"Vá para Nova Deli. Mantenha-se nas florestas.

Durga."

O segundo bilhete chegou à ela, entregue por um canário cinzento.

Ela sabia que a deusa estava evitando-a — mantendo-a longe das cidades e dos templos — e agradecia mentalmente por isso, pois ainda não estava pronta para encará-la depois de atitude tão egoísta. Aghata havia tentado voltar para o Santuário, ignorando a ordem de Durga, mas as árvores fecharam-se como uma muralha intransponível bloqueando seu caminho. Ela tentou usar o amuleto, tentou usar as adagas, tentou escalar e cada tentativa levava à um fracasso ainda maior.

Seus braços doeram, se cortaram e sangraram. Suas pernas cederam e encontraram a terra úmida. E seu corpo absorveu todas as dores trancando-as dentro de si, como sempre fizera, em um lugar que ela se recusava a visitar.

E ela foi vencida e inocentes morreram pela causa de uma deusa ingrata.

E ela precisou aceitar isso e seguir seu caminho.

Acordou no dia seguinte com o canário cantando e o bilhete a sua frente. Desde então ela cavalgava incansavelmente na direção que lhe fora designada. Alimentava-se de frutas, dormia muito depois de anoitecer e acordava pouco antes do amanhecer.

Um dia após o outro.

Chegou à Nova Deli algumas semanas depois, mas não se atreveu a deixar a floresta, vagando pela mesma sem um destino definido.

Foi quando os encontrou.

Homens enormes com símbolos estranhos tatuados ao lado esquerdo do rosto. Eles estavam acampando entre as árvores, escondidos por magia quando ela os viu. Pretendia apenas ignorá-los, mas mudou de ideia quando os escutou conversarem sobre a busca pelos amuletos e sobre como haviam falhado na busca pelo amuleto da terra no Santuário.

Sua visão embaçou tamanho o ódio que a dominou quando se deu conta de que os homens acampados eram responsáveis pela desgraça que recaiu sobre as pessoas inocentes que ela deixou para trás.

Foi quando ela mandou tudo à merda.

Durga.

Damon.

A missão.

O canário.

As ordens.

Ela queria vingança e foi buscar. Fez o que nasceu para fazer. Fez o que foi treinada para fazer. Fez o que sabia fazer de melhor. E, antes que algum deles percebesse o que estava acontecendo, ela os matou. De forma rápida e limpa. Não houve gritos e nem resistência.

—Está feito. — sussurrou deixando que o vento carregasse suas palavras enquanto limpava a lâmina de sua katana na capa cinzenta de peles que recebeu das mãos de Phet

Então percebeu a presença do enorme tigre negro de olhos dourados que a observava.

=x=x=

Farejou a magia à quilômetros de distância — como uma brisa suave e refrescante que lhe atingiu com delicadeza, relaxando cada músculo de seu corpo, removendo o peso de sua alma — e a seguiu, mas jamais imaginou que presenciaria tal cena.

Aproximadamente quinze corpos jaziam sem vida no pequeno acampamento enquanto uma garota limpava a espada no centro da carnificina. E a magia que ele sentia emanava dela. Ele sabia que deveria adotar uma postura de ataque e destruir a garota — considerando seu longo histórico negativo com magia — e ele o faria, mas foi impedido pelo olhar profundo e tranquilo que ela lhe lançou.

—Se não fosse por seus olhos dourados, eu poderia jurar estar diante de Damon. — não havia medo ou receio em sua postura e ela parecia completamente à vontade diante dele

Rosnou em resposta, mas manteve-se no mesmo lugar.

Por algum motivo, o instinto que lhe incitava à atacá-la havia ido embora e sido substituído por completa curiosidade. Talvez tivesse relação com o fato de que os homens mortos eram todos servos de Lokesh — como as escritas tatuadas do lado esquerdo do rosto indicavam. Kishan os estava procurando há quase uma semana, mas simplesmente perdia seus rastros e demorava para encontrá-los outra vez. Sabia que eles estavam se escondendo com magia, mas, pelo que via diante de seus olhos, a magia dela era mais forte.

E ela era inimiga do feiticeiro.

—Eu sei. — assentiu levemente guardando a katana às suas costas — Damon pode ser insuportável quando quer. Desculpe a comparação. — aproximou-se e se ajoelhou diante dele — Mas, se me permite dizer, seus olhos são mais bonitos que os dele, gatinho.

Kishan quis sorrir e, por um momento, se pegou imaginando se a garota a sua frente ficaria tão à vontade se estivesse diante do homem ao invés do tigre. Mas o pensamento se foi tão rápido quanto veio. Há mais de cem anos ele e seu irmão não conseguiam assumir a forma humana. Kadam acreditava que fosse algum efeito colateral da maldição do tigre, mas ele não tinha tanta certeza.

—Então. — ela se levantou de súbito, ajeitando a roupa com as mãos — Está aqui por um motivo e eu imagino que seja para me levar à um lugar seguro, portanto pode ir andando. — colocou as mãos na cintura, aguardando ele se mover — Vou segui-lo.

O tigre negro ponderou por alguns instantes sobre o que deveria fazer e, por fim, decidiu que seria uma boa ideia levá-la até Kadam.

Parecia o certo no momento.

Ela precisava de um lugar para ficar e Kadam precisava de informações sobre Lokesh — algo que a garota a sua frente parecia possuir.

Colocou-se a caminhar em um ritmo calmo sendo seguido de perto pela desconhecida e surpreendeu-se ao ver como a floresta parecia se dobrar à presença dela. Os galhos recuavam para sair de seu caminho, os animais — até mesmo os selvagens — aproximavam-se dela com cuidado e reverência e o solo — acidentado em certos pontos — se firmava apenas para que ela o atravessasse com segurança. Tudo na floresta parecia convergir ao redor dela.

Caminharam por horas a fio, quando Kishan decidiu parar para que a garota pudesse descansar.

—Cansado, gatinho? — ela perguntou encostando-se em uma árvore e estendeu um braço, então um fruto caiu em sua mão

Ele observou ela comer a fruta como se sua demonstração de poder não fosse nada demais.

Ou como se estivesse acostumada à isso, de uma forma que o tigre negro não estava.

Rosnou baixo voltando a caminhar com a garota em seu encalço se perguntando como ela conseguia ter uma resistência tão grande.

Talvez fosse sábio ignorá-la durante o resto do caminho.

=x=x=

Aghata havia ganhado o amuleto assim que chegou ao Santuário e Phet a ensinou como usá-lo. Ela conseguia dobrar a terra à sua vontade, assim como todos os elementos ligados à ela. Animais selvagens sempre foram seus amigos de modo que ela sentia-se mais segura entre eles do que entre pessoas. As árvores pareciam sempre possuir um fruto doce e suculento a disposição para saciar sua fome. A própria natureza parecia em paz com ela e disposta a suprir suas necessidades. Sabia que isso acontecia por causa do amuleto que Durga lhe dera — mesmo que não entendesse ao certo o que o amuleto representava, uma vez que a deusa não lhe contou nada a respeito e Phet se recusava a lhe dar respostas -, mas a própria deusa havia lhe dito uma vez que a magia corria em seu sangue.

Talvez fosse uma combinação das duas coisas.

Independente disso, qualquer que fosse a origem de seu poder, parecia não afetar o tigre negro.

Ela não o temia, assim como não temia nenhum animal — até então ela conseguia controlar todos os animais ligados a terra -, mas o tigre negro estava à parte disso. Ela não conseguia controlá-lo. Sabia que ele estava guiando-a a algum lugar, mas ele fazia isso por escolha própria — fosse qual fosse o motivo que o levava a fazer isso. Ela não conseguiu manipulá-lo, como fazia com todos os outros.

De alguma forma, aquele belo animal era especial.

Provavelmente enviado pela própria Durga.

—Então. — falou depois de longas horas em silêncio — Durga enviou você?

Aghata não sabia que tipo de resposta esperava — talvez um rugido, um rosnado ou um aceno, como Damon costumava fazer frente às suas investidas -, mas certamente não esperava ser ignorada pela fera que seguia.

—Você é um tigre negro, provavelmente descendente de Damon, então com toda certeza foi enviado por Durga.

Mais silêncio.

O tigre nem mesmo a olhou.

—Seria educado de sua parte responder quando falam com você.

Os animais selvagens despertavam nela a única coisa boa que possuía e, exatamente por esse motivo, sentia-se tão à vontade com eles. Até mesmo Damon lhe tratava bem, mesmo com seu eventual mau humor. Logicamente não estava acostumada a ser ignorada por eles.

—Da próxima vez que eu encontrar com Damon, vou lhe ensinar uma ou duas coisas sobre educar seus descendentes. — resmungou — Damon pode ser insuportável quando quer, mas jamais deixa uma dama falar sozinha.

O tigre parou e voltou os olhos dourados para encará-la, algo desconhecido para ela brilhava ali e, pela primeira vez, ela não conseguiu entender o que um animal selvagem estava lhe dizendo.

Mas iria aproveitar a atenção do belo tigre.

—Ah, então você tem medo que eu reporte seu mau comportamento à Damon! — cruzou os braços e o tigre emitiu um barulho que ela compreendeu como uma risada — O que? Acha mesmo que eu não teria coragem? No seu lugar, eu não duvidaria. — então o tigre sentou-se à sua frente firmando o seu olhar — Entendi, você acha que eu não conheço o tigre de Durga. — ele assentiu — Ficaria surpreso se soubesse uma ou duas coisas a meu respeito, gatinho.

=x=x=

"Ela conhece Damon."

Aquilo era ridículo.

Kishan simplesmente não conseguia conceber a ideia de que aquela garota conhecia o tigre da deusa.

Não sabia quem era ela ou o que havia trazido-a até ali, mas, por alguma razão, ela parecia acreditar fielmente que ele era um enviado de Durga para guiá-la à algum lugar.

Imaginou que, provavelmente, ela ficaria decepcionada quando soubesse quem ele era realmente: um príncipe com mais de trezentos anos, amaldiçoado e sozinho que, por interesses egoístas, estava levando-a para a própria casa.

Mas o que ela faria se descobrisse?

O amaldiçoaria?

Ele quase riu de sua desgraça.

—Esse lugar é lindo.

A voz dela despertou-o de seus devaneios.

A floresta terminou no jardim da enorme casa e ele pôde ver Kadam apoiado em um balcão na cozinha conversando com Nilima. Rugiu e viu o homem se apressar para o jardim com a neta em seu encalço.

—Kishan! — ele sorria ao se aproximar — Vejo que trouxe uma amiga. — estendeu a mão para a garota — Sou Kadam.

—Sou Aghata. — apertou a mão dele com firmeza — Então esse tigre rabugento é seu? — o tigre negro rosnou irritado — Um nome bonito para um tigre mau humorado. O Mestre Maior contou-me histórias sobre um príncipe chamado Kishan.

—Contou? — Kadam encarou o príncipe buscando por respostas, mas Kishan estava tão surpreso quanto ele

—Sim. — deu de ombros levemente cruzando os braços — Se trata de um antigo Império chamado Mujulaain que foi governado por um grande rei. Sabedoria, vigilância, bravura e compaixão. Essas foram as características marcantes do soberano Rajaram. Alagan Dhiren e Sohan Kishan eram os príncipes. Mas imagino que conheça a história.

=x=x=

Sentado em sua poltrona preferida, com o tigre negro aos seus pés, Kadam observava a garota caminhar pela biblioteca contemplando a infinidade de livros. Por algum motivo desconhecido Aghata estava em sua sala, com mais informações do que deveria ter e, de alguma forma, ela nem mesmo sabia a importância dessas informações.

—Disse que conhece a história dos dois príncipes de Mujulaain. — falou escolhendo as palavras com cuidado

—Sim. — ela assentiu levemente sem desviar sua atenção

—Sabe o que aconteceu com eles? — disparou e sentiu Kishan enrijecer aos seus pés

—Sumiram. — pegou um livro folheando-o com cuidado — O Mestre Maior disse que ninguém ouviu falar deles depois que a noiva do príncipe herdeiro, Dhiren, morreu sob circunstâncias misteriosas. — devolveu o livro à estante e se voltou para Kadam — Escolheu esse nome em homenagem ao príncipe, não foi?

Príncipes. — juntou as mãos observando-a com cuidado — Existe um tigre branco nessa casa que atente pelo nome de Dhiren.

—Vejo que o senhor realmente aprecia história. — baixou o olhar para o enorme felino — Assim como aprecia os animais selvagens. Adoraria conhecer o outro tigre.

—De fato. — assentiu — Kishan, pode encontrar Dhiren e trazê-lo aqui? — indagou — Sinto que nossa conversa será longa.

Kadam observou o tigre negro deixar a sala de forma lenta e insegura. Ele sabia que Kishan não gostou de ter sido dispensado, mas precisava ficar à sós com a garota.

—Um belo animal. — ela comentou — E muito inteligente.

—Existe uma teoria interessante sobre o destino dos dois príncipes. — recostou-se de forma confortável na poltrona ignorando a observação dela — Gostaria de escutar?

—Existem duas coisas no mundo que jamais devem ser recusadas. — sentou-se no enorme tapete felpudo com as pernas dobradas na posição de lótus — Uma xícara de chá e uma boa história.

—A história diz que a noiva do príncipe Dhiren era filha de um perigoso feiticeiro que tinha como objetivo dominar Mujulaain, mas não conseguiu. Então ele arranjou o casamento entre sua filha e o príncipe herdeiro, mas algo deu errado. Ele tentou matar os dois irmãos, porém sua filha os protegeu com a própria vida. Ela morreu pela mãos do pai em uma tentativa de salvá-los e os dois príncipes foram amaldiçoados. — discorreu buscando por qualquer sinal no rosto dela, mas a garota permanecia impassível e atenta às suas palavras — Tornaram-se tigres. Um branco e um negro. Assumiam a forma humana apenas por alguns minutos durante o dia.

—E como termina? — indagou e, por sua expressão de interesse, Kadam soube que ela realmente desconhecia aquela parte

—Ninguém sabe. — deu de ombros — Não há registros.

—Uma bela história. — seus dedos faziam desenhos aleatórios na própria perna — Espero que seu fim seja igualmente belo.

—Eu também. — assentiu levemente — Mas... Me diga: de onde vem? — juntou as mãos em frente ao rosto observando-a com cuidado, principalmente a quantidade de lâminas que ela ostentava

—De longe. — colocou-se em pé ajeitando as roupas — Estou apenas de passagem. Devo continuar meu caminho.

—Para onde vai?

—Para onde Durga me levar.

Havia algo na expressão dela que fez Kadam acreditar que aquela resposta era mais literal do que ele gostaria. Havia algo sobre ela — o modo cuidadoso com o qual se movimentava, a postura sempre alerta, como se esperasse um ataque à qualquer momento — que o deixava inquieto. E ele podia sentir o que ela emanava. Força. Poder. Magia. Isso o preocupava.

Foi quando seus olhos pousaram no amuleto que descansava entre os seios dela.

—Onde conseguiu isso?

Colocou-se na frente dela mais rápido do que deveria, com o pequeno amuleto entre seus dedos.

A expressão dela se tornou dura.

—Não importa. — o tom cortante atingiu Kadam como um soco enquanto ela tomava o objeto de suas mãos e escondia sob as roupas

Ele sabia que tinha feito exatamente o que não deveria fazer.

Mas não pôde se controlar.

Aquilo ainda era estranho demais até mesmo para seus padrões.

—Kadam!

Então o mundo explodiu em sua mente em um emaranhado de pensamentos caóticos quando Dhiren atravessou a porta da biblioteca.

Ele estava em sua forma humana, depois de mais de cem anos.

=x=x=

Aghata repreendeu-se mentalmente por tamanha burrice.

Devia ter percebido que algo estava errado no momento em que o homem começou a fazer perguntas demais.

Tudo estava errado. O lugar. O ambiente. O homem. O tigre! Por Durga! Os olhos do tigre negro eram dourados — a cor errada! A cor de Damon era vermelho — e ela deveria ter entendido isso no momento em que o viu.

Pegou-se imaginando que talvez — uma voz no fundo de sua mente insistia naquela hipótese — Kadam fosse o responsável pelas mortes no Santuário, afinal ele demonstrou um interesse incomum em seu amuleto. E também precisava levar em consideração que havia encontrado os assassinos próximos daquela casa.

Isso tinha que significar alguma coisa.

E — considerando seu longo histórico com tragédias — não era coisa boa.

Isso tudo sem levar em consideração o belo homem de olhos azuis, que agora corria atrás dela pela casa.

—Esse lugar é pior que o Santuário! — resmungou em voz baixa

Ela havia deixado a biblioteca correndo o mais rápido que podia empurrando o homem alto de olhos azuis para longe de seu caminho, mas não conseguia encontrar uma saída. Subiu as escadas para o segundo andar e abriu a primeira porta que encontrou. Um quarto enorme com poucos móveis e ricamente decorado em tons de branco e azul. Avançou até a porta de vidro que dava acesso à varanda sem importar-se em abri-la. Jogou-se no vidro, sentindo os fragmentos grudarem sua pele enquanto a enorme porta se tornava cacos. Avaliou a altura, considerando os riscos da queda inevitável, enquanto escutava os passos apressados pela escada.

Eles estavam chegando.

Não havia tempo.

Encarou a porta no exato momento em que o homem dos cabelos escuros e olhos cobalto apareceu na soleira. Ele parecia realmente aflito.

—Espere! Eu só quero conv...

Jogou-se flexionando as pernas, usou os braços para girar o corpo e o amuleto para amortecer a queda. Colocou-se de pé em um movimento e correu em direção a floresta, porém patas fortes atingiram suas costas e o impacto levou-a ao chão.

Um rugido atravessou o jardim e — ainda no chão, caída de bruços — ela levantou a cabeça levemente para encarar o enorme tigre branco que estava sentado entre ela e a floresta.

Bufou irritada colocando-se em pé e pôde ver Kadam correndo em sua direção.

—Mande seu animal sair de minha frente, agora! — bradou

—Não queremos lhe fazer mal. — o homem tentou se aproximar, mas recuou assim que ela sacou as lâminas gêmeas que ficavam em suas coxas e o tigre branco rosnou

—Não se aproxime. — falou entre dentes

Por um momento amaldiçoou aquele amuleto inútil que não exercia controle sobre aquele tigre dos olhos azuis, assim como não exercia controle sobre o tigre de olhos dourados.

—Nós só queremos conversar. — Kadam levantou as mãos

—Eu não quero conversar. — adotou a postura de defesa — Eu quero ir embora e, se precisar passar por cima de você e de seu animal, então eu farei.

O tigre branco colocou-se a frente do homem exibindo as garras e as presas em um aviso silencioso para manter distância, porém Aghata entendeu como um desafio.

E ela nunca recuava frente à um desafio.

—Ah bichano, eu também tenho garras. — ajeitou as lâminas em suas mãos sorrindo friamente — E as minhas garras são mais afiadas do que as suas.

E avançou.

Ela soube que o tigre não queria machucá-la no terceiro golpe quando — com uma mordida — ele poderia ter arrancado sua mão, mas recuou permitindo que ela acertasse suas costelas, lançando-o longe com um baque. Então ela se aproximou de Kadam — que se limitava a desviar de seus golpes, recusando-se a atacá-la.

Em um movimento preciso, ela acertou um chute no peito do homem e ele caiu à alguns metros.

Ela sabia que Kadam e o tigre branco estavam apenas se defendendo de seus ataques e isso despertou nela algo que não soube identificar.

—Por favor, senhorita. — o homem se colocou em pé com alguma dificuldade — Se me deixar explicar...

—Não quero suas explicações! — bradou voltando a posição de ataque — Quero que me deixe ir embora.

—Dhiren! Vá chamar Kishan! — o tigre rosnou com revolta negando com a cabeça — Precisamos dele aqui!

—Não tenho medo de seus animais, velho! — cuspiu entre dentes — Não serei subjugada por eles e nem por você. Me recuso a permitir que faça comigo o que seus homens fizeram com meus irmãos por causa desse amuleto!

—Meus homens? Seus irmãos? — balançou a cabeça em negação — Não compreendo sobre o que está falando, senhorita.

—Eu sou a guerreira de Durga, homem estúpido. — estava ofegante, mas, devido à anos de treinamento, conseguia se manter firme — Jamais irei permitir que tome algo que me pertence e farei com que pague pelas vidas inocentes que tirou. Não devia ter atravessado o meu caminho e agora vou lhe mostrar do que sou capaz.

Ela avançou, mas foi interceptada pelo tigre branco e os dois rolaram pelo gramado. Suas lâminas gêmeas voaram para longe e ela se viu com as mãos vazias à alguns metros do belo tigre que mantinha a posição de ataque. Empunhou as duas adagas que descansavam na base de suas costas e avançou sobre o animal.

Então o canto do canário cortou o ar e Aghata sentiu a brisa gélida, desconfortável e opressora cair sobre ela como um pesado cobertor apagando a chama intensa que a dominava instantes atrás.

Ela havia encontrado o canário e ele estava convocando os seus serviços.

E uma força maior do que ela, maior do que ela podia controlar, a obrigou a largar as adagas e cair de joelhos — como se uma enorme pressão estivesse sobre seus ombros, obrigando-a a se curvar.

O enorme tigre — que não havia percebido o que aconteceu — avançou cravando os dentes em seu antebraço com mais força do que ela esperava e Aghata trincou os dentes reprimindo o grito que subiu por sua garganta, porém um gemido quase inaudível escapou. Ele largou imediatamente e ela viu nos olhos azuis o quanto ele estava assustado.

E ele se tornou um homem bem na sua frente.

O mesmo homem que havia invadido a biblioteca e a perseguido pela casa.

—Desculpe. — ele se aproximou, as mãos bagunçavam os cabelos negros nervosamente enquanto os olhos azuis brilhavam de desespero — Eu não queria machucá-la. Eu não tive a intenção. Perdão.

—Você... Como...? — as palavras ficavam presas em sua garganta conforme tentava formular uma frase decente

Pelos céus!

Ela conhecia Durga — uma deusa de oito braços — e Damon — um tigre negro e irritante de olhos vermelhos!

Não deveria estar surpresa por ver um tigre se transformar em um homem!

Mas estava.

—Isso está horrível. — ele tocou seu antebraço e ela estremeceu

Foi quando um rugido ecoou e ela viu o tigre negro saltar pelas árvores em sua direção.

Ele pulou sobre o homem, lançando-o longe e rosnando. O belo tigre a circundava, como se quisesse garantir que ninguém se aproximaria dela.

—Afaste-se, Kishan! — os olhos azuis faiscavam

Então ela viu o tigre negro se transformar em homem e sentiu o coração quase parar.

—Mas o que...? — ela não conseguia assimilar o que estava acontecendo a sua frente

Cogitou que, talvez, estivesse em uma floresta mágica, afinal todos os animais decidiram tornar-se humanos — aparentemente.

—Você está louco, Ren! — Kishan bradou — O que estava pensando?

—Foi um acidente! — defendeu-se

—Não pareceu. — retorquiu — Se Kadam não tivesse me chamado, desconfio que só encontraria os pedaços dela aqui. Você está fora de controle, irmão!

—Kishan...

—Cale a boca! — e lhe deu as costas aproximando-se dela

Ele se ajoelhou à sua frente e ela viu os olhos dourados incisivos e cativantes a encarando.

—É melhor levá-la para dentro. — constatou depois de ver a extensão do machucado

—Como isso é possível? — sua voz saiu em um sussurro, então lembrou-se do pergaminho que Phet lhe dera — Aquele que canta como o canário. As duas crianças selvagens. São vocês.

—O que disse? — o tigre negro indagou sem compreender o significado de suas palavras, mas ela o ignorou

—A história que contou, — sua cabeça virou-se levemente até encontrar os olhos de Kadam — sobre os dois príncipes, é real, não é? — o viu assentir — São eles. — sua mente trabalhava furiosamente para compreender tudo o que acontecia à sua volta, mas, pela primeira vez em sua tão curta vida, ela tinha dificuldade — Os homens na floresta trabalham para o homem que os amaldiçoou? — seus olhos recaíram sobre Kishan e ele assentiu — Isso significa que esse homem matou meus irmãos e está atrás de meu amuleto.

—Era o que eu estava tentando lhe dizer. — a voz suave de Kadam transbordava compreensão pela atitude devastadora da garota — Temos dois amuletos como o seu. Lokesh quer eles também.

—Entendo. — assentiu concentrando-se na própria respiração — Você... Você cantou como um canário, não foi?

—Sim. — a resposta dele a atingiu com força e ela pôde sentir as correntes amarrando-a novamente, prendendo-a de forma bruta e fria. Mas então ela se obrigou a lembrar que nunca esteve livre de verdade — É meu código com os meninos. Quando preciso deles, os chamo com o canto do canário, assim eles sabem que se trata de mim.

Ela obrigou seu corpo a funcionar outra vez e se colocou em pé com certa dificuldade — recusando a ajuda do homem dos olhos dourados. Aproximou-se de Kadam, que a observava com o cuidado que se dedica à um animal com comportamento estranho, e ajoelhou-se perante ele desembainhando sua katana e depositando-a a seus pés.

—Convocou meus serviços, senhor. — respirou profundamente controlando a dor — E, por ordem de Durga, minha vida e minha espada pertencem à você.

Notas finais
Iaew galera ;D Mais um capítulo e como ninguém se manifestou ainda, vou interpretar o silêncio como aprovação e deduzir que vocês estão gostando, certo? Certo! hahaha Beijos & até o próximo capítulo =*