me olha e dá aquele sorriso preocupado que tem a intenção de acalmar. Só com a intenção mesmo.

– Filha, seu pai, é o deus Poseidon, você sabe tudo de mitologia grega, mas não sabe do mais importante: Não são mitos, são bem reais. Bruxas, magos, feiticeiros, tudo que eu te contei lembra? Das histórias da Capitã Sckart? É tudo real, do jeitinho que eu te contei, não questione, apenas acredite. Não temos tempo agora, você corre perigo.

– Mas mãe e você? – Perguntei, em vão, ela já havia me arrastado para a porta, voltou para a casa e depois apareceu com uma adaga de prata e me entregou.

– Seu pai lhe deu isso quando nasceu, e tive que guardar para o momento certo, Ju, siga seus extintos, para semideuses isso é o mais certo. E lembre-se eu... – Sua fala foi cortada por uma risada seca vinda de dentro da casa, minha mãe fechou os olhos e se virou, o professor ergueu a espada quando apareceu um homem alto com um manto preto e um sorriso mais frio do que seu olhar, ele segurava um graveto, espera, uma varinha... – Vai filha, agora.

– Não sem você mãe. – Porém, não me mexi, os olhos daquele homem não me deixavam mover.

– Que bonitinhas... Juliana Pimenta, não me reconhece né? – Sua voz fria penetrava em meus ouvidos, como se eu ouvisse o que não deveria ouvir.

– Não, deveria? – Consegui dizer, mostrando-me, ou tentando me mostrar, corajosa.

– Deixe-me fazê-la lembrar. – Então ele se transformou num garoto louro de 15 anos, magro e alto, porém, menor do que sua forma anterior. – Oi ju, vai à festa de formatura? – sua voz ficou menos fria, na verdade mais calorosa e reconfortante. Seus olhos azuis agora meigos me fizeram acordar.

– Mateus... – Sim, o cara da minha sala que eu era apaixonada, eca.

– Sim Ju, nós te perseguíamos esses anos todos, você nunca percebeu, seu primeiro namorado, era um feiticeiro, assim como eu.

– Você já namorou? – perguntou minha mãe, que vergonha e eca.

– Mãe, assunto pra outra hora, né?

Mateus se transformou novamente em feiticeiro enquanto a raiva dominava meu corpo, não acredito, eu fui mesmo cercada de feiticeiros como ele? Mil vezes eca.

– Bruxas, são fracas e tolas, e também mortais, já feiticeiros... Somos mais fortes, inteligentes e vivemos como os deuses.

– Mas ainda morrem. – Fiz mais uma pergunta do que uma afirmação. A raiva parecia ter quebrado meu transe que me deixara imóvel. Um plano tentava se formar em minha cabeça, claro, sem sucesso.

– Isso é assunto pra outra hora. – Ele riu com o canto da boca. – Agora, é sua hora de morrer. – Morrer? Ah não, obrigada, volte daqui a 50 anos, por favor?

Eu ia morrer, sabia disso, percorri toda minha mente em apenas alguns segundos procurando algo, lembrei-me de uma parte das histórias de Sckart, onde um de seus fiéis irmãos, estava num impasse, cercado de inimigos e tentou, pelo menos, adiar sua morte, conversando com os inimigos e pegando informações, claro, os inimigos não acharam que ia ser ruim contar todos os planos para ele já que ia morrer. Obrigada Sckart, Obrigada Mãe.