Não havia mais móveis ali e ainda assim eu vinha todos os dias. Eu nasci aqui. Segundo Chloe foi um momento cômico porque ela ficou muito assustada no começo por ter que dar a luz ali mesmo, em um local tão despreparado. Acho que ninguém fica pensando em como é ter a mãe morta... Isso era algo que me dava arrepios só de passar pela minha cabeça e eu tratava de deixar claro para meu consciente que aquilo demoraria muito ainda.

Eu estava errada.

Cada centímetro daqueles três pequenos cômodos tinha uma história diferente para ser contado. Seja de sorrisos ou meras lágrimas. Gosto de ficar aqui, imaginando ainda todos os móveis e nossa bagunça rotineira. Faz pensar que ela ainda está viva. Minhas mãos estão tampando meus ouvidos e estou encolhida no canto balançando meu corpo feito uma maluca.

Ouvia sussurros...

Risadas.

Por todos os lados.

A explosão no bordel havia me destruído completamente. Uma raiva desconhecida tomou conta de mim ao pensar que aquele homem não havia apertado o gatilho. Não havia atirado em mim após a prepotência do filho Wren. Fazia uma semana desde que tudo aconteceu. Charlie havia montado um bordel improvisado em seu casarão nos fundos enquanto reconstruía seu estabelecimento. Algumas quitinetes também haviam sido atingidas e temos tentado nos amontoar em cômodos de outras prostitutas.

Ninguém ousou ficar com a quitinete em que eu e minha mãe morávamos. Entendiam que eu estava de luto e precisava desse espaço. Precisava ficar aqui. Não sei como ainda me restavam lágrimas. Não tenho comido direito, somente quando Stella surta e quase me obriga a comer. Os alimentos não tem tido o mesmo gosto de antes. Nada tem tido o mesmo gosto de antes.

Os pássaros parecem ter simplesmente parado de cantar. O vento havia parado de dançar entre as folhagens e o tempo parecia ser mais demorado que o costume. Mas eu sabia que isso era só miragem. Tudo isso tem estado em constante movimento. Eu só parei de ver graça neles. Só parei de observar a beleza desses simples detalhes. Meus lábios se moviam pronunciando baixinho a música que Chloe cantava quando eu era pequena e tinha pesadelos ou estava trovejando.

Eu odiava trovões.

Agora era somente eu.

Estava completamente sozinha.

Minha mãe nunca citou algo sobre sua família. Não soube quem eram meus avôs, muito menos se tenho tios, primos... Não tinha nada. Tudo que sei era que eu tinha uma mãe... E agora ela estava morta. Stella tem me ajudado bastante e Charlie tem sido legal em ainda me acolher aqui apesar de eu não estar me prostituindo ou sendo útil para ele.

Isso tem sido incrível porque, para ser honesta... Não tenho idéia do que farei agora. Allan aparece no batente da porta e se senta ao meu lado me puxando para mais perto. Ele não diz nada e eu agradeço por isso eternamente. Odiava esse sentimento todo de tristeza. Odiava toda essa depressão, mas eu perdi minha mãe. E no meio de todo esse processo, meio que acabei me perdendo também.

Drama atrás de drama.

Não queria falar sobre aquilo com ninguém. Queria lidar com aquilo sozinha porque era assim que as coisas seriam a partir agora. Respiro fundo, engolindo o choro e limpando as lágrimas em meu rosto com a palma da minha mão. Tento me recompor enquanto ele beijava o topo da minha cabeça.

— Conseguiu? – Pergunta quase que em um sussurro. Nego com a cabeça e ele suspira pesadamente. Há dois dias tenho procurado um emprego e jogando fora todas as cartas de academias em que fui aceita. Precisava acima de tudo me sustentar e o estudo estava fora que questão agora. Tinha que estar. Tentei procurar algum lugar para trabalhar como garçonete, mas o dono do bar imundo me olhava com tanta intensidade que não consegui nem ficar lá por tanto tempo e desisti.

— Mas ainda há outros empregos naquela lista velha de jornal. Algum daqueles anúncios tem que dar certo. Precisa dar certo. – Balbucio me sentindo uma completa derrota.

— Sabe que não precisa pensar nisso agora...

— Estaria abusando demais da hospitalidade de seu pai e da bondade de Stella se não estivesse procurando um jeito de me virar sozinha. – Interrompo-o rapidamente ao ver que ele iria mais uma vez dizer seu velho discurso de que eles não se importavam. Noto que Allan estava observando os vários papéis espalhados pelo piso amadeirado da quitinete e eu esboço um meio sorriso.

— Por que esse desenho está sem acabamento? – Questiona ao notar um dos meus últimos desenhos e eu mostro minhas mãos completamente sujas de grafite.

— Não tenho mais nada para finalizá-lo. – Respondo também encarando meus desenhos. Eu amava desenhar. Minha mãe diz que não sabe de quem eu puxei esse talento porque ela é péssima nisso, mas fica claro que nosso conhecimento de árvore genealógica não é muito aprimorado para saber quem compartilhou tal paixão comigo.

— Eles costumam ser tão vivos e significativos. Você exagerou bastante no grafite para deixá-los assim... Escuros. – Comenta tentando não criticar o quão sombrio eles estavam. Dou de ombros.

— É tudo que eu tenho conseguido desenhar nessa última semana. Isso é uma droga. – Digo tentando juntá-los, mas acabo jogando-os no chão com força de novo. – Odeio esse sentimento todo. Odeio sentir essa dor. Essa falta. Deus, como eu sinto falta.

— Não podia ser diferente Hannah... Você só está sofrendo. Todo mundo passa por isso, um dia ou outro. – Murmura pegando os desenhos para mim e guardando na minha bolsa velha que estava jogada em um canto qualquer do meu antigo quarto.

— Eu não sou todo mundo. – Allan me encara revirando os olhos e eu bufo. – Isso faz eu me sentir fraca e eu detesto isso.

— Isso mostra que você é humana. Vai superar isso. – Me incentiva com um sorriso no rosto.

Levanto-me pegando minha bolsa e encarando o cômodo mais uma vez. Era uma luta sair dali, esquecer tudo. Suspiro enquanto Allan segura minha mão e me guia para fora da quitinete e damos de cara com Stella e Charlie conversando algo que parecia ser sério. Eles rapidamente se calam ao notar nossa presença e eu me aproximo arqueando as sobrancelhas.

— Está tudo bem? – Pergunto baixinho e a Stella enxuga algumas lágrimas que caiam de seu rosto.

— Encontramos sua avó Hannah. – Charlie é direto como sempre. Meus olhos se arregalam em espanto.

— Espera... Hannah tem uma avó? – Foi à vez de Allan fazer a pergunta que martelava minha cabeça.

— Sim, Chloe só não mantinha contato depois do que ela fez. — Responde Stella. Seu olhar castanho não mostrava a sua animação rotineira. Parecia ter chorado bastante e parte de mim acreditava que o motivo não era a morte de minha mãe.

— Ela vai ficar com minha guarda até eu fizer dezoito? – Mordo o lábio inferior. Todo o meu futuro estava nas mãos daquela pergunta e Stella começa a chorar freneticamente de novo. Encaro Allan que fica tenso ao meu lado e noto que só eu não estava entendendo nada.

— Pai. – Grita ele ao ver Charlie se afastar. – Por favor, não faça isso. Eu nunca vou te perdoar se o fizer.

— Sinto muito filho, acho melhor deixar Stella e Hannah a sós. – Sussurra puxando Allan que se afasta de seu toque.

— Não. Isso é desumano. Eu não vou deixar que faça ela...

— Allan. Para casa... Agora. – Grita interrompendo-o. Toda essa conversa me deixava mais confusa ainda.

— Querida, acho melhor entrarmos. – Sussurra ela me puxando e encaro Allan que tenta me impedir de sair.

O que estava acontecendo com ele? Stella me guia até sua quitinete que não era muito longe dali. Carl estava no canto, assistindo a um desenho animado na televisão. Seus olhos eram negros e ele tinha um sorriso encantador. Fazia dois anos que eu cuidava do pequeno e adorava aquela criança. Seus cabelos também eram negros e anelados. O nariz fino e arrebitado e covinhas fofas nas bochechas. Sua pele era branca, quase transparente. Corro até ele lhe dando um abraço apertado e sentindo sua mãozinha acariciando meus fios ruivos.

— Hannah! – Pula animado em meu colo dando risadas. – Está perdendo o melhor episódio de Bob Esponja.

— Oh! Não tenho dúvidas disso... – Respondo beijando suas bochechas. Eu amava crianças e Carl era uma das mais amáveis que já conheci.

— Pensei que estivesse brava comigo... – Sussurra afundando o rosto no espaço entre meu pescoço e ombros e eu arqueio a sobrancelha.

— Por que eu estaria brava com você?

— Não sei. Você não assiste mais desenhos comigo ou me leva no parquinho. – Ele faz um biquinho fofo e eu suspiro pesadamente. Era de partir o coração saber que ele notava o quanto eu estava me afastando de tudo e todos nos últimos dias.

— Prometo te recompensar por isso. – Digo animada lhe fazendo cócegas e arrancando várias risadas suas. Aquilo definitivamente era música para meus ouvidos.

A quitinete de Stella não era muito diferente da minha. Um pequeno sofá de couro marrom no canto e uma televisão velha em cima de uma mesinha improvisada na frente. Uma pequena cozinha logo à frente e uma porta que dava para o único quarto e que também dava em um pequeno banheiro mofado. Para todas nós aquilo já era bastante. Vejo-a pigarrear chamando a atenção de nós dois. Seu rosto ainda estava inchado em função do choro recente. Carl pula nos braços da mãe que sorri educadamente.

— Por que não vai brincar lá fora um pouco filho? Eu e Hannah precisamos conversar. – Murmura ela e o pequeno desce de seu colo correndo aos trôpegos para o lado de fora a fim de obedecer sua mãe. Respiro fundo ao vê-la trancar a porta e se sentar ao meu lado.

— Tudo bem, acho que agora é a hora de saber o que está acontecendo... Estão me assustando. – Sou sincera e ela acaricia meus cabelos.

— Você é definitivamente a cópia fiel de sua mãe. Ela apareceu aqui uma noite assustada e estava grávida de você. Nos tornamos grandes amigas de cara. Nunca tive uma amiga tão incrível quanto ela. – Balbucia já chorando e um vinco se forma em minha testa.

— Por que está me dizendo isso? – Pergunto baixinho e ela me encara soluçando alto.

— Porque eu espero que me perdoe Hannah. Sei que sua mãe jamais me perdoaria, mas eu espero que você o faça. – Responde me dando um abraço apertado. Me afasto dela a encarando.

— Seja mais direta, por favor. – Sussurro e ela se levanta.

— Sua avó apareceu e com muito dinheiro e vários contratos, ela deu a guarda para Charlie. Mas ela deu a guarda com o mesmo propósito que deu a guarda de sua mãe para um cafetão qualquer: Venda ilegal. – Diz baixinho e eu me levanto.

— Não. – Grito. – Você quer dizer que...? Oh meu Deus, Stella. Você não pode deixar que ele faça isso! Você não pode... Você não... — Corro até a porta para abri-la e a chave da mesma não estava na fechadura. Encaro Stella perplexa e noto que ela segurava uma arma. Engulo em seco.

— Eu sinto muito Hannah. Mas isso vai ajudar muito na reforma do bordel e Charlie me ofereceu uma boa porcentagem da quantia que receber com sua venda e com certeza será de grande ajuda para meu Carl. Tenho certeza que sua mãe faria o mesmo pelo seu bem...

— Não. – Grito. – Stella, minha mãe jamais faria isso. Você era a melhor amiga dela. Por Deus...

— Preciso avaliá-la e tratar de você antes que as vendas comecem. Já está quase anoitecendo, é melhor nos apressarmos. – Murmura enxugando as lágrimas e destravando o gatilho.

— Stella...

— Para o quarto, agora. – Sua voz é áspera e o cano da arma mirava meu rosto. Não sabia o que pensar ou até mesmo o que dizer, então simplesmente caminhei em direção ao único cômodo do quarto. Fui obrigada a deixar que ela rasgasse minhas peças de roupa e me avaliasse de perto. Todo o meu corpo tremia de nojo ao sentir seus toques ousados e vê-la anotando tudo aquilo em um caderno barato.

Estou agora sentada em sua cama, completamente nua agarrada ao meu próprio corpo após sofrer todo o tipo de humilhação possível. Parecia impossível que meus olhos armazenassem ainda mais lágrimas, mas eu chorava. Me sentia um pequeno grão de areia no meio de uma praia lotada. Estava com raiva. Está aí uma sensação que eu odiava. Pela pequena janela do quarto, era notável que já havia anoitecido. O céu escuro iluminado apenas pelas estrelas.

Queria poder gritar, ter a coragem de pular aquela janela e andar sem rumo pelas ruas em busca de alguém com a alma boa o suficiente que pudesse me ajudar. Mas quando se está perto de um local como o bordel, andando nua por aí... Tudo que se pode esperar era um estupro. E se era isso que eu conseguiria ao fugir, não faria diferença afinal, serei vendida para algum homem grotesco que me usará como um simples objeto, podendo jogar fora ou usar de novo quando bem entender. Allan não apareceu e parte de mim sabe que Charlie deve ter prendido ele em algum cômodo ou convencido ele de que aquilo era o melhor. A última opção era definitivamente descartada. Eu sabia que ele não descansaria enquanto não convencesse Charlie do contrário. Ouço o barulho da porta ser destrancada e aberta e não me dou ao trabalho de ver que é Stella.

— Vista. O evento já começou e você será a última a ser leiloada. Está quase na hora. – Sussurra jogando uma lingerie em mim junto com uma larga jaqueta de lã branca. A lingerie era preta e tinha algumas estampas de cores fortes como o laranja, verde e branco. Me levanto vestindo a mesma rapidamente. – Hannah... Sabe que eu não estou fazendo isso...

— Não me importa mais. – Vocifero a encarando com o olhar repleto do mais puro rancor. – Eu e minha mãe jamais faríamos isso com você ou Carl. Ela tem sorte de estar morta para não presenciar o quanto a melhor amiga é uma traidora idiota que só pensa em dinheiro.

Vejo Stella levantar a mão para me dar um belo tapa na cara e seguro seu pulso com força. Não podia estar mais perplexa. Solto-a me afastando.

— Nunca mais diga que sua mãe é sortuda por estar morta.

— E por acaso eu estou errada em pensar dessa forma? Maldita hora que fugi quando aquele homem estava prestes a me matar. – Grito me sentando na cama e respirando fundo repetidas vezes. – Já não basta eu ter que agüentar todo esse mistério que ronda minha árvore genealógica, sou obrigada a ver que a melhor amiga da minha mãe é uma grande vadia e está me colocando a venda para um bando de velhos desesperados por sexo.

— Quando tiver filhos, entenderá meus atos, querida. – Murmura fungando e eu nego com a cabeça.

— Você acaba de minar qualquer chance que eu tinha de um futuro, no mínimo, feliz. – Digo querendo mais uma vez, chorar e chorar.

Stella pigarreia também tentando esconder tal vontade e encara o relógio suspirando pesadamente.

— Acho melhor irmos. Está na sua hora. – Sua voz sai entrecortada e parte de mim via alguma chance de ainda convencê-la, mas aquela era uma batalha perdida. Estava na hora de recolher as armas e se preparar para uma nova luta.

Saímos da quitinete rumo ao casarão de Charlie que ficava um pouco mais no fundo. A entrada de sua casa dava no outro lado da rua e era por onde todos os homens entravam. O salão estava realmente lotado e aquilo era notável mesmo que eu tenha passado pelo canto mais escuro para que ainda não me vissem. Alguns já estavam bêbados e ofereciam quantias absurdas que, provavelmente não tinham.

A minoria, sóbria, estava nos telefones e retiravam de seus bolsos cheques ou objetos valiosos que pudessem cobrir o preço. Era uma verdadeira guerra de valores. Observo então o palco e não consigo acreditar que posso ficar ainda mais horrorizada com tudo o que estava acontecendo.

Todas as mulheres que perderam suas quitinetes também estão sendo vendidas e nenhum homem parece se importar com seus choros agudos ou seus pedidos de socorro. Nenhum deles ajudaria. Me arrepio enquanto sou guiada até o canto do palco e a penúltima “venda” subia também aos prantos. Vejo Allan se aproximar e corro para seus braços sem me importar com os protestos de Stella. Seu abraço me passava tamanha segurança mesmo sabendo que ele não podia fazer nada.

— Escute... Passei a tarde pesquisando algo que pudesse te tirar dessa e finalmente eu encontrei. – Meus olhos o analisam, ansiosos, a espera de uma notícia boa no meio de todo aquele caos. – Emancipação.

— Por um momento pensei que tivesse uma boa idéia. – Falo e minhas bochechas queimam ao ver seu olhar pesado passeando pelo meu corpo.

— Olhe só você Hannah. É a única maneira de não precisar passar por isso. – Incentiva ele e eu reviro os olhos.

— Allan, para a emancipação, eu precisaria de pelo menos um advogado. Mal tenho dinheiro para comprar pão! – Faço um esforço surreal para não gritar com ele. Não era sua culpa o que eu estava passando.

— Mas, Hannah...

— Ei... Está na hora. – Stella chama minha atenção quase me arrastando até o palco e eu encaro Allan quase que gritando silenciosamente por socorro.

Não ousei chorar. Em nenhum momento ousei derramar uma única lágrima. A felicidade no rosto de Charlie só alimentava ainda mais meu ódio e eu não lhe daria a chance de me ver fraquejar. Meus passos são lentos, mas rapidamente chego ao centro do palco e com uma vontade imensa de liberar as lágrimas, me viro para o público de homens. Vejo de esguelha Stella segurando a arma e respiro fundo. Retiro a jaqueta de lã e sinto-a cair no chão. Uma única lingerie cobria meu corpo agora e se ouvia os gritos e frases maliciosas de todos ali. Charlie se aproxima soltando uma risadinha.

— E por último, mas a mais importante... Temos essa bela ruiva aqui ao meu lado. Aposto que já sabem quem é a mãe dessa beldade graças à impressionante semelhança que ambas possuem. A melhor prostituta que já existiu nesse bordel, Chloe Thierry, partiu dessa para outra, mas seu legado continua com sua filha Hannah Thierry. – Sinto vontade de estapeá-lo depois de suas palavras, os homens vão à loucura já levantando várias notas e a vontade de chorar aumenta ainda mais. — Ela tem dezessete anos e é virgem... Então não aceito uma oferta menor que um milhão de dólares.

Meus olhos se arregalam. Quero correr dali, mas já havia entendido bem o recado de Stella.

— Dois milhões daquele gentil senhor... Alguém dá mais? Qual é pessoal, acho que todos aqui já passaram uma noite com Chloe, imaginem o que a filha dela pode fazer também! – Grita Charlie e observo o homem que havia oferecido tal quantia. Ele era bem velho, os cabelos grisalhos e um olhar cruel no rosto. Provavelmente, fazia o tipo violento.

— Quatro milhões. – Ouço a voz de Allan e o encaro perplexa.

— Quem me dera se tivesse essa quantia, querido filho. – Zomba Charlie arrancando risos do “público”.

— Seis milhões de dólares. – Berra um garoto ao fundo e estremeço ao notar que era um dos estudantes do colégio em que eu estudava. O mesmo que iniciou toda a humilhação no baile. Seu olhar parecia ser o mais malicioso de todos ali. Preciso de um buraco onde eu possa enterrar minha cabeça e só sair de lá quando tudo isso tiver acabado.

— Seis milhões? Alguém terá a coragem de dar mais? – Questiona Charlie e então um homem ao fundo se levanta segurando um telefone.

— Estou com meu chefe no celular e ele promete dar uma quantia dobrada de qualquer valor que impuserem sobre a garota e ainda paga toda a reforma do bordel. – Vocifera e Charlie deixa o microfone cair, pegando-o rapidamente e coçando os olhos. Parecia não acreditar que alguém daria tanto por uma qualquer como eu. A verdade é que nem eu acreditava.

— E qual seria o nome de seu chefe, jovem? – Pergunta tentando inutilmente esconder a animação e surpresa.

— Logan Porter. – Grita o homem em resposta e Charlie pigarreia.

— Nossa última garota, Hannah Thierry, é vendida pelo preço de... – Ele parece pensar em uma quantia para si e então sorri. – Cem milhões de dólares para Logan Porter. Obrigado a todos que participaram de nosso leilão e não deixem de ir embora sem antes apreciar a noite com uma de nossas garotas. – Diz Charlie e o homem desaparece na multidão enquanto sou conduzida para fora do palco.

Nunca parei para me perguntar quanto eu valia. Mas agora eu sabia.

Cem milhões de dólares.