A Guerreira da Deusa
4 03. Adaptação
Ren não queria machucá-la.
Quando saltou sobre ela, sua intenção era morder a agada que ela empunhava, mas algo aconteceu e ela caiu de joelhos. Ele só se deu conta de que ela havia se rendido no instante em que sentiu o gosto metálico do sangue em sua boca, porém já era tarde. O antebraço dela estava retalhado pelas suas presas e ele surpreendeu-se por ela não ter gritado ou chorado tamanha dor.
Assim como estava surpreso por ela simplesmente não sentir medo, em momento algum, durante todo o embate.
Mas ele quase arrancou a cabeça de seu irmão quando ele o mandou se calar. Aquela era a primeira vez em mais de um século que os dois conversaram e não tinha sido nenhum pouco produtivo. Na verdade, parecia ter aumentado o abismo entre os dois.
Estavam todos reunidos na biblioteca. Kadam sentado em sua poltrona preferida, Ren estava sentado ao lado em sua forma de tigre, Nilima limpava o antebraço da garota, que não esboçava nenhuma reação — o que o tigre branco considerava assustador devido à gravidade dos ferimentos — e Kishan, em sua forma de tigre, mantinha-se próximo a ela avaliando o progresso do curativo.
—Isso significa que Durga a enviou. — Kadam encarava os bilhetes e o pergaminho que Aghata havia lhe entregado
—Sim. — ela assentiu, estava sentada no tapete com as pernas dobradas na posição de lótus e Nilima preparava a agulha para a sutura
—Você disse que é a guerreira de Durga. — largou os papéis sobre a mesa — O que isso significa?
—Durante sua eterna existência, cada um dos deuses tem o direito de escolher um único humano para lutar uma grande batalha ou cumprir uma missão importante. Algo que o deus não pode fazer. Esse humano se torna seu guerreiro. — Nilima deslizava a agulha por seu antebraço costurando seus cortes com precisão e delicadeza, mas Ren estava aturdido com a ausência de reação dela frente à isso, como se simplesmente não sentisse a dor — Os escolhidos tem contato direto com seus patronos divinos e ganham muitos presentes para cumprir o que lhes foi confiado. Existem casos de guerreiros que ganharam a imortalidade como recompensa por seu êxito. Nandi, servo de Shiva, é um exemplo disso. Ele era humano, mortal, porém muito valoroso. Shiva reconheceu sua força e o tornou imortal para que Nandi pudesse servi-lo pela eternidade. — completou
—E Durga escolheu você. — Kadam concluiu e ela confirmou com um aceno
—Ela não pode ajudá-los a quebrar a maldição do tigre e, por algum motivo que eu desconheço e não me importo, isso é importante para ela. — deu de ombros — Então ela me encarregou dessa missão. E eu preciso cumpri-la para receber a recompensa que ela me prometeu.
—Imortalidade? — O homem sugeriu
—Liberdade. — os olhos dela escorregaram para as mãos de Nilima que enfaixavam seu braço — Os guerreiros são agraciados com presentes fascinantes, mas devem viver para o deus que os escolheu. No momento, eu vivo por Durga. — Nilima finalizou o curativo e ela abriu e fechou a mão algumas vezes, procurando algum dano causado pela mordida, mas não encontrou — Assim que completar essa missão, vou viver por mim. Viver minha vida, da forma que eu quiser.
—Compreendo.
—Obrigada, Nilima. — Aghata inclinou a cabeça levemente, em uma reverência simples — Está ótimo. Provavelmente não deixará cicatrizes. — o olhar dela recaiu sobre Kadam — Acredito que tenho direito à algumas respostas.
—Certamente. — ele concordou
—Lokesh, o feiticeiro que amaldiçoou os dois príncipes, por que ele quer meu amuleto?
—Por que ele é parte do amuleto de Damon. — esclareceu — O amuleto de Damon é composto por cinco partes: ar, água, terra, fogo e espaço. Eu uso o amuleto de Dhiren, espaço. Kishan carrega o amuleto do fogo. O seu amuleto, como você já disse, é a terra. Lokesh quer unir as cinco partes para dominar o poder do amuleto de Damon.
—Entendo. — seus dedos faziam desenhos aleatórios na própria perna — A história que você contou, sobre os dois... Lokesh era pai da noiva de Dhiren?
—Sim. — Ren enrijeceu ao percebeu que Kadam contaria à ela — Lokesh era pai de Yesubai e arranjou o casamento entre ela e Ren, mas ele tinha um plano mais complexo do que isso. Ele usou a inocência da filha, fez com que ela manipulasse os dois, porém isso não saiu como o esperado. Ela realmente gostava deles e se sacrificou na tentativa de salvá-los. — concluiu — E foi quando eles foram amaldiçoados.
—Ela não era inocente. — Ren se manifestou tornando-se homem. Estava sentado no chão ao lado da poltrona de Kadam, trajando as roupas brancas e abraçando uma das pernas — Yesubai aceitou fazer parte do plano do pai. Ela concordou.
—Não fale assim dela, Ren. — Kishan transformou-se em homem, confrontando o irmão — Ela se sacrificou por nós.
—Ela nos colocou nessa situação. — retorquiu — Ela compartilhava dos planos do pai.
—Meninos, não acho que seja o momento ideal para essa conversa. — Kadam interveio
—É sim. — Ren trincou os dentes — Já está na hora de Kishan aceitar o que Yesubai fez.
—E você também. — a voz fria e calma de Aghata cortou a tensão e Ren a encarou, sua boca se abriu para confrontar as palavras dela, mas a garota não permitiu que ele continuasse — Está claro, cristalino como a água, que o que ela fez afeta você com mais intensidade do que admite, porque você gostava dela, provavelmente a amava. Por isso toda essa revolta. O seu sentimento por ela, torna o que ela fez pior do que realmente é. — Ren fechou a boca, limitando-se a aceitar as palavras dela — Mas você precisa entender que, apesar do que ela fez antes, quando Yesubai precisou escolher... Ela escolheu vocês. Ela se sacrificou e isso significa alguma coisa.
—Ela foi obrigada pelo pai. — Kishan murmurou — Ela tinha medo de enfrentá-lo.
—E, no entanto, ela o enfrentou quando percebeu o que Lokesh realmente queria fazer. — Aghata concluiu
—Talvez você tenha razão. — Ren cedeu depois de um silêncio longo demais
—Acho que precisamos descansar. — Kadam se pronunciou — O dia de hoje foi exaustivo. O quarto de hóspedes foi transformado em um depósito, afinal nós nunca recebemos visitas, mas vou providenciar isso amanhã, para que você tenha um espaço na casa, Aghata.
—Não precisa se preocupar com isso, senhor. — colocou-se em pé — Qualquer lugar em que eu possa descansar está de bom tamanho.
—Você é parte de nossa equipe, agora. — ele sorriu — Será tratada como uma de nós. Durga confiou você à nossos cuidados e honraremos isso.
—Não é como se ela se importasse. — murmurou avaliando as próprias unhas
—Ela pode dormir em meu quarto essa noite. — Ren se pronunciou casualmente — Eu não uso o quarto, de qualquer forma, e assim podemos garantir que não vai tentar fugir no meio da noite.
—Eu não poderia fugir, nem se quisesse. — Aghata replicou — Saberia disso se estivesse em meu lugar.
—Mas não estou. — deu de ombros — Não me culpe por esperar que fuja a qualquer momento.
—Seu quarto não é uma boa ideia. — Kishan interveio — Você quase arrancou o braço dela mais cedo. Quem garante que não fará algo parecido?
—Foi um acidente. — cruzou os braços, adotando uma postura defensiva
Ren podia sentir que estavam finalmente atingindo o limite, depois de tanto tempo.
Se perguntou o que aconteceria quando chegasse à esse ponto.
Viviam confinados naquela casa por muito tempo, tendo apenas Nilima e Kadam como companhia e evitando interagir entre si.
Dois irmãos que se evitavam.
Isso parecia ir contra a natureza.
—Ele teve sorte. — a garota abriu um sorriso torto que transbordava desaforo — Só conseguiu me acertar porque fui convocada e, quando um guerreiro é convocado para uma missão, ele fica extremamente vulnerável. — discorreu — Então não se iluda, bichano, — os olhos cobalto faiscaram irritados com o apelido — porque não pode me vencer em um embate e, se não fosse o chamado que precisei responder, eu teria vencido você.
—Podemos resolver isso quando você quiser. — ele retorquiu
—Estou a disposição, alteza. — fez uma reverência irônica
—Gosto dela. — Kishan sorriu
—Falou o gatinho mal humorado que me ignorou na floresta. — ela replicou — Ainda pretendo reportar sua indelicadeza à Damon, se me permite lembrar.
—Definitivamente. — Ren concordou abrindo um pequeno sorriso vendo Kishan torcer o nariz — Eu gosto dela.
—Eu causo esse efeito nas pessoas. — deu de ombros
—Acho que, por hoje, será melhor Aghata dormir no quarto de Nilima. — Kadam sugeriu
—Se ela não se importar. — a garota voltou-se para Nilima
—Será uma honra dividir meu quarto com a guerreira de Durga.
=x=x=
Aghata caminhava pelos corredores seguindo Nilima. Subiram para o segundo andar e ela viu, através da porta aberta, a porta de vidro da varanda que ela quebrou. Parou por um instante observando o estrago, então um tigre branco passou por ela, resvalando os pelos macios em suas pernas, e adentrou o quarto. Nilima seguiu, abriu a última porta do corredor e sumiu lá dentro.
—É seu quarto? — indagou vendo-o subir na cama enorme e macia — Gostei da decoração. Parabéns pelo bom gosto.
—Nem tanto. — o tigre deu lugar ao homem com as roupas brancas de algodão — É pequeno e simples.
—Pequeno e simples? — cruzou os braços, por algum motivo ainda não estava acostumada com as transformações súbitas e sem aviso — Me pergunto como descreveria o quarto que eu ocupei no Santuário durante a maior parte da vida.
—Fale-me sobre esse Santuário. — pediu sentando-se na beirada da cama
—Não há o que falar. — deu de ombros — Uma construção milenar de pedra, ao sopé de algumas montanhas no Himalaia.
—Como era lá?
—Péssimo.
—Então porque não abandonou o lugar?
—Porque eu não podia.
—O que a impedia?
—Porque se importa?
Silêncio.
—Imaginei. — afastou-se da porta — Melhor eu ir.
—Eu só... — Ren encarava as próprias mãos apoiadas no colo — Passei anos sem nenhum tipo de contato humano. Por mais de cem anos, não consegui assumir a forma humana e, de alguma forma, isso se tornou possível quando você chegou. Como se as correntes tivessem sido soltas quando você entrou pela porta. Eu só... — deu de ombros — Queria entender como.
—Não posso explicar como. — ela interrompeu os passos, mantendo-se na soleira da porta — Nem mesmo consigo entender tudo isso ainda. Possivelmente você sabe mais do que eu.
—Como pode? — o olhos cobalto a encaravam e ela via a profundidade dos oceanos ali, sentia que poderia se afogar naquele azul intenso caso se permitisse encará-lo por muito tempo — Você é protegida de Durga.
—Você fala como se isso fosse uma benção. — suspirou — Existem muitas coisas que você não sabe sobre Durga, mas me sinto inclinada a lhe dizer que ela adora guardar segredos. Ela não me falou sobre o amuleto de Damon. Ela não me falou sobre Lokesh. Ela não me falou sobre a maldição do tigre. Ela me deu um pedaço de papel e me jogou na floresta para que eu descobrisse sozinha o que precisava fazer. — sustentou o olhar dele — Eu estou tão no escuro quanto você.
O tigre negro adentrou o quarto pela varanda transformando-se no belo homem de olhos dourados.
—Você fez um grande estrago. — ele comentou — Eu queria ter visto isso.
—Não foi tão bonito quanto parece. — deu de ombros — Posso garantir que já tive melhores performances.
—Fala como se sua vida fosse cheia de aventuras. — jogou-se sobre a cama do irmão
—Você ficaria surpreso se soubesse uma ou duas coisas à meu respeito, gatinho. — voltou seus passos para o fim do corredor — Preciso dormir. Boa noite.
=x=x=
Kishan, em sua forma de tigre, estava deitado na cozinha observando Aghata com atenção e segurando o riso. Três horas da tarde e ela estava com os braços cruzados encarando a porta aberta do microondas e um pote com algo congelado la dentro. Ela usava uma calça de moletom laranja e uma blusa fina, com mangas longas cor de marfim.
—E agora? — voltou-se para o tigre negro — Nilima disse que era só colocar ali para descongelar.
—Eu não posso acreditar que você nunca mexeu em um microondas. — Kishan se transformou em homem rindo da situação dela — Onde você morava? Em uma caverna?
—No Santuário não existia nenhum eletrodoméstico e nem eletrônicos. — cruzou os braços irritada com o tom debochado dele
—Como é? — fechou a porta do aparelho e apertou alguns botões — Isso é serio?
—Eu pareço estar mentindo? — retrucou e ele explodiu em uma gargalhada — Idiota. — resmungou rumando para a sala
—Ei, desculpe. — ele se apressou segurando-a pelo pulso — Não quis ser rude, mas é inacreditável você viver sem acesso à eletrônicos ou eletrodomésticos.
—Inacreditável é você viver sem um cérebro. — replicou — E eu não fico jogando isso na sua cara.
—Calma aí, bilauta. — soltou-a ainda mantendo um sorriso divertido — Pode guardar as garras, não há necessidade de se armar contra mim.
—Imbecil. — falou entre dentes
Aghata deu as costas à Kishan, rumando para a sala, mas ele tornou a segurar seu braço, puxando-a de encontro à ele, porém, com um reflexo rápido, ela se livrou do aperto e se colocou às costas do moreno, prendendo seu braço.
Mas o espaço era menor do que parecia. Ela esbarrou em uma bandeja e algumas xícaras se despedaçaram ao encontrar o chão.
O barulho reverberou pelo ambiente e ela se afastou de Kishan imediatamente.
—Merda. — resmungou sentindo um calafrio subir por sua espinha
—Está tudo bem. — Kishan ainda ria, mas se calou quando percebeu a postura rígida dela — Bilauta? — se aproximou, mas ela recuou com a expressão endurecida
—Se afaste. — seu tom era baixo e ameaçador — Agora.
—O que houve? — Kadam irrompeu na cozinha com o tigre branco em seu encalço — Escutei um barulho e fiquei preocupado. — então seus olhos pousaram nos cacos aos seus pés — Ah, foi isso. Estão bem?
—Sim. — ela assentiu rigidamente — Eu esbarrei.
—Foi minha culpa. — Kishan se pronunciou
—Cale a boca. — a garota replicou em um rosnado — Fique fora disso.
—Está tudo bem. — Kadam sorriu de forma tranquila — Nilima pode limpar isso em poucos minutos.
—Não está tudo bem. — Aghata posicionou as mãos ao lado do corpo e encarou-o — Como Heram costumava dizer "um pedido de desculpas não concerta o que foi corrompido, é preciso quitar o débito".
=x=x=
Kadam entendeu que algo estava errado no momento em que as palavras deixaram os lábios dela então se obrigou a analisar seu comportamento com cuidado.
A postura era rígida e sua expressão vazia, mas os olhos brilhavam em uma revolta contida. Ela inclinou a cabeça em uma pequena reverência e ele percebeu que os movimentos dela não tinham nada de natural. Uma submissão forçada. Uma aceitação resignada. Como se ela esperasse que algo terrível acontecesse, mas não estivesse disposta a repelir.
Como se ela soubesse que não podia evitar.
—Aghata. — chamou com a voz baixa e esperou que ela o encarasse — Quem é Heram?
—Foi o mestre responsável por meu treinamento no Santuário. — respondeu com a voz dura, sem alterar a expressão
—E o que, exatamente, ele queria dizer com "quitar o débito". — perguntou com cuidado
—Eu não possuo dinheiro para pagar pelo prejuízo, então... — ela inspirou longamente e Kadam aguardou com paciência — Ele aplicava castigos.
—Que tipo de castigos?
O silêncio era perturbador e, por mais que ela demorasse para responder, ele sabia que ela faria. Era parte de seu juramento. Ela responderia tudo o que ele perguntasse.
—Ele determinava de acordo com o seu humor. — as mãos, posicionadas rigidamente ao lado do corpo, fecharam-se em punho — Quando estava de bom humor, ele apenas me deixava duas ou três noites sem dormir, me escalando em rondas noturnas na floresta. Quando estava irritado ele... — baixou os olhos e suas mãos deslizaram para a frente enquanto ela alisava o próprio pulso sob a manga comprida com cuidado — Digamos apenas que ele levava o treinamento à um nível extremamente difícil.
—Não conheço Heram, mas não concordo com seus métodos. — Kadam se aproximou segurando-a pelos ombros com delicadeza — Foi um acidente e acidentes não devem ser punidos.
Ela se esquivou e seu olhar se tornou felino, como se esperasse um golpe sorrateiro e desleal.
Kadam se perguntou, pela primeira vez, sob quais circunstâncias ela era treinada. Quando ela disse ser guerreira de Durga, ele a imaginou com privilégios e treinamentos diferenciados, jamais cogitou algo que beirasse a tortura.
Três noites sem dormir? Inadmissível.
Perguntou-se o que ela quis dizer com "treinamento extremamente difícil", mas imaginou que não gostaria de descobrir.
—Kishan, chame Nilima. Diga que preciso dela aqui. — aproximou-se dela novamente e, dessa vez, ela não se esquivou
O príncipe deixou a cozinha com o tigre branco em seu encalço.
—Não sei com o que conviveu até aqui. — pronunciou com cuidado — Não sei a que tipo de coisas você foi submetida, criança, mas espero que entenda que ninguém aqui vai machucá-la. Não acreditamos que a violência seja o caminho para aprender qualquer coisa.
—Ficaria surpreso com o que se pode aprender com a violência.
E então ele lembrou do embate no dia anterior e da forma desenfreada dos golpes dela. Não havia espaço para falhas. Era violento, devastador e frio. Ela lutava com o objetivo de aniquilar seu adversário. Cada golpe era fatal.
—E você ficaria surpresa com o que se pode aprender com a compaixão. — replicou — Precisará se adaptar aqui. Somos pacíficos. Não aceitamos comportamentos como esses que Heram incitava.
—Vou me esforçar.
E Kadam soube, pelo brilho profundo nos olhos dela, que tudo estava em paz.
E que, talvez, tudo desse certo.
E, pela primeira vez, ele pôde ver um sorriso vindo dela.
Um sorriso real e simples.
Limpo.
=x=x=
—É enorme. — manteve-se imóvel na soleira da porta observando o cômodo com cuidado — Não preciso de um espaço tão grande.
—Bobagem. — Nilima riu pegando-a pela mão
O quarto era grande e bem decorado; uma cama king size com um colchão extremamente macio, travesseiros de plumas, um tapete felpudo, uma escrivaninha com um notebook e agendas para anotações. Havia um quadro com uma paisagem abstrata pendurado na parede atrás da cama e um dossel com cortinas de seda. Uma poltrona grande e confortável ficava no canto mais afastado do quarto com um abajur comprido ao seu lado. A porta de vidro dava acesso à varanda com vista para a floresta.
Tudo variando em cores de branco, preto e cinza.
Ela surpreendeu-se ao ver que tinha um banheiro particular com banheira e água quente, assim como surpreendeu-se ao ver o tamanho do closet e a quantidade de roupas que haviam ali.
—Gostou? — Kadam estava apoiado no batente da porta com os braços cruzados e um pequeno sorriso
—É incrível. — avançou para a varanda vendo que era comprida e dava acesso à outros dois quartos, haviam poltronas confortáveis dispostas de forma irregular — Não precisava ter se incomodado.
—É nossa convidada de honra. — ele replicou — Isso é o mínimo que podemos fazer.
—É enorme. — repetiu ainda aturdida
—Se tudo o que você reparou foi o tamanho do quarto, então acho que errei na decoração. — Nilima disparou colocando-se ao seu lado
—Desculpe, não me entenda mal. — levou uma de suas mãos à própria nuca massageando levemente — A decoração é linda, Nilima, e eu estou tão impressionada com ela, quanto estou impressionada com o tamanho do cômodo. Se você visse o quarto no qual dormi por todos esses anos, entenderia porque eu estou assim.
—Tudo bem. — riu segurando-a pelas mãos — Fico imensamente feliz em saber que gostou.
—E eu fico imensamente feliz em saber que se esforçou por mim.
E sorriu.
Outra vez.
Por algum motivo, desde que chegou àquela casa, os sorrisos se tornaram mais fáceis.
=x=x=
Uma semana se passou.
Kadam e Aghata passavam a maior parte do dia na biblioteca buscando por pistas sobre Lokesh e os amuletos, Nilima mantinha a casa funcionando como deveria, Ren permanecia em seu quarto e Kishan se ocupava caçando.
O tigre negro simplesmente não conseguiu se aproximar de Aghata desde o incidente na cozinha.
Ele sentiu-se mal quando percebeu o que realmente tinha acontecido e o que aquilo significava para ela — ainda lembrava-se do que farejou vindo dela e, embora soubesse que não era medo, sabia que era algo bem parecido. Ele era desastrado, essa era sua marca, mas não fazia de propósito. Sabia que era errado, mas sentia-se bem vendo que Ren também permanecia longe dela desde o ocorrido.
Estava escuro, possivelmente já passava das duas da madrugada, quando ele voltou de mais uma caçada noturna. Com um salto atingiu a varanda e percebeu que Aghata havia deixado a porta de vidro aberta. A varanda dava acesso à três quartos; o seu, de Aghata e de Ren. Vencido pela curiosidade, decidiu que não havia nada de errado em ver se estava tudo bem.
Estava preocupado com a segurança dela, tentou convencer a si mesmo, não era uma curiosidade puramente egoísta.
Mas não conseguiu.
As cortinas cinzentas balançavam suavemente e, com passos cuidadosos, ele as atravessou encontrando Aghata deitada no enorme tapete felpudo sob um lençol fino e sem travesseiro. Ela trajava um pijama claro e comprido que escondia seu corpo completamente e ressonava baixinho.
Sentou-se e tombou a cabeça levemente, imaginando como ela conseguiu cair da cama e não acordar com o impacto.
Então uma lâmina se enterrou na parede ao lado de sua cabeça — poucos centímetros de sua orelha — e o despertou de seus pensamentos.
Ela sentou-se apertando o lençol com uma mão e empunhando uma segunda lâmina com a outra. Seus olhos verdes faiscavam como mil tempestades, seus cabelos castanhos caiam por seus ombros lhe dando um ar selvagem e os lábios entreabertos estavam rosados.
—O que quer? — Aghata perguntou ao perceber que não se tratava de um inimigo
Ela levantou-se e se aproximou do tigre negro, arrancando a lâmina da parede em um movimento fluido e leve. Kishan pensou que ela pegaria o lençol e voltaria para a cama, mas não o fez.
Para a sua surpresa, ela voltou a se deitar no tapete, depositando as duas lâminas ao seu lado, e se cobriu parcialmente.
—Por que está dormindo no chão? — adotou a forma humana, mas permaneceu sentado no mesmo lugar, a observando
—O colchão é macio demais. — estava deitada de costas, encarando o teto
—Isso é ruim?
—Não estou acostumada. — suspirou — Minhas costas doem e eu não consigo dormir.
—Porque não fala com Kadam? — perguntou — Ele certamente traria um colchão mais duro, se é o que prefere.
—Ele já tem coisas demais para se preocupar. Não precisa de mais inconvenientes.
—Ele não se importaria.
—Eu me importaria. — informou — Estou bem. Não precisa se incomodar comigo.
—Garota teimosa. — ele pronunciou em hindi
—Príncipe intrometido. — ela respondeu no mesmo idioma
—Fala hindi? — a testa estava franzida
—Fui criada no Himalaia como protegida de Durga, que é uma deusa indiana. — replicou — Acredita mesmo que não me ensinariam o idioma de minha patrona divina? — seu olhar encontrou os olhos dourados dele — É claro que prefiro o inglês, mas, embora ninguém se importe, eu sou espanhola.
—Espanhola? — a surpresa genuína estava estampada nas feições dele — Isso é sério?
—Sim. — assentiu levemente — Nasci em Barcelona. Meus pais ainda moram lá. Fui levada para o Himalaia quando tinha cinco anos de idade, por ordem de Durga.
—Você é estranha.
—Obrigada por me lembrar, gatinho. — voltou o olhar para o teto — Você também não tem nada de normal, se me permite a observação.
—Sou um príncipe, não preciso ser normal.
—E eu sou uma guerreira, não posso ser normal.
Silêncio.
Kishan sentia seu tempo como humano escorrer entre seus dedos.
—Porque ela escolheu você?
—Não sei.
—Qual o interesse dela na maldição do tigre?
—Não sei.
—Porque ela enviou você para nos ajudar?
—Não sei.
—Só sabe dizer isso?
—Só sabe fazer perguntas? — retrucou lançando-lhe um olhar levemente irritado
Silêncio.
Por algum motivo, Kishan simplesmente nunca sabia o que dizer à ela.
—Sinto muito. — disparou em um sussurro — Pelo que aconteceu na cozinha. — continuou — Eu não tinha a intenção de...
—Tudo bem. — o interrompeu — Sei que não fez por mal, então apenas esqueça aquilo.
Ele assentiu.
—Não consigo me acostumar com a ideia de um tigre se transformar em homem. — Aghata comentou subitamente — Estou à uma semana nessa casa e me surpreendo toda vez que vejo isso.
—É porque prefere o tigre. — ele abraçou uma perna junto ao peitoral largo deixando a outra esticada — Percebo seu desconforto com minha forma humana, mas por algum motivo sente-se à vontade perto do animal.
—Não é nada pessoal. — deu de ombros — É só que... Se você tivesse convivido com as pessoas com as quais eu convivi, certamente iria preferia os animais.
—Sente-se à vontade com Kadam.
—Ele é diferente. — esclareceu — Convocou meus serviços. Eu respondo à ele. E também, ele me passa uma sensação forte de segurança. Confio nele.
—Ainda assim, não sente medo. — assinalou — De nenhum dos dois; homem ou animal.
—E porque eu deveria? — deitou-se de lado apoiando a cabeça em uma das mãos, elevando o rosto para olhá-lo nos olhos — Não há espaço em mim para o medo.
—Existe um limite que separa a coragem da imprudência.
—E eu o atravessei há muito tempo. Nada aconteceu.
—O perigo reside na imprudência. — falou e ela bufou levemente — Estou falando sério. Qualquer dia desses você pode se machucar ou...
—Morrer. — Aghata completou com descaso — Acha que eu me importo? A morte é inevitável, todos os caminhos levam à ela. Não há como fugir disso.
—Fala como se não se importasse com a vida. — observou uma sombra atravessar os olhos verdes, mas foi rápido demais para que pudesse identificar
—Eu me importo com a vida. — sua voz era baixa quando ela voltou a se deitar de costas — Você pode não acreditar em mim, príncipe, mas eu me importo e valorizo ela. E, embora não pareça, esse meu jeito torto e errado é a única forma que possuo para lutar por minha própria vida. — fechou os olhos — Mas não me importo de morrer lutando por aquilo que eu acredito. Penso que uma morte honrada vale mais do que uma vida vazia e sem propósito.
—Meu tempo está acabando. — inspirou longamente sentindo os espasmos leves — Ficará bem?
—Eu sempre fico bem. — abriu os olhos fixando-os nos dourados profundos que brilhavam mais do que tesouros lendários — Mas pode ficar aqui se quiser, afinal o tigre não me incomoda. — sorriu e ele soube que ela o estava provocando
—Talvez eu deva lhe mostrar como um felino pode ser irritante.
—Nem todos os felinos reunidos seriam tão irritantes quanto o príncipe, gatinho.
—Boa noite, bilauta. — sorriu e o tigre negro surgiu
Aghata deitou-se de bruços e fechou os olhos. Kishan observou-a por alguns instantes e então deitou-se ao seu lado, suas costas contra as costas dela.
—Boa noite, gatinho.
A voz baixa o atingiu como uma brisa suave e então ele mergulhou em sono sem sonhos.
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