A Herdeira
25 De volta ao aconhego
- Você pode ir para onde quiser, Rainha Anita, mas a Princesa Vitória é a sucessora legítima do trono e não posso arriscar a vida dela numa longa viagem de navio, tampouco indo se meter numa terra de coronéis e cangaceiros sanguinários – explicou Heitor.
- Essa mesma terra onde eu nasci, você nasceu, seu pai e minha mãe, nossos avós...
- Exatamente por isso eu sei do que se trata e não sou irresponsável a ponto de arriscar a segurança da princesa Vitória.
- Não vai arriscar por que ela é sua filha? Ou por que não pode perder a única herdeira que eu fui capaz de gerar?
- Nossa vida pessoal se confunde com as questões do reino desde o nosso casamento arranjado. Não faz diferença.
- Tem toda razão, Majestade, nossa vida, nosso casamento, nossa filha se dão apenas em virtude do Reino de Seráfia, nada mais.
- Não foi isso o que eu quis dizer. Mas, tudo o que eu falo você interpreta mal.
- Pois eu interpreto é muito bem. Aviso que irei programar a minha viagem, embarco no próximo navio com destino ao Brasil.
- Faça como quiser.
- Não te interessa em quanto tempo vou voltar?
- Mesmo que me interesse, você vai dizer que não é da minha conta. Além disso, Vitória fica aqui e eu sei o quanto você a ama, não posso crer que você iria realmente abandonar a sua filha.
- Pois muito bem – disse Anita, erguendo as saias e se retirando do local, fechando a porta atrás de si.
A despedida de Vitória foi marcada por lágrimas, pela promessa de Maria Cesárea de que iria cuidar muito bem da pequena e por promessa da pequena de iria se comportar e obedecer à tutora, bem como ao seu pai. Heitor não apareceu para se despedir. Ele saiu para cavalgar e demorou horas foras do Palácio.
Algum tempo depois, Anita foi recebida com abraços calorosos de Dora e Felipe na estação de Formosura. Anita olhou para os pais e sentiu um aperto no peito, estavam bem mais envelhecidos do que ela se lembrava, mas ainda com vigor físico. Ambos estavam aposentados e viviam em paz numa Fazenda em Brogodó. Jorge, o filho mais velho do casal, estava casado e com filhos. Victor, o caçula estava fazendo faculdade em Recife, também estudava para se formar advogado, como a mãe.
Anita se encantou com a bela Fazenda dos pais, ainda não a conhecia. Comentou:
- Que linda propriedade vocês compraram! Ela é de encher os olhos de tanta beleza.
Felipe disse:
- Diz isso a Rainha de Seráfia, que vive cercada de luxo.
- Diz isso o Príncipe de Seráfia, que largou tudo para viver em paz e com o amor da sua vida no interior do interior do Brasil – replicou Anita, rindo.
Dora perguntou:
- Como está a minha neta? Sinto tanta falta dela.
- Ela está bem, crescida, esperta, amorosa e linda, sempre pergunta dos avós. Eu também já estou sentindo muito. Deixei meu coração em Seráfia. Mas, ela é a princesa herdeira, Heitor não achou seguro arriscar a vida dela numa viagem dessas.
- Eu entendo o raciocínio dele, minha filha. Mas, também entendo o quanto deva estar sendo difícil para você. Pretende ficar muito tempo conosco ou quer voltar logo por sua filha? – indagou Dora.
- Eu ainda nem sei responder a essa pergunta. Muitas coisas aconteceram e vim porque preciso um pouco do colo de vocês – explicou a Rainha.
- Teremos tempo para você nos contar tudo, filha. Terá o nosso colo, nossos abraços e nosso carinho. Vamos começar com o almoço que sua mãe mandou fazer especialmente para você, com todos os pratos que você adora aqui do nordeste – disse Felipe, passando o braço sobre os ombros da filha e se encaminhando com ela para dentro da grande casa de campo.
- Eu também estava morrendo de saudade dessas comidinhas daqui – falou Anita, já sentindo o cheiro saboroso do almoço, tão logo adentrou à sala da casa.
Quando foram se sentar à mesa, Anita estranhou a presença de um rapaz sorridente. Ela olhou para ele, pois lhe era familiar, mas não conseguia determinar de fato quem era. Enquanto ela fazia a análise, ele se levantou, beijou educadamente a mão dela e disse:
- A Rainha não deve estar se lembrando do primo...
- Primo? Você é...
- Isso mesmo, sou o Fausto Jr., ou apenas Júnior, como todos me chamam.
- Não se ofenda primo, você está diferente do que eu me lembrava.
- Não me ofendo. Você também está diferente, muito mais bonita.
Anita pensou o mesmo dele. O rapaz não se parecia em nada com o seu tio Fausto, nem com a mãe dele Carlota. Tinha os cabelos castanhos claros, a pele clara e os olhos azuis profundos, que hipnotizavam quem olhasse por muito tempo. Já tinhas essas características na infância e adolescência, porém, fora um garoto gorducho e desajeitado. Ela sabia que o pai biológico dele não era seu tio Fausto, mas todo mundo ignorava isso na família de forma proposital, fingindo não saber. O pai biológico fora um Coronel muito mau, já falecido.
- Não precisa corar, querida prima, meu objetivo não foi constrange-la – disse Júnior, de forma muito educada.
- É o calor, primo. Não estou mais acostumada.
Felipe interveio:
- Júnior é o nosso administrador da Fazenda. Eu até poderia fazer isso, mas estou velho e só quero descansar. Já administrei coisas demais – disse Felipe, rindo, fazendo referência aos cargos de Prefeito e Governador de Estado por muitos anos.
- Eu também faria isso, meu pai, se pudesse.
- E não pode? – questionou Júnior.
- Infelizmente não. Amarrei a minha vida à Seráfia há muito tempo. Esse é meu destino: de herdeira do trono e de mãe da herdeira. Mas, às vezes sinto falta da liberdade que eu tinha aqui, de correr livre pelos campos, sendo ninguém importante, apenas a Anita ou Ninita.
- A nossa Ninita – disse Dora, abraçando a filha – E sempre será assim para nós.
- Eu sei, por isso precisei vir passar um tempo com vocês.
- Vamos almoçar se não a comida esfria. Depois, você descansa e então podemos conversar com calma – determinou Doralice, de forma carinhosa.
Durante o almoço, Júnior não tirava os olhos de Anita. Ela percebeu e aquele olhar penetrante do belo primo a incomodava, afinal, era uma mulher casada. Resolveu deixar isso claro na conversa à mesa:
- Antes de me deitar para um cochilo pós-almoço, preciso ligar para meu marido, dizer que cheguei bem, ele deve estar preocupado. Vocês se incomodam com a ligação de longa distância? – indagou aos pais.
- De forma alguma, minha filha. Deve sim avisar o seu marido. Eu estaria muito preocupado se a sua mãe viajasse sem me dar notícias logo – disse Felipe, tomando a mão de Dora e a beijando delicadamente. Ela respondeu com um doce sorriso.
Era impressionante para Anita como o casamento dos pais continuava sólido e feliz mesmo depois de mais de 30 anos. O seu, com Heitor, já não estava sobrevivendo há 8 anos. Ela admirava os pais, achava lindo o que eles construíram e mantinham, mas se perguntava porque não conseguia fazer da mesma forma com Heitor.
Vendo-a pensativa, Júnior falou, descontraído:
- Pensando na vida por que a morte é certa?
Anita voltou de suas divagações:
- Como disse?
- Nada demais, apenas algo que falamos brincando por aqui. Vai querer sobremesa?
- Ah sim, não abro mão dos doces deliciosos daqui.
A cozinheira acabava de colocar os pratos de doces na mesa. Júnior se adiantou e a serviu:
- Prova essa queijadinha da Maria Rosa (a cozinheira), é de comer rezando.
Anita colocou um pequeno pedaço na boca e soltou: “huummm”. Teve que repetir.
Em seguida, foi ligar para Heitor. Quem atendeu foi Maria Cesárea:
- Oi, Anita. Fez boa viagem?
- Sim, muito boa. Desculpe não ter ligado antes. Mas, eu estava faminta e minha mãe mandou preparar um almoço nordestino especial para mim. Claro que não tão bom quanto o seu, mas estava bom.
- Eu imaginei que precisasse comer e descansar antes de dar notícias. Agradeço o elogio, mas eu não cozinho mais há tantos anos...
- É uma pena, é seu dom natural. É a fada dos temperos.
- Estou velha e cansada – explicou ela rindo – Vitória não para de perguntar quando você volta.
- Diga a ela que não me demoro, não posso deixa-la por muito tempo, o meu coração não aguenta. Posso falar com ela?
- Claro, vou passar o telefone.
Vitória começou a falar:
- Oi, mamãe. Eu chorei muito depois que você foi embora, já não estou aguentando mais de saudade.
- Eu também sinto saudade de você o tempo todo, mas a mamãe acabou de chegar. Preciso descansar um pouco da longa viagem e aproveitar um pouco a companhia da vovó e do vovô, eu também estava com muitas saudades deles. Sou a sua mamãe, mas também sou a filha deles.
- Eu entendo mamãe, mas não deixo de sentir saudade.
- Então se comporte bem até a mamãe voltar. Faça companhia ao papai. Por falar nele, pode passar a ligação para ele?
- O papai não está. Saiu logo depois do café da manhã e não voltou.
- Sabe aonde ele foi?
- Não, só me deu um beijo na cabeça e saiu, sem falar nada.
- Está bem, querida. Se ele perguntar, diga que cheguei bem, ok?
- Digo sim. Um beijo mamãe.
- Outro para você, bem no seu coração.
Anita desligou o telefone tristonha, Júnior percebeu:
- Algum problema, prima?
- Nada, só saudades. Vou me deitar um pouco, estou bastante cansada da viagem.
- Imagino, bom descanso!
Anita se deitou e demorou a pegar no sono, a sua cabeça dava voltas.
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