Ela corria entre as árvores de forma silenciosa e precisa. A floresta a sua volta parecia se dobrar a sua vontade, como uma serva fiel e dedicada, engolindo suas pegadas, encobrindo seus rastros e abrindo seu caminho.

A calça cheia de bolsos e a blusa de mangas longas eram de um algodão cinza e confortável, ajustando-se à sua silhueta definida e torneada com precisão. Uma longa katana estava presa às suas costas, espreitando sobre o ombro direito, duas adagas firmavam-se na base de suas costas e uma lâmina curta se escondia em sua bota esquerda. Entre seus seios, um pequeno amuleto descansava, preso ao seu pescoço por uma tira de couro gasto.

Um presente de Durga.

A pele era pálida, tão clara quanto porcelana. O cabelo castanho e liso, na altura da cintura, estava preso em um rabo firme e sua franja permanecia presa atrás de uma das orelhas. Os olhos verdes brilhavam tomados pelo fogo que ardia em sua alma.

Saltou, lançando-se em uma árvore alta, subindo-a com uma facilidade assustadora, alcançando seu topo em questão de segundos. Sem emitir um único ruído.

Amanhecia.

O sol nascia preguiçosamente no horizonte e ela fechou os olhos para apreciar a sensação contra sua pele.

Todos os dias, durante os primeiros momentos da manhã, quando corria sozinha pela floresta, ela sentia-se livre.

Livre como deveria ser.

Livre como nasceu para ser.

Livre como seria.

—Um dia. — sussurrou, a voz carregada e quebrada por repetir a mesma promessa por anos a fio — Um dia farei minhas escolhas e trilharei meu caminho.

Inspirou longa e profundamente.

A ideia de fugir havia deixado de ser tentadora há muitos anos, quando compreendeu que jamais conseguiria. Como guerreira de Durga, ela não podia abandonar sua missão sem que a deusa permitisse. Tragédias aconteceram todas as vezes que ela tentou deixar o Santuário.

Incêndio.

Terremoto.

Inundação.

Furacão.

Todos os elementos naturais pareciam empenhados em mantê-la presa à deusa de oito braços e ela já estava exausta de lutar contra isso.

Um sino soou ao longe, tão suave quanto a brisa, despertando-a de seus devaneios.

Durga a chamava.

—Tão cedo? — resmungou deixando a árvore e rumando à passos rápidos para o templo

Uma construção simples e empoeirada, escondida entre as árvores, que apenas ela e a deusa conheciam. Adentrou o lugar de supetão encarando a estátua de madeira envelhecida, aproximou-se do altar depositando sua katana aos pés da deusa e tocou o pequeno sino que descansava ao lado do enorme tigre. A espada irrompeu em chamas, porém não se consumiu.

Durga e Damon ganharam vida à sua frente.

Ela permaneceu em pé.

Nada de reverência.

Nunca se colocaria de joelhos diante de Durga.

—Coração. — a deusa sorriu com ternura deixando o altar e envolvendo a garota em um abraço

—Madrinha. — cumprimentou retribuindo o abraço de forma seca e dura — Damon. — ela baixou o olhar para o felino imponente que rugiu baixo em resposta, mas não se moveu

—Não posso acreditar que está completando dezoito anos. — Durga afastou-se alguns centímetros para olhar a garota nos olhos — Aghata de Los Reyes. Minha guerreira. Meu coração.

—Não posso demorar. — levou a mão direita ao amuleto, brincando com ele entre os dedos — Heram vai sentir minha falta. Hoje pode ser meu aniversário, mas isso não significa nada para ele.

—Entendo. — assentiu, ainda com com um enorme sorriso — Chamei-a aqui por que tenho um presente.

—Mais uma arma? — indagou com um suspiro cansado — Não me entenda mal, Madrinha. Sei que sou sua guerreira e que é uma honra receber uma arma de suas mãos. Sei que mandou fazê-las especialmente para mim, mas... — torceu o nariz — Eu já tenho praticamente um arsenal em meu quarto. São mais armas do que sou capaz de usar. Eu não tenho oito braços como você.

—Ah, não se trata de armas, Coração. — riu divertida — Sei que lâminas não são mais capazes de colocar um sorriso em seu rosto, então fui atras de outra coisa.

Damon ergueu a cabeça e afastou as enormes patas revelando um pequeno embrulho cinza. Durga o pegou com cuidado.

—Sei que existem muitos desejos em sua alma. — a deusa se aproximou novamente — Sei que você almeja muitas coisas que eu não posso lhe dar agora, Coração, mas acredito que, por hora, isso será suficiente para demonstrar minha boa vontade para com você.

Aghata pegou o embrulho entre seus dedos, abrindo-o com cuidado e viu um pequeno IPod cinza com fones de ouvido da mesma cor.

—Basta pensar nas músicas que quer escutar e ele irá reproduzir. Também sintoniza rádios de todo o mundo. Não há necessidade de recarregar a bateria. — Durga informou — Sei que gosta de música, Coração.

—Eu... — as palavras fugiram de sua boca e sua mente ficou turva

Aquele era o primeiro presente de verdade que ganhava de Durga. Um presente para si mesma. Todos os outros presentes deveriam ser usados para lutar pela deusa, mas aquele IPod não. Ele era seu.

Vivia em um Santuário, escondido entre as montanhas do Himalaia, sem acesso à televisão, telefones, celulares, computadores ou qualquer tipo de eletrônicos. A última lembrança que tinha de colocar mãos em um objeto assim foi no dia de seu aniversário de cinco anos, quando estava assistindo desenho animado e um sacerdote de Durga apareceu em sua porta levando-a para longe.

Sua mãe não impediu.

Seu pai não impediu.

Disseram um 'adeus' sem lágrimas e deixaram-na partir.

Não falou com eles desde então.

Cartas de sua mãe ainda chegavam aos montes, mas ela nunca leu nenhuma. Apenas usava o papel para manter a lareira de seu quarto alimentada.

—Eu nem sei o que dizer. — sussurrou voltando o olhar para a deusa a sua frente — Muito obrigada, Madrinha.

—Isso é tudo o que posso lhe dar no momento, Coração. — segurou a garota entre seus braços

—Esse é o melhor presente que já me deu. — seus dedos acariciavam o eletrônico como se fosse um tesouro valioso

—Damon escolheu a cor. — sorriu — Ele diz que o cinza é a mistura perfeita entre o branco e o negro. — o tigre negro rugiu como se confirmasse suas palavras — Agora vá. Se apresse. Outro presente está à sua espera no Santuário.

=x=x=

"Aquele que canta como o canário irá indicar o caminho para a liberdade

Ele irá lhe mostrar a missão que precisa ser realizada

Sua palavra será lei

Sua vontade será ordem

Onde ele a quiser, você estará

O que ele precisar, você fará

Ajudará as duas crianças selvagens

Pois o propósito delas se enlaça com o seu

E, com um último suspiro, sua missão será completa e sua alma será livre"

As palavras no pequeno pergaminho causaram um arrepio desconfortável em sua pele e uma agitação incômoda em seu estômago. Assim que chegou ao Santuário, foi dispensada do treinamento para conversar com o Mestre Maior, que já a aguardava em sua sala enorme e mal iluminada — o Santuário era uma construção rústica de pedra que, para Aghata, emanava frio, medo e crueldade. Pensou que ser dispensada do treinamento seria algo bom, até ler aquelas palavras que destruíram seu dia.

Durga havia dito que um presente estava à sua espera ali, mas aquilo não parecia um presente.

Aghata o chamaria de castigo.

—Terei que seguir as ordens de um desconhecido? — indagou largando o papel sobre a mesa encarando o homem a sua frente

—Desconhecido para A Gata. — ele sorriu e ela torceu o nariz

Ela detestava o modo como Phet — o Mestre Maior do Santuário — pronunciava seu nome, mas nunca se manifestou sobre isso, pois os castigos lhe incomodavam muito mais do que a forma como era chamada.

—Exato. — assentiu — Vou ter que obedecer alguém que eu não conheço.

—Durga conhece. Durga escolheu. Durga decidiu. — replicou

—Então peça para Durga servi-lo. — cruzou os braços

—Estamos falando de conseguir a liberdade de A Gata. — empurrou o pergaminho em sua direção, incitando-a a pegá-lo novamente — Durga já é livre. Não precisa lutar pela liberdade. Esse presente de aniversário pertence a A Gata. Canário vai guiar A Gata para a liberdade.

—Maravilhoso. — resmungou — Pensei que minha liberdade dependia de servir Durga, mas vou precisar servir um estranho que é servo dela.

—Servo dela que canta como canário. — Phet sorriu animado — Canto do canário é lindo. Canário é lindo. A Gata deveria ficar feliz. Durga lhe deu ótimo presente de aniversário.

—Vou ser a pessoa mais feliz do mundo no dia em que for livre, Mestre. — levantou-se guardando o pergaminho em um de seus bolsos e caminhou em direção à porta — Até lá, contento-me em sobreviver, um dia após o outro.

E saiu.

Phet inclinou-se sobre a mesa encarando a porta aberta.

=x=x=

O quarto era pequeno, com moveis de madeira simples e gastos pelos anos. Uma cama de solteiro, um armário de duas portas, uma mesa abarrotada de lâminas de diversos tamanhos, uma lareira e alguns livros sobre as artes da guerra jogados no chão aos pés de sua cama. Os lençóis e travesseiros eram de um tom de cinza, assim como suas poucas peças de roupas.

Aghata estava deitada de bruços no colchão duro, com fones nos ouvidos e remexendo no IPod, absorta em milhares de pensamentos sobre como encontraria o desconhecido que canta como o canário.

Principalmente por que não poderia simplesmente deixar o Santuário.

Não poderia simplesmente ir procurá-lo.

—Merda. — resmungou afundando-se entre os lençóis

Então a porta se abriu em um rompante e um Phet ofegante adentrou seu quarto.

A Gata precisa ser rápida. — ele jogou os lençóis no chão vendo-a se colocar em pé em salto

—O que está acontecendo? — indagou assim que o homem colocou uma capa pesada e cinzenta sobre seus ombros

—Santuário está sendo atacado. — tocou o pequeno amuleto que pendia no pescoço alvo dela — Homem mau quer amuleto mágico de A Gata. Ele quer roubar presente de Durga.

—Vou ensiná-lo boa maneiras, então. — Aghata estralou seus dedos preparando-se para procurar pelo inimigo — Ninguém rouba a guerreira de Durga.

—Não! Não pode! — Phet a segurou pelos ombros, era mais baixo do que ela, de modo que a garota precisou baixar os olhos — Homem mau é muito perigoso. A Gata precisar estar livre para poder lutar contra ele. A Gata precisa libertar a força que possui para vencer.

—Mestre... — foi interrompida pelas armas que o homem colocava em suas mãos — Eu não sou mais uma criança e não tenho medo.

—Rápido, rápido. Precisa sair daqui. Precisa ir atrás da liberdade. Precisa procurar aquele que canta como canário. — disparou ansioso — A Gata não tem medo, Phet sabe disso, por isso vai encontrar canário sozinha. A Gata é forte. Vai conseguir. Mas precisa ir embora agora.

Aghata guardava as armas com rapidez. A katana em suas costas, as duas adagas na base das costas, uma lâmina curta na bota esquerda, um punhal no quadril, uma lâmina longa nas costas ao lado da katana e alguns dardos na perna direita. Empunhou duas lâminas gêmeas e seguiu Phet quarto à fora com elas em mãos. Precisaria deixar algumas de suas armas para trás, mas carregaria quantas pudesse. Carregava o IPod em um de seus bolsos internos — jamais o deixaria para trás.

Phet a levou por uma série de corredores que ela desconhecia e, ao abrir a última porta, ela se encontrou de frente para a floresta densa e escura.

A Gata sabe o que fazer. — ele estava ao seu lado e ela sabia o que Phet esperava

—Não posso, Mestre. — sussurrou recuando um passo — Não posso ir. Não posso deixar esse lugar. Só os céus sabem o que vai acontecer se eu tentar ir embora outra vez.

—Phet está liberando você. — segurou o rosto dela entre as mãos — Está livre desse lugar para que possa seguir seu caminho e cumprir sua missão.

Então uma brisa reconfortante os atingiu e ela sentiu como se um pesado cobertor fosse removido de sua alma. Quase pode ouvir os barulhos das correntes que a ligavam ao Santuário se romperem, tinindo ao seu redor. Aquelas amarras estavam sendo rompidas no momento em Phet pronunciava as palavras.

Então ela soube.

Ela estava livre daquele lugar.

Ela estava livre para partir.

Ela estava livre para lutar por sua liberdade.

Abaixou-se tocando o solo com as duas mãos e fechou os olhos. Sentia o amuleto queimar em seu peito.

Terra.

O elemento com o qual Durga havia a presenteado.

Poucos minutos se passaram, então um lindo cavalo malhado surgiu a sua frente e ela cavalgou para longe sentindo o ar pesado e quente segui-la. Sabia que o Santuário estava queimando. As pedras queimavam e se tornavam cinzas com as pessoas em seu interior.

E ela não podia fazer nada.

O pergaminho guardado em seu bolso pesava como chumbo.

Mas sua alma pesava infinitamente mais, com a morte de tantos inocentes acumulando-se sobre si.

—Madrinha! — Aghata adentrou o templo em rompante esperando encontrar a deusa e pedir sua ajuda por aqueles que ficaram no Santuário, mas o altar de madeira estava vazio

Durga havia sumido.

Damon havia sumido.

Sobre o altar velho e despedaçado, um pequeno papel amarelado descansava. Ela leu seu conteúdo e soltou um grito de frustração, amaçando o papel e enfiando em um de seus bolsos. Àquela altura de sua vida, ela deveria estar acostumada a ver as tragédias acontecendo ao seu redor. Àquela altura de sua vida, ela deveria estar acostumada a simplesmente dar as costas e aceitar.

Mas ela não conseguia.

Cada morte. Cada acidente. Cada tragédia.

Pairavam sobre sua cabeça lembrando-lhe que ser escolhida de Durga nunca foi uma benção.

—É a minha maldição. — lembrou a si mesma enquanto montava o cavalo outra vez mergulhando na floresta densa com as palavras que a deusa escreveu naquele pequeno papel preenchendo a sua mente

Rumou para o Santuário.

"O que o fogo consome, não pode ser restaurado. Eles se foram. Encontre o canário.

Durga."

Notas finais
Mais um capítulo produzido por minha mente insana >.<' Comentem aí a opinião de vocês, eu realmente adoraria saber ;D