Decidiram visitar os templos durante a noite, assim os dois tigres poderiam entrar e sair sem maiores problemas. Os seguranças ainda eram um empecilho, mas Aghata sugeriu usar seu amuleto para distraí-los e os príncipes concordaram. Um plano simples e eficiente.

—Nunca imaginei que Durga fosse tão extravagante. — a voz dela ecoou pelos longos corredores e os dois tigres a encararam com reprovação por causa do barulho

Aquele era o terceiro templo que estavam visitando — decidiram visitar um templo por noite, assim poderiam averiguar o lugar com calma e cuidado, para não deixar passar nenhum detalhe que pudesse ser importante. Kadam os aguardava no carro, à alguns quarteirões do lugar.

—O que? — revirou os olhos — Vocês pensariam o mesmo se soubessem em qual templo eu a encontrava.

Seus olhos verdes esquadrinhavam o lugar, permitindo-se admirar a beleza impar. Os templos de Durga eram diferentes entre si, mas compartilhavam da mesma sofisticação e grandeza — como enormes palácios que pertenciam à uma mesma rainha.

—Uma deusa ingrata, na verdade. — resmungou para si mesma, mesmo sabendo que os dois poderiam escutá-la

Adentraram um enorme salão, ricamente decorado com cores gritantes e a viram. Uma enorme estátua da deusa de oito braços com o tigre negro aos seus pés. Mas ela estava imóvel. Sem vida. Inúmeras portas abertas estavam dispostas ao longo das paredes, levando à caminhos que Aghata não estava disposta à se aventurar. Ajeitou a katana às suas costas. Kadam a fez deixar sua diversidade de lâminas em casa, mas — depois de muita insistência por parte dela — concordou que levasse a katana.

—Certo. — olhou ao redor com desinteresse — Hora de procurar a saída.

Foi quando o som a atingiu — tão suave quanto uma brisa — vindo de algum lugar no interior daquele templo. Um sino. Ela reconheceria aquele som em qualquer lugar do mundo. Era o mesmo som que escutava no Santuário, quando a deusa solicitava sua presença.

Durga a chamava.

—É aqui. — sussurrou

Ren — que estava circundando a sala, farejando à procura de qualquer coisa fora do comum — voltou seus olhos cobalto para ela, tomados pela curiosidade. Kishan sentou-se à sua frente e tombou a cabeça levemente.

—Não estão ouvindo? — os encarou e viu-os negar com um aceno — Ela está me chamando.

Avançou em uma direção específica, seguindo o som e percebendo-o aumentar à medida que se aproximava. Os dois tigres a ladeavam, seguindo-a para onde quer que ela fosse. Atravessou inúmeras portas e passou por corredores que pareciam levar a lugar nenhum. Aumentou seu ritmo e correu até sentir que seus pulmões poderiam explodir, percebendo como o templo havia subitamente se tornado um labirinto de portas e corredores.

Foi quando alcançou uma porta de madeira branca ricamente decorada com flores de lótus entalhadas em sua superfície. O som vinha dali, alto e claro. A deusa estava do outro lado daquela porta. Olhou ao seu redor e percebeu que os dois tigres haviam sumido, provavelmente se perderam durante sua corrida até ali por obra de Durga e ela sabia que não poderia procurar por eles. Por algum motivo a deusa os havia separado, portanto lhe restava apenas atravessar a porta.

E ela o fez.

Então Aghata se viu na mesma sala que ocupou com os dois tigres, momentos atrás, mas todas as portas estavam fechadas. Aproximou-se do altar e depositou a Katana aos pés da deusa, procurou ao redor e encontrou um sino ao lado da calda de Damon. Tocou. As duas estátuas ganharam vida diante de seus olhos enquanto sua arma era envolvida pelas chamas que não a consumiam.

—Coração. — sorriu avançando e lhe envolvendo em um abraço terno — Senti sua falta.

—Madrinha. — cumprimentou retribuindo o abraço de forma rígida, então seus olhos escorregaram para o enorme tigre negro — Damon. — o animal rosnou baixo em resposta

—Como você está? — segurou seu rosto entre as mãos e firmou seu olhar

—Bem. — limitou-se a responder

—Minha criança inteligente. — o sorriso de Durga aumentou — Eu sabia que você encontraria o templo. Sua ligação comigo é mais profunda do que imagina. Mais profunda do que a ligação de Shiva e Nandi, me atrevo a dizer.

—Todos os meus caminhos sempre me trazem até você, então deve haver alguma verdade no que diz.

—Vejo que encontrou os dois príncipes. — uma terceira mão acariciou-lhe os cabelos — Posso senti-los. Estão separados e procuram desesperadamente por você.

—Eles tiveram experiências negativas com magia. Imagino que estão pensando o pior nesse momento. — deu de ombros — Porque nos separou?

—Foi preciso. — afastou-se dois passos e observou-a por inteiro — Vejo que deixou suas lâminas para trás.

—Seu canário me obrigou a deixá-las. — enfatizou — Me permitiu trazer a katana depois de muita insistência.

—Entendo. — assentiu levemente — Ele teme por sua segurança e também pela segurança dos príncipes.

—Posso garantir a melhor segurança do mundo para nós três, se tiver minhas lâminas ao alcance, entretanto ele se recusa a compreender. — replicou secamente — Mas não é por isso que estou aqui.

—Eu sei. — uma de suas mãos se estendeu em direção à uma porta específica e esta se abriu — Por isso precisei separá-los.

Então um tigre branco atravessou a porta em um salto.

=x=x=

O príncipe dos olhos cobalto não soube explicar o que aconteceu — em um momento estava seguindo Aghata pelos corredores através das inúmeras portas e, no outro, estava perseguindo o perfume da flor de lótus, embriagado pelo aroma.

Repreendia-se por ter se perdido de seu irmão e da garota, mas agora não tinha outra alternativa além de seguir em frente.

Foi quando atravessou a última porta e se viu na sala enorme repleta de portas. Adotou a forma humana, preparando-se para se apresentar a deusa e então deu-se conta do que acontecia ao redor. Aghata estava em pé, atrás da figura que ostentava oito braços — aos seus olhos, as duas tinham a mesma altura — e um tigre negro permanecia deitado no altar balançando a calda com movimentos preguiçosos.

Mas foi a feição da deusa que atraiu sua atenção.

—Como é possível...?

A voz de Ren saiu em um sussurro.

Os olhos de Durga eram castanhos, assim como seus cabelos, mas havia algo em sua feição que insinuava algum tipo de ligação entre as duas — como um reflexo distorcido e igualmente belo.

Elas eram quase gêmeas.

—Quando um humano se torna guerreiro de um deus, ele adquire algumas características físicas desse deus. — a deusa se pronunciou — Aghata é minha guerreira, isso explica a nossa semelhança.

—Durga, minha deusa. — o príncipe se colocou de joelhos, voltando a si, mantendo os olhos no chão

—Meu príncipe de marfim. — ela se aproximou, ficando à frente dele — Levante-se.

Ao se colocar em pé, o príncipe sentiu as mãos da deusa em si — segurando-o pelos ombros, acariciando seus cabelos e envolvendo seu rosto.

—Faz anos desde a última vez que vi seu rosto. — sorriu — É mais belo do que eu me lembrava.

—Melhor nos apressarmos, Madrinha. — Aghata pigarreou levemente — Os príncipes não tem muito tempo como humanos.

—Bobagem. — Durga fez um gesto displicente com uma de suas mãos, desdenhando da possibilidade — Esse é meu templo, minha casa. Assim como manipulei sua estrutura, também posso manipular o tempo. Aqui as coisas acontecem como eu determinar. Dentro dessas paredes, os dois permaneceram humanos até que eu decida o contrário.

—Humpf. — a garota resmungou — E quando foi que as coisas não aconteceram como você determinou?

—Aghata! — o príncipe a repreendeu com um olhar de advertência — Não deve se dirigir à deusa nesses termos.

—Antes de ser sua deusa, ela é minha madrinha, bichano. — cruzou os braços — Eu ficarei muito grata se evitar intrometer-se em nossa relação, porque meu relacionamento com Durga não é da sua conta.

—Isso é indif-

Um rugido sacudiu as paredes antes que Ren terminasse a frase. O enorme tigre negro da deusa deixou o altar e aproximou-se de Aghata, circulando-a e esfregando a cabeça em seu braço. Os olhos vermelhos se voltaram para ele e um rosnado saiu do fundo de sua garganta enquanto ele mostrava as enormes presas.

O príncipe ficou tenso e adotou uma postura defensiva.

—Damon prefere que não use esse tom com Aghata. — Durga sorriu vendo o animal sentar-se ao lado da garota e encarar o príncipe de forma ameaçadora — Meu tigre sente grande apreço por minha guerreira.

—Entendo. — voltou os olhos cobalto para a bela deusa — Eu só pensei que não seria adequado.

—Sei que suas intenções são as melhores, meu príncipe de marfim. — a voz etérea era doce e suave — Não há com o que se preocupar.

—Sei que vocês estão compartilhando um momento muito lindo e tudo mais, mas o outro tigre ainda está encurralado no labirinto. — Aghata acariciava o pelo negro de Damon — Então, Madrinha, poderia deixar para flertar com Ren mais tarde? Eu realmente estou preocupada com Kishan.

Dhiren não sabia dizer quando foi a última vez que foi tomado pela timidez — isso já fazia tanto tempo que parecia ter acontecido em outra vida -, mas, quando deu por si, estava completamente ruborizado.

Aghata estava insinuando um romance dele com Durga?

Esperou pela reação da deusa imaginando que ela daria uma resposta ácida ou algo parecido, porém, para seu espanto, Durga riu levemente.

—Sua preocupação é infundada, Coração. — voltou-se para a garota — Eu jamais o machucaria.

—Sei disso. — revirou os olhos — Mas Kishan não sabe. Ele nem sabe o que está acontecendo. — esclareceu — Deve estar desesperado imaginando que o pior aconteceu à nós dois. Não é certo.

—Mas é preciso. — voltou seus passos para o altar e sentou-se, seus braços moviam-se preguiçosamente ao seu redor — Existe algo que preciso falar apenas com vocês dois.

—Estamos aqui. — Aghata enfatizou — Não há motivos para adiar.

—A missão de vocês é a mesma, mas cada um procura cumpri-la com um objetivo específico em mente. — a alegria da deusa havia sido substituída por seriedade enquanto ela falava — Entretanto, para que vocês tenham sucesso, algumas coisas devem acontecer. Entendam que, às vezes, é preciso fazer algo mal para alcançar um bem maior.

—Estamos dispostos a fazer o que for preciso. — Ren pronunciou firme

—Sei disso, meu príncipe de marfim. — a deusa lhe deu um sorriso — E existe algo que só posso pedir à você.

—Peça-me qualquer coisa, minha deusa. — ajoelhou-se diante dela de forma solene — Juro que farei o que me pedir.

—Aghata é minha guerreira. — Durga voltou seu olhar para a garota em pé, alguns passos atrás do príncipe — Existem coisas que apenas ela poderá fazer. Existem coisas que apenas ela poderá destruir. — prosseguiu — Antes que tudo isso termine, haverá um embate e ela deverá ser a campeã escolhida para representá-los. Essa será a única forma de vencer. — encarou Ren novamente — Você deve garantir que isso aconteça quando a hora chegar. Você deve garantir que nada a impeça de cumprir esse objetivo.

—Eu jamais fugiria. — Aghata falou entredentes, irritada com a possibilidade

—Não estou dizendo isso, Coração. — falou suavemente — Sei que é corajosa e enfrentaria qualquer coisa, mas não se trata de você.

—Kishan... — o nome deixou os lábios de Ren em uma compreensão muda

—Exatamente. — a deusa assentiu — Seu irmão não deve interferir e também não deve saber disso. Está escrito. É o destino. As coisas devem acontecer dessa forma. — completou — Jure que fará isso. Jure que não permitirá que nada interfira no objetivo dela. Jure que irá garantir que ela cumpra a missão. Jure por sua honra, jure por sua vida, jure por sua lealdade. — estendeu uma de suas mãos e tocou os cabelos sedosos dele — Jure por mim.

—Eu juro.

=x=x=

Kishan soube que tudo deu errado quando se encontrou sozinho em um corredor.

Aghata e Ren haviam sumido e ele nem mesmo percebeu como isso aconteceu.

O belo tigre negro apurou sua audição e farejou o ar procurando por qualquer coisa que lhe desse uma direção, mas não havia nada. Simplesmente não havia rastro a ser seguido. Não havia uma direção certa a seguir.

Um rugido frustrado deixou sua garganta.

Como ele permitiu que isso acontecesse?

Correu. Avançou pelos corredores, através das portas, atentando-se a qualquer coisa que lhe desse uma direção. Estava desesperadamente preocupado. Então sentiu. Um aroma forte de flores de lótus seguia em uma direção qualquer, mas havia algo mais. Sob todo aquele perfume, ele ainda era capaz de sentir o cheiro delicado e suave que seguia na direção oposta.

O cheiro dela.

Aghata.

Aumentou o ritmo, correndo o mais rápido que suas patas permitiam, seguindo o rastro da garota. Sabia que deveria seguir o perfume das flores e encontrar a deusa, mas sua preocupação com Aghata era maior do que qualquer outra coisa e o preenchia completamente. O príncipe havia esperado por mais de três séculos para encontrar a deusa, então podia esperar mais um pouco. Porém, Aghata... Ele não conseguia simplesmente ignorar.

Chegou à uma porta de madeira de cor clara ricamente entalhada com flores de lótus. Avançou sobre ela, mas estava fechada. Adotou a forma humana e ainda assim não conseguiu abri-la. Usou sua força e habilidades singulares para tentar arrombar, porém cada tentativa levava à um fracasso ainda maior.

E ele sentia.

O cheiro dela estava do outro lado.

Aghata estava do outro lado.

—Sei que está escutando. — Kishan olhou ao redor, direcionando suas palavras para o ambiente vazio — Esse é seu templo, Durga, então sei que pode me ouvir, portanto preste atenção nas minhas palavras: eu não sei qual é o seu objetivo, mas sei que ela esta ali, logo depois daquela porta, e eu vou atravessar. — trincou os dentes — Derrubarei esse templo, pedra por pedra, se for necessário. Mas eu vou atravessar. Eu vou chegar até ela.

E, para sua surpresa, a porta simplesmente se abriu.

Atravessou-a em um rompante e se deparou com Ren ajoelhado diante de Durga e Aghata em pé logo atrás dele.

—Devo dizer que estou admirada com sua força de vontade e determinação, meu príncipe de ébano. — a deusa colocou-se em pé e, com passos lentos, aproximou-se de Kishan

—Durga, minha deusa. — ajoelhou-se diante dela

—Levante-se. — sorriu vendo-o colocar-se em pé diante dela — Meu príncipe de ébano. — repetiu como se saboreasse as palavras

Então o príncipe percebeu a semelhança entre a deusa e a garota.

Sabia que qualquer um observaria os detalhes que as tornavam parecidas, mas ele fez o contrario — atentou-se aos detalhes que as diferenciavam, como a cor dos olhos, as expressões e a postura. Kishan percebeu que embora fossem como o reflexo uma da outra, ainda assim eram completamente opostas.

Considerando a mágoa que Aghata nutria pela deusa, o príncipe imaginou que isso seria o certo. Pelo pouco tempo que a conhecia, já havia percebido que ela preferia evitar o que quer que tivesse contato com a deusa.

—Acredito que não seja o momento para flertar com Kishan, Madrinha. — Aghata comentou e o príncipe notou o incômodo da garota — O assunto que nos trouxe é mais importante do que isso.

—Sei disso, Coração. — falou suavemente — Apenas estou impressionada com a facilidade com a qual Kishan ignorou minhas distrações. De alguma forma, ele encontrou seu rastro e o seguiu até aqui. — esclareceu — Assim como estou impressionada com sua coragem, meu príncipe de ébano. — os olhos castanhos brilharam — Nunca fui desafiada de forma tão aberta.

—Meu... Rastro? — ela soltou com cuidado, deixando seu olhar encontrar os olhos dourados

—Fiquei preocupado. — limitou-se a responder observando Damon de guarda ao lado dela

—Dizer que você ficou preocupado é um eufemismo. — a deusa riu levemente voltando a sentar-se em seu altar — Mas precisamos conversar sobre coisas mais importantes. Sei que estão aqui procurando por uma direção ou uma profecia. Infelizmente eu não disponho de nenhum dos dois. A única coisa que posso oferecer à vocês são detalhes e esperar que vocês descubram o que fazer com eles.

—Excelente. — Aghata resmungou com ironia

—Quatro presentes foram roubados e eu os quero de volta. — Durga sentenciou — Não posso lhes dar uma direção, mas posso lhes dizer que cada um dos presentes tem ligação com um elemento natural; terra, água, ar e fogo. Cada presente que encontrarem, deverá ser trazido à mim, em meus templos e então eu os recompensarei. A partir disso vocês devem iniciar a busca.

—Só isso? — a garota adiantou-se alguns passos — Com todo o respeito, Madrinha, mas isso é muito pouco.

—É mais do que o suficiente. — uma de suas mãos alisou o tecido de sua roupa impecável

—E quanto ao resto? — insistiu — Os amuletos de Damon? O feiticeiro? A maldição do tigre? Minha liberdade?

—Uma coisa de cada vez, Coração. — falou voltando seu olhar para Damon que se aproximava, enroscando-se em seus pés — Primeiro precisa cumprir um objetivo para só depois avançar ao próximo.

—Isso não está certo. — tornou a replicar — Fui deixada no escuro minha vida inteira, mas isso... Simplesmente não tem como! É tudo vago demais! Precisamos de mais do que isso! Como cumpriremos a missão se nem mesmo sabemos para onde ir?

—É assim que deve ser. — acariciou o pelo negro de seu belo tigre percebendo que os dois príncipes mantinham-se em silêncio — É o destino. Está escrito.

Então reescreva. — falou entredentes

—Aghata! — Kishan a repreendeu com um olhar de advertência

Ele não sabia que tipo de reação esperar da deusa à sua frente. Durga poderia fazer qualquer coisa e ele não queria que a garota se machucasse.

—Não! — disparou, sua voz aumentou um quarto — Eu não vou aceitar isso!

=x=x=

Tudo estava conspirando contra ela.

Aghata sabia disso.

Seria praticamente impossível encontrar os quatro presentes quando Durga se recusava a lhe contar até mesmo o que eles eram. Poderiam ser qualquer coisa. Poderiam estar em qualquer lugar.

—Você precisa aceitar, Coração. — levantou-se caminhando até ela — As coisas são assim. Não há o que possa ser feito.

—Sempre há o que ser feito. — retorquiu — Mas nem todos estão dispostos a fazer.

—Eu sempre fiz o que foi possível, sempre fiz tudo o que esteve ao meu alcance. — a expressão suave demonstrava sua preocupação com a garota a sua frente

—Será? — disparou — Diz que fez o possível, mas se recusa a me ajudar com minha missão, se recusa a me ajudar com minha vida, se recusa a me ajudar com minha liberdade.

—Uma tragédia iniciou sua jornada e uma tragédia marcará o seu fim. — a deusa levou uma de suas mãos aos cabelos dela, acariciando, confortando-a com um sorriso gentil — Sua missão terminará onde começou. Sua vida começará onde terminou. Você anseia por sua liberdade, mas jamais deixará sua prisão, pois as grades que te limitam estão aqui — uma segunda mão tocou-lhe a testa — e aqui. — uma terceira mão tocou-lhe o coração — E, quando se livrar delas, será apenas para escolher entre correntes negras ou brancas.

—Minhas grades foram impostas à mim por você. — Aghata recuou um passo, afastando-se do toque quente, elevando o queixo para encarar a deusa com arrogância e fúria — Eu vou derrubá-las. Uma por uma. E se as correntes estiverem lá quando as grades caírem, juro que reduzirei seus templos às cinzas e o seu nome se tornará pó. Apagarei você da história com um sopro e te condenarei ao esquecimento. — Ren engasgou e Kishan ofegou, incrédulos com sua atitude perante a bela e temida deusa, mas ela apenas os ignorou — Eu vou aprisioná-la entre as grades da solidão e amarrá-la com as correntes do sofrimento. Tudo que eu sentir, você sentirá. Então veremos se é capaz de suportar a dor que se orgulha de infligir aos inocentes.

—Eu crio guerreiros. — Durga replicou com doçura, como uma mãe confortando um filho revoltado

—Você destrói vidas. — a morena retorquiu, o ódio fervilhando sob sua pele, enquanto cuspia as palavras por entre os dentes — E, se destruir a minha vida, eu destruirei você.

AghataI. — Kishan tentou avançar em sua direção, mas Damon colocou-se em seu caminho exibindo as presas

—Meu coração. — a deusa tentou aproximar-se, mas a garota recuou novamente

—Não se aproxime de mim. — sua respiração era pesada — Essa é sua sentença final?

—É a única sentença que disponho. — seus braços se abriram ao seu redor, as palmas voltadas para a frente, demonstrando não possuir mais nada — É assim que deve ser. Está escrito. Uma maldição; Dois tigres; Três vidas; Quatro presentes; Cinco amuletos; Seis sacrifícios.

—Seis sacrifícios...? — a garota sussurrou — Mas quem...?

—Cinco sacrifícios deverão ser feitos por você, minha guerreira. — esclareceu — Não há outro modo.

—Eu? — indagou ainda aturdida — E o sexto sacrifício?

—Está fora de seu alcance. — respondeu simplesmente — Preocupe-se apenas com o que você pode fazer.

—Não vou abrir mão do que me prometeu. — sustentou o olhar da deusa à sua frente — Eu terei minha vida e minha liberdade, portanto certifique-se de que as correntes não estejam lá quando eu romper minhas grades. — advertiu com os dentes trincados — Se elas estiverem, eu lhe mostrarei que sou capaz de cumprir meu juramento. Diferente de você, deusa ingrata.

—Um dia entenderá que eu estou tão presa quanto você. — Durga afastou-se, ocupando seu lugar sobre o altar com Damon aos seus pés — Um dia, Coração, você entenderá que suas atitudes e decisões são muito mais relevantes do que as minhas.

Uma estátua dourada ocupou o lugar da deusa e as chamas que envolviam a katana se apagaram, deixando a lâmina intacta.

=x=x=

Caminharam para a saída do templo em silêncio.

Ainda restavam alguns minutos como humanos aos dois príncipes, devido à manipulação do tempo feita por Durga.

Ren e o irmão estavam em sua forma de tigre guiando o caminho. Vez ou outra, o tigre branco voltava seu olhar para a garota — que os seguia alguns passos atrás — perguntando-se o quão imprudente ela conseguia ser, afinal ela parecia não dispor de senso de autopreservação ou autoproteção — como se ela não se importasse com a própria vida. Avançaram pelas ruas escuras, em direção ao local onde Kadam os esperava. Ele os saudou com um sorriso enorme, que desmanchou-se ao perceber a tensão que envolvia os três.

—O que houve? — ele perguntou abrindo a porta traseira do Jeep, observando os dois felinos enormes deitarem-se no banco

—Nada. — Aghata disparou tomando seu lugar no banco do passageiro — Não aconteceu nada. Esse é o problema.

—O que Durga disse? — deu a partida no carro e o conduziu pelas ruas em direção à enorme casa

—Uma maldição. Dois tigres. Três vidas. Quatro presentes. Cinco amuletos. Seis sacrifícios. — cuspiu a sentença da deusa com repulsa — Cada presente tem ligação com um elemento natural e, quando os encontramos, devemos levá-los até um dos templos dela para que ela nos recompense.

—Algo mais? — insistiu

—Não. — fechou os olhos e apoiou a testa na janela — Mais nada.

—Vamos conseguir. — Kadam sorriu de modo otimista — Encontramos o templo, contra todas as probabilidades, afinal. Vamos encontrar os presentes também. Vamos dar um jeito.

—Talvez você esteja certo. — ela cedeu com um pequeno sorriso

—Provavelmente teríamos conseguido mais informações se você tivesse se controlado. — Ren adotou a forma humana e falou levemente irritado

—Conseguimos mais informações justamente por que eu perdi o controle. — retrucou — Se tivesse aceitado as palavras dela sem contestar, possivelmente não teríamos nada.

Nós ainda não temos nada. — rebateu — E atacar Durga não ajudou. Por acaso, você tem algum senso de autopreservação? O que faria se ela decidisse te destruir?

Atacar Durga? — Kishan assumiu a forma humana ao seu lado — Você prestou atenção nas palavras de Durga, idiota? Aghata jamais atacou a deusa, ela apenas se defendeu! — os olhos dourados estavam estreitos e brilhavam irritados — Durga estava condenando Aghata à escravidão eterna! Eu e você conhecemos a sensação deprimente de estar acorrentado à algo. Nós passamos trezentos anos presos nessa maldição do tigre e quase enlouquecemos, então não culpe Aghata por lutar pela própria liberdade, porque, de acordo com as palavras de Durga, as correntes dela são muito piores do que as nossas! — discorreu entredentes — Mas o que eu poderia esperar de você? Sempre preocupado consigo mesmo! Um maldito egoísta! Desde que Aghata quebre suas correntes, você não dá a mínima para as correntes dela.

—Isso não é verdade! — fechou os olhos e cerrou os punhos em uma tentativa de conter a irritação

Era tão difícil entender que ele havia se irritado por estar preocupado com ela?

Céus! Ren estava preocupado com o que Durga poderia fazer contra a garota, depois de ter sido desafiada de forma tão aberta. O que ele faria se a deusa machucasse Aghata? O que seria dele?

—Então porque a recrimina por lutar pela própria liberdade? — o tigre negro indagou

—Desafiar Durga não a ajudará a se libertar! — replicou voltando os olhos cobalto para ele

—E o que irá me ajudar? — ela inclinou-se para trás, fixando o olhar no tigre branco — Obedecê-la cegamente? Eu fiz isso a minha vida inteira e veja onde estou agora. — os olhos verdes faiscaram — Entenda Ren, eu fui amarrada à Durga pouco depois de nascer e tentei fugir mais vezes do que você é capaz de imaginar, porém, em todas elas, algo terrível aconteceu. Para evitar mais tragédias, a deusa me prometeu liberdade assim que cumprisse essa missão. — apertou o banco com tamanha força que os nós de seus dedos ficaram brancos — Essa promessa foi a única coisa que me colocou sob controle e é por causa dela que me submeti à vergonha de ser o cão de Durga. — trincou os dentes — Portanto é melhor ela se certificar de cumprir com sua palavra, por que se ela não o fizer... Eu cumprirei com a minha.

—O que quer dizer? — Ren sentia o peso das palavras dela com mais intensidade do que pensou ser possível

—Eu irei destruí-la, mesmo que isso me destrua. — esclareceu — Eu posso até morrer, mas juro por minha vida que ela morrerá primeiro, porque eu vou matá-la com as minhas próprias mãos.

—Eu morrerei antes de permitir que alguém te prenda ou te machuque novamente. — a voz de Kishan rompeu o silêncio enquanto as mãos dele envolviam as dela de forma terna — E juro, por minha própria vida, que a libertarei. Essa é minha promessa para você.

Ren observou o olhar cúmplice que os dois trocaram e desejou insanamente estar no lugar de Kishan.

Aquilo era tão injusto.

Aghata deveria olhar para ele daquela forma.

Praguejou em pensamento enquanto pensava em como conseguia simplesmente dizer as coisas certas de formas erradas, sendo assim totalmente incompreendido.

Notas finais
É isso aí. Beijo =*