A Herdeira
1 A dor
Notas iniciais
Há muito não sentiam-se tão inúteis, imóveis, incapazes. A morte deixava-os assim: devastados. Ele se foi, deixando-os sozinhos. Mais uma vez.
Já haviam deixado de ser crianças, contudo lidar com aquela situação novamente era esmagador. Enquanto Rose e Hugo perdiam quem de bom grado acolheu-os, Scorpius despedia-se daquele lhe restara. Para ambos doía. Mais uma ferida era aberta sem nem mesmo as outras cicatrizarem-se.
Os Greengrass estavam presentes mais por obrigação para com a sociedade do que para confortar o jovem Malfoy. Hyperion os considerava parentes, não família. Desde a morte de Astoria, afastaram-se de Draco e do garoto loiro que herdara da mãe a fala suave. Infelizmente Scorpius não era tratado como neto, sobrinho ou primo. O menino era o grande herdeiro de toda a fortuna que a construtora Malfoy acumulara por anos, e para a família de sua mãe, nada além disso tinha valor.
Os poucos membros da família Weasley que ali se encontravam tinham em seus olhos imensa gratidão. Molly e Arthur viajaram por horas num trem mais que lotado para prestar sua última homenagem ao homem que, em meio a tanta dor e sofrimento, refugiou e educou os netos destes de maneira que eles sequer atreviam-se a sonhar que poderiam um dia. Amor não os faltava, no entanto, ao contrario da falácia que corre por todo o planeta, não era o suficiente. As oportunidades que Londres oferecia eram não poderiam nunca ser encontradas em Ottery St. Catchpole. A Toca, como os filhos de Arthur e Molly gostavam de chamar a casa em que foram criados, era grande e acolhedora, porém as crianças mereciam mais. Ronald, o último garoto do total de sete filhos saíra do vilarejo com a pretensão de uma vida melhor para seus filhos no ambiente urbano. Para Arthur, não seria justo tirar dos netos o que o filho e a nora se empenharam tanto para conseguir.
Zabini, Delacour, Goyle, Potter, Longbotton, Scamander e diversos sobrenomes também marcavam presença. Os sobrenomes, não as pessoas. Eram raras as exceções. A maioria ali disposta se interessava nos negócios de Draco, nos amigos de Draco, nos filhos de Draco, e o principal: na fortuna de Draco. Nenhum era de fato amigo, companheiro. Inveja, luxúria e avareza se espalhavam pelo local em excessiva quantia. Era palpável até. Toda a cerimônia acontecia numa das estufas da mansão. O orquidário. Era o lugar preferido de Astoria Malfoy e seu viúvo passou a frequentá-lo todas as noites para se recordar da mulher que mudara sua vida. Um e outro provindos de famílias com valores consumistas. O casamento fora arranjado, a nobreza deveria prevalecer, entretanto a jovem loira não se deixava submeter aos ideais de seus pais e irmãos. Da relação inicialmente forçada entre Draco e Astoria, nasceu um amor verdadeiro e inquebrável. O fruto concreto do que viveram era Scorpius. E esse sentia-se satisfeito em poder realizar o funeral do pai ali, num lugar que tanto amava.
A última despedida a Draco Malfoy reunia imprensa, admiradores e bajuladores. Bem ao lado do caixão, recebendo as condolências numa postura invejável, Scorpius estacava-se. Junto a ele estavam Rose e Hugo Weasley, seus irmãos de sofrimento, como a garota gostava de colocar. Os três impassíveis. Não choravam nem descabelavam-se. A eles não era permitido tal capricho. Era do feitio dos Malfoy manter a classe mesmo em situações desesperadoras. Os irmãos ruivos não carregavam nas veias o nobre sangue da família, no entanto se proibiam de regozijar da dor ao passo que o garoto de olhos tempestuosos e corpo firme não poderia se render ao desmoronamento iminente. Eram irmãos, e irmãos apoiam uns aos outros acima de tudo.
Mesmo depois do enterro, dos pêsames desejados e da saída de todos os visitantes da mansão, mesmo após a cansativa e desgastante reunião com os advogados a respeito do agendamento da leitura do testamento, as crianças que cresceram sob a vigilância do Malfoy mantinham-se reservados. Sentados os três num único sofá da extensa sala de estar, ninguém ousava dizer uma única palavra. Rose, postada no meio dos dois rapazes, uniu as mãos dos mesmos às dela. Pouco depois das duas da manhã, a única mulher ali presente sentiu a cabeça do irmão caçula recaindo sobre seus finos ombros. Quase sorriu ao perceber que ele finalmente rendera-se aos encantos de Morfeu. Cutucou-o de leve e acompanhou-o até o quarto de cores escuras e forte odor de desodorante masculino que ele ocupava desde os dez anos de idade. Meio cambaleante, o adolescente a seguia, e se deu ao trabalho apenas de retirar os sapatos antes de se deixar envolver pelos grossos cobertores. Era fim de outono e as mantas não eram de fato necessárias, mas confortavam. Calor lembrava abraços, e abraços remetiam a carinho.
A menina decidiu passar em seu quarto antes de retornar à sala. O ambiente contrastava gritantemente com os aposentos de Hugo. A pintura toda em tons de bege, os móveis e tapetes exageradamente brancos, e a roupa de cama combinando com a cadeira giratória defronte à escrivaninha. O local cheirava a rosas. Rose reparou que um arranjo delas estava sobre o criado mudo. Winky, a senhorinha que comandava aquela casa inteira, gostava de decorar todo o recinto com flores. A jovem retirou os sapatos de saltos médios e o vestido de manga longa, ambos negros. Soltou o coque firme que fizera pela manhã, permitindo que as madeixas onduladas pendessem sobre seus ombros. Olhou de soslaio para a cama e reparou que havia uma peça de roupa ali. Winky a conhecia como ninguém. Pegou a camisola e analisou-a, deixando que o macio tecido passeasse por seus dedos. Era feita de cetim, já que seda estava fora de cogitação para sua mãe. Sim, aquele pedaço de pano lilás pertencera a Hermione, a pessoa que dera a vida à Hugo e a irmã. Rose sabia que a peça não guardava mais o cheiro de sua progenitora, mas era uma das poucas coisas da mulher que a filha ainda guardava. E tinha um significado imenso.
Regressou ao cômodo ocupado pelo loiro alto. Ele continuava na mesma posição, os olhos vidrados num ponto fixo, vendo sem de fato enxergar. Voltou a para o lugar que ocupara antes.
– Você deveria se deitar. Amanhã será um dia cheio. – ela iniciou – Sua família ficará hospedada aqui até a leitura do testamento?
Scorpius bufou antes de responder.
– Sim. Minha avó está ansiosa para saber se meu pai deixou alguma coisa para ela em consideração pela mulher da vida dele. – ironizou – Ela é muito interesseira e tia Dafne não fica atrás nesse quesito.
– Talvez estejam focando em outra coisa para distraírem-se da dor. – tentou convencê-lo mesmo que soubesse que era uma completa mentira. A ruiva conhecia os parentes de Astoria e gostava de saber que ela era muito diferente deles.
– Elas não estão sofrendo. – declarou virando-se para a garota pela primeira vez – Eu estou sofrendo. Nem sei como se chama isso Rose, parece que vou me desintegrar a qualquer momento. Não é uma coisa que tenha definição. Não tem como explicar para você. Não entenderia. – sua expressão era de angústia extrema.
– Entendo sim. – tornou um pouco enfurecida.
Ela tinha conhecimento de que aquilo era apenas a forma do amigo explicitar o aperto no coração, porém acusá-la de tal forma era burrice. Rose entendia muito aquela dor, e o que mais queria era que fosse respeitada no que se tratava disso.
– Desculpe-me. – pediu ressentido – Os seus pais eu... havia me esquecido por um instante. Me perdoe. – continuou com a voz embargada – Não estou muito tolerável hoje. Foi um dia inteiro de fingimento.
– Está tudo bem. – garantiu a moça – Só espero que entenda que seu pai foi um homem importante na minha vida. E acho que falo por mim e por Hugo quando afirmo que nós o amamos. Como um pai, um segundo pai. E ele não foi um substituto, só acrescentou. Nunca quis tomar o lugar do nosso verdadeiro pai e isso deixava tudo mais bonito. – admitiu – Sei que ouviu muito isso durante as últimas vinte e três horas, contudo quero que olhe nos meus olhos e entenda que eu sinto muito.
Eles se abraçaram. Eram tão parecidos em certos aspectos, como aquele. Encaravam seus sentimentos de forma igual: internamente. Quando não tinha ninguém para assistir, explodiam. Despediram-se e seguiram, cada um para seu respectivo quarto. E então permitiram-se cair. Chorar até os olhos ficarem inchados, gritar contra o travesseiro até arranhar a garganta. No entanto, a vergonha não lhes possuía, pois tinham a certeza de que a três cômodos de distância, o outro fazia o mesmo.
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