A Herdeira dos Sete Mares

15 Batalhas Perdidas


Me vi no convés daquele navio gigante, maior até mesmo que o meu. Eu estava dentro de um círculo enorme de bruxas, feiticeiros e monstros e um... gigante (?). Enfim, isso não era importante. O importante era o que saia de lá. Quando surgiu todos saíram de perto e ela tomou conta do espaço vazio. Já havia estudado muito essa criatura até atormentar-me em meus sonhos. Fiz trabalhos e teses sobre ela. E era ainda mais horripilante ao vivo. A um mês, gostaria de sua existência... Pois é, as pessoas mudam de opinião.

O monstro é real, tal como o medo, e é enorme. Com corpo de um leão como o Aslam, possuía Duas outras cabeças gigantes, uma de cabra, com um dos chifres quebrados, e o outro em perfeito estado. E tiinha aquela cabeça de serpente, que me olhava como se eu fosse um rato. Repasso o diário de Sckart na minha mente com uma velocidade assustadora para a minha mente lerda. Nada. Era o que me assustava. Talvez eu tenha lido essa parte ainda. Ou seja um capítulo extra, que eu esteja criando agora. Só sei, que estava tomada pelo medo.

Pensei e pensei. Pus a mão na adaga, enquanto a Quimera se preparava para pular e me matar. Olhar nos olhos de um animal, sinal de desafio, e desafiar aquele bicho, era sinal de morte. Se eu agachasse, cabisbaixa, sem mostrar ser uma ameaça seria sinal de rendição, mas, pelo que eu saiba, ninguém se rendeu à uma Quimera – Ou qualquer outro ser vivo – e sobreviveu para dar a dica. Talvez, se eu...

– Vamos! Lute! – Gritou um dos magos irritado, e a multidão o apoiava.

Me preparei, peguei minha adaga, e me lembrei que só tinha ela. Com a adaga na mão, me ajoelho, sem olhar para o bicho, e apoio as mãos no chão. Sinal de rendição.

Sentia as patas pesadas avançarem em minha direção. Tentei espantar o medo, a cada batida das patas da Quimera. Ela estava agora a menos de dez centímetros do meu rosto, e me lembrei da primeira vez que dormi na rede com um Pit Bull, mesmo morrendo de medo de cães. “O medo não existe”, pensei, na tentativa de eliminar o medo, pois era isso que a Quimera cheirava. Seu focinho, sua barba e sua pele escamosa vasculhavam minha cara, quando o medo já não existia. Com a adaga na mão esquerda, com a direita acariciei a cabeça do leão, e com a esquerda cravei com força a adaga em seu pescoço, o que o fez rugir e sibilar e jogar o corpo para trás, tentei não soltar a adaga, mas a soltei e esta ficou fincada no pescoço do leão, fui jogada com tudo para trás, batendo a cabeça – se já não estivesse acostumada a bater a cabeça assim, teria desmaiado.

A multidão gritava, abrindo cada vez mais o círculo. Eu acho que por um momento vi duas Quimeras...

Ela avançava soltando fogo, literalmente. Me afastei para não me queimar. Até me achar ridícula por isso. Eu também, de certa forma estranha e assustadora, solto fogo. Enquanto a besta se aproximava eu me concentrava. Sentia raiva. Raiva em não estar com meus amigos para ajudar, raiva de estar presa, de ter que lutar com aquele monstro e estar perto dos assassinos de minha mãe. Não sinta raiva! – Pediu uma voz na minha cabeça, agindo feito sussurro. Sckart. – É o que ela sente. Sinta algo superior à raiva. Rápido sua demente! Ela está vindo!

Precisava ganhar tempo, então fiz algo que nunca vou conseguir repetir. Corri de encontro à Quimera que soltava fogo. Atravessei-o, como se fosse apenas ar quente, apoiei minha mão na cabeça de leão, segurando pelas orelhas, para não cair mais longe, caí nas costas do animal que se esticou no ar para que eu caísse. Peguei a adaga e pulei de costas, rolando no chão. O bichano rugia e sibilava. Despejando fogo e queimando algumas bruxas, se virou pra mim. O fogo me atingiu, mas eu não senti queimar. A fera andava com velocidade atrás de mim, eu ataquei a adaga, como Marti havia me ensinado numa de nossas aulas com o arco e flecha, e atingi a cabeça de bode, bem no nariz, o desespero me domava, quando a resposta veio em minha mente.

Paz, felicidade.

Mas como ser feliz por alguns segundos? Teria de me lembrar de tudo que me faz feliz. Enquanto Quimera recuava, eu pensava, novamente numa velocidade surpreendente. Momentos com amigos, com as mães, quando conheci Marti, quando conheci minha irmã, o pessoal do chalé 3, lyu, chalé 13, Marley. Nesse instante senti uma chama boa surgir em meu coração, recusei-me a abrir os olhos, sabia que a Quimera me lançava chamas outra vez, então abri meus olhos dentro do fogo, e lancei o meu. Não gritei, não prendi a respiração, não fechei os olhos.

Sabe aquele fogo azul que sai do maçarico, ou do fogão quando o fogo ta alto? Então, era assim que meu fogo era. Azul e branco. Eu o via e o direcionava para o bicho que tentava me alcançar enquanto meu fogo o despedaçava. Me sentia exalta, decidi parar, despenquei no chão, mas não devia tirar meu olho da Quimera, que ainda estava viva. Se eu tivesse agüentado um pouco... Minha adaga estava dependurada nos restos do nariz do bode. Eu cambaleei até ele e tirei a adaga, enfiando-a eu sua cabeça, o bode fez um som esquisito, e rapidamente retirei a adaga e a finquei na cabeça do leão, sem forças para lutar, e a serpente, me picou no braço antes de me derrubar, e eu caí com aquele monstro em cima de mim. E só vi escuridão.

Acordei, ou, no caso, sonhei, não sei, que estava no navio Les Sckartes, e eu o comandava, a cada dois passos, uma ordem dada a alguém. Vi Lyu e fui até ele e ordenei:

– Vá, fique em posições, você comanda os arqueiros de Apolo.

Ele apenas assentiu e saiu. Fui até um garoto todo sujo, alto, moreno e magro, e ordenei:

– Quero que você comande os filhos de Hefesto e vá agora para os canhões! Se ficar sem munição, coloquem qualquer coisa e lancem!

– Já vou.

– Agora! – Exigi. O garoto saiu apressado.

Então a cena mudou. Eu estava na cabine, quando Marti entra.

– 20 MORTOS! Sabe o que é isso Sckart? – Quando ouvi o nome, notei que não era o Marti que falava, e sim, o Capitão Martinato, o irmão de Sckart.

Eu, como Sckart, assinto.

– Eu não pedi por isso! A sorte apenas não está ao nosso favor. Não posso fazer nada.

– Não pode, mas podia! O que vou dizer para as suas famílias?

– Ora, eles eram semideuses, heróis! Não morreram em vão, e poucos tinham famílias! Não me venha, logo você, com sentimentalismo barato! Podemos até ser semideuses, mas antes, somos piratas filhos do próprio deus do Mar! Isso é muito mais que apenas um semideus, então, aja como tal, deixe de sentimentalismo! Eles não morreram em vão!

– Você está apostando gente nesse seu joguinho, não são apenas moedas sem vida, a dor da perda é irreparável!

– Sim, mas é necessária! Podemos recrutar outros, batalhar, quem teme a morte, teme aos deuses, e nós não devemos temer os deuses.

– Se você não parar juro que lhe corto a garganta! Esqueça esta história, é perda de tempo.

O Capitão Martinato tirou das costas teu arco, e o jogou no chão, fez o mesmo com sua espada.

– Se for continuar com isso, não verá minha mão numa espada por você.

– Não posso continuar sem você. – Falo automaticamente, como se só olhasse o que acontecia, e não comandasse meu corpo. Mas falo de modo frio, como se citasse um fato histórico.

– Então pare. São vidas Sckart! Você está perdendo meu respeito com essas suas vontades. Odeia os corsários, entendo, mas o homem que te criou não teria orgulho disso.

Sinto uma lágrima cair de meu rosto que não controlo, e a visão fica embaçada, fecho e abro os olhos e me vejo na cela, deitada no chão de madeira.

Me levanto, com a cabeça e a barriga doendo. Levanto a blusa e percebo um hematoma feio, alguns arranhões nos braços que eu não devo ter notado na hora da luta. Penso no fracasso com a Quimera.

Deveria ter me soltado mais, ter seguido instintos, deixar adrenalina fluir, não poderia ter me controlado, ou ter sido domada pelo desespero.

– Você é a semideusa poderosa mais fraca que já vi. – Comentou o mago Honigway, que estava do outro lado da cela, sorrindo e me olhando.

– Você é um cara bem estranho. E não sou fraca.

– Não? Então o que foi aquela luta? Deixa-me adivinhar, estava só se aquecendo?

Na verdade não. Mas não digo isso a ele, apenas balanço a cabeça e digo:

– Exato.

– Tão imprudente quanto Sckart.

– O que quer dizer?

– Sou um mago, sei o que sonhou, sei o que viu, e te digo mais, sempre que eu quiser posso acessar sua mente.

– Quer dizer que você é o fodão do mundo todo, mas precisa de mim para capturar outra pirata, para que Hécate domine o mundo?

– Preciso de Sckart fraca! Ela é divina, tem poderes quase semelhante ao dos deuses, um espírito protetor dos grandes piratas. Mas ela está ocupada te ajudando, por que ela sente um carinho de irmã, e quando ela te ver sendo derrotada, sendo morta, ela ficará mal e aparecerá para te ajudar, e nesse momento nós atacaremos e a mataremos.

– Mas se ela é um espírito com poderes de deuses, como vocês vão matá-la.

– Sabe o que acontece quando espíritos ou deuses morrem? Eles param de existir, são esquecidos eternamente, somem de qualquer lugar possível e imaginável. Está entendendo?

Eu assinto, mas estou ocupada demais bolando um plano para escapar. O ruim desses “vilões” é que sempre acreditam que vão vencer, e acabam revelando o plano para as vítimas. Ele pode acessar meus sonhos, mas não pode acessar minhas idéias.

– E o que quis dizer quando mencionou o sonho que eu tive?

Ele suspira e se senta numa cadeira perto da escada, e eu me sento no chão.

– Sabe, esses sonhos, são memórias dela, e eu me lembro deste dia, foi logo no início, estes momentos fazem parte da “Guerra dos Corsários”, Sckart imprudente e com raiva dos corsários que mataram Hanson Sckart, o homem que a criou, sacrificou mais de 100 marujos para se vingar, mas a marinha real de três países foram para cima dela, foi quando ela recrutou mais navios para uma frota pirata, e vinte morreram, ela e Martinato discutiram, e Sckart desistiu da primeira guerra. – Ele dá um sorrisinho. – Sckart também foi uma fracassada. Relaxe, você não é caso único na família. – Então ele se levanta e sobe as escadas

Então os dois formaram uma grande dupla desde o início, o racional e o emocional, é por isso que Marti está aqui comigo.

Tenho que sair daqui.

– Sabe, tem um jeito, mas os deuses não iam gostar. – Falou a voz de Sckart na minha mente. Já havia me acostumado com ela.

Eu me importo com isso? Tenho que voltar para os meus amigos.

– Está bem, Pimentinha. Um momento e verás o que tem nas tuas costas.

Após suas palavras na minha cabeça, ponho as mãos nas costas, e sinto um volume diferente por debaixo da blusa. Eu a levanto e tiro de lá uma adaga. Eu a olho por um momento, vendo meu reflexo em sua lâmina afiada.

– Agora escute, não posso aparecer, mas logo a bruxa que está com as chaves vai passar para lhe entregar uma ração de pão duro e vinho, mate-a sem pestanejar, sem dó, e pegue as chaves, então corra para o convés em direção ao mar, quem se meter em teu caminho, morrerá. Nade para o fundo, eu irei lhe guiar, ainda temos de pegar a chave.

Entendi.

Assinto, sem saber se ela pode ver esse gesto.