A Herdeira
23 7 anos Depois
7 anos depois...
Vitória estava impaciente enquanto Maria Cesárea penteava os seus longos cabelos escuros:
— Ai, vovó! Isso é chato! Fica puxando meu cabelo!
— Conheço tua conversa mole para que possa sair correndo logo para brincar. Eu nem estou puxando o seu cabelo, tô penteando bem de leve, com carinho – dando um beijo no topo da cabeça da menina.
— É que eu vi a mamãe chegar e passar para o quarto. Me deixa ir lá falar com ela antes que ela saia de novo, por favor, vovó — disse a menina choramingando.
— A mamãe é mesmo muito ocupada, porque ela é Rainha. Mas, nunca se esqueça de que se ela pudesse passaria todo o tempo do mundo com você, porque te ama.
— Eu sei vovó, você sempre fala isso. Posso ir agora?
— Pode.
A menina se levantou da penteadeira e saiu correndo para o quarto dos pais.
Encontrou a mãe pensativa, sentada na grande cama de casal, recostada na cabeceira de veludo. A menina subiu na cama e deu um beijo estalado no rosto de Anita, que retribuiu o beijo com o mesmo amor, dando também um abraço apertado. Vitória perguntou:
— Está triste, mamãe?
— Não, querida. O que te faz pensar assim?
— Parecia quando eu entrei. Você tava com seus lindos olhos vedes olhando pro nada. Essa linda pela branca parecendo ainda mais branca e seu lindo rosto fechado, sem sorriso.
Anita riu:
— Não, meu anjo. A mamãe apenas está cansada, porque tra...
— Trabalha muito como Rainha, eu sei – completou Vitória, bufando.
— Um dia você vai ser Rainha como a mamãe, Vitória, então irá me entender. Da mesma forma que minha mãe me dizia que eu a entenderia quando crescesse e tivesse a minha família.
— Você acha que vou ser uma Rainha tão boa quanto você, mamãe?
— Não. Eu acho que você vai ser uma Rainha muito melhor do que eu, porque você está sendo preparada desde pequenininha, já eu, tive que ser de repente. Por isso, até hoje me esforço muito para conseguir.
— Eu posso até ser uma Rainha melhor do que você, mamãe. Mas, eu nunca vou ser tão bonita quanto você!
— Por que diz isso, minha princesa?
— Ah! Todo mundo fala que eu me pareço com o papai.
— E daí? Seu pai é bonito. Por isso sou apaixonada por ele – contou Anita rindo.
— Mas, papai é homem.
— E você um dia será uma bela mulher, muito mais bonita do que eu, porque você já é linda, sendo a misturinha perfeita da mamãe e do papai.
Nesse momento, Heitor entrou no quarto:
— Estão falando do papai? — perguntou ele rindo e abrindo os braços para que Vitória pulasse em seu colo, o que ela de fato fez.
Anita perguntou ao marido:
— A sessão acabou hoje mais cedo na Câmara dos Lordes, meu amor?
Heitor foi até a esposa com a filha no colo, dando um rápido beijo nos lábios dela, respondendo:
— Sim. Precisamos conversar a respeito...
Olhou para filha sorridente em seu colo e falou para pequena:
— Vá para sua aula de música, querida. Quando eu cheguei, Maria Cesárea já te esperava ao piano.
— Ah, papai, deixa eu ficar aqui mais um pouco com vocês, tenho saudade.
— Nos vemos logo mais no jantar. Todos nós temos as nossas responsabilidades. Lembre-se que um dia você vai ser a Rainha e ainda tem muito a aprender.
— Eu tô cansada de saber, papai – disse Vitória, bufando em seguida.
Heitor colocou a filha no chão e ela saiu do quarto emburrada. Ele se sentou na cama ao lado de Anita, tirou os sapatos, afrouxou o nó da gravata e falou:
— Mais uma sessão daquelas, Anita.
— A mesma exigência?
— Sim – respondeu Heitor, deitando-se sobre Anita, beijando o seu pescoço e levantando a saia dela, escorregando a mão até as coxas da esposa.
Anita o empurrou:
— Pare agora! Eu não quero!
— Não quer mais fazer amor com o seu marido?
— Não pelos motivos errados!
— Eu te amo e te desejo, esses são os motivos.
— O verdadeiro motivo é que você quer desesperadamente colocar um herdeiro homem em mim.
— E daí? Podemos unir o útil ao agradável.
— Você não pode mais me ver que já quer me agarrar.
— Isso é ruim? — perguntou ele rindo — é exatamente o que a maioria das mulheres casadas desejam.
— Você não faz mais amor comigo, você me agarra de qualquer jeito, desesperado para fecundar o meu óvulo e gerar o herdeiro que a Câmara de Lordes tanto quer.
— Anita, eles estão nos pressionando, ameaçando nos tirar do trono se não gerarmos o herdeiro homem. Já fizemos muito por Seráfia, o País se desenvolveu demais nesses 8 anos que estamos aqui. Podemos fazer muito mais!
— Você se apegou ao trono, não é Heitor?
— E você não?
Anita não respondeu. Heitor prosseguiu:
— Nós já geramos uma vez, não entendo porque nesses 7 anos não conseguimos gerar de novo.
— Deus não quis. Vitória será a Rainha soberana, mais ninguém.
— A Câmara de Lordes teme que o marido de Vitória, certamente um Príncipe estrangeiro, assuma o Poder de Seráfia. A Lei dá mais poderes ao Rei do que à Rainha, como bem sabes.
— Bem sei e já tentei mudar a Lei várias vezes.
— E não conseguiu.
— E vou continuar tentando.
— Em vão.
— É claro, se nem meu marido me apoia.
— Anita, eu mais do que ninguém sempre te apoiei em todos os seus projetos de lei. Você sabe bem disso e está sendo injusta.
— Me apoiava, até começar a me enxergar como uma égua parideira.
— Se eu te enxergasse como égua parideira já teria deixado de você há muito tempo, porque há 7 anos você não me dá outro filho.
— Ah, pronto! O problema agora é comigo? Quem te garante que não é com você.
— Olha, Anita, chega de briga, não vamos chegar a lugar nenhum desse jeito. Eu só queria fazer amor e você arrumou essa confusão.
— Agora a culpa é minha por isso também? Meus parabéns, Heitor, você está virando um serafiano machista igual a todos os outros, que joga a culpa na mulher por tudo que dá errado, porque não é homem o bastante para assumir.
— Eu disse que não quero mais brigar, Majestade – saindo do quarto e fechando a porta atrás de si com força.
Anita abraçou o travesseiro e começou a chorar. Ouviu o som do piano vindo da sala no andar de baixo. Vitória tocava cada dia melhor. Ficou aliviada ao perceber que a música do piano impediu Vitória de ouvir a discussão.
Fale com o autor