Eu nunca pensei que fosse passar por isso. Essa sensação de ter tirado os sonhos de alguém é algo sufocante. Porque as coisas tem quer ser assim? Porque temos que matar seres humanos para salvar a vida de outros? Porque as outras dezenas de deuses não se reúnem e salvam Hécate por si só? Eles não deixariam que a raça humana se acabasse, já que sem ela, eles não existiriam. O jeito é engolir essa coisa que está entalada na minha garganta que ora me dá vontade de vomitar e ora me dá vontade de gritar, jogar tudo para o alto e sumir.

Seguíamos em direção à Union City na madrugada mais sinistra que já enfrentei na vida. Quando saímos do hotel apenas com roupas de calor, não fazia frio nenhum. Agora o frio fazia meus músculos tremerem e tentava fazer com que minhas pernas travassem. Isso não era normal, eu conheço muito bem essa sensação já que sou médium. Essa sensação é de quando há algum espírito ligado em algum nível com a morte por perto. Eu poderia estar errado, mas tinha como tirar a dúvida. Acelerei o passo um pouco e toquei no ombro de Dan:

Está...

— Sim... Não precisa nem falar. – Ele também estava sentindo, óbvio que estava.

Me concentrei e equilibrei minhas energias, isso controlaria a minha sensibilidade.

O caminho inteiro foi um completo silêncio. Jazy olhava para nós como se estivesse procurando por algo, mas nenhuma palavra foi dita por nenhum de nós. Algo que me surpreendeu foi que Agatha de nós cinco foi que ficou menos abalada com as mortes. Não que ela não tenha demonstrado pesar com o que aconteceu, mas acho que agora mais do que nunca ela tem pleno controle de sua mente e talvez isso a ajude guiar seus sentimentos.

Depois de mais uns quarenta minutos caminhando em ritmo acelerado, chegamos pela John F. Kennedy Boulevard ao que evidentemente era o centro comercial de Jersey City.

— Chegamos ao túnel que atravessa o rio até Manhattan, mas não iremos por ele, a essa hora é escuro demais, vazio e um ótimo esconderijo para monstros. Faremos o mais difícil, dar um jeito de atravessar o rio navegando. – Falou Jazy. Arrumar algo algum barco, bote, ou o que fosse àquela hora, era encrenca na certa e todos sabíamos disso.

— Gente, acabamos de matar três semideuses poderosos. Porque não enfrentar mais alguns monstros? Estou mesmo precisando descontar minha raiva em algo não humano. – Se pronunciou Marti – Vocês podem ir nadando e limpar a barra por lá enquanto nos esperam. – Falou ele apontando para mim e pro Dan.

Eu sentia que eu levaria menos de dez minutos para atravessar aquele rio. E por mais que ele esteja morto já que está sufocado entre duas cidades, algum contato com água agora seria ótimo.

Vocês sabem muito bem o que eu acho sobre nos separarmos, não é?— Falei – Por mais que sua ideia pareça prática, Marti, não acho que é segura. Logicamente que lutar com outros semideuses é bem mais difícil do quem com monstros. Mas o que me preocupa é que eles podem estar em grande quantidade. E depois do meu sonho no tártaro, depois de Dionísio ter dito que uma filha de Apolo teria um grande papel na guerra, eu venho tendo um pressentimento de que precisaremos de filhos de Apolo nessa guerra, ou seja, vamos evitar que você morra.

— O que exatamente você quer dizer com “pressentimento de que precisaremos de filhos de Apolo nessa guerra.”? – Perguntou Marti.

Não sei, cara. É um pressentimento.— Falei – Então, é melhor não arriscar. — Finalizei.

— Então vamos continuar. Já sei onde talvez arrumemos algo que nos sirva. – Falou Jazy e logo em seguida continuou a caminhada.

Andamos mais quatorze quarteirões e viramos à direita em direção do rio na 45th street. Nesse ponto da cidade, havia uma mescla muito saudável de comércios, moradia e órgãos institucionais, e como antes já descrito, as ruas eram limpas, bem organizadas, arborizadas e cuidadas. Eu gosto muito da arquitetura americana por conta dos seus elementos vintage em 90% de seus imóveis, e em Jersey city não havia prédios de mais de cinco andares, isso dava uma visão muito limpa do céu e diminui a sensação de sufoco que os arranha céus nos desperta.

Descemos cinco quarteirões, viramos à esquerda na Park Avenue e depois de 4 quarteirões viramos à direita na 48th street. Eu já podia enxergar o topo das altíssimas construções de Manhanttan. Chegamos ao fim da 48th street, atravessamos uma avenida e paramos lado a lado num murinho de pedra que separa a calçada de um alto barranco que terminava num túnel de trem. Lago ao lado da ferrovia estava o Port Imperial Ferry Corporation, como indicava algumas placas.

— Esta área é privada. Teremos que ser ágeis e silenciosos para não sermos vistos pelos guardas. – Falou Jazy apontando para o que parecia ser um shopping.

Mas lá tem algo que possamos usar para atravessar o rio?— Perguntei sem entender muito bem do porquê de termos que invadir uma propriedade privada se nem ao menos eu conseguia ver algo que pudesse nos servir.

— Não tenho certeza, mas aqui por perto é o único lugar onde possa ter. – Respondeu Jazy já pulando sobre o muro. Eu não tinha uma ideia melhor, então o que restava era arriscar. Logo todos acompanham Jazy e subimos no pequeno muro.

Não consigo ver onde estão os guardas.— Falei varrendo todo o terreno com o olhar a procura de vigias noturnos.

Ao contrário de todos os outros, Agatha estava encarando algo numa árvore que estava ao nosso lado.

Ei, o que você ta vendo ai?— Perguntei à filha de Atena tentando enxergar o que ela fixava com o olhar na árvore. Ela levantou o braço lentamente e apontou para dois pontos brilhantes entre os galhos das árvores. Devagar desembainhei storm e apontei a pedra para o local onde estavam os dois pontos brilhantes. Era uma coruja grande, robusta de penugem bege e olhos esbugalhados que intimidavam.

O que...— Abri a boca...

— Shhhii – Fez Agatha para mim e eu me calei.

De repente pelo canto do olho pude ver a boca da menina se abrir e soltar um piado baixo, mas muito agudo. Assim como eu, todos se assustaram e voltaram suas atenções para Agatha. Marti tentou falar algo, mas não deixei. De entre os galhos, outro piado saiu, e logo Agatha respondeu com outro. Elas estavam conversando e todos nós ficamos boquiabertos. E assim foi por cerca de dois minutos até que a coruja saiu voando em direção do shopping Port Imperial.

— Ela vai nos ajudar. – Falou Agatha logo depois da coruja ter levantado voo – Ela vai me passar a localidade exata de cada segurança para podermos chegar até a parte de trás da construção.

— Co-como assim? – Dan foi o primeiro a expressar sua surpresa com o que acabou de acontecer – Nem nos livros de Riordan havia uma filha de Atena com esse poder!

— Isso é porque ela é a única filha de Atena que desenvolveu esse poder desde Helena, nascida em Atenas há um século. – Falou Jazy ainda muito surpreso.

Alguns segundos se passaram enquanto encarávamos Agatha estupefatos. A extasia foi quebrada pelo bater de asas da linda coruja que vinha em nossa direção. Ela pousou no braço da filha de Atena e em piados baixíssimos elas conversaram durante alguns segundos e logo a coruja alçou voo novamente.

— Seguinte; ao total há 20 guardas espalhados pelo terreno e todos estão armados. – Começou explicar Agatha e todos pararam para ouvir – Há dois em cada extremidade do terreno, um dentro de uma guarita na entrada do túnel logo abaixo de nós, nove espalhados pelas entradas do edifício, dois de ronda em moto e quatro na entrada para o estacionamento e para o porto. – Eu podia ver nos olhos dela que o plano já estava traçado, o que nos restava era segui-lo. – Primeira coisa: precisamos cobrir nossos rostos. – Imediatamente cada um fuçou sua mochila tirou uma camisa e fez uma espécie de máscara – Marti ficará aqui em cima e vai procurar algum lugar que dê visão para todo o terreno enquanto eu desço e nocauteio o guarda do túnel. Logo depois, Marti terá que nocautear os dois motoqueiros quando eles passarem na guarita que estarei escondida. O grande problema será os quatro guardas da entrada principal do edifício, então, Jazy, você com suas muletas terá de distraí-los e nocauteá-los, já que ninguém atiraria num aleijado que supostamente está desarmado. Depois disso eu e Jazy avançaremos pelas laterais do edifício para nocautear os outros cinco. E ao mesmo tempo Dan nocauteará o dois da extremidade norte e Biel da extremidade sul, e como os dois estarão mais perto do objetivo, os outros quatro também serão seus, logo prepararão o barco para a partida enquanto nos esperam.

É... Na teoria não parece muito difícil. – Falei com a voz abafada por causa da mascara improvisada.

— Vamo descer a favela, bonde. – Falou Dan – To me sentindo um traficante da rocinha. – Todos soltaram uma risada enquanto se dispersavam.

O terreno inteiro parecia ter quase um kilômetro de extensão. Enquanto eu corria sorrateiramente, olhei para trás e consegui ver que Agatha já tinha concluído a primeira parte do plano e já estava dentro da guarita escondida. Cheguei perto do portão e me escondi por entre alguns arbustos, mas tive plena visão do que acontecia no terreno. Rapidamente um motoqueiro foi ao chão e Agatha o puxou para dentro da guarita. Percebi que aquela coruja sabia exatamente o que estava fazendo. A guarita onde estava Agatha era ponto cego para todos os outros guardas. O segundo motoqueiro foi ao chão e Agatha o colocou dentro da guarita junto com o outro desmaiado. Então ela avançou para um emaranhado de árvores que separava a ferrovia do edifício, e ali ficou escondida. Jazy passou por ela, sumiu entre as árvores, mas logo reapareceu encenando um ferimento na barriga e se jogando no chão de barriga pra cima como se tivesse desmaiado. Vi os quatro guardas se aproximarem dele com armas em punho, um abaixou a guarda e agachou ao lado do sátiro, depois de alguns segundos os outros relaxaram a guarda depois de verem que ele não estava armado (nesse momento agradeci quem inventou a névoa mágica que escondia objetos mágicos de olhos mortais). Quando Jazy percebeu que todos estavam de guarda baixa, como um legítimo bode ele se virou com as mãos apoiadas no chão e deu um coice para trás com as duas patas e acertou o rosto de dois guardas à sua frente que caíram desacordados. Sem esperar reação o sátiro nocauteou os outros dois um chute e um soco certeiro. Quando vi Agatha sair do arbusto e ir em direção de Jazy eu soube que era minha vez.

Me veio à cabeça que Dan poderia não estar tendo visão de tudo que acontecia, então me concentrei e o enviei um pensamento: “Nossa vez, irmão”. Logo em seguida pude ouvir sua voz na minha cabeça: “Não sei como, mas eu sei. Vamos lá.”

Sorrateiramente me aproximei do muro ao lado do portão e fui me esgueirando por ele até chegar ao portão. Eu não tinha visão de nenhum dos dois guardas que estavam ali, então pulei e me agarrei com as pontas dos dedos em cima do muro com grades elétricas, olhei rapidamente e consegui ver que um dos guardas estava na guarita e o outro estava andando de um lado para o outro em frente ao portão. Esperei ele virar as costas, peguei storm, cortei os fios elétricos e pulei em cima da guarita, mas antes que o guarda que havia tomado um susto pudesse disparar algum tiro, joguei meu escudo que acertou sua cabeça com a parte oval e o derrubou desacordado. Guardei storm para não ter perigo de machucar o outro guarda e pulei ao lado da porta da guarita no exato momento que ele saia e o derrubei no chão. Apliquei nele um mata leão e rapidamente ele estava desmaiado.

Enquanto eu corria devagar em direção à parte de trás do terreno, vi Agatha agachada ao lado de uma lixeira com dois guardas desmaiados aos seus pés. Ela fez um sinal de positivo com o dedo e mandou que eu continuasse, mas se eu continuasse a correr pelos cantos, seria visto rapidamente. Fui até o edifício e fui me esgueirando pela parede. Quando cheguei no fim dela pude ver os quatro guardas parados em um grande portão de grade de uns cinco metros de comprimento. Encostei-me na parede e pensei em alguma estratégia: mais de quinze metros me separava do portão, eu não seria rápido suficiente para correr e surpreendê-los antes que eles pudessem atirar em mim, e por mais que eu tivesse o escudo, havia chances de ser atingido nas pernas. O jeito era trazê-los até mim. Olhei ao meu redor e encontrei uma lata de lixo de metal. Desembainhei storm e com a parte chata da espada dei três pancadas fortíssimas na lata que fizeram Agatha que estava mais atrás dar um pulo.

— Who’s there? (Quem está aí?)– Gritou algum dos guardas. Fiquei calado e dei mais uma pancada na lata. Em seguida ouvi os passos deles vindo em minha direção. De alguma forma eu soube que vinham dois ao meu encontro.

— We’re armed. Show up with your hands in the air! (Nós estamos armados. Apareça com as mãos para o alto!) – Gritou outro guarda.

Dei outra pancada e os passos aumentaram o ritmo. O primeiro se aproximou, e faltando um passo apenas para ele me ver, sai de trás da parede e o apliquei uma rasteira. Ele caiu fortemente com as costas no chão e o impacto o fez largar a arma, e eu a chutei para longe. Como num flash, pude ver os outros guardas ameaçarem de correr em minha direção, mas um barulho de explosão fez com que eles desistissem. Daí em diante eu não prestei mais atenção neles, pois não podia tirar a atenção do outro guarda que estava a minha frente. Consegui fazer esses movimentos num piscar de olhos, mas quando me voltei para o outro ele disparou em minha direção, mas eu tinha conseguido ver a tensão em seu dedo indicador que estava no gatilho antes de ele atirar, e quando ele o puxou eu apenas levantei meu escudo na altura do rosto e me defendi do tiro. E antes que ele pudesse mirar novamente, pulei em sua direção com um chute giratório que acertou sua mão e fez a arma voar. E para minha surpresa, antes que eu pudesse golpeá-lo, ele o fez. Vi um soco que seria certeiro vir na direção do meu rosto, talvez se ele fosse um semideus eu não conseguiria desviar, mas consegui. O soco passou direto, e antes que ele pudesse repor sua guarda, eu o acertei no rosto com o escudo e ele caiu no chão desmaiado.

Quando virei em direção ao portão, Dan tinha acabado de derrubar o último guarda e então corri em sua direção:

O que foi aquela explosão?— Perguntei ao me aproximar dele.

— Quando eu percebi que eles estavam indo em sua direção eu explodi o galão d´água que tinha na guarita. – Explicou Dan que assim como eu, não parecia estar mais ferido do que quando lutamos contra os três semideuses traidores à algumas horas atrás. Ouvi uns passos apressados atrás de nós, era Agatha correndo em nosso encontro.

Não a esperei chegar até nós. Num movimento só desembainhei storm e cortei as correntes que fechavam os portões, empurrei um deles e atravessamos no estacionamento correndo. No fim dele havia um guarda corpo e a 3 metros abaixo estava um píer com uns 10 barcos ancorados. Sem pensar muito eu e Dan apoiamos uma mão no guarda corpos e pulamos para o píer. Tinha desde barcos pequenos com capacidade para apenas duas pessoas, até iates luxuosos. Mas quando se é um semideus que está num país ilegalmente, que acabou de matar outra pessoa, invadiu uma propriedade privada, roubar estritamente o que precisamos é uma forma de aliviar a culpa.

O segundo menor barco cabia nós cinco. Com storm eu cortei sua corrente e pulei para dentro, Dan veio logo atrás. Em seguida Agatha e Marti pularam no píer e subiram a bordo. À esquerda vi a sombra de alguém vindo correndo em nossa direção, me concentrei na água e preparei um ataque. A pessoa apareceu correndo de trás da parede que sustentava o estacionamento, mas antes que eu a atacasse vi que era Jazy. Ele desacelerou e com uma feição sarcástica falou:

— Tem uma escada. Ou vocês pensaram que os donos dos barcos pulavam três metros com pose de herói igual vocês? – Todos deram risada, Jazy era divertido até em momentos como esse.

Dois metros antes de chegar no barco, um tiro foi disparado e acertou o chão muito perto de Jazy. Todos nos assustamos, e num pulo só o sátiro embarcou. Olhei para cima e havia cinco guardas levantando suas miras e mais um monte vinha descendo pelas escadas dos dois lados do píer. Por sorte ninguém tinha tirado a camisa do rosto ainda. Num impulso me levantei e joguei os dois braços para cima ordenando que a água fizesse um murro que separasse nós dos guardas armados. Uma chuva de tiros acertou o muro d’água.

DAN, TIRA A GENTE DAQUI. RÁPIDO!— Gritei e segundos depois senti o barco arrancar como se fosse uma moto desgovernada. Ele empinou e eu nem sequer me movi com a arrancada brusca, ali eu estava completamente equilibrado. Os tiros não paravam, mas em segundos abrimos uma distância muito boa do píer e então soltei o muro. Por alguns segundos eles continuaram a atirar, mas a distância já era muito grande e os refletores que havia no píer já não conseguiam mais nos alcançar.

— UFA...- Suspirou Dan enquanto sentava em um dos assentos do barco.

— Plano cumprido com quase perfeição. – Falou Agatha com os cabelos ao vento.

Não vamos demorar à chegar em Manhanttan. Então vou dar um mergulho.— Falei levantando e colocando meu escudo nas costas – Vem comigo?— Perguntei à Dan.

— Claro! – Respondeu ele enquanto colocava o escudo nas costas.

Ninguém se opôs à minha ideia, mas pude sentir que eles não estavam tão confortáveis com ela. Eu e Dan pulamos no rio. Meus pelos se eriçaram com o contato com a água, mas de imediato pude sentir a fraqueza daquele rio. Estava mal cheiroso e sua água escura demais. Não era igual ao Tietê em São Paulo, mas ainda assim estava praticamente morto. Nós não precisávamos bater perna para nadar, um movimento como os de sereia já era o suficiente para nos movimentarmos. Fomos lado a lado em direção ao fundo do rio. Eu sabia que cada vez mais estava ficando mais escuro, mas eu continuava a enxergar perfeitamente. A quantidade de peixes era pequena demais, e os poucos que ali estavam, pude perceber que estavam doentes. Sufocar um rio daquele jeito é um grande desperdício de recursos naturais, o maior erro das cidades modernas.

Por mais que estivéssemos nos distanciado do barco, não tínhamos deixado de fazer com que ele se movesse. Dentro de poucos minutos estaríamos em Manhattan. Avistei um pouco mais abaixo um brilho verde, Dan e eu nos encaramos quando essa brilhou começou a crescer. Paramos de aprofundar o rio, mas o brilho continuava a crescer. Ou não... Na verdade, ele estava se aproximando. Desembainhei storm e Dan preparou sua lança. O brilho ofuscava nossa visão e fomos obrigados a desviar o olhar. Logo o brilho diminuiu fomos voltando novamente nossos olhares até ver uma mulher nua de corpo delgado e com cabelos longos sobre seus seios. Ela inteira ainda brilhava no mesmo tom verde de antes de tomar forma.

— Sejam bem-vindos, filhos de Poseidon. – Falou a mulher em nossas cabeças. Sua voz era melódica e suave – Sou Maia, o espírito guardião do Rio Hudson.

Olá, senhora. Sou Gabriel Rezende e este é meu irmão Danilo Pinheiro.— Nos apresentei ainda muito desconfiado. Nos livros do tio Rick esses espíritos eram muito traiçoeiros.

— O que fazem tão longe de casa? – Perguntou ela e pude perceber que ela encarava storm fixamente, enquanto a pedra da espada brilhava intensamente.

— Estamos em uma missão de resgate. – Respondeu Dan enquanto eu encarava o espírito que não tirava os olhos maliciosos da espada.

— Hum... Interessante. – Falou ela – Gostariam de me pedir algo? – Meu senso de atenção ligou instantaneamente e eu soube que ela iria pedir algo de volta.

Ajudas sempre são bem-vindas.— Respondi, e agora ela me olhava nos olhos – Não me leve a mal... Mas qual é o preço disso?— Ela riu.

— Claro... Claro. – Falou ela como que fosse para si mesma – Pois então, espertinho. Há algum tempo fui destronada por subordinados rebeldes e como você pode ver pela situação do rio, não tenho forças para tirá-los de lá por conta própria. Além disso eles conseguiram tirar meu cetro de poder, ou seja, estou completamente desarmada. – Ela não precisava dizer mais nada – Se vocês conseguirem. Eu lhes dou minha palavra que irei ajudar com minha onisciência, onipresença e onipotência que tenho sobre esse rio a completarem sua missão.

Olhei para Dan, não precisamos trocar pensamentos para saber a opinião um do outro.

— Faremos um juramento pelo estige. – Sentenciou Dan.

— Como quiserem. – A patrona do rio suspirou e declamou – Eu juro pelo estige que irei fazer o que puder para que vocês tenham sucesso em sua missão, desde que jurem também a cumprirem sua parte. – Quando ela deu a deixa, eu e Dan começamos em uníssonos:

— Eu juro pelo estige a fazer o que puder para expulsar os ladrões do trono da patrona Maia, e a ela devolvê-lo.

— Ótimo. Sigam-me. – Falou o espírito enquanto virava as costas e ia mais fundo ao rio.

A distância estava dificultando mais ainda a minha influência sobre o barco. Logo ele pararia e os outros pensariam que aconteceu algo com a gente, mas essa ajuda poderia ser essencial. Tínhamos que ser rápidos.

Chegamos ao que parecia uma montanha submersa. O espírito entrou numa fenda dessa montanha e o seguimos. O corredor pelo qual estávamos passando agora era estreito, escuro e rochoso. Depois de mais ou menos uns vinte metros, saímos numa espécie de sala oval onde havia um portão que parecia impossível de arrombar.

— Agora é com vocês. – Falou o espírito e se transformou novamente na luz verde e saiu por outro buraco na parede. Olhei para Dan, fiz um aceno com a cabeça e avançamos em direção ao portão, o observei bem e percebi que não havia nenhuma fechadura física. Levantei a mão direita e segurei em uma de suas barras de ferro. No mesmo momento ouvi um estalo, soltei o portão e observei a parede atrás dele se abrir e de lá saírem três homem sereia. Mas não eram como nos contos: bonitões e sarados. Eles eram horrendos: de suas cabeças saíam um espécies de espinho, seus olhos eram pequenos e brilhantes, rosto magros, no lugar das orelhas havia dois cortes, seus corpos eram esqueléticos e cheios de escamas, e suas caldas assim como seu corpo tinham uma cor bege envelhecida, além de serem magérrimas. Cada um deles carregava um tridente preto.

— Quem são vocês, e o que vocês querem? – Falou o homem sereia que estava no meio.

Nós somos semideuses filhos de Poseidon. Eu sou Gabriel Rezende e meu irmão é Danilo Pinheiro.— Falei – Nós gostaríamos de falar com o chefe de vocês.

— E porque você acha que eu deixaria vocês entrarem na caverna de meu rei? – Falou o mesmo homem sereia que parecia ser o chefe deles.

Eu não sabia o que falar para convencê-los, mas de repente me veio à cabeça “storm”. A patrona do rio demonstrou grande interesse nela, quem sabe eles não se interessem também. Então, desembainhei a espada e a mostrei a eles. Uma expressão de espanto tomou conta do rosto deles e então começaram a cochichar entre si. Depois de alguns segundos o chefe se voltou a nós e falou:

— Podem entrar. O rei Abadias espera por vocês.

No exato momento o portão estalou e se abriu sozinho. Passamos por ele e seguimos pelo buraco na parede. Dan foi na frente e a parede atrás de nós se fechou. Nadamos atrás dos homens sereia por menos de um minuto até chegarmos numa grande sala oval. Em toda a parede ao redor da sala havia tochas acesas com um fogo verde. Ao redor da sala inteira havia dezenas de guardas como os três primeiros, parados e observando cada movimento que nós dois fazíamos. No meio da sala estava um homem sereia tão horroroso quanto os outros, só que mais musculoso, com um tridente maior na mão direita e um cetro com uma pedra azul no topo. Ele estava sentando numa espécies de trono feito de algas no topo de uma montanha de pedra.

— Mostre-me a espada, Gabriel. – Falou o rei sem ao menos se mover em seu trono roubado. Desembainhei storm e a mostrei para o rei e pude ver seus olhos brilharem em tom azulado, ele se mexeu desconcertado em seu trono – Onde você a conseguiu, garoto? – Seu tom de voz passou de indiferente para ansioso.

Eu a achei.— Fui curto. Eu não tinha a intenção de prolongar nenhum assunto. Abadias ajeitou-se em seu trono e eu pude ver que ele mexeu seu cetro. De imediato senti que dois sereias encostarem seus tridentes nas minhas costas e na de Dan.

— Tirem a espada dele. – Ordenou o rei. Quando ele terminou a frase eu não dei tempo para que algum deles tentassem me tirar a espada, ordenei que a água jogasse o oponente que estava à minhas costas para longe, e assim foi feito. Ao mesmo tempo Dan em uma velocidade sobre humana golpeou seu oponente com sua lança que atravessou sua cabeça.

Só tive tempo de tirar meu escudo das costas e defender a investida de outro oponente, e um atrás do outro atacava e se afastava até que eu percebi o que eles queriam quando eu e Dan estávamos de costas um para o outro rodeado deles.

— Vamos nos divertir um pouco. – Falou Dan enquanto brandia sua lança.

Quando manejei storm na mão, pude sentir que aqueles que estavam à minha frente ficaram um pouco acuados, mas logo nos atacaram todos juntos. Eu defendia as investidas sem intervalo nenhum os atacava quebrando seus tridentes ao meio como se fossem de graveto. Dentro de alguns segundos havia mais de dez mortalmente mutilados à minha frente, mas os outros não paravam de atacar. Troquei de lado com Dan e percebi que ele também não tinha ficado para trás em número de oponentes derrotados. Por mais que eles fossem rápidos e numerosos, eles não tinham força, já nós tínhamos armas mais poderosas, agilidade e influência sobre água por mais que estivesse mais fraca ali no território inimigo.

Quando grande parte deles já estava derrotada, ouvi um grito:

— PAREM! – Era o rei. De imediato os seus subordinados pararam de nos atacar e voltaram para suas posições iniciais. O chão estava quase invisível por estar coberto de cadáveres. Mas ainda assim restavam algumas dezenas deles ainda.

— Eu irei duelar com vocês dois por essa espada. E isso não é um convite, vocês não tem escolha. – Falou o rei se levantando.

Agora sim que vem a diversão de verdade.— Falei pro Dan.

Agora que Abadias estava de pé, pude ver o quanto ele era mais alto e forte que os seus subordinados. Ele levantou seu cetro e uma correnteza d’água veio em nossa direção. Tentei me concentrar para pará-la, mas de nada adiantou. Eu e Dan fomos jogados com violência contra a parede atrás de nós. A pancada na minha nuca fez minha cabeça girar e minha visão embaçar, mas voltou ao normal a tempo de ver nosso oponente se aproximar e preparar um ataque horizontal que cortaria eu e Dan ao meio. Rapidamente impulsionamos nossos corpos para cima e escapamos da investida. Sem dar tempo de reação, como num combo de vídeo game, eu e Dan mergulhamos com nossas armas apontadas para a cabeça do rei sereia, mas num movimento só ele aparou os dois golpes com seu tridente e nos lançou para o lado. A força que fomos jogados quase fez com que eu soltasse storm. Dessa vez não fomos muito longe e logo combinamos outro ataque. Nos aproximamos a uma distância de dois metros, Dan atacou mas o rei defendeu com seu tridente, o tempo de ataque dele foi o suficiente para que eu me aproximasse e atacasse enquanto seu tridente ainda não estivesse em guarda para defesa. Ataquei com storm na diagonal de cima para baixo e a alguns centímetros da lâmina encontrar o pescoço de meu oponente, ele levanto o cedro e meu golpe parou no ar. Fiz força para tentar me livrar, mas fui lançado para cima. O impulso do ataque foi todo na minha mão direita. Ele estava concentrado em tirar storm de mim.

Bati com as costas no teto e comecei a descer devagar como se eu tivesse perdido a consciência por uma fração de segundo, mas algo me incomodou, era storm. Sua pedra estava brilhando intensamente como se ela quisesse lutar também. Olhei para baixo e Dan estava duelando sozinho contra o rei, mas ele não aguentaria muito tempo, então me concentrei na pedra de storm, fechei os olhos e pude ver através das minhas pálpebras que seu brilho se intensificava cada vez mais. De repente parei de ouvir barulho de espadas. Meu corpo começou a tremer violentamente por dentro, como se houvesse algo furioso tentando sair de dentro de mim. Abri os olhos e vi todos com as mãos sobre os olhos tentando olhar em minha direção, mas o brilho da pedra não deixava. Olhei para a pedra na base da espada e vi que em seu interior ela estava agitada. Então vagarosamente a segurei com as duas mãos e fiz o que eu sentia que devia fazer. Ataquei a minha frente e não consegui segurar o grito. Da espada saíram diversos tornados em direção ao rei e começaram a se espalhar pela sala. Dan foi rápido e veio para o meu lado. Dai em diante tudo virou um caos e eu não conseguia ver exatamente o que estava acontecendo no meio dos tornados. Isso durou por volta de trinta segundos e foi se acalmando lentamente.

Todos os homens sereias incluindo Abadias estavam derrotados. Alguns deles foram atingidos por seus próprios tridentes e o resto eu não sabia dizer se estavam mortos ou apenas desmaiados. Fomos até o rei que estava na parte de trás da montanha de pedra que sustentava seu trono. O cetro ainda estava em sua mão, mas o tridente tinha sumido. Aproximamos-nos ainda com nossas armas em riste. Ele ainda estava vivo, mas sua respiração era muito lenta. Tirei o cetro de sua mão e senti um poder imenso tomar conta do meu corpo. Ali naquele momento eu poderia me nomear o novo patrono do rio Hudson, mas não era isso que eu queria e o que eu havia prometido em nome do rio estige.

— O que fazemos agora? – Perguntou Dan como se fosse para si mesmo.

Dei a volta na montanha e fui na direção da porta da sala. Minha vontade era que ela se abrisse, e imediatamente isso aconteceu. Desejei também que o portão da se abrisse. Eu não sabia se ele tinha aberto ou não, mas logo a luz verde entrou pela porta da sala e logo se transformou em Maia e se aproximou de nós.

— E eles conseguiram. – Falou ela com um sorriso sínico no rosto e batendo três palmas – Eu sabia que conseguiriam. – Falou ela.

— Como? – Perguntou Dan.

— Por causa de storm. – Falou ela. Nossa expressão foi de confusão e ela percebeu então começou a explicar – Ela foi forjada por seus meios-irmãos, Ciclopes. Poseidon a usou em algumas de suas batalhas para defender seus territórios nos sete mares. Num certo período do tempo ela se perdeu e muitos boatos atravessaram os séculos dizendo que ela estava na terra esperando que alguém a achasse. Por isso sua força só é completamente revelada de baixo d’água. Eu não tinha noção do poder dessa espada, e te admito que fazia parte do meu plano tirá-la de você, mas depois de ver o que você fez aqui com ela, não me arriscarei.

— Você viu o que aconteceu aqui? – Perguntou Dan indignado.

— Lógico que vi. Continuo tendo onisciência sobre esse rio. – Explicou ela.

Ainda bem que você desistiu mesmo, por que você só conseguiria essa espada depois de me matar.— Falei olhando para a espada.

— Agora me dê o cetro. – Ordenou Maia com a mão direita estendida.

Só te darei quando sairmos daqui.— Setenciei.

— Semideus... Espero que você se lembre de seu juramento. – Falou ela desconfiada.

Pode ficar tranquila, isso não me serviria para nada.— Falei.

— Você poderia muito bem tomar o trono do rio. Com esse cetro e essa espada, apenas um deus poderia te derrotar. – Falou ela e eu fiquei espantado com “apenas um deus poderia te derrotar”. Não nego que isso seria legal, mas a ideia de tal poder me assusta.

Eu não desejo tal poder.— Finalizei – Vamos, damas primeiro!

Ela foi na frente, Dan atrás dela e eu em seguida com o cetro na mão esquerda e storm na mão direita. Logo estávamos do lado de fora da grande montanha. A entreguei o cetro, ela apreciou o poder que voltou a correr em seu corpo e seu brilho se intensificou.

— Agora digam-me como posso lhes ajudar em sua missão. – Falou ela.

Precisamos resgatar Bianca Almeida, filha de Apolo. Ela está na cidade, mas não faço ideia de onde ela esteja agora. Sei onde devo começar a procurar, mas ela com certeza não está mais lá.— Falei.

— Sim, claro... Uma filha de Apolo não passará despercebida por mim caso ela se aproxime no mínimo 1km das margens do meu rio. – Quando Maia terminou de falar, ela fez um movimento com o cetro e uma espécie de vidro do se formou no ar. – Pegue isso. – Ela deu o vidro que era do tamanho da palma da minha mão e com as bordas grossas – Caso eu saiba alguma coisa, nós nos comunicaremos por esse vidro d’água.

— Foi bom negociar com você. – Falei e subi em direção ao barco que fiquei aliviado ao ver que ainda estava lá.

— Até mais. – Falou Dan e subiu comigo.

Quando emergimos os três deram um pulo do barco e começaram gritar conosco todos ao mesmo tempo.

— SEUS PRETOS MALDITOS. ONDE VOCÊS ESTAVAM, PORRA? – Marti era sempre o mais estressadinho.

— Calma carai, nós vamos explicar. – Falou Dan.

Subimos no barco e começamos a explicar toda a história enquanto seguíamos viagem em direção à Manhantan. Logo chegaríamos em Hell’s Kitchen.