Saímos daquele casarão sem respostas, tomada pela s novas descobertas, já tinha assimilado o mais difícil, já estava no embalo da situação, minha vida mudou, tudo que sei sobre mitologia é verdade, não adianta travar uma guerra mental contra os fatos. A única pergunta que me fazia era: "Que profecia é essa?", e me parecia que Marti fazia a mesma pergunta.

– Bom, Pimenta, quer conhecer seus outros irmãos? — Ele me perguntou, tirando-me, novamente, do labirinto de minha cabeça.

– Gostaria muito, mas Marti, antes, queria dar uma volta na praia, tem um jeito de me transportar para Santos?

Ele pensou na pergunta e então respondeu:

– Tem uma praia aqui perto, se quiser... — Ele falava quando fora interrompido por uma voz feminina que vinha atrás de mim.

– Eu a levo, Vinícius. — me virei em direção da voz que agora teria dono, como de costume vinha de alguém mais alto do que eu, ela era alta, pelos seus 1,70m, magra, usava um shorts jeans com uma blusa laranja onde se lia "Acampamento Meio-Sangue" recortada na gola, na cintura estava amarrado um casaco de couro, e em seus pés ela calçava um coturno, sua expressão pálida e fria, não sei se era natural ou era sua maquiagem, seus olhos cinzas, davam um ar de cruel, seu cabelo era cumprido e reluzia um ruivo no sol, porém, quando se movia em nossa direção vi que seu cabelo era um castanho meio avermelhado.

– Você é..? — Perguntei curiosa encarando a espada que ela levava consigo coberta pelo casaco de couro.

– Luana Pimenta, Filha de Hades, 17 anos, e você? — Na hora me senti como se uma onda havia quebrado em minha cabeça, "Pimenta" não é, de certo, um nome comum.

Eu e Marti nos entreolhamos, surpresos e espantados de fato, não era nada alarmante, porém era um fato curioso, o mesmo sobrenome estranho, ok.

– Sou Juliana Pimenta, filha de Poseidon, 14 anos... Temos o mesmo nome, isso é...

– Estranho? pois é, tem muitas coisas estranhas aqui, você se acostuma.

– Não acha nada de mais nisso? Nosso sobrenome não é algo comum.

– Não mesmo, mas não deve ser nada tão importante, se não Seriamos avisadas.

– Nossa cara, nem me toquei, mas, vocês tem o mesmo sobrenome e são parecidas, tem certeza que não são irmãs? Da mesma mãe? — Falou Marti curioso, porém nem tanto como eu. Mas numa coisa ele havia errado: Não temos nada de semelhante.

– Minha mãe nunca me falou de uma irmã, tenho dois irmãos só... — Comentei.

– E eu fui criada por uma família adotiva depois que fiz 4 anos.

– Ah. — Falamos em uníssono. Um momento de silêncio se seguiu até Luana cortar esta onda de desconforto.

– Quer que eu a leve ou não para a praia? Vinícius tem muito o que fazer no chalé 3, agora é o caça, não? Como conselheiro deveria ir.

– Sim, vou pro caça, e acho que o Duh vai te substituir, né?

– Vai sim, bom caça pro time Azul, vão precisar de sorte.

– Talvez o time Vermelho precise de sorte, já que o time Azul ganhou das últimas três vezes. — Marti disse e então se despediu, me deixou com a filha de Hades e confusa com essa história de caça e times coloridos.

– Depois explico, vamos, vou te levar para a praia. — Disse Luana como se lesse pensamentos, será que era um poder?

Ela me guiou pelo acampamento, onde antes havia adolescentes treinando, agora estava vazio, então passamos por um lugar onde os adolescentes se encontravam juntos empunhando lanças e espadas, todos prestavam atenção em Quíron que ditava regras sobre defesa de uma bandeira.

– Aqui, temos um jogo, o caça à bandeira, somos divididos entre dois times, vermelho e azul, cada um com o objetivo de pegar a bandeira do time adversário. — Luana explicou sem virar para me olhar, apenas seguindo reto.

Seguiu-se o silêncio até chegarmos à praia, conforme ia me aproximando do mar, me sentia livre, era como se tudo de ruim sumisse de minha alma, de meus pensamentos, respirei fundo e fechei meus olhos e fui em direção ao mar, quando senti a água invadir meus sapatos, uma energia inexplicável invadiu meu corpo, estava totalmente relaxada e relativamente feliz, desde pequena, apenas o mar me dava tal sensação, de me sentir completa e feliz.

– Hey! filha do mar! Pode parar com isso? — Gritou Luana, o que me fez abrir meus olhos e ver o que fiz.

Uma onda de uns 10 metros se projetara em minha frente, me assustei e a onda se desfez. Eu fiz isso?

– Por Hades, não faça mais isso na minha frente!

– OK, desculpa. — Me sentei na areia, cansada e apreciando o mar, Luana se sentou ao meu lado.

– Então, por que Santos? — Ela me perguntou, me olhando.

– Ahn?

– Você queria ir para Santos, eu ouvi.

– Ah, bem, íamos nos mudar para Santos ano que vem, era pra ser esse ano, mas queria me despedir de meus amigos na formatura e tals. Todos ficaram meio chateados, mas acho que ninguém ligou muito. Mas agora não faz diferença.

– Meus deuses garota, você fala muito. — Eu ri — Mas então porque não faz diferença?

– Bom, minha mãe desistiu uns meses atrás, "motivos dela" e também o Frost, não sei se ficaria bem na praia. E agora estou aqui.

– Frost?

– Meu Cachorro, um husky siberiano.

– Está com saudades dele?

– Sim, de tudo na verdade, se eu pudesse voltar para minha casa, mesmo que por mais alguns segundos...

– E se eu disser que você pode?

– Posso? Como?

– Pelas sombras, simples fácil e rápido.

– Como funciona isso? — perguntei ansiosa, só de pensar que teria uma chance de ver minha mãe Rose pela última vez...

– Assim, me dê a mão, — Assim o fiz. — Agora me diga o lugar para onde quer ir.

– Para a Estação Brigadeiro.

De repente tudo ficou estranho, fiquei tentada a abrir os olhos mas não o fiz, senti uma tontura e ânsia, quando Luana me pediu para abrir os olhos vi que estava num vagão de metrô, queria vomitar mas me segurei e sentei num banco antes de cair no chão. Luana Ria desta cena como se visse um filme de comédia. Olhei em volta, ninguém parecia estranhar duas garotas surgirem do nada no vagão.

– Eles não viram a gente? — perguntei ainda meio tonta.

– Não, graças à névoa, em resumo ela faz com que coisas mágicas não sejam notadas.

– Ahtá, esse dia está cada vez mais louco.

Logo a voz do metro anunciou "Próxima estação, Brigadeiro", quando as portas se abriram, saímos como pessoas normais, ainda não entendia, a garota está com uma espada e ninguém liga! Como?

Saímos para a Paulista, que saudades, pessoas apressadas, mendigos pedindo dinheiro, gente estranha com violinos, amigos passeando sem nada para fazer, já mencionei os entregadores de panfletos? Sentia saudades até do pé de goiaba que surgia perto da estação. Descemos a rua do boulevard, seguindo reto, passamos pela banca de jornal do Seu Arnaldo, e depois subimos a ladera onde no final dela havia uma pizzaria chick e cara, estávamos na esquina de minha casa, passamos pelo ponto de ônibus e entramos no prédio velho e marrom de nove andares. O porteiro nos cumprimentou e fomos até meu andar. A porta estava aberta, logo um frio percorreu-me a espinha. Minha mãe.

Entrei correndo, Luana logo atrás, estava tudo bagunçado folhas por todo lado. Procurei minha mãe porém não a achei, procurei nos quartos, nos banheiros, na cozinha e até nos armários. Voltei para a sala onde Luana estava com uma folha em suas mãos, controlei meu desespero e engoli meu choro.

– O que é isso? — Uma esperança tocou meu coração, um bilhete talvez?

– "Alguns sonhos se desfazem com o tempo, dizem que é o amadurecimento, creio eu que o amadurecer é nada além do que esquecer sua infância feliz. Plantar seus pensamentos no chão amargo de suas lembranças ruins." E blá blá blá, você que escreveu isso? Até eu escreveria beem melhor.

Sabe aquela esperança e tudo o mais? então, virou raiva, peguei a folha dela, e comecei a mexer nas outras folhas pelo chão, todas tinham textos meus, poesias e uns desenhos de piratas.

– Meus deuses menina, aprenda a desenhar também. — comentou a Filha de Hades.

– Deixa eu adivinhar, você desenha melhor?

– Sim. — Respondeu orgulhosa. — Hey, olha, um bilhete! — Gritou ela da cozinha. Fui em desespero até lá e ela leu em voz alta. — "Filha, não tenho tempo, apenas digo que tome cuidado, eu e seus irmãos fugimos para um lugar seguro, Frost está com a gente também, se ler isso agora, te aconselho a fugir, não é seguro." Ok, só acho que temos que sair daqui.

– Você jura? — Rainha do óbvio, se não sairmos daqui agora, correremos perigo.

– Ah, mas só porque cheguei?

Na porta da cozinha estava ele, Mateus, ou seja lá qual for seu nome, o feiticeiro que matou minha mãe.