– Espera! Mas por que eu? – O feiticeiro começou a rir e cutuquei minha mãe que me entregou a adaga, eu a escondi nas costas e andei até a geladeira que ficava na frente dele, tentando afastá-lo de minha mãe. Ele me seguiu com os olhos, curioso, me estudando até, enfim, dizer:

– Não sabe? Não te prepararam ainda? Será muito mais fácil matá-la.

– Com um graveto? – Ri, tentando não parecer nervosa.

– Sabe o que esse graveto pode fazer? Pode te matar sem que eu sequer encoste em você, um raio verde atingirá seu corpo fraco e te matará. Rápido como um raio. – Ele riu com a própria piada sem graça.

– Tá, mas porque eu? O que eu tenho de tão especial?

– Seus poderes, adormecidos ainda, jovem semideusa, você e todos os semideuses são importantes para Hécate. Mas você... É muito mais especial.

– Ok, mas por quê? – Ele se aproximou de mim, segurando meu pescoço me ergueu do chão. Minha mão ia até a adaga quando ele começou a falar.

– Sua mãe não lhe contou? Quem realmente é Capitã Sckarlleth Sckart? Quem realmente é você?– A personagem das histórias de minha mãe? Uma lenda, uma história, o que teria haver comigo? Não quis lhe perguntar, considerando o fato de sua mão fria estar em minha garganta enquanto a outra está apontando a varinha para mim, não conseguiria falar nada. A oportunidade de matá-lo estava ali, estranhamente fácil, mas edaí? Enfiei a adaga em suas costas, ele urrou de dor, me soltando e caindo no chão, ele não morreu, apenas havia sido ferido, fiquei olhando ele, então peguei sua varinha e a quebrei, corri para onde meu professor estava, minha mãe me abraçou e me empurrou para fora. O professor estava me ajudando a subir no telhado quando escuto um grito de dor de minha mãe, olho para ver o que aconteceu, minha mãe de pé, com o olhar vidrado em mim, em sua barriga havia sangue onde garras brotavam para fora de seu corpo, atrás, o feiticeiro rindo.

– Te... Amo... – Disse ela com seus últimos esforços, ela fechou seus olhos azuis, estava morta. Gritei, chamei seu nome, lágrimas corriam meu rosto, como chuva. Não, não e não, mil vezes NÃO!

– Pimenta, vamos! – O professor me puxou para o telhado e não soltou meu braço até me fazer montar em Marley.

Já nas alturas de São Paulo, estava quieta, cabisbaixa e chorando, mais uma mãe morta, culpa minha, mas o que fiz para merecer tal perseguição? Bruxas, feiticeiros... O que mais? Não entendo, será que foi quando invoquei a loira do banheiro aos dez anos?

– Sua mãe... Foi muito forte em vida, ela vai para o Elísio, não se preocupe, ela era mais do que uma mera mortal.

– Como vou saber agora? Ela está morta se você não percebeu.

– Sua mãe e eu éramos amigos, quando ela teve você e Poseidon teve que sumir para protegê-la. Eu sei que ela não te criou, mas entenda, se você morasse com ela, eles teriam te achado muito mais cedo, suas outras mães sabiam disso, por isso decidiram cuidar de você.

– Minha outra mãe, a que morreu antes... Ela também foi morta? — Essa dúvida me apareceu de repente, rápida, como um raio. Ele, porém, hesitou em me responder.

– Ela... Bom, ela sofria mesmo de câncer, mas o avanço descontrolado da doença, bom, o Mago Margalott, um dos três Magos, a causou isso, eliminando ela, ficaria mais fácil de chegar até você, sabe, eles são o mal, e suas três mães o bem, elas foram suas guardiãs, uma barreira que os impediam de chegar até você a tempo, eles tiveram a missão de enfraquecer essa barreira.

– Mas, a tempo de quê?

– De seu décimo quinto aniversário, semana que vem você tem uma série de coisas que a torna mais forte para eles, por exemplo, nasceu no dia 23 de outubro, você é a primeira escorpiana, já, por natureza perigosa. Filha de Poseidon, um dos três grandes, por natureza forte. Entre outras coisas que não cabe um sátiro lhe dizer. – Ele disse ao perceber que ainda estava tentando entender a parte do “Mago Margalott”, não falaria que era tudo invenção, pois vi a vida de minha mãe sumindo de seus olhos por culpa de um feiticeiro que eu esfaqueei pelas costas, vi também uma magrela soltar fumaça azul dos olhos, sem falar que vi meu professor de Filosofia virar metade bode, e uma pégasus chamada Marley, e eu podia falar com ela.

– Para onde vamos agora?

– Aqui. – Informou o sátiro ao aterrissar numa floresta, estávamos de frente para uma entrada com uma placa de madeira escrita “Acampamento Meio-Sangue”. – Olhe, quando eu atravessar por esta entrada, eu morrerei, irei me desfazer e virar alguma planta só espero que um girassol, amo girassóis... Mas enfim, só quero que saiba uma coisa que muitos não sabem. A morte de qualquer pessoa amada ou querida, não é sua culpa, está bem? Milhares de milhares de seres conspiram contra semideuses, e às vezes algumas pessoas que vocês gostam acabam mortas ou com sérias sequelas, a culpa é deles. Suas mães tiveram que te proteger deles, morreram pelas mãos deles. Você só tem culpa do que faz, não do que não faz, ok?

= Ok... – lágrimas ainda caiam, eu não me conformava com a morte de minha mãe, dor insuportável.

– Espero que entenda isso de verdade algum dia, agora, eu morrerei. – disse ele com um suspiro.

– Você precisa atravessar?

– Não, mas eu quero. Sabe, vivi muito apenas esperando te resgatar e deixá-la a salvo, pode parecer estranho, mas o dia de seu nascimento estava previsto a milhares de anos. Como um bom sátiro, me dediquei para a última missão de minha vida, os deuses me deram tempo para isso.

– Quanto tempo afinal? – perguntou com um pesar no peito.

– 3.000 anos, agora eu preciso e quero descansar. – Ele disse, eu o abracei e segurei sua mão quando atravessávamos a entrada do Acampamento, e Marley atrás. Quando pisei no solo que pertencia ao Acampamento senti a mão do professor de desfazendo, olhei para o lado, ele sorria para mim quando virou um pó dourado, derramando sua última lágrima no chão, ela virou a mais bela flor de todas: Um girassol. Eu sorri, ele estaria descansando, sem matar ninguém, sem socorrer ninguém, apenas ali, apreciando a vista, Marley me empurrou com seu focinho, “Temos de ir falar com Quíron!”.

– Quem é esse? – “Ah, é fácil de achá-lo, ele é um centauro!”. – De onde eu venho “Centauro” é só nome de loja... – Comentei mais para mim mesma do que para Marley. “Desculpa, o que disse? Ah, esquece, vamos, monte em mim, te levo até ele”. A obedeci, então eu montei nela e olhei a espada de Gerson presa na sela, não sei o que deveria fazer com ela.

Marley foi trotando devagar passando por muitos campistas armados e com armaduras, uns treinando arco e flecha, outros lutando, alguns pararam seus treinos para me encarar, calados até que um garoto, de aparentemente 15 ou 16 anos parou na minha frente, loiro, baixinho, (mesmo assim mais alto do que eu) forte até e com um arco e uma aljava nas costas.

– Olha, você voltou Marley! – Cumprimentou o cavalou acariciando-o. Ele me olhou, provavelmente não teria me notado. Eu, para ser educada, desci de Marley para cumprimentá-lo.

– Oi, ahn, sou a Pimenta, acabei de chegar. – Estendi minha mão, ele a apertou e se apresentou.

– Sou o Martinato, Filho de Poseidon, e você é filha de quem?