A Guerreira da Deusa
5 04. Amigo
Kadam dirigia de forma tranquila cantarolando uma música indiana qualquer que tocava no rádio, Aghata estava sentada no banco do passageiro com a cabeça apoiada na janela observando a paisagem com desinteresse e os dois tigres dormiam no banco traseiro. A pesquisa de Kadam e da garota havia rendido inúmeras informações importantes, porém o homem havia dito que ela e os príncipes deveriam visitar um velho amigo antes de irem à um templo de Durga buscar uma direção e Aghata aceitou sem questionar.
Estava adiando ao máximo o seu próximo encontro com a deusa.
O carro estacionou em uma autoestrada vazia, à margem da densa floresta, e eles desceram. Os tigres se alongaram de forma preguiçosa enquanto Kadam lhe dava instruções e lhe entregava a enorme mochila com provisões que calculou que ela precisaria. Aghata ajeitou a mochila nas costas — cuidando para não atrapalhar seu acesso à katana — e verificou sua diversidade de lâminas espalhadas ao longo do corpo — as duas adagas na base das costas, a lâmina curta na canela esquerda e as lâminas gêmeas presas nas coxas . Ela usava uma calça jeans verde mar, uma blusa marrom com mangas longas e seus tênis de escalada eram confortáveis o suficiente para que ela pensasse que estava descalça. Seu cabelo longo estava preso em um coque firme no topo da cabeça e a franja estava presa atrás de uma das orelhas.
—Ficarei acampado aqui esperando vocês. — ele sorria
Aghata adentrou a floresta seguindo os dois tigres enormes. Kadam havia lhe dito que ela poderia confiar neles e ela sabia isso era verdade. De alguma forma, sentia-se confortável com os animais.
Porém os príncipes à deixavam desconfortável, embora de uma forma boa.
No Santuário ela tinha contato direto e regular com homens, entretanto nenhum deles era gentil com ela. Exceto Phet, mas ela acreditava que o Mestre Maior fazia isso em respeito a Durga, já que ele era o único que sabia quem ela realmente era. Até mesmo Heram — responsável por seu treinamento — acreditava que ela era só mais uma aluna, desconhecendo por completo o real motivo de seu treinamento — embora desconfiassem de sua presença, pois Aghata era a única mulher permitida no lugar.
Ninguém no Santuário sabia a responsabilidade que pesava em seus ombros.
Ninguém no Santuário sabia que ela era a guerreira de Durga.
E os príncipes eram gentis e educados — embora algo no fundo de sua mente insistisse que ela só pensava assim porque passou a vida convivendo com homens agressivos.
Caminhou por algumas horas, quando os dois decidiram parar e deitaram-se. Aquela altura — depois de quase dois meses de convivência — ela já era capaz de compreender o que eles queria lhe dizer e entendeu que haviam escolhido o lugar para passar a noite.
—Sério? — cruzou os braços — Ainda temos, pelo menos, quatro horas de sol e vocês já querem parar?
"Você precisa descansar." A expressão de Ren exibia as palavras quando voltou os olhos cobalto para ela
—Eu estou muito bem. — ajeitou a mochila nas costas — Posso caminhar por mais mil quilômetros, se querem saber, e acho melhor aproveitarmos a luz do dia. — ajeitou o coque, que já estava se desfazendo — Adem logo. Levantem essas bundas peludas e me mostrem o caminho ou eu vou procurá-lo sozinha.
Kishan emitiu um som estranho que ela interpretou como uma risada, então percebeu o brilho de desafio nos olhos dourados que reluziam como dobrões de ouro. "Impossível". A palavra estava estampada nas feições felinas.
—Estamos em uma floresta e eu uso o amuleto da terra. Considerando que não existem muitas pessoas morando em lugares isolados, será relativamente fácil dobrar esse lugar a minha vontade e encontrar seu amigo, porque é meu ambiente. — ajoelhou-se e suas mãos encontraram o chão
Ela fechou os olhos ciente de que os dois a encaravam. Ignorou. Concentrou-se no que procurava e encontrou uma presença fraca em um jardim longe dali. A única presença detectável. Quase podia ver o homem de joelhos mexendo em suas ervas, os muros baixos de pedra e a construção simples. Exatamente como Kadam descreveu. Abriu os olhos colocando-se em pé.
—Posso fazer isso enquanto vocês descansam, bichanos. — caminhou em uma direção especifica e com segurança estendeu as mãos à sua frente, então os galhos recuaram e uma longa trilha surgiu — Imagino que estejam fora de forma e despreparados para essa caminhada. Ou talvez só estejam acostumados a serem carregados por seus súditos.
Aghata interrompeu seus passos quando um rugido cortou o ar. Olhou por cima do ombro encontrando o olhar de reprovação deles e abriu um sorriso que transbordava desaforo e sarcasmo.
—Ah, vejo que estão bem para continuar. — comentou quando eles passaram por ela, os pelos macios resvalando em suas pernas — Devo ter me enganado sobre a resistência de vocês. — deu de ombros — Talvez aguentem mais um ou dois minutos de caminhada.
Kishan rosnou voltando os olhos dourados para ela.
"Trapaceira. Aquilo não foi justo. Você trapaceou."
—Foi totalmente justo e aceitável, gatinho. Cada um usa as vantagens que tem ao seu alcance. — suas mãos apertaram as alças da mochila — Todas as manhãs você usa sua velocidade de tigre para chegar primeiro na cozinha e devorar as panquecas de Nilima, mas nem por isso eu fico te chamando de trapaceiro.
Ren emitiu um barulho estranho que ela compreendeu como uma gargalhada.
—Não sei do que está rindo, alteza. — pegou o IPod desenrolando os fones com cuidado — Você faz a mesma coisa quando Nilima cozinha cookies de chocolate com manteiga de amendoim. Até hoje não sei qual é o gosto desses cookies, porque você simplesmente devora tudo sozinho.
O tigre branco resmungou e o tigre negro o empurrou em um gesto brincalhão. Aghata colocou os fones nos ouvidos e pensou em uma música que havia escutado alguns dias atrás com Nilima, então o barulho encheu seus ouvidos.
Caminharam em silêncio pelo resto da tarde.
=x=x=
A lua já estava alta no céu quando eles pararam para descansar. Ren deitou-se em uma parte afastada da pequena clareira e se permitiu observar Aghata, esperando que ela montasse a barraca, mas ela não o fez. Apenas apoiou a mochila em uma árvore e deitou-se de costas no gramado, os braços atrás da cabeça e os olhos verdes fixos no céu estrelado. Kishan, que estava sentado à poucos metros dela, rosnou baixinho.
—Nem tenta, gatinho. — tombou a cabeça encarando o tigre negro — Você não vai me convencer a ficar enfurnada dentro daquela barraca.
Ren se aproximou, sentando-se ao lado do irmão e encarou-a seriamente.
—É sério isso? — apoiou-se em um braço, erguendo-se levemente para olhá-los melhor — Ah, qual é? Olhem esse céu! É magnifico! — voltou a deitar-se de costas e esticou as mãos para cima, como se pudesse tocar as estrelas — Eu não vou me esconder dentro de uma barraca quando posso ficar aqui e apreciar a vista.
Então, sem se importar com a resposta dos tigres, ela colocou fones nos ouvidos e permaneceu ali, deitada encarando o céu infinito. O tigre branco rendeu-se à vontade ela, deitando-se ao seu lado e a garota se aconchegou contra suas costas peludas.
=x=x=
Eles dormiram ao ar livre, com Aghata entre os dois tigres enormes. Kishan se permitiu observá-la até muito depois dela adormecer, demorando-se em suas feições tranquilas e suaves. Permitiu-se observar os lábios volumosos e rosados. Permitiu-se observar o rosto anguloso e delicado. Permitiu-se observar os cabelos macios.
Ela transbordava vulnerabilidade e inocência.
O tigre negro conhecia o temperamento irritado e os rompantes agressivos dela — devido a sua estranha dedicação em observá-la mais do que deveria -, mas, de alguma forma, não conseguia associar esse comportamento frio e violento àquela garota que dormia ao seu lado.
Como se fossem duas pessoas completamente diferentes.
Ou como se ela se escondesse sob uma máscara de indiferença, impedindo que qualquer um a alcançasse.
Kishan acordou com os primeiros raios de sol e, ao se espreguiçar, deu-se conta de que Aghata não estava ao seu lado. Levantou-se em um salto procurando-a pela clareira. Não encontrou. Rugiu acordando o tigre branco e farejaram seu cheiro.
Encontraram a garota em um rio próximo. Ela estava parada na margem, os cabelos molhados presos em um coque, usava apenas uma camiseta marfim comprida — na altura dos joelhos — com mangas longas que cobriam até suas mãos e descalça. A pele era pálida como a porcelana mais cara, mas estava maculada com algumas cicatrizes; uma linha prateada começava em seu tornozelo esquerdo, subia por sua panturrilha e terminava sobre o joelho com as reentrâncias da sutura bem visíveis; e três riscos horizontais paralelos na canela direita, um palmo abaixo do joelho.
Assim que os viu, a expressão dela endureceu, vestiu a calça rapidamente para esconder e calçou os tênis.
—Uma garota precisa de privacidade para o banho, bichanos. — resmungou passando por eles, empurrando-os de seu caminho
Ren foi o primeiro a rosnar para ela.
—Ah! Nem começa! — ela atravessava a floresta a passos rápidos em direção a clareira — Eu estava bem aqui, o tempo todo, ao alcance do nariz de vocês! — o tigre branco rosnou mais alto — Eu não posso fugir, tigre estúpido. — retorquiu irritada — Eu precisava de um banho, mas tenho certeza de que não precisava da companhia dos dois!
—Eu não estou falando disso e você sabe! — Ren adotou a forma humana e colocou-se a caminhar ao lado dela, falando em um tom controlado — O que aconteceu com você? Aghata?
Aghata permaneceu em silêncio mantendo o ritmo de seus passos acelerados.
Então Kishan, incomodado e preocupado pela atitude dela, adotou a forma humana e se apressou segurando-a pela mão esquerda, interrompendo seus passos.
A manga da enorme blusa marfim subiu alguns centímetros e ele viu a larga cicatriz prateada e reluzente contornando seu pulso — como se houvessem amarrado sua mão e ela tivesse insistido na tentativa de se soltar até esfolar a pele delicada. Como não tinha reparado nela antes?
Aghata puxou a mão rapidamente, ocultando a cicatriz sob o tecido de seda.
—O que fizeram com você? — o tigre negro indagou prendendo-se na profundidade dos olhos verdes
Havia uma tempestade dentro de Aghata, que ele não conseguia compreender, mas que parecia afogá-la em sua enormidade — como se ela não conseguisse manter-se na superfície. Ela se afogava em si mesma. E, por algum motivo, Kishan queria mergulhar dentro dela e salva-la.
—Não importa. — respondeu entredentes — E não quero vocês dois rondando meu banho outra vez.
E lá estava a máscara fria de indiferença forçada, por trás da qual ela se escondia. Impedindo qualquer um de se aproximar.
—O que fizeram com você naquele lugar? — Ren segurou-a gentilmente pelos ombros
—Não importa. — repetiu afastando-se dele
—Eu tenho algum conhecimento médico, Aghata, e posso ver que esses ferimentos foram profundos. — Kishan insistiu forçando-se a manter a voz suave — O que aconteceu?
—Não importa. — tornou a falar erguendo o queixo em desafio — O que aconteceu no Santuário, fica no Santuário. Vocês não precisam saber de nada.
—Essas cicatrizes tem alguma relação com os castigos que você mencionou...? Sobre Heram...? — Ren tentou aproximar-se novamente
—Cale a boca, príncipe. — cuspiu as palavras entre os dentes, afastando-se alguns passos — Vocês não tem ideia do que estão falando. Eu sou uma guerreira! Eu luto em batalhas! É normal ter cicatrizes! Vocês saberiam disso se tivessem lutado as próprias guerras, mas imagino que os dois ficavam o tempo todo com essas bundas peludas em seus tronos enquanto seus soldados iam para as linhas de frente. — a garota lhes deu as costas, rumando para a clareira com passos duros e respiração pesada — E, já que minhas cicatrizes causam tanta repulsa, é melhor ficarem longe de meus banhos. Eu não gostaria de incomodar o estômago da realeza outra vez.
—Aghata, por favor... — Ren se apressou, mas ela se esquivou de seu toque — Eu só quero saber se você está bem.
A voz do tigre branco soou baixa e incerta, mas ela escutou.
—Não é como se você realmente se importasse — alcançou a clareira e se colocou a guardar as coisas na mochila furiosamente
—Eu me importo. — ele replicou com suavidade
—Por que acha que não nos importaríamos? — Kishan abaixou-se a altura dela e tocou sua mão, tensionando fazê-la aquietar-se, mas ela se esquivou do toque encarando-o profundamente
Mas não havia ódio ou fúria.
Kishan viu mágoa. Uma mágoa tão imensa que, por um momento, pareceu engoli-lo por completo.
—Por que ninguém se importa. — ela disparou — Ninguém nunca se importou.
=x=x=
Caminharam em silêncio depois do incidente na clareira. Aghata ficou com os fones nos ouvidos o tempo todo, recusando qualquer tipo de contato com eles, limitando-se a segui-los de longe.
Depois de quase dois meses, ela estava finalmente começando a se acostumar com a presença firme, segura e constante deles. Depois de quase dois meses, ela estava finalmente começando a se acostumar com a gentileza deles. Então eles viram.
Desde que pisou na casa, Aghata cuidou para que nenhuma cicatriz ficasse exposta. Usava calças, camisetas com mangas longas e sapatos fechados. E, no entanto, um único deslize foi o suficiente para acabar com sua discrição. A garota não soube identificar o que viu no olhar dos príncipes — Nojo? Pena? Repulsa? -, mas sentiu que não era bom. Durante todo o tempo que passou no Santuário, só conviveu com a raiva, a ira, a revolta e a violência — qualquer outro sentimento era complicado demais para que ela pudesse compreender ou reconhecer e seus mestres costumavam dizer que eram apenas fraquezas. E era exatamente esses outros sentimentos que estavam expostos no olhar dos dois — como um discurso que ela não conseguia identificar se era de consolo ou reprimenda.
Por um momento imaginou como eles reagiriam se acaso vissem as outras diversas cicatrizes que ela ainda escondia.
Não queria descobrir.
Já havia sido assustador o bastante ser alvo daquele olhar profundo que eles lhe lançaram.
Alcançaram o muro baixo de pedra ao entardecer. Os tigres adentraram a pequena casa de supetão e ela decidiu seguir o exemplo, pois estava psicologicamente exausta para fazer uso das boas maneiras e da educação que não tinha. O amigo deles não estava por perto, mas — considerando que não demoraria a anoitecer — era provável que não demorasse.
Aghata sentou-se em uma cadeira simples e pequena, limitando-se a olhar pela janela, e os dois tigres deitaram-se no chão com os olhos colados nela. Ignorou — como fez durante todo caminho até ali — cogitando que, certamente, não precisaria se manifestar durante a conversa deles com o amigo. Provavelmente Kadam havia enviado-a apenas por protocolo ou qualquer coisa assim. Ela não tinha o que falar, de qualquer forma.
Então a porta se abriu e Phet entrou com um enorme sorriso.
A revolta cresceu em seu âmago quando ela entendeu porque o destino havia levado-a até ali com os príncipes e, pela primeira vez, decidiu que não iria controlar a língua. Já havia aguentado o suficiente. O que mais poderiam fazer com ela?
Não havia mais como machuca-la.
=x=x=
Ele queria ter dito alguma coisa — qualquer coisa — que pudesse melhorar a situação, mas simplesmente não sabia o que dizer.
Ren sempre soube como se portar com seu povo, como conquistar uma garota ou como fazer alguém sorrir, mas nunca havia tentado consolar alguém tão quebrado quanto Aghata. As palavras dela ainda ecoavam no fundo de sua mente de uma forma incômoda, lembrando-lhe do olhar profundamente magoado que ela lhe lançou — como se ela tivesse colocado todo o peso de sua alma naquele olhar e exibido para ele.
"Olhe. Veja o que fizeram comigo." — os olhos dela gritavam
Por um momento desejou vingar cada um de seus ferimentos, matando e aniquilando aqueles que haviam a machucado.
Então desejou profundamente tomá-la nos braços, acariciar suas cicatrizes, demonstrar que se importava e jurar-lhe que nunca mais permitiria que alguém a tocasse.
Algo crescia em seu interior em respeito à ela — um forte instinto de proteção; um sentimento de profundo cuidado; um impulso incontrolável de dedicação. Ren sabia que faria qualquer coisa que ela pedisse e isso o assustava. Como havia se permitido tornar-se tão dependente daquela garota? Durante os quase dois meses de convivência, o tigre branco manteve-se afastado, observando-a se aproximar de seu irmão, mas isso parecia aumentar seu fascínio por ela de uma forma que ele não compreendia. Como se ela fosse um imã — atraindo-o o tempo todo.
Ele via a forma como Aghata tentava arduamente se esconder por trás de uma máscara fria, mas seus olhos verdes gritavam suas emoções em palavras facilmente compreensíveis. Ele conseguia ler sua alma através dos olhos expressivos. O príncipe conseguia ver a dor afogando-a aos poucos e constantemente.
Estava deitado no chão da pequena cabana com os olhos fixos na figura feminina que permanecia sentada olhando através da janela — a morena não havia se movido desde que sentou ali e a preocupação dele estava alcançando um nível incontrolável. Foi quando Phet chegou.
—Mestre. — a voz dela soou baixa quando seus olhos encontraram a figura baixa e sorridente
Imaginou que não deveria estar surpreso por Aghata conhecer Phet.
Mas estava.
—A Gata encontrou as crianças selvagens e o canário de Durga. — o sorriso de Phet aumentou — A deusa vai ficar feliz.
—Você sabia. — Aghata disparou mantendo o tom baixo — Você sabia e não me contou.
—A Gata precisava encontrar canário sozinha. — sentou-se em uma cadeira na frente dela — Essa era parte da missão.
—Eu fiquei semanas vagando por essas florestas procurando por alguém que eu não conhecia, sendo que você sabia o tempo todo. — resmungou — Maravilhoso! — o sarcasmo impregnava suas palavras — Mas o que eu poderia esperar? Não me contaram nem mesmo sobre o amuleto de Damon. Eu passei anos desfilando com esse amuleto no pescoço sem saber o que ele realmente era. Você poderia ter me contado! Deveria ter me contado! Eu teria cuidado melhor dele! — debruçou-se na mesa, mantendo o tom de voz baixo e os olhos fixos no homem à sua frente — Tem ideia de quantas vidas teriam sido poupadas se eu apenas tivesse escondido esse amuleto?
—O que está feito não pode ser desfeito. — Phet limitou-se a responder
—Claro. — assentiu trincando os dentes — Aquelas mortes pesam sobre os meus ombros, não sobre os seus. Muito fácil dizer aos quatro ventos que foi inevitável.
—Phet disse que não pode ser desfeito, mas poderia ter sido evitado. — ele brincava com as flores coloridas que descansavam no vaso sobre a mesa — A Gata poderia ter evitado.
—Mas você disse... Você... Me mandou embora... — Aghata engasgou com as palavras sem saber ao certo o que dizer — Eu tentei voltar.
—Eu sei. — Phet assentiu — A Gata desobedeceu ordem de Durga. A deusa não ficou feliz.
—E porque não me permitiram? — sua voz subiu um quarto e Ren adotou a forma humana — Porque barraram meu caminho?
—Aghata. — se aproximou, com cuidado, ajoelhando-se ao seu lado
—Responda! — exigiu ignorando a presença do príncipe — Porque impediram que eu os ajudasse? Porque impediram que eu os salvasse? O que você queria? Me tornar responsável por todas aquelas mortes? Aumentar meu fardo, já pesado e insuportável? Acaso não estava satisfeito com o monstro que criou em mim?
—Respire. — o tigre branco colocou a mão sobre a dela em um consolo e, surpreendentemente, ela a apertou entre seus dedos quentes
—Alguém precisaria morrer. — Phet esclareceu — Foi um preço a ser pago. Um sacrifício a ser feito. Se A Gata tivesse salvado-os, teria sido pega pelo homem mau e estaria morta. A missão de Durga estaria perdida e os tigres estariam presos para sempre.
—Eu o teria matado. — ela replicou entredentes
—Lokesh é mais forte do que imagina, Aghata. — o príncipe falou de forma suave — Ele possuí dois amuletos e treinou suas habilidades por séculos.
—Não é justo. — o olhar dela permanecia fixo em Phet — Não é justo que eles tenham morrido no meu lugar de forma tão cruel, apenas por que Durga decidiu que as coisas deveriam ser assim.
—O mundo não é justo, bilauta. — Kishan se pronunciou, em sua forma humana sentado na pequena cama — Mas alguns sacrifícios são necessários. Meu pai costumava dizer que, às vezes, devemos fazer um pouco de mal para alcançar um bem maior.
—Não me diria isso se soubesse quanto mal já causei. Se soubesse quantas mortes pesam em meus ombros. — ela se levantou e atravessou a porta
—Aghata. — Ren se apressou, mas Phet segurou seu braço
—Deixe-a ir. — sorriu — A Gata precisa ficar sozinha.
=x=x=
Kishan observou-a atravessar a porta e sentiu uma vontade incontrolável de ir atrás.
Não sabia exatamente como aconteceu, mas desde que colocou os olhos nela, foi tomado por uma vontade incontrolável de se aproximar. Algo na essência dela o chamava com uma intensidade absurda.
Durante quase dois meses dedicou-se a se aproximar dela e estava cumprindo essa missão com louvor — passava horas com ela na biblioteca enquanto a garota se aprofundava nas pesquisas de Kadam; dormia na varanda à porta do quarto dela, observando-a; a guiava em passeios tranquilos pela floresta ao redor da casa; a assistia treinar no dojo da casa — e, então, todo o seu esforço se perdeu depois do que aconteceu à beira do rio.
Foi preciso quase dois meses para que Aghata se acostumasse a sua presença e ele havia estragado tudo porque não soube o que dizer no momento em que ela realmente precisava ouvir alguma coisa.
Um vazio irritante cresceu dentro dele ao se dar conta que — provavelmente — tinha perdido o contato íntimo que conseguira desenvolver com ela.
Levantou-se e levou as mãos aos cabelos, bagunçando-os exasperado.
—Tigres precisam ficar calmos. — Phet alternava seu olhar entre os dois
—Calmo? — Kishan o encarou — Você viu como ela saiu daqui? Céus! O que vocês fizeram com ela naquele lugar?
—A Gata não falou sobre o treinamento? — o homem colocou um cotovelo na mesa e apoiou o rosto na mão
—Aghata se recusa a falar sobre qualquer coisa que viveu no Santuário, mas sei que foi terrível. Eu vejo isso nos olhos dela! — replicou — Não sei o que fizeram com ela, mas foi uma dádiva de Durga que Lokesh os encontrou antes de mim. — os olhos dourados faiscavam — Porque eu os teria destruído por tamanha monstruosidade. Como conseguem machucar alguém como ela?
—A Gata é mais forte do que os tigres pensam. — Phet sorriu — O treinamento de A Gata foi escolhido por Durga.
—Não sabia que a deusa era a favor de torturas. — Ren estava em pé com os braços cruzados rigidamente e a expressão dura
—Não houve torturas. — o homem fez um gesto displicente com as mãos, desdenhando daquela possibilidade — Tigres não sabem o que aconteceu.
—Então nos conte. — o tigre negro bufou irritado — Se não a torturaram, então como Aghata conseguiu as cicatrizes?
—Batalhas. — deu de ombros — A Gata travou muitas batalhas. A Gata contará aos tigres um dia. Ainda não é o momento.
—E os castigos? — o príncipe dos olhos cobalto disparou — E Heram?
—Heram respondeu pelas coisas erradas que fez. Durga não pode responder pelos erros de um servo irresponsável. — assentiu se levantando — Mas não temos tempo para isso. Os tigres vieram aqui por um motivo. — rumou para a porta — Adem logo. Sei que os tigres querem ver como A Gata está.
Kishan queria respostas.
Precisava de respostas.
Mas não no momento.
Vê-la era tudo o que importava.
=x=x=
Ela estava sentada sobre o muro de pedra, remexendo o pequeno amuleto entre seus dedos finos e considerando o quão injusto tudo parecia.
Aghata sabia que detestava metade das pessoas que viviam no Santuário e a outra metade ela apenas suportava, mas mesmo assim... Era tudo tão errado. A morte sempre pareceu errada aos seus olhos.
As vozes chegaram até ela em sussurros por causa da distância. Através do amuleto ela podia sentir os três homens conversando na porta da cabana, vários metros atrás dela, mas não deu importância. Permaneceu perdida em pensamentos. Tantas coisas erradas. Tantas pessoas morrendo por sua causa. De alguma forma, Aghata havia encontrado consolo repetindo para si mesma que fizera tudo o que estava ao seu alcance e que aquelas pessoas simplesmente não puderam ser salvas, mas Phet... As palavras dele... Saber que poderia ter sido diferente... Saber que poderia ter feito alguma coisa...
Isso mudou tudo.
Nunca, em sua tão curta vida, havia se sentido tão mal.
—Phet disse que podemos passar a noite na cabana. — Ren estava parado alguns passos atrás dela, sua voz suave a encontrou, mas Aghata não se virou para encará-lo
—Você e Kishan devem descansar. — manteve os olhos no amuleto, torcendo o cordão de couro gasto em seus dedos — Ficarei de guarda aqui fora.
—Aghata... — ele se aproximou, uma de suas mãos tocou as costas dela
—Eu não posso. — suspirou longamente, pendurou o amuleto no pescoço e voltou o olhar para o céu estrelado — Não consigo dormir sob o teto dele depois de tudo. O Mestre... O Santuário... Heram... O incêndio... Eu não consigo, Ren. Desculpe.
—Então vamos procurar outro lugar para passar a noite.
—Não é necessário. — se obrigou a encará-lo pela primeira vez desde o incidente no rio — Eu ficarei bem.
E lá estava aquele olhar carregado que ela não compreendia. Os olhos cobalto brilhavam.
—Meu tempo como humano está acabando, estão escute. — sentou-se ao lado dela e segurou suas mãos — Phet disse que precisamos encontrar quatro presentes mágicos que foram roubados de Durga e devolvê-los à ela, mas não disse quais são. Só assim a maldição do tigre chegará ao fim.
—Velho babaca. — ela resmungou — Ele sabe quais são os quatro presentes e não vai falar.
—Não importa. — apertou as mãos dela suavemente — Precisamos ir à um templo de Durga e falar com ela. Ele disse que a deusa nos dará a benção no mesmo templo em que revindicou você. Phet disse que ela está esperando.
—Que ela espere mais um pouco. — depois do ouviu de Phet, Aghata esperava nunca mais encontrar a deusa
—Deve estar cansada. — Kishan se aproximou a passos tranquilos e cuidadosos — Avisei Phet que estamos partindo. Há uma clareira à poucos minutos daqui, então acho melhor irmos andando, assim poderemos descansar.
Aghata se permitiu sorrir. Sabia que o tigre negro — com a excelente audição — estaria a par da conversa, por mais distante que estivesse.
—Certo. — assentiu e viu os dois assumirem a forma felina
O tempo deles havia acabado. Os dois caminharam lado à lado e Aghata os seguia alguns passos atrás. Preferiu manter distância. Depois do que havia acontecido no rio, imaginou que eles ficariam longe, mas então Ren ficou ao seu lado enquanto Phet lhe falava. O príncipe dos olhos cobalto segurou suas mãos. Lhe confortou, apesar do que escutou.
Ele permaneceu.
E Kishan também.
E, de alguma forma que ela não pôde compreender, ele atravessou suas barreiras. Exatamente como seu irmão havia feito antes.
Dhiren fez em um único dia, o que Kishan demorou quase dois meses para conseguir.
Isso não podia ser algo bom — podia?
Ter os dois tão perto parecia ser perigoso.
=x=x=
Três dias se passaram desde a visita desastrosa e produtiva à casa de Phet.
O caminho pela floresta até o acampamento de Kadam tinha sido silencioso, porém era o tipo de silêncio cúmplice e compreensivo, um silêncio confortável. Ren não soube dizer como ou porque, mas aquele estranho incidente no rio havia fortalecido a relação entre os três — Aghata, ele e Kishan. De alguma forma aquilo os havia aproximado.
Ninguém contou a Kadam.
Ren e o irmão entraram em um acordo mudo sobre manter segredo sobre aquilo, para preservar a garota.
—Ninguém nunca falou nada sobre esse templo? — o homem estava debruçado sobre o notebook
—Eu sei que fica em Nova Deli. — ela deu de ombros folheando o guia turístico com desinteresse
Passava das cinco da tarde. Kadam e Aghata haviam mergulhado em pesquisas na enorme biblioteca da casa. Ele ocupava a poltrona de couro, ela havia sentado no chão apoiando as costas à uma parede, Ren estava deitado no tapete felpudo e Kishan permanecia sentado ao lado da janela.
—Existem centenas de templos dedicados à Durga em Nova Deli. — replicou atentando-se às informações que pipocavam em sua tela
—Senhor Kadam. — largou o guia no chão ao seu lado e aguardou que ele a olhasse — Sei que o senhor desconhece as circunstâncias de minha revindicação, então imagino que seja hora para compartilhar essa história.
O homem afastou-se do notebook, recostando-se confortavelmente na poltrona e observando-a com atenção. Ren ergueu as orelhas e a encarou. Kishan se aproximou, deitando-se ao lado dela e, para a irritação do tigre branco, Aghata se colocou a acariciar o pelo negro.
—Eu tinha seis meses de vida e meus pais decidiram fazer uma viajem de turismo para conhecer a Índia. — sua voz não tinha emoção, como se estivesse repetindo uma história desinteressante qualquer que havia escutado em algum lugar — Todo ano eles viajavam para algum lugar novo, um lugar que ainda não conhecessem. Algo estupidamente comum para um casal estupidamente comum. — deu de ombros — Durante a viajem, eles decidiram visitar um templo de Durga, mas se perderam do grupo de turismo e não conseguiram encontrar a saída. Cada porta, cada corredor, cada passagem, os levava mais para o interior do templo. Foi quando se depararam com uma sala enorme e desconhecida, escondida nos confins do templo. A própria deusa e seu tigre estavam os esperando. — concluiu — Ela me revindicou bem ali. Então, cinco anos depois, um servo de Durga surgiu na minha porta, me tomou sob os cuidados da deusa e me levou embora.
—Uma grande história para uma grande guerreira. — Kadam lhe deu um sorriso gentil e Aghata entendeu que essa era sua forma de confortá-la
—Durga repetiu essa história por anos, sempre enfatizando sua habilidade de manipular os templos com precisão. — completou — Mas ela nunca me contou em qual templo isso aconteceu.
—Isso torna as coisas mais complicadas. — suspirou baixo massageando a nuca
—Talvez... — franziu a testa
Ela pegou o pequeno guia folheando-o com cuidado, perdendo-se em pensamentos e suposições. Ren observou a garota colocar-se em pé num salto e avançar até Kadam.
—Turistas costumam visitar os templos centrais, pois os consideram mais grandiosos e atraentes. — depositou o guia na mesa à frente dele — Podemos fazer uma lista, apenas os templos do centro da cidade, grandes e pequenos. Todos eles. Então visitaremos um por vez. — continuou — Se não der certo, então listaremos os mais afastados e os visitaremos também.
—E como saberemos qual templo é o certo? — Kadam indagou incerto do raciocínio dela
—Ela quer que eu remonte os passos de minha revindicação, isso significa que fará a parte dela nessa bagunça. — deu de ombros — Se eu estiver certa, assim que pisarmos no templo certo, ela ira manipular os caminhos para nos levar até aquela sala.
—Isso pode demorar. — comentou
—Sim. — assentiu — É um plano ruim com poucas chances de dar certo. — considerou — Infelizmente é o único plano que temos.
—Vou fazer um café. — o homem se colocou em pé e alongou os membros — A noite será longa.
=x=x=
Já passava das três da madrugada e todos dormiam profundamente.
Exceto ele.
O tigre negro estava agitado, marchando de um lado para o outro em seu enorme quarto, sentindo uma inquietude crescer em sua alma. Algo, lá no fundo, estava completamente fora do lugar e esse fato se tornava mais preocupante à cada instante.
Jogou-se sobre a cama macia afundando o focinho nos travesseiros. Precisava dormir. O dia seguinte começaria cedo e, provavelmente, ele estaria cansado demais para ser útil. Mas...
Algo estava errado. Estupidamente errado. Absurdamente errado. Irritantemente errado. Tão errado que ele simplesmente não conseguia ignorar.
Então ele ouviu.
Começou com um ruído, tão baixo que se misturava ao farfalhar das árvores ao longe, mas os sons aumentaram e ele os compreendeu.
Apressou-se para a varanda, suas patas silenciosas, parou à porta aberta do quarto dela — seu instinto protetor gritava o quanto Aghata era irresponsável por se arriscar à dormir com as portas abertas todas as noites considerando os perigos que corriam — e a observou. A garota dormia no tapete felpudo, os lençóis estavam emaranhados aos seus pés e ela se remexia desconfortável devido ao sono agitado murmurando coisas incompreensíveis. Kishan soube que ela estava tendo um pesadelo.
Ele se aproximou com cuidado e deitou-se ao lado dela.
E Aghata o abraçou.
Os braços dela o envolveram, suas mãos delicadas prenderam-se à ele e ela afundou o rosto nos pelos negros. Aghata ainda dormia, mas assim que inalou o cheiro do belo tigre, a respiração dela normalizou e sua agitação foi embora. Uma calma súbita caiu sobre a garota envolvendo-a em um sono tranquilo e profundo.
Algo estalou dentro dele e tudo se encaixou com uma precisão perfeita.
Tudo estava certo. Estupidamente certo. Absurdamente certo. Irritantemente certo. Tão certo que ele simplesmente não podia ignorar.
E foi quando Kishan se deu conta do que ela significava para ele.
E foi quando Kishan se deu conta do que ele significava para ela — mesmo inconscientemente.
E foi quando Kishan se deu conta de que isso bastava.
Ele não precisava de mais nada, afinal.
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