A Guerra do Alvorecer
2 Viagem de todo fim de semana
Sempre me pergunto se as pessoas que me acordam cutucando, gritando ou balançando, têm algum problema mental. Cara, todos que me conhecem sabem que tenho o sono extremamente leve, e acordo com muita facilidade. AVISO: se não quiser ser xingado e ter um virginiano chato pelo resto da manhã, nunca me acorde desse jeito. Mas parece que a Gabrielli não aprendeu e nunca vai aprender isso.
– Dal, Dal, Daaaaaal acorda!!
Calmamente me virei para o lado dela e falei com uma calma maligna – Filha de uma quenga, saia do quarto agora se você não quiser ficar com os óculos tortos.
E a bendita nem fica com medo e continua com seu discurso de quem adora ver as pessoas “emputecidas”.
– Tudo bem, mas levante rápido que hoje tem evento. Ah, o Dan pediu pra eu gritar no seu ouvido que era pra você ir cedo para o evento pra ajudar ele organizar o chalé.
Agora me espreguiçando e me acostumando com a claridade do sol entrando pela janela. Dei uma olhada no relógio e eram 10h30min – eu estava atrasado – ou seja: Dan reclamando por eu dormir demais e me atrasar. Já levantando com a voz rouca e muito mal humorado – Como se não bastasse aquela vez que o Marti gravou um áudio gritando e você colocou no meu ouvido, agora tem o Dan… Mereço viu.
Eu não estava nervoso, nunca fico realmente nervoso com essas zoeiras, logo estou com o humor normal e vou de bem com a vida rumo á mais um evento. Enquanto a Gabrielli saia do quarto eu me levantava e ia em direção ao banheiro, passando pela sala, entrou um vento fraco pela janela e atingiu meu rosto, e para o meu espanto o vento trazia o cheiro da brisa do mar, o que me fez lembrar-se daquele sonho maluco que tive essa noite. Então rapidamente fui para o banho e falei para mim mesmo em voz alta – isso é doidera da sua cabeça, Gabriel. Você não mora perto de nenhuma praia (infelizmente), então isso é impossível.
Depois de tomar banho e me arrumar fui tomar café, e nesse meio tempo fiquei lembrando-me do sonho, pois não conseguia tirá-lo da cabeça, de jeito nenhum. Logo arrumei minha mochila e fomos para o evento. Durante o caminho até o ponto de ônibus a Gabrielli ficou calada, e de vez em quando saia á minha frente de skate. Chegamos ao ponto e em menos de 1 minuto o ônibus chegou, e para minha felicidade era o ônibus que fazia o menor caminho até o Ibirapuera. Quando entramos tinha apenas dois lugares vagos, porém um ficava lá no fundo e o outro mais a frente do ônibus. Gabrielli que estava na frente foi para o fundo do ônibus e eu fiquei no assento restante. Chegando ao parque descemos do ônibus e começamos a atravessar a ponte no mesmo silencio. Logo quando a Gabrielli encontrou um espaço onde o chão da ponte desse pra andar de skate, ela subiu sobre as quatro rodinhas e saiu remando, ela olhou pra trás e fez um sinal que eu reconheci e logo soube o que significava – te encontro no bosque.
Eu andava tranquilo, ouvindo música e observando as coisas ao meu redor. Chegando ao fim da ponte avistei uma daquelas vendedoras de bijuterias sentada no chão e como sempre parei para olhar. Dentre muitas pulseiras, nomes entalhados em madeira e várias outras coisas, tinham as pedras, lindas pedras, que era o que me chamava atenção e o verdadeiro motivo que me fez parar. Enquanto eu olhava eu ia perguntando os nomes das pedras que eu tinha esquecido, a senhora que estava vendendo-as ia citando as funções de cada uma delas. Mas uma pedra em especial me chamou a atenção e como de praxe perguntei o seu nome e sua função, pois eu nunca a tinha visto. Agachado e de cabeça baixa pude ouvir uma voz de mulher, porém, não era a voz da senhora vendedora, era uma voz mais jovem e com certa malícia enquanto falava sobre a pedra:
– Essa pedra… Uma pedra muito poderosa, ela se chama “Acálicis”. A pedra da magia Segundo os mitos ela pertenceu há milhares de anos á bruxa das bruxas, a deusa Hécate. Capaz de dar poderes sobrenaturais para aqueles que a obterem.
Achando esse assunto muito estranho, levantei minha cabeça devagar, olhei para a senhora… Ela estava completamente paralisada e com a cabeça inclinada diretamente para mim, seus olhos estavam brancos com uma luz forte que emanava poder. Ao meu redor tudo se movia em câmera lenta, era como se eu estivesse dentro de uma caixa que aumentasse a velocidade das coisas aqui dentro de uma forma que tudo lá fora se movesse muito devagar. Então, a senhora continuou:
– Porém, ela tem a capacidade de tornar a vida da pessoa que não tiver a alma nobre o suficiente para utilizá-la, um completo inferno.
De repente tudo começou a girar rapidamente ao meu redor, comecei a ficar muito tonto e me levantei vagarosamente da minha posição agachado. Tentando me equilibrar, consegui focar minha visão na senhora durante alguns segundos, minha visão foi assombrosa — a senhora estava ajoelhada no chão com os braços abertos olhando para cima enquanto uma fumaça branca saia de sua boca, e então cai e coloquei a mão no rosto, mas mesmo assim tudo continuava a girar. Forcei-me a me concentrar e consegui me levantar, me equilibrando com dificuldade, ainda com os olhos fechados. Cerrei meus punhos e franzi meu cenho me forçando a se concentrar, então, consegui abrir os olhos. A fumaça que saia da boca da mulher estava ficando mais fraca e seus músculos começavam a relaxar. Ao meu redor, a coisas paravam de girar e iam voltando ao normal.
Agora, quando tudo estava voltando ao normal, me encaminhei á mulher que estava se levantando com dificuldade, consegui olhar nos olhos dela – agora, puder ver seus olhos castanhos claros e uma expressão amedrontada -. Ajudei-a se levantar, e a coloquei sentada no caixote de madeira. Olhando fixamente nos meus olhos ela pegou minha mão e colocou acálicis na palma da minha mão direita, e fechou-a falando:
– Menino Gabriel, sua alma é humilde e nobre. E você acaba de receber a missão de encontrar a pessoa responsável por manipular essa relíquia e instaurar a paz no mundo espiritual.
Continuei com a pedra em minha mão direita e pousei minha mão esquerda sobre os compridos e lisos cabelos grisalhos, com delicadeza e uma certa pena da senhora que parecia tão perturbada – Minha senhora, não faço ideia do que acabou de acontecer aqui. E por incrível que pareça, não estou com medo de você, apenas preciso de uma explicação pra tudo isso.
Segurando minha mão fechada sobre a pedra com sua mão esquerda a senhora acariciou o lado esquerdo do meu rosto, respirou fundo e falou:
– Desculpe meu filho, mas não posso interferir nas decisões lá de cima. Você foi o escolhido e eu acabei de cumprir minha missão. Siga seu caminho, mas permaneça com essa pedra junto de seu corpo por todo lugar que for. Na hora certa você saberá o que deve fazer com ela. Seja corajoso.
Antes que eu pudesse falar algo, ouvi um barulho agudo em meus ouvidos tudo ficou branco e voltei ao momento em que descia do ônibus seguindo a Gabi. Tudo ainda estava muito fresco em minha memória, eu lembrava cada palavra e cada sensação que tive. Em minha mão estava uma pedra roxa com manchas pretas e no meio da pedra eu podia ver uma chave dourada que brilhava intensamente quando o sol a encontrava. Ainda muito confuso com tudo que aconteceu resolvi ficar calado e escondi rapidamente a pedra em meu bolso.
E então tudo se repetiu até o momento que Gabi saia de skate na minha frente. Não tinha ninguém no lugar onde a senhora estava, neste exato momento senti um aperto no coração, mas segui meu caminho até o bosque.
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