Notas iniciais
Notas Iniciais da Autora ✨📖 Queridos leitores, Bem-vindos ao primeiro capítulo da jornada de Morgana Selene Blackwood. Este é o último verão antes de Hogwarts, o momento em que tudo está prestes a mudar. Aqui, conhecemos as raízes que a sustentam — a família, a mansão, os pequenos rituais que a mantêm ancorada. É um capítulo sobre despedidas silenciosas e começos que ainda não sabemos que estão chegando. Espero que vocês sintam o calor do café, o cheiro das páginas antigas e a presença acolhedora da Mansão Blackwood. Boa leitura! 🌙☕ Música Tema do Capítulo: "Keep Holding On" — Avril Lavigne (2006)






CAPITULO 1 Entre Luar e Raízes



A mansão Blackwood despertava lentamente, como um gigante de pedra que se esticava após uma longa noite. Os primeiros raios de sol de maio penetravam pelas janelas em arco da ala leste, pintando os corredores de ouro e âmbar, e os retratos dos antepassados começavam a se movimentar em suas molduras, bocejando e ajustando as vestes com a dignidade de quem tinha séculos de existência para sustentar.

No terceiro andar, a porta de carvalho escuro com letras prateadas que diziam Morgana Selene Blackwood se abriu silenciosamente, e uma figura pequena e graciosa deslizou para fora do quarto. A gata Nimbus a seguia como uma sombra de pelúcia, seus olhos verdes brilhando na penumbra do corredor.

A menina que saiu do quarto tinha onze anos, e seus olhos azuis profundos refletiam a luz da manhã com uma curiosidade tranquila. Seus longos cabelos castanhos escuros de ondas naturais estavam soltos, caindo sobre os ombros como uma cascata de chocolate, e ela usava um roupão de seda cor de marfim que sua mãe lhe dera no último Natal. Os pés descalços mal faziam barulho contra os tapetes persas que cobriam os corredores.

Ela amava aquela hora do dia. O silêncio antes do despertar da mansão era o único momento em que sua mente parecia cooperar, em vez de conspirar contra ela. A ansiedade que geralmente se instalava em seu peito como um visitante indesejado ainda dormia, e ela podia apenas... existir.

Nimbus miou baixinho, e a garota se abaixou para acariciar a cabeça da gata.

— Eu sei que ainda é cedo, sua preguiçosa. Mas eu preciso correr hoje.

A gata a encarou com seus olhos esmeralda, como se dissesse "você é louca", e então se virou com dignidade, voltando para o quarto e pulando na cama ainda quente.

Ela riu baixinho e desceu as escadas, seus dedos deslizando pelo corrimão de mogno polido. Cada degrau rangia sob seu peso — ela conhecia cada um daqueles rangidos como as notas de uma melodia familiar. O primeiro degrau do segundo andar sempre chiava um pouco mais alto; era onde, quando criança, costumava sentar-se para ouvir os adultos conversarem na sala de estar, escondida na penumbra, absorvendo suas palavras como uma esponja.

Chegando ao térreo, o aroma familiar de café preto e pão fresco a envolveu como um abraço.

Misty já estava na cozinha.

A elfa doméstica mais antiga da mansão movia-se com a graça silenciosa de uma bailarina, suas orelhas longas e caídas balançando suavemente enquanto preparava o café da manhã. Seus olhos de âmbar capturaram a luz da janela, e um sorriso enrugado se espalhou por seu rosto pequeno quando viu a menina na porta.

— A senhorita Morgana está acordada cedo hoje — observou Misty, e sua voz era como o farfalhar de páginas antigas. — Misty já preparou o café. O senhor Magnus toma café preto sem açúcar, como sempre, e a senhora Ravenna prefere chá de camomila, mas Misty sabe que a senhorita Morgana gosta de café puro, forte, bem quente.

Ela sentou-se em uma das banquetas de madeira que ladeavam a ilha central de granito. A cozinha da mansão era seu cômodo favorito — não tanto quanto a biblioteca, talvez, mas ocupava um lugar especial em seu coração. Era onde a magia doméstica se encontrava com a magia da família, onde as receitas eram passadas de geração em geração, onde as conversas mais importantes sempre pareciam acontecer em volta de uma mesa.

— Obrigada, Misty. — Pegou a xícara que a elfa lhe ofereceu, sentindo o calor da cerâmica contra as palmas das mãos. O café era escuro como carvão, e o aroma amargo e encorpado subiu em espirais de vapor, enchendo seus sentidos. Ela levou a xícara aos lábios, tomando um gole lento, sentindo a bebida quente descer pela garganta, afastando os vestígios de sono que ainda teimavam em permanecer. O amargor do café puro era reconfortante, uma constante em sua vida, algo que não pedia nada em troca a não ser que ela estivesse presente para apreciá-lo. — Perfeito.

Misty inclinou a cabeça, um brilho de satisfação em seus olhos âmbar.

— Misty sabe como a senhorita gosta. Café preto, sem açúcar, sem leite, sem frescuras. — A elfa sorriu, revelando um pequeno dente torto que Morgana sempre achara adorável. — A senhorita é uma Blackwood de verdade. Não precisa de açúcar para adoçar a vida.

— Ou para adoçar o café — acrescentou a menina, e Misty riu baixinho.

Enquanto bebia seu café, seus pensamentos vaguearam. Era maio de 1991. Faltavam apenas alguns meses para sua primeira carta de Hogwarts chegar, e a antecipação era uma presença constante em sua mente, um zumbido elétrico que nunca se apagava completamente.

Imaginava como seria. Hogwarts. O castelo que seu pai descrevia com olhos brilhantes, que seu tio Elijah pintava em palavras tão vívidas que ela quase conseguia ver os corredores em movimento, os retratos que conversavam, o teto encantado do Salão Principal.

— A senhorita está pensando em Hogwarts de novo.

Não era uma pergunta. Misty simplesmente sabia.

— Como você sempre sabe? — perguntou a menina, um sorriso curioso nos lábios.

— Os olhos da senhorita ficam distantes. — Misty colocou uma tigela com morangos e amoras na frente dela, as frutas vermelhas brilhando como rubis e safiras na luz da manhã. — E a senhorita mexe a xícara sem beber.

Ela olhou para sua mão e viu que estava, de fato, girando a xícara em movimentos circulares, o café formando pequenos redemoinhos na superfície escura.

— É o meu futuro — disse ela, e a palavra parecia enorme, pesada demais para caber em sua boca. Sabia que iria para Hogwarts, mas uma dúvida persistente a incomodava: e se a realidade não correspondesse às expectativas? E se ela não fosse boa o suficiente?

Misty parou o que estava fazendo. A elfa se virou, seus olhos âmbar encontrando os azuis da menina, e pela primeira vez naquela manhã, seu sorriso se apagou, substituído por uma expressão de gravidade suave.

— A senhorita Morgana precisa ouvir uma coisa, e Misty vai dizer só uma vez, então a senhorita vai guardar no coração. — Ela se aproximou, sua mão pequena e enrugada pousando sobre a da menina. — A senhorita é uma Blackwood. Mas mais do que isso, a senhorita é Morgana. Não o nome, não a família, não o que as pessoas esperam. A senhorita é a menina que senta na janela para ver as estrelas. A menina que chora pelos personagens dos livros. A menina que dá nome a todas as plantas do jardim. Essa menina é mais do que boa o suficiente. Ela é extraordinária.

As palavras de Misty pairavam no ar como fumaça de incenso, e uma lágrima quente escorreu pelo rosto da menina. Não sabia se era tristeza ou alívio — provavelmente uma mistura confusa das duas.

— Obrigada, Misty.

A elfa assentiu, e então, como se aquele momento de profunda conexão nunca tivesse acontecido, voltou a se mover pela cozinha, cantarolando baixinho uma daquelas melodias antigas que ninguém mais parecia conhecer.

Ela pegou um morango da tigela, mordendo-o lentamente. O sabor doce e levemente ácido explodiu em sua língua, e ela permitiu-se saborear cada mordida. Morangos e amoras eram as únicas frutas que realmente gostava — o resto, deixava no prato, ou empurrava para o lado sem tocar. Misty sabia disso também, assim como sabia de tudo o mais sobre ela. A elfa nunca servia nada que a menina não fosse comer.

Terminou o café e guardou a xícara. Era hora de correr.

— Vou para o jardim, Misty. Volto em uma hora.

— A senhorita vai se cansar — observou a elfa, mas havia um sorriso em seus lábios. — Misty vai preparar um café quentinho para quando a senhorita voltar.

— Obrigada.

Ela subiu para seu quarto e trocou o roupão por roupas de corrida — um par de leggings pretas, uma camiseta azul-clara e os tênis confortáveis que seu pai lhe dera no aniversário. Prendeu os cabelos em um rabo de cavalo com uma fita azul-marinho e desceu as escadas novamente, passando pela cozinha em direção à porta dos fundos.

O jardim da mansão se estendia diante dela como um mar verde e florido. Os canteiros de rosas, cuidados por Misty, exalavam um perfume doce e delicado. As árvores antigas que cercavam a propriedade balançavam suavemente com a brisa da manhã, suas folhas sussurrando segredos que apenas o vento conhecia.

Começou a correr.

Seus passos eram ritmados, firmes contra o chão de terra batida que contornava o jardim. Ela amava correr. Era a única coisa que realmente conseguia silenciar sua mente, que conseguia afastar os pensamentos ansiosos e substituí-los por algo mais simples: a sensação do ar entrando e saindo dos pulmões, o ritmo constante do coração, a paisagem se movendo ao seu redor.

Correu pelo caminho que contornava o lago, passando pelos canteiros de flores que a mãe cultivava com tanto carinho, e entrou na trilha que levava à floresta. As árvores se fechavam ao seu redor, criando uma sombra fresca e agradável. O cheiro de terra úmida e folhas verdes invadia seus sentidos, e a tensão começou a se dissipar de seus ombros.

A cada passo, a ansiedade recuava um pouco mais. A cada respiração profunda, o nó em seu peito se desfazia.

Correu por cerca de quarenta minutos, até sentir os músculos aquecidos e a mente limpa. Quando finalmente parou, ofegante mas satisfeita, sentou-se em uma pedra à beira do lago, observando os peixes dourados se moverem nas águas calmas. O sol da manhã já estava mais alto, banhando tudo em uma luz dourada e suave.

Nimbus apareceu de repente, surgindo entre os arbustos como se tivesse a seguido silenciosamente durante toda a corrida. A gata se enroscou em seus pés, ronronando.

— Você é uma perseguidora, sabia? — Ela riu, pegando a gata no colo. — Sempre aparece quando eu menos espero.

Nimbus miou, como se concordasse.

Ficou ali por mais alguns minutos, sentindo o calor do sol em seu rosto, a brisa suave em seus cabelos, o ronronar tranquilo de Nimbus em seu colo. Era um momento de paz perfeito.

Mas a fome começou a apertar. E ela sabia que a família estaria a caminho da mesa do café da manhã em breve.

— Vamos, Nimbus. Hora de voltar.

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O café da manhã já estava servido quando Morgana entrou na cozinha. O aroma de panquecas, ovos mexidos e pão fresco encheu seus sentidos, e o estômago roncou.

— Aí está a corredora! — exclamou Drake, já sentado à mesa com uma pilha de panquecas à sua frente. Seus cabelos pretos estavam desgrenhados, caíam sobre a testa em mechas rebeldes como sempre. O garoto de treze anos tinha os olhos castanhos que herdara da mãe, mas a energia e os traços lembravam o pai — embora muito mais bagunceiro. — Achei que você ia correr até Hogwarts.

— Não tive tempo. — Ela sentou-se ao lado dele, pegando a xícara de café que Misty já havia preparado. — Mas quase cheguei na floresta dos fundos.

— Você corre muito — observou Maeve, seus olhos azuis arregalados. A menina tinha os mesmos cabelos castanhos escuros e ondulados da irmã, embora os seus fossem uma explosão de cachos desobedientes. — Não cansa?

— Cansa. Mas é bom.

A menina de sete anos não entendeu completamente, mas deu de ombros e voltou a se concentrar em seu prato de panquecas com calda de framboesa.

Ravenna entrou na cozinha naquele momento, seus longos cabelos castanhos com reflexos acobreados soltos sobre os ombros, caindo em ondas suaves que lembravam as da filha. Vestia um vestido verde-musgo de gola alta, e seus olhos verdes translúcidos brilhavam com a luz da manhã.

— Bom dia, minha corredora. — Ela beijou a testa de Morgana antes de se sentar. — Dormiu bem depois do pesadelo?

— Melhor. A corrida ajudou.

— Que bom. — Ravenna serviu-se de chá de camomila. — Hoje temos um dia cheio. A tia Freya vai vir para o almoço, e seu pai vai trabalhar em casa.

Magnus entrou na cozinha naquele momento, e Morgana notou que ele não estava usando a túnica de trabalho cinza. Em vez disso, vestia uma camisa de linho azul-clara, aberta no colarinho, com as mangas dobradas até os cotovelos, revelando antebraços fortes e musculosos. Calças de algodão bege completavam o visual mais descontraído. Seus cabelos — e ela reparou nisso com uma pontada de reconhecimento — eram tão escuros quanto os dela e de Drake, castanhos profundos que brilhavam com reflexos acobreados sob a luz da manhã. Ondas naturais caíam sobre a testa, e ele as passava para trás com um gesto distraído, exatamente como Morgana fazia quando estava pensativa.

— Boa notícia: o Ministério me deu o dia de folga. Então estou todo seu, família.

— Você vai brincar com a gente? — perguntou Maeve, seus olhos brilhando.

— Vou brincar, sim. E também vou ajudar Misty com o almoço.

— O senhor Magnus não precisa ajudar Misty — protestou a elfa, mas seu sorriso mostrava que ela não estava realmente ofendida.

— Quero ajudar. — Magnus foi até a ilha central, pegando uma xícara de café. — Vou fazer meu famoso macarrão.

— Seu famoso macarrão é uma catástrofe — disse Drake, e Morgana riu.

— É uma catástrofe deliciosa — corrigiu o pai. — E vocês vão adorar.

Ela observou o pai com um sorriso. Era bom vê-lo assim — relaxado, despreocupado, com os cabelos desalinhados e a camisa desabotoada.

— Você está parecendo o Drake — comentou.

— Drake é parecido comigo, Morgana. É genética.

— Você está mais bagunçado que ele hoje.

— Estou de folga, minha querida. Tenho o direito de ser bagunçado.

Drake riu, atirando uma panqueca na direção do pai, que a pegou com uma agilidade impressionante e a mordeu com satisfação.

— Vejam só, a panqueca voadora — brincou Magnus. — Melhor que a maioria dos feitiços que eu vejo por aí.

— Você não está treinando hoje? — perguntou Morgana, e Drake fez uma careta.

— Treino o quê, Morgs? Não tem Quadribol aqui. Não tem jogo, não tem nada.

— Você pode correr comigo.

— Correr? — Drake fez uma expressão de horror exagerado. — Correr é coisa de gente sã. Eu prefiro ficar aqui, comendo panquecas.

— Você vai ficar preguiçoso.

— Vou ficar bem alimentado. Tem diferença.

Ravenna riu, balançando a cabeça.

— Drake, você podia fazer companhia para sua irmã de vez em quando. Ela corre todos os dias.

— Ela corre porque é maluca.

— Ela corre porque é saudável.

— É a mesma coisa, mãe.

— Não é.

— É sim.

Morgana riu, e o som preencheu a cozinha como uma canção.

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O almoço foi uma verdadeira celebração. A mesa estava posta com a elegância simples que Misty e Lumi sempre conseguiam criar: uma toalha de linho branco, pratos de porcelana com bordas douradas, talheres de prata polida que refletiam a luz das velas flutuantes que pairavam sobre a mesa.

Misty e Lumi haviam preparado uma mesa farta. Além do macarrão de Magnus — que, para ser justo, estava realmente delicioso, com um molho de tomate caseiro e manjericão fresco —, havia uma salada de folhas verdes com tomates cereja, pães quentinhos com manteiga de ervas, e uma travessa de legumes assados que exalava um perfume de alecrim e alho.

Freya chegou pontualmente ao meio-dia, suas botas de couro tilintando contra o chão de pedra enquanto ela entrava na cozinha. Seus cabelos ruivos vibrantes estavam soltos, caindo sobre os ombros em ondas que pareciam ter vida própria, e seus olhos brilhantes capturavam a luz com um brilho travesso. Vestia uma blusa de seda cor de vinho com calças largas, e suas mãos estavam cheias de anéis coloridos que tilintavam quando ela gesticulava.

— Estou sentindo um cheiro maravilhoso! — exclamou, jogando a sacola encantada em uma cadeira vazia e se aproximando da mesa com um sorriso radiante. — Magnus, você cozinhou?

— Cozinhei. E ficou bom, se você me permite dizer.

— Você nunca se permite dizer — provocou Freya, e todos riram.

Ela se sentou entre Maeve e Morgana, puxando ambas para um abraço rápido e afetuoso.

— Minhas sobrinhas favoritas! — declarou, beijando o topo da cabeça de cada uma.

— Somos as únicas sobrinhas que você tem, tia Freya — observou Morgana, mas estava sorrindo.

— Isso não torna a afirmação menos verdadeira.

O almoço transcorreu em meio a risadas e conversas animadas. Drake e Freya discutiram sobre moda — Drake afirmando que os uniformes de Quadribol deveriam ter mais estilo, Freya concordando veementemente e prometendo desenhar uma nova versão só para provocá-lo. Maeve contou mais histórias sobre a fada do jardim, e todos ouviram com atenção fingida, deixando-a brilhar.

Ravenna e Magnus conversaram sobre assuntos do Ministério e do St. Mungus — sobre novos tratamentos para maldições, sobre a crescente inquietação no mundo bruxo, sobre os rumores que chegavam de longe. Mas a conversa sempre voltava para os filhos, para o futuro de Morgana em Hogwarts, para os planos para o verão.

— Você já pensou em qual casa você quer, Morgie? — perguntou Freya, pegando mais um pedaço de pão.

— A Grifinória, obviamente — respondeu Drake antes que Morgana pudesse abrir a boca. — Ela tem cara de leoa.

— Talvez a Corvinal — disse Ravenna, refletindo. — Ela tem uma mente tão curiosa...

— Ou a Lufa-Lufa — sugeriu Magnus, com um sorriso. — Ela tem um coração enorme.

— Eu quero que ela vá para a Grifinória — insistiu Maeve, com a determinação de uma criança de sete anos. — Porque o Drake está lá.

— E se eu for para a Sonserina? — provocou Morgana, apenas para ver a reação de todos.

O silêncio que se seguiu foi cômico.

— Você não vai para a Sonserina — disse Drake, com uma certeza que beirava a arrogância. — Você é boa demais para isso.

— Há muitos bruxos bons na Sonserina, Drake — lembrou Ravenna.

— Eu sei, mas... — ele hesitou. — A Morgs é especial. Ela merece uma casa que valorize isso.

Morgana sentiu o rosto aquecer. Não era sempre que Drake era tão sincero.

— O Chapéu Seletor vai saber o que é melhor — disse Magnus, colocando a mão sobre a dela. — Ele sempre sabe.

Ela assentiu, mas uma ponta de ansiedade ainda se agitava em seu peito. O Chapéu Seletor. A casa. Onde ela pertenceria.

Freya, percebendo a tensão, mudou de assunto com sua habilidade característica.

— Morgana, você precisa de um vestido novo para a viagem. Vou fazer um especialmente para você. Algo que grite "sou uma bruxa poderosa e ninguém vai mexer comigo".

— Eu não quero gritar nada, tia Freya.

— Então algo que sussurre. Mas que sussurre com autoridade.

Morgana riu, e a tensão se dissipou.

— O que você acha de azul? — continuou Freya, já planejando em voz alta. — Azul profundo, com detalhes prateados. Combina com seus olhos.

— E com as estrelas — acrescentou Maeve, que adorava quando a conversa girava em torno de roupas bonitas.

— Exatamente! — Freya bateu na mesa com entusiasmo. — Azul como o céu noturno, prata como as estrelas. Você vai parecer uma constelação ambulante.

Morgana comeu com mais apetite do que costumava. Talvez fosse a corrida da manhã, talvez fosse a companhia da família, mas a comida parecia mais saborosa, o momento mais leve.

— Você está comendo bem hoje — observou Drake, baixinho, para que apenas ela ouvisse. A preocupação em seus olhos castanhos era genuína, apesar do tom casual.

— Estou com fome.

— É bom. — Ele sorriu, e não havia provocação em seus olhos. Apenas preocupação genuína, disfarçada de casualidade. — Você precisa de energia para correr.

— Eu sei, Drake.

Ela serviu-se de mais um pouco de macarrão. Não precisava de mais do que aquilo. Mas escolheu comer mesmo assim.

Magnus, do outro lado da mesa, observava a filha com olhos atentos. Seus cabelos escuros caíam sobre a testa, e ele os afastou com um gesto que era idêntico ao que Morgana fazia quando estava concentrada.

— Está tudo bem, Morgana? — perguntou ele, sua voz grave e calma.

— Tudo, papai. Só estou aproveitando o almoço.

— Bom. — Ele sorriu, e o sorriso iluminou seus olhos azuis. — É para isso que servem os dias de folga.

Quando o almoço terminou, Lumi apareceu com uma bandeja de sobremesas: uma mousse de maracujá perfeita, azeda na medida certa e doce na quantidade exata, e pequenas tortinhas de morango que Morgana devorou com prazer.

— Lumi fez especialmente para a senhorita Morgana! — anunciou a elfa, seus olhos verdes brilhando com orgulho. — Lumi sabe que a senhorita gosta de morangos!

— Obrigada, Lumi. Está delicioso.

Freya pegou uma tortinha e suspirou de satisfação.

— Lumi, você deveria abrir uma confeitaria. Eu seria sua primeira cliente.

— Lumi não quer abrir confeitaria. Lumi quer cuidar da família Blackwood.

— E você faz isso muito bem.

A tarde se estendeu preguiçosamente, e a família se reuniu na sala de estar. Misty e Lumi serviram café e chá, e Morgana sentou-se ao lado da janela, sua xícara de café puro nas mãos, observando o jardim.

Lá fora, o sol da tarde brilhava sobre as colinas, e as flores balançavam suavemente com a brisa. Era um dia perfeito.

— Morgana — chamou Magnus, interrompendo seus pensamentos. Ele estava sentado na poltrona ao lado da lareira, com os cabelos escuros desalinhados e a camisa de linho aberta no colarinho, completamente relaxado. — Vem aqui. Quero te mostrar uma coisa.

Ela foi até o pai, que estava folheando um livro antigo.

— O que é?

— Encontrei isso no sótão. — Ele mostrou a ela o livro, uma edição velha e empoeirada de "História da Magia", de Batilda Bagshot. — É a edição original do meu avô. Tem anotações dele nas margens. Pensei que você pudesse gostar.

Morgana pegou o livro com cuidado, sentindo o peso da história em suas mãos. As páginas amareladas cheiravam a pergaminho antigo e poeira, e as anotações na caligrafia firme e elegante de seu bisavô cobriam as margens.

— É incrível — sussurrou. — Obrigada, papai.

— Achei que você poderia ler antes de ir para Hogwarts. Para se preparar.

— Vou ler cada página.

Drake se aproximou, olhando por cima do ombro dela.

— Parece chato.

— É história da magia, Drake. Não é chato.

— Tudo o que tem mais de cem anos é chato.

— Você tem mais de cem anos mentalmente, então isso explica muita coisa.

Drake fingiu estar ofendido, mas não conseguiu esconder o sorriso.

— Você está muito esperta hoje, Morgs. Acho que foi o café extra.

— Ou a corrida.

— Provavelmente os dois.

Morgana riu e sentou-se no sofá, abrindo o livro com cuidado. As primeiras páginas falavam sobre a fundação de Hogwarts, sobre os quatro fundadores, sobre a magia antiga.

Ela estava tão imersa na leitura que nem percebeu quando Maeve se sentou ao seu lado, apoiando a cabeça em seu ombro.

— O que você está lendo, Morgie?

— Sobre Hogwarts. Sobre como a escola foi fundada.

— É legal?

— É fascinante. — Ela apontou para uma página. — Veja, aqui diz que Salazar Sonserina construiu uma câmara secreta dentro do castelo. Ninguém nunca a encontrou.

Maeve arregalou os olhos.

— Uma câmara secreta? Com tesouros?

— Talvez. Ou com monstros.

— Eu quero ver monstros!

Drake, que ouviu a conversa, se virou no sofá.

— Não, você não quer, Mae. Monstros são assustadores.

— Mas eu quero ver um dragão.

— Dragões não são monstros. Dragões são criaturas mágicas. E não, você não vai ver um tão cedo.

— Você é chato, Drake.

— Eu sou realista.

Morgana riu, fechando o livro por um momento.

— Mae, quando eu for para Hogwarts, vou mandar cartas contando tudo. Se eu ver um monstro, ou uma câmara secreta, ou qualquer coisa emocionante, você vai ser a primeira a saber.

— Promete?

— Prometo.

Maeve a abraçou com força, e Morgana sentiu o amor da irmã como um calor no peito.

Magnus observou a cena de sua poltrona, um sorriso suave nos lábios. Seus dedos tamborilavam distraidamente no braço da poltrona, e seus olhos azuis percorriam o rosto da filha com uma ternura que só um pai poderia ter.

— Você vai fazer grandes coisas em Hogwarts, Morgana — disse ele, e sua voz era grave e calma, como um rio profundo. — Tenho certeza disso.

— Você acha mesmo, papai?

— Tenho certeza. Você tem a inteligência da sua mãe e a determinação da família. E o coração mais bondoso que eu já vi.

Ela sentiu o rosto aquecer — não de vergonha, mas de algo parecido com a luz do sol da manhã.

— Obrigada, papai.

— Não precisa agradecer. Só precisa ser você mesma.

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O resto da tarde foi tranquilo. Drake jogou xadrez mágico com o pai — as peças se moviam sozinhas, xingando os jogadores quando perdiam. Maeve desenhou no chão da sala, com giz colorido que Lumi havia encontrado em algum lugar. Freya e Ravenna conversaram sobre a loja, sobre novos tecidos, sobre a próxima coleção.

E Morgana leu.

"Há registros de que os quatro fundadores de Hogwarts — Godric Grifinória, Helga Lufa-Lufa, Rowena Corvinal e Salazar Sonserina — se conheceram em uma taverna em algum lugar da Escócia, no final do século X. A lenda conta que cada um deles possuía uma habilidade única que, juntas, formariam a base da mais extraordinária escola de magia que o mundo bruxo já viu."

Ela leu em voz alta, e Maeve ouviu com os olhos arregalados.

— Eles eram amigos? — perguntou a menina.

— Eram. No começo. — Morgana virou a página. — "Godric Grifinória, o mais corajoso dos quatro, acreditava que qualquer bruxo ou bruxa com talento merecia estudar em Hogwarts, independentemente de sua origem. Helga Lufa-Lufa, conhecida por sua bondade infinita, dedicou-se a ensinar aqueles que outros consideravam incapazes. Rowena Corvinal, a mais sábia, escolhia os alunos com mentes brilhantes e curiosas."

— E o Salazar? — perguntou Maeve.

Morgana hesitou. As palavras do livro pareciam pesar mais do que as outras.

— "Salazar Sonserina, o mais ambicioso, acreditava que apenas bruxos de sangue puro mereciam estudar magia. Essa diferença de opinião acabou separando os fundadores. Salazar construiu uma câmara secreta dentro do castelo, onde escondeu um monstro que, segundo ele, um dia purificaria Hogwarts de todos os nascidos-trouxas."

— Que horror — disse Ravenna, que ouvira a leitura. — Salazar era um homem inteligente, mas suas ideias sobre pureza de sangue eram perigosas. E ainda são.

— Por que ele pensava assim? — perguntou Morgana.

— Porque ele tinha medo. — Magnus respondeu, sua voz calma. — Medo do desconhecido, medo do que os trouxas poderiam fazer se descobrissem o mundo mágico. O medo pode levar as pessoas a fazer coisas terríveis.

Morgana olhou para o livro, para as anotações do bisavô nas margens. Uma delas chamou sua atenção, escrita com tinta desbotada e caligrafia firme:

"O medo é o veneno mais poderoso que existe. Ele corrompe mentes, envenena corações e destrói famílias. Mas o conhecimento é o antídoto. Quem conhece a verdade não precisa temer as sombras."

Ela leu a anotação em voz alta, e um silêncio se espalhou pela sala.

— Seu bisavô era um homem sábio — disse Magnus, finalmente. — Ele entendia que o conhecimento é a maior arma contra o medo.

Morgana assentiu, seus olhos ainda fixos na anotação.

— Eu vou lembrar disso — disse. — Quando eu for para Hogwarts. Quando as coisas ficarem difíceis. Eu vou lembrar que o conhecimento é o antídoto.

Ravenna sorriu, seus olhos verdes brilhando.

— Você é uma Blackwood, Morgana. E os Blackwood sempre honram o conhecimento.

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O jantar foi mais leve, mais descontraído. Misty preparou uma sopa de legumes — que Morgana não comeu, porque odeia sopa com todas as forças — e sanduíches de queijo e tomate. Freya ficou para jantar, e a conversa girou em torno de viagens e memórias.

— Lembra daquela vez que você tentou aparatar para o Egito e acabou na França? — perguntou Ravenna para Freya.

— Foi uma distração! Eu estava pensando em croissants.

— Você sempre está pensando em croissants.

— É uma vida triste a de quem não pensa em croissants.

Morgana riu, mordendo seu sanduíche. O queijo derretido escorria pelos cantos, e ela lambeu os dedos sem cerimônia. Drake fez uma careta.

— Que elegante, Morgs.

— Coma seu sanduíche e me deixe comer o meu.

— Você come como uma...

— Drake, cuidado — alertou Ravenna, e o garoto calou a boca rapidamente, embora seus olhos brilhassem com diversão.

Magnus riu, e o som era quente e profundo. Seus olhos azuis percorreram a mesa, pousando em cada membro da família com uma expressão de satisfação tranquila.

— É bom estar em casa — disse ele, e todos concordaram em silêncio.

Depois do jantar, Freya se despediu com abraços demorados e promessas de voltar em breve.

— Não se esqueça do vestido, Morgana! — gritou ela, já na porta. — Azul profundo, detalhes prateados. Vou começar a desenhar hoje mesmo!

— Não vou esquecer, tia Freya.

— E não se esqueça de escrever! — acrescentou Maeve, agarrada à perna de Morgana.

— Não vou esquecer, Mae. Prometo.

Quando Freya finalmente foi embora e a casa se aquietou, Morgana subiu para seu quarto, com Nimbus em seus braços e o livro de História da Magia debaixo do braço.

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Mais tarde, quando a casa estava em silêncio e apenas os sons noturnos da floresta preenchiam o ar, Morgana sentou-se à janela do seu quarto, com Nimbus enroscada em seu colo e o livro de História da Magia aberto em seu colo.

Ela leu mais algumas páginas, seus olhos percorrendo as palavras com avidez.

"A fundação de Hogwarts marcou o início de uma nova era para os bruxos. Pela primeira vez, jovens de todas as origens podiam se reunir em um só lugar para aprender os segredos da magia. A escola se tornou um farol de conhecimento em um mundo muitas vezes mergulhado na ignorância e no medo."

Morgana sorriu, passando os dedos sobre as palavras.

— Um farol de conhecimento — murmurou. — É isso que eu quero ser.

Nimbus ronronou, e ela olhou pela janela, para as estrelas que brilhavam acima das colinas.

— Eu vou ser um farol, Nimbus. Vou aprender tudo o que puder. E vou usar esse conhecimento para ajudar as pessoas.

A gata ronronou mais alto, como se concordasse.

Morgana fechou o livro e o abraçou contra o peito, sentindo o peso das palavras antigas, da sabedoria de seu bisavô, da promessa do futuro.

Lá fora, a lua brilhava, e as estrelas dançavam no céu escuro.

Ela pensou em Hogwarts. Em todos os mistérios que a esperavam. Em todas as pessoas que conheceria. Em todas as coisas que aprenderia.

E, pela primeira vez, a ansiedade não era a única coisa que sentia. Havia também excitação. Esperança. A promessa de um começo.

— Morgana Selene Blackwood — murmurou, testando o nome nos lábios. — A sábia poderosa, guiada pela luz da lua, firme e resiliente como a madeira ancestral de onde veio.

Ela sorriu para a lua.

— Vamos ver o que você tem reservado para mim, Hogwarts.

Nimbus ronronou mais alto, e Morgana se permitiu acreditar que o futuro seria brilhante.

Levantou-se da janela, colocou Nimbus na cama e guardou o livro na estante. Mas, antes de se deitar, seus olhos se fixaram em um pequeno baú de madeira no canto do quarto. Lá dentro, guardadas com cuidado, estavam todas as fitas de cabelo que colecionara ao longo dos anos — cada uma com uma história, cada uma uma memória.

Abriu o baú e pegou uma fita azul-marinho, a que usara no dia em que conheceu Harry Potter, em uma festa de gala no mundo bruxo. Ela tinha oito anos. Ele tinha oito anos. E, naquele jardim, entre as luzes cintilantes e as conversas dos adultos, eles haviam se tornado amigos.

Morgana sorriu, guardando a fita de volta no baú.

— Harry — sussurrou, os olhos fixos na fita azul-marinho. — Eu vou te ver em Hogwarts.

Guardou a fita com cuidado, sentindo uma pontada de expectativa. Aquele garoto de olhos verdes e cabelos bagunçados era uma presença distante em sua memória, mas ela sabia, com uma certeza que não conseguia explicar, que o reencontro seria importante. Hogwarts os traria de volta um ao outro, e algo nessa certeza a fazia sorrir.

Naquela noite, enquanto se preparava para dormir, apenas sentiu uma alegria tranquila. Hogwarts estava próxima. O futuro estava próximo.

E ela estava pronta.





Notas finais
Notas Finais da Autora 🌙✨ E assim termina o primeiro capítulo da jornada de Morgana. Um dia comum — mas também extraordinário, porque é o último dia comum antes de tudo mudar. Espero que vocês tenham sentido o calor da Mansão Blackwood, o amor da família, a ansiedade e a esperança de uma garota prestes a embarcar em uma aventura que mudará sua vida para sempre. No próximo capítulo, a carta de Hogwarts finalmente chega... e com ela, a promessa de um novo começo. Até lá, mantenham-se curiosos e corajosos, como nossa Morgana. ✨📖 Beijos literários, Chacha 💫