Chloe

Eu estava lendo um livro de título e escrita horrível, mas aquilo era uma das únicas coisas que podiam me distrair naquela mansão. Odiava tudo isso. Odiava depender de um mafioso como Christian. A verdade: Eu amava ele. E talvez eu seja mais uma idiota que achava que ele colocaria uma mulher a frente de seus interesses. Minha mãe havia me vendido para ele há anos atrás. Na época eu tinha apenas quinze anos. Não escolhi ter essa vida, mas quando tudo havia sido tirado de mim, aquilo era o que restava. Todas as outras putas da casa estavam com algum segurança. Christian proibia todos os outros até mesmo de me encarar por tanto tempo. Eu era de sua total e exclusiva propriedade. Também jamais se dera ao trabalho de ficar com as outras, eu era única. Respiro fundo jogando o livro longe e me levantando. Ele e seus homens haviam saído há horas e a agonia estava estampado em meu rosto. Caminho até as grandes janelas alguns metros à frente e observo a paisagem do lado de fora desejando que ele estivesse em meu campo de visão. Então um homem aparece correndo e entrando na mansão entre arfadas. Benjamim, um dos melhores amigos de Christian, aparece descendo às escadas até o homem. Algumas palavras rápidas e eles iam em direção ao escritório. Aquilo era agonizante. Queria poder gritar e perguntar o que estava acontecendo. Mas era mais do que óbvio que eu não tinha o direito de sequer conversar com um deles. Não passava de um objeto. Finalmente decido ir para meu quarto, tomar um banho relaxante, as garotas aparecem por lá algumas horas depois conversando aleatoriamente.

— Chloe, está sabendo das novidades? – Pergunta uma das garotas com deboche e todos os olhos se viram em minha direção.

— Quem me dera. – Sou sincera ao responder me sentando na cama e penteando meus cabelos após colocar uma roupa confortável.

— Christian está morto. E seu filho, Anthony, está a caminho e se preparando para assumir o lugar de seu pai. Sua esposa, Blair, com certeza não irá nos aceitar aqui então se eu fosse você, arrumaria as malas assim como nós. – Murmura outra garota suspirando e voltando a colocar algumas peças de roupa em sua mala.

Tive a sorte de estar sentada, pois provavelmente estaria caindo em um lugar tão fundo que a chance de voltar a ver a luz seria completamente improvável. As garotas me encaravam, todas esperando qualquer reação e eu saio dali, correndo em desespero até o jardim da mansão, me jogando naquela imensidão verde e mergulhando em lágrimas.

Christian. Morto.

Nunca pensei que essas duas palavras estariam em uma mesma sentença. Nunca pensei que viveria tempo suficiente para dizê-las. O que seria da minha vida agora? Eu era completamente dependente dele. E agora ele simplesmente se foi. Talvez eu vá para algum bordel ou sei lá... Nada disso parecia importante. Eu queria detalhes. Eu queria saber o que estava acontecendo. Como ele morreu. Como tudo aconteceu. Vejo Benjamim se aproximar e se sentar ao meu lado, seus olhos me observando com cuidado.

— Você era importante para ele. – Balbucia sem me encarar e eu engulo em seco. – Provavelmente Anthony te ajude com alguma coisa.

— Ah claro... Porque ajudar a puta do pai dele é uma de suas maiores prioridades. Acredite, eu estou completamente sozinha agora. – Digo encarando as plantas alguns metros à frente.

— Christian morreu durante o tiroteio... Tentando ajudar um de seus homens. – Ele sorri fraco.

— E eu achando que se existia imortalidade, Christian era a prova disso. – Ironizo dando uma risada. – Está tudo bem. Vai ficar uma hora ou outra. A vida não pode ser uma droga para sempre. – Dou de ombros.

***

— Por Deus Anthony, eu não agüento mais esse lugar. Ficar trancada nessa mansão é simplesmente um inferno. O que tem de tão importante aqui? – Pergunta Blair aos gritos.

— Eu perdi meu pai! Tenho coisas demais para organizar além das contas bancárias e roubalheira dele.

— Podemos resolver isso lá... Podemos...

— Se não está satisfeita, vá embora então. – Grita Anthony a interrompendo.

Fazia um mês que Benjamim conseguira convencê-lo para que eu ficasse alguns dias até “me encontrar”. Agradeço eternamente por isso, mas a verdade é que não havia encontrado outra solução além do bordel. Anthony e Blair brigavam há dois dias. Qualquer palavra era motivo para alguma discussão e aquilo já estava dando nos nervos. Respiro fundo, me virando mais uma vez na cama. A briga havia cessado já faz algumas horas e ela realmente parecia ter seguido o conselho do marido e ido embora. Ouço o barulho da porta sendo aberta e alguém se aproximando da cama. Dou um pulo ao dar de cara com Anthony ali.

— Shh... Sou eu. – Sussurra ele se sentando na cama, perigosamente próximo de mim. Sua mão acaricia minha coxa enquanto outra vai em direção da minha nuca. O bafo de bebida comprovava que ele não estava lúcido.

— Você não quer fazer isso. – Digo baixinho respirando com dificuldade enquanto nossos lábios estavam há poucos centímetros de distância.

—Ainda é a puta da casa Chloe...

— Sim, não que eu esteja reclamando. Nem tenho esse direito, é só que... Não está pensando direito. Irá se arrepender disso Anthony. – Murmuro e ele sorri.

— Isso já não é da sua conta.

Então seus lábios capturam os meus com facilidade e ele me faz deitar sobre a cama. Minhas mãos acariciam seus cabelos macios. Parte de mim fazia questão de imaginar Christian ali, me tocando. Era ele que eu amava então isso ajudava e muito para que a situação se tornasse pelo menos agradável. Deixo claro que jamais me senti orgulhosa disso. Do que eu fiz. Como eu imaginei: Anthony se arrependeu. Procurei por um bordel barato e entrei sem nem pensar duas vezes semanas após descobrir minha gravidez. Encarar Blair todos os dias após a sua volta sabendo que eu havia dormido com seu marido não era a melhor coisa do mundo também.

Charlie, meu patrão, deixara eu criar a criança por um tempo com a condição que eu trabalhasse gratuitamente por uns meses. Na verdade, nunca cobrei dele, afinal, eu tinha um teto, minha filha era saudável e tínhamos acesso a alimento, nada mais era necessário. Hannah se tornara a coisa mais importante da minha vida. Nunca imaginei ser tão feliz de novo. Ela me lembrava dos tempos em que eu me apaixonei por Christian e do quanto eu era feliz ao seu lado apesar de tudo.

O homem estava sentado em minha frente. Seu olhar pesado sobre mim me irritava e eu queria socá-lo por não me dar informações sobre Hannah. Aquela não era a primeira vez que isso acontecia. Só eu sei quantas vezes homens vieram atrás da minha pequena e eu a protegi com unhas e dentes. Eles já devem ter dito tantas coisas a ela. Deve estar tão confusa e eu estou presa nessa droga de bordel amarrada sem poder ajudá-la, sem poder explicar a ela tudo.

— É tão difícil responder uma pergunta? Por acaso você é surdo? – Grito tentando inutilmente me desamarrar.

— Tomaria cuidado com as palavras se eu fosse você. – Aconselha destravando a arma e eu o encaro desafiadoramente.

— Acha que eu tenho medo de morrer? Estaria me fazendo um favor... Agora, onde está a minha filha? – Pergunto mais uma vez e o homem se levanta retirando um punhal de seu bolso largo e se aproximando. Engulo em seco.

— Já chega. – Sinto o metal gélido perfurar minha pele e uma pontada de dor se alastrar por meu corpo. Praguejo me jogando no chão. – Eu mandei tomar cuidado com as palavras. Da próxima vez, esse punhal estará na sua filha.

— Jamais a matariam. Ela é importante demais para vocês... Acham que sou idiota? Não são nem malucos de querer comprar briga com Anthony Gavin Brian. – Desafio entre gritos de dor.

— Anthony nem sabe que Hannah existe. E mesmo se soubesse, não sentiria falta. – Retruca e eu decido fechar a boca me sentindo derrotada.

— Callaham. Está aí? Responda. – O barulho do rádio que o homem segurava guinchava e ele segura aproximando o mesmo dos lábios.

— O que é?

— Esvazie o local. Ele sabe Callaham. Ele está aqui. Precisamos ir embora agora. – Grita o homem e então se ouve tiros não muito longe daqui.

— Droga. – Pragueja ele correndo e me deixando completamente sozinha ali. Sentia meu corpo enfraquecer aos poucos e me viro encarando a bomba que o homem tinha armado dentro do bordel se ativar no horário que ele havia colocado. Respiro fundo fechando os olhos.

Era o fim... Mas eu não iria descansar enquanto não soubesse que minha filha estava bem.

— Hannah. – Grito o mais alto que consigo vendo a ferida responder a altura com uma dor lancinante. Estava perdendo muito sangue e sabia que a qualquer momento eu desmaiaria. – Hannah.

Hannah

Meus olhos estão fechados e estou contando números primos a mais tempo do que posso imaginar. Minhas mãos estão formigando em função das cordas apertadas em meus pulsos e eu definitivamente nunca vi esse cômodo no bordel. Era amplo e completamente branco. Desde as portas e o teto até o próprio piso. Ficar ali era uma tortura e cada minuto parecia mais de horas.

Observo a porta e ouço passos, alguns gritos e me pergunto onde minha mãe está. Allan ainda está no chão, desmaiado após levar um belo soco de um dos caras. E eu não tinha idéia do que estava acontecendo, mas meu corpo parecia ter feito questão de se desligar e ficar ali, completamente parado com o rosto apoiado na parede. Um homem entra no cômodo resmungando me fazendo dar um salto e voltar à realidade. Não podendo ficar mais perplexa, Wren aparece logo atrás e eu o encaro pasma.

— Pai, você poderia ao menos pensar de forma sensata agora? – Ele pergunta ao homem que se aproxima de mim segurando meu braço com violência me fazendo levantar.

— Andrew pode ter morrido, mas ele me pagou bem antes disso e nosso acordo foi claro... Não importa o que aconteça, pegue a garota e use-a como isca. Seja útil e me ajude porra. – Grita o grandalhão ao meu lado me chacoalhando enquanto falava. Seus olhos eram azulados como os de Wren, a diferença era seu cabelo loiro.

— O que está acontecendo aqui Wren? – Minha pergunta sai tão baixa que jurava que nenhum dos dois jamais ouviria. Ele me encara, seu velho olhar descaído como se pedisse desculpa me analisava com cuidado em busca de algum machucado, o que deixava tudo ainda mais confuso.

— Você conhece ela? Você conhece a filha do mafioso? E não me disse nada? – Os gritos do homem se intensificam ainda mais quando eu imaginava que seria impossível. Meus ouvidos já doíam.

— Ela é só uma garota do colégio. O mercenário aqui é você, não eu então cuide desses problemas você. – Wren grita também se virando para sair, mas seu pai o para me soltando no chão. Me sentia uma boneca de pano sendo jogada para lá e para cá.

— Se você não está nem aí com meu trabalho, por que veio? Por que, do nada decidiu me ajudar justo hoje? Se está achando que eu vou ficar com pena ou ter misericórdia só porque ela é sua namoradinha ou alguém que está afim...

— Cale a boca, pai. Cale a droga dessa boca. – Ele sussurra e me encara com frieza. – Eu não me importo com ela.

— Não mesmo? Então não se importaria se eu a matasse? – Pergunta o homem desafiadoramente e sinto o cano frio da arma em minha clavícula.

— Vá em frente. – Vejo-o engolir em seco, ainda parado no batente da porta observando o pai com a mesma intensidade.

A arma é destravada e sinto lágrimas escorrerem em minhas bochechas. Sentia todo o meu corpo tremer. Nenhum dos dois ousou mover nem um músculo novamente. Minha cabeça estava uma bagunça. Quem diabos é Andrew? Por que ele iria querer me prejudicar? O que meu pai tem haver com essa história?

Meu pai.

A pergunta que vale um milhão de dólares e que agora não queria calar. Teorias improváveis atormentando minha mente enquanto pai e filho se desafiavam apenas com o olhar. Aquilo já estava irritando. Toda a minha vida estava em jogo na frente deles e suas maiores preocupações eram com quem iria ceder. Então eu ouço uma voz ao longe. O desespero estampado em cada palavra.

— Mãe. – Minha voz sai como em um sussurro e sem me importar com a arma em meu rosto, me levanto correndo aos trôpegos ouvindo os gritos do homem. Pude ver Wren tentar impedi-lo de passar e nunca pensei que ele iria fazê-lo. Tinha tanto para se pensar, tanto para se perguntar, mas não era hora e muito menos lugar para se conversar.

Eu corria como se minha vida dependesse disso. Entre tropeços e quedas, me levantava e apressava ainda mais o passo, arrombando portas e mais portas ainda ouvindo a voz de minha mãe, que até então era tão confortante, mas agora só me transmitia desespero. Ela podia estar machucada. Ela podia estar bem, mas o cara de agora a pouco não parecia ser nem um pouco receptivo e digo isso por experiência própria.

— Hannah. – Sua voz agora é alta e mais clara e me aproximo da porta que dava para o bordel ouvindo vozes de vários homens gritando por mim. Homens que, gosto de deixar claro, nunca vi em toda a minha vida. Tento abrir a porta e me sinto fraca. Estava emperrada, ou talvez trancada por dentro. – Querida, está tudo bem.

— Não. Não está. Eu vou abrir, eu vou conseguir, eu prometo. – Grito batendo na porta repetidas vezes. Elisa estaria feliz agora, porque eu me sentia um lixo, exatamente como ela queria que eu me sentisse todas as vezes que tentou me deixar para baixo.

— Hannah... Está tudo bem. Oh meu Deus, você deve estar tão confusa. – Diz baixinho e eu me sento no chão, meu corpo encostado na porta desejando mentalmente ter o poder de abri-la com facilidade.

— Isso não importa. – Sussurro.

— Claro que importa meu amor... Eu prometo explicar tudo a você assim que sairmos dessa, está bem? – Avisa e eu assenti, mesmo sabendo que ela não podia me ver.

— Mãe. Por que disseram que sou filha de um mafioso? O que está acontecendo? – Eram tantas perguntas que eu mal conseguia colocá-las em ordem.

— Porque você é filha de um mafioso... – Sua voz desaparece, após um breve sussurro e eu me viro encarando a porta.

— Mãe? Mãe? – Bato na porta e não escuto nada. Aquilo estava me assustando e eu me levanto gritando por seu nome.

O barulho de tiro me faz tropeçar assustada e me apoiar em uma parede no canto. Viro-me dando de cara com o homem que me ameaçava agora a pouco no chão, segurando sua arma destravada. Olho para a sacada das quitinetes no andar de cima e vejo a sombra de um homem. Podia sentir seu olhar pesado sobre mim, mas não podia identificá-lo. Não podia vê-lo, somente o cano de sua arma. Vários homens saem desesperados do local e corro na direção oposta, subindo vários lances de escada até chegar ao lugar onde ele há poucos segundos atrás estava.

Aconteceu rápido. Uma explosão no bordel fez eu entrar na quitinete mais próxima e fechar os olhos com força. Sentia meu corpo fraquejar. Todos os meus ossos serem simplesmente derrubados com um simples sopro enquanto eu saia do local. Fogo. Tudo em volta não passava de chamas. Minha mãe estava lá... Minha mãe estava lá... Ela estava...

Nunca imaginei sentir uma dor tão forte quanto aquela e nunca desejei tanto que aquele homem tivesse realmente atirado em mim. Desço as escadas ouvindo os gritos e as sirenes de ambulâncias, policiais e bombeiros se aproximando. Caos. Puro caos. Meus passos eram lentos enquanto todas corriam em desespero para todos os lados e eu mal me importava se iria sair de lá ou não.

Nada. Mais. Importava.