A Herdeira

24 É o fim do amor?


A relação de Anita com Heitor foi se desgastando diante da fixação dele em gerar um filho homem. O casal se afastou. Vitória percebeu logo e indagou a mãe:

- Você e o papai estão de mal? Não se amam mais?

- Não é nada disso, minha querida. Estamos cansados, nós dois trabalhos muito.

- A desculpa é sempre o trabalho, mas eu acho que não é verdade.

- O que uma garotinha de 7 anos pode saber sobre isso, meu bem?

- Você mesma diz que meu coração é puro, porque eu sou criança, então, eu entendo muito de amor sim. Antes eu via nos seus olhos e nos do papai, agora vocês parecem estar com raiva um do outro, o olhar mudou.

- Então me diga como eu olho para você – pediu Anita, desconversando.

- Com o maior amor do mundo, o amor de mamãe!

- É isso mesmo – abraçando e beijando a filha na face.

Já era tarde da noite quanto Heitor entrou nos aposentos do casal, Anita estava sem sono e o questionou:

- Isso são horas?

- Deu para me espionar?

- Eu não precisaria fazer isso, tenho olhos em todos os lugares caso eu queira saber de algo, apenas penso que meu marido deva me dar satisfações.

- Se me deitar tarde te incomoda, posso mudar de quarto, já que você não quer mais mesmo que eu te toque, assim a minha presença não será mais um problema.

- Você está fugindo da minha pergunta.

- E você está fugindo de mim, então por que se importa?

- Acho que você tem razão, melhor mantermos as aparências e cada um ficar na sua. Vá para outro quarto como quiser.

- Claro, vamos manter as aparências como no início do casamento. A diferença é que no início eu tinha certeza de que iria te conquistar, agora tenho certeza de que o nosso amor acabou.

- Fale por você.

- Atitudes falam mais que palavras – disse Heitor pegando seu travesseiro, suas cobertas e indo para o quarto de hóspedes.

Anita voou o travesseiro na porta que se fechava com raiva, depois caiu em prantos.

Na manhã seguinte, tomou uma decisão, durante o desjejum:

- Decidi partir para o Brasil em breve.

Heitor quase se engasgou com o café:

- Por quê?

- Ainda pergunta?

- Por uma briga de casal.

- Nunca fomos um simples casal, Heitor. Somos os reis de Seráfia. Mas, que papel eu tenho aqui? A Câmara dos Lordes não aceita minhas propostas legislativas...

- Você tem um papel significativo nas obras de caridade.

- Grande coisa! Vivo como uma primeira-dama no Brasil, me mostrando solidária em chás beneficentes.

- Você faz muito mais que isso.

- Mas, não é o suficiente. Se não posso governar, se só sirvo para parir e se nem isso consigo fazer, o que me mantém aqui?

- O nosso casamento!

- Que casamento?

- A nossa filha!

- A que não serve para ser rainha?

- Não precisamos discutir nossos problemas pessoais na frente dos empregados.

- O que é pessoal e o que é público na nossa vida? Aliás, só nos casamos pelo bem do povo de Seráfia.

- Deve ter sido só por isso mesmo! – disse Heitor se levantando e jogando o guardanapo sobre o prato.

- Que bom que se levantou, Vossa Alteza, assim posso sair também, já que não tenho fome – ironizou Anita, fazendo uma reverência.

Heitor não respondeu e saiu bufando.

Vitória estava na aula de latim, quando viu a mãe se aproximando. Largou o velho Sr. Aquiles lendo um trecho de livro sozinho e correu para ela. Anita pegou-a no colo. O professor interveio:

- Desculpe, Majestade, mas a menina está no meio de uma aula.

- Eu percebi, Sr. Aquiles, porém, o assunto entre mãe e filha é urgente.

Anita se retirou com a filha no colo. Ambas se sentaram num Banco do belo jardim. Fazia um dia de sol.


- O que é tão importante, mamãe?

- Não gostou que eu te tirei da aula de latim?

- Eu amei! Detesto aquele velho chato!

- Não fale assim, meu anjo, não é de bom tom, nem educado. Além disso, tudo é para sua boa formação cultural, considerando que um dia...

- Considerando que um dia vou ser rainha, eu sei – completou Vitória, bufando.

- Sabe muito bem! Então juízo – disse Anita, abraçando a filha e sorrindo – Vamos ao assunto: Mamãe quer ir ao Brasil.

- E eu vou junto? Estou com saudade da vovó Dora, do vovô Felipe, dos meus tios e dos meus primos brasileiros.

- Esqueceu da vovó Açucena e do vovô Jesuíno?

- Também gosto deles. Não deixa o papai saber, mas gosto um tantinho mais dos seus pais.

Anita deu uma gargalhada e disse:

- Eu te entendo, mas é segredo nosso, não precisamos magoar ninguém.

- Tá bom. Mas, eu vou com você?

- É o que eu desejo, meu amor. Mas, pelas leis de Seráfia, não posso viajar com você sem a autorização do seu pai. Eu vou pedir a ele, mas se ele não deixar, deve ser porque vai se sentir muito sozinho aqui sem mim e sem você, então seja boazinha e faça companhia a ele, sem drama. A mamãe vai e volta.

- Ah não! – disse Vitória fazendo bico e cruzando os braços – Não me deixa, mamãe, por favor.

- Como eu expliquei, é algo a ser conversado com o seu pai, agora vá – beijando o topo da cabeça da sua filha.

- Pelo menos me deixa ficar mais um pouco aqui com você, já saí da aula mesmo. Está um dia tão bonito e raramente ficamos juntinhas fazendo nada.

- Está bem, você tem razão, vamos aproveitar para fazer nada juntas.

Vitória saiu pulando em comemoração e chamou a mãe para acompanha-la. As duas colheram lindas flores no jardim e a menina falou:

- Fiz um buquê para você dar para o papai.

- Mas, dar flores para um homem?

- Você não me fala que homens e mulheres devem ser iguais?

- Isso é verdade.

- Então?

Anita se calou e a filha prosseguiu:

- Papai vai ficar feliz com a sua gentileza e vai me deixar ir pro Brasil com você.

- Muito espertinha a senhorita.

- Não é só isso, mamãe, não penso só em mim.

- Ah não?

- Não! Você e papai estão muito bravos um com o outro, porque meu irmãozinho tá demorando a vir.

- Quem te disse isso, Vitória?

- Ninguém, eu senti aqui dentro do meu coração. Eu quero ter um irmãozinho, mamãe.

- Mesmo que ele se torne rei no seu lugar?

- Isso não vai acontecer, eu nasci para ser rainha, sei disso, tenho missão.

- E qual seria?

- Ainda não sei, mas vou descobrir. Sei de algumas coisas, não de todas.

- E o que mais você sabe?

- Que o meu irmão não vai vir enquanto você e papai não fizerem as pazes e voltarem a se amar de verdade.

- Mas, eu ainda amo o seu pai.

- Eu sinto que sim, mas que os sentimentos bonitos estão sendo sufocados pelos feios e enquanto isso não parar, meu irmão não vem. Ele quer nascer do amor, igual eu, e não porque querem que ele nasça.

Anita ficou surpresa:

- Quem colocou essas coisas todas na sua cabeça?

- Papai do céu fala comigo às vezes e eu sinto aqui no coração – levando as pequenas mãos ao coração.

Anita sorriu e pensou: “Será que vem mais um profeta como Miguézim e Princípe Inácio?”.

No dia seguinte, Anita bateu à porta do escritório do marido. Ele mandou entrar. Ela se sentou na poltrona da mesa, diante dele e ofereceu o buquê de flores colhido por Vitória. Ele olhou e foi ríspido:

- O que quer com isso?

- É um presente da sua filha, mas se não quer...

Heitor pegou o buquê e colocou num vaso sobre a sua mesa e disse, secamente:

- Vá direto ao assunto, estou muito ocupado.

- Antigamente você pedia a minha opinião sobre os assuntos do reino...

- São assuntos da Câmara dos Lordes, da qual você não participa.

- Eu bem que gostaria...

- Vamos direto ao assunto, por favor, não tenho muito tempo.

- Já lhe falei que quero ir ao Brasil...

- Pensei que minha opinião sobre seus assuntos e decisões não me dissessem mais respeito.

- E não dizem, mas temos um assunto em comum: a nossa filha.

- Você não está querendo dizer que...

- Estou! Quero levar Vitória para o Brasil comigo. O que me diz, meu marido?