A Guerra do Alvorecer
21 O labirinto de Dédalo.
Sonhar em ser um herói com super poderes, salvar os humanos de ameaças e proteger seus amigos é muito legal. Mas você já parou pra pensar se você realmente escolheria isso para o resto da sua vida caso pudesse? Eu não. Até então meus únicos problemas eram um amor não correspondido e grana curta para poder sair no fim de semana. Agora me sinto como Atlas, como se eu carregasse o peso do mundo em meus ombros. Já passei por muitos e muitos problemas familiares na minha vida e isso exigiu que eu amadurecesse mais rápido que os outros da minha idade. Aceitar esse destino que me foi imposto agora, não está sendo nada fácil, mas e para o outros? A maioria deles são mais novos que eu e muito menos maduros. Quem será que está dando suporte psicológico a eles enquanto estou aqui sem ter a certeza se vou voltar?
— Rê. – Dan segurou meu braço e eu voltei para minha realidade atual – Precisamos nos concentrar antes de continuar a caminhada. Sei que está preocupado com os outros, mas você precisa confiar que eles vão ficar bem sem nós lá. – O Dan tem essa estranha mania de saber o que estou pensando.
— Você está certo. Vamos nos concentrar.— Eu lutava para deixar de lado meus pensamentos que insistem em voltar para onde estão todos – Certo... Como vocês sabem se acharmos o caminho correto, poderemos chegar nos Estados Unidos em algumas horas. E acho que essa parte da missão é toda sua, Jazy. Você acha que consegue?— Grande parte do êxito da missão decaia sobre o jovem sátiro. Jazy não gosta de levar a vida muito a sério, como ele mesmo já nos mostrou. Mas o conhecemos há apenas dois dias, não tenho o direito de duvidar de suas habilidades sendo que ele já arriscou sua vida mais de uma vez para nos manter vivos.
— Farei de tudo, filho de Poseidon. Juro pelo estige. – O sátiro realmente estava disposto a dar sua vida por essa missão. Ao jurar pelo estige ele entrega sua alma a essa missão, isso me tranquilizou mais e me deu um choque de adrenalina.
— Nós não iremos falhar nessa missão, ouvirão?— Olhei dentro do olho de cada um ali presente – E não iremos deixar nenhum companheiro para trás, nem que isso custe o êxito da missão. Não importa o que vier pela frente, vamos enfrentar juntos e vamos vencer. Certo?— A reposta foi um abraço em grupo que fez um arrepio subir pela minha espinha, e de repente eu sabia que uma ligação entre nós cinco acabava de ser criada.
Apenas o brilho de nossas armas iluminava o caminho, mas era o suficiente para enxergarmos um raio de 5 metros ao nosso redor. A pedra de storm fazia a maior parte do trabalho. Parece que ela sabe que precisamos dela o máximo possível no momento.
O lugar por onde estávamos vagarosamente caminhando era um corredor bem amplo como se fosse uma grande gruta, porém sem nenhum tipo de água a vista. O chão era arenoso, o que é bom para batalhas, pois não escorrega. Ainda não era possível avistar nenhuma entrada ou bifurcação, o que não estranhei, pois só havíamos andando uns 50 metros.
— Ouviram isso? – Jazy havia parado de repente e olhava para cima ao redor do corredor com sua espada apontada para iluminar.
— O que você ouviu? – Marti chegou mais perto do sátiro e o acompanhou procurando por algo.
— Tem algo dentro das paredes. – Jazy agora tinha parado de olhar ao redor e olhava fixamente para um ponto alto da parede à nossa direita. E eu apenas me concentrava para tentar ouvir, Dan e Agatha também não pareciam escutar nada.
— Procurem algo meio pesado que dê para arremessar. – Falou o sátiro enquanto ele olhava para chão à procura de algo, e todos nós fizemos o mesmo. Mas não conseguíamos encontrar nada.
— Eu vou pular e vou chutar onde está vindo o barulho – O homem meio bode deu um passo para frente mas segurei seu braço.
— Tem certeza, cara? Não é melhor deixar quieto?— O sátiro ia me responder quando algo explodiu e jogou pedras para todo lado. Graças ao meus reflexos consegui me pôr à frente de Jazy e proteger nos dois com meu escudo. A cima de nós voavam algum tipo de animal com asas de morcego e corpo de águia. Haviam muitos, não tinha como contar. Seu piado era a coisa mais agonizante que já ouvi.
— Esses híbridos tem algo no piado que tira a força de seus oponentes para depois os devorá-los ainda vivos. Precisamos sair daqui agora. – Nos avisou Jazy aos berros.
Poucos segundos depois eu já podia sentir minha força se esvair. Concentrei-me para tentar achar alguma corrente de água por perto, mas não havia nada. Tentei invocar alguns jatos, mas não conseguia. Olhei para Dan e percebi que ele estava tentando o mesmo, mas sem sucesso. Foi quando num impulso Agatha se levantou envolta pela sua aura vermelha.
— O que você está fazendo, Agatha? – Gritou Dan.
— Não sei. – Respondeu ela de volta.
Antes que eu pudesse fazer alguma coisa um vulto grande e vermelho saiu do corpo da filha de Atena e formou uma grande coruja de asas abertas acima de nós. A coruja levantou voo soltando poderosos piados e avançou em cima dos seres meio morcego e meio águia. Muitos deles explodiram em pó e poucos conseguiram escapar. Olhando a coruja afugentá-los consegui ver a uns 100 metros corredor a dentro uma bifurcação. A coruja vermelha foi perdendo força até desaparecer.
Voltei-me para a Agatha – Tudo bem?
— Tudo ótimo. – Respondeu ela.
— Aquilo foi incrível! – Falou Marti o que todos estávamos pensando.
— Não sei da onde veio aquela coruja, eu só desejei muito poder fazer algo quando eu senti algo se formando dentro de mim e eu apenas deixei sair. – Falou a filha de Atena ainda meio confusa.
— Pois então sempre que algo quiser sair de você, apenas deixe. – Falou Dan e todos riram.
— Piadas à parte... Tem uma bifurcação à 100 metros a frente. Vamos logo. – Dei dois passos quando percebi que alguém tinha caído. Era Agatha. Marti e Dan conseguiram segurá-la.
— Ei, o que foi? – Levantei o rosto dela.
— Quando fui andar senti muita fraqueza. Mas consigo me levantar. – Ela se apoiou em Dan.
— Consegue andar devagar?— Perguntei.
— Sim, vamos. – Respondeu ela convicta. – Estou sentindo agora a energia que essa técnica me tirou. Mas consigo andar sim! – Me aliviei.
Logo chegamos à bifurcação. Ambos os corredores eram a metade da largura do que estávamos agora.
— Sua vez, Jazy. – Marti colocou a mão no ombro do sátiro como um gesto de encorajamento.
Eu estava atrás de Jazy e pude ver que ele procurava algo no bolso de dentro de sua jaqueta preta de couro. Quando ele encontrou, elevou essa coisa à boca e começou a tocá-la, era uma flauta. O sátiro tocou durante mais ou menos um minuto de cabeça baixa. Pude sentir que ele estava muito concentrado.
— É por aqui. – Ele apontou para o corredor da esquerda.
Avancei a frente – Vamos nessa— Não tínhamos tempo para pensar sobre. Eu confiava no sátiro.
Andamos uns 15 minutos pelo corredor, era exatamente como o outro, só que bem menos largo. Chegamos numa encruzilhada, todos paramos e olhamos para Jazy. Sua flauta já estava em suas mãos e ele fez como antes, só que dessa vez tocou por mais tempo. Ele parou e continuou o caminho à frente. O corredor ficou ainda mais estreito. Agora só tinha espaço para duas pessoas um ao lado da outra. Á frente íamos eu e Jazy.
Por esse caminho seguimos uns 20 minutos até parar no que parecia um precipício. Pelos dois lados havia espaço para apenas uma pessoa. Esse caminho circudava a câmara e terminava na outra extremidade do precipício onde havia uma pequena porta de madeira fechada.
Jazy já estava tocando sua flauta, e foi assim por uns 5 minutos até ele parar frustrado. — Nada... Não to sentindo nada. — Falou.
— Então vamos até aquela porta, é o que nos resta a fazer.— Falei o que seria óbvio.
— Não. Espera um pouco. — Falou Jazy.
— Não temos tempo.— Insisti.
— Gabriel, espera. Por favor. — O sátiro tinha algo na manga ainda, então resolvi deixar que ele tentasse.
De dentro do bolso de sua jaqueta ele tirou um frasco com alguma planta dentro.
— Mano, não é hora de baseado. — Falou Dan zoando.
— Não é baseado, doido. — Respondeu Jazy destampando o pote e tirando o conteúdo.
— Infelizmente não é, né!? — Falou Marti.
O sátiro colocou a planta no chão e fez um símbolo que não reconheci. Então ele começou a cantar algo em uma língua que eu não entendia. Depois de alguns segundos cantando percebi que a planta formou outro símbolo que eu também não reconhecia.
O sátiro se levantou e se virou – Nós temos que descer esse paredão. —
— O QUÊ?— Falamos todos em uníssono.
— É isso que eu sinto. Que nós temos que descer esse paredão. – Ele mesmo estava perplexo, mas tinha certeza de seu instinto, dava pra ver em seus olhos.
— Fala sério, sátiro. – Falou Agatha o encarando e esperando por um “Há, pegadinha do malandro”, mas o sátiro sustentou seu olhar e sua postura. Nós não tínhamos outra opção, Dionísio disse que deveríamos confiar nos instintos de Jazy.
— Vamos, gente. Temos que confiar no sátiro. – Os outros relutaram um pouco, mas olhei nos olhos de Jazy e passei a confiança que eu tinha nele. Ele deu um sorriso de canto de boca como se estivesse agradecido pelo meu gesto.
Jazy ficou para descer por último, pois conseguiria descer com muito mais facilidade que nós por conta de suas pernas de bode, e assim pode nos ajudar a nos segurarmos enquanto nos agarrávamos à parede rochosa.
Entre um deslize e outro de todos nós, conseguimos com muito esforço ir descendo aos poucos pela parede. Depois de mais ou menos 3 minutos descendo conseguimos enxergar onde a parede terminava. O que achei estranho foi que o chão parecia ser todo de mármore. Fui descendo mais até ter certeza que o chão realmente era de mármore. Faltavam apenas 4 metros para chegar ao chão quando tive a sensação de perigo.
— PULEM! — Gritei ao mesmo tempo em que empurrava meu corpo para trás e girava no ar para cair de frente para o que fosse que estivesse ali. Se fôssemos seres humanos normais, quebrar as pernas seria algo inevitável depois de pularmos 4 metros. Dan e eu estávamos lado a lado, eu na direita e ele na esquerda, ao meu lado estava Jazy cuidando da lateral, ao lado do Dan estava o Marti e a Agatha cuidando da outra lateral, e atrás a parede. Não havia nada no perímetro que conseguíamos iluminar, mas sentíamos presenças.
Tudo o que conseguíamos ouvir era o som de nossas respirações. Pude sentir que Agatha examinava o chão com os pés:
— Tem algo estranho com esse chão. – Falou ela cochichando. Cinco segundos se passou quando ela gritou – PULEM! – E pulou para frente jogando suas armas. Mas já era tarde demais para nós. O chão cedeu e enquanto caíamos pude ver que ela tinha conseguido se segurar na beira do buraco que se abriu. Só consegui sentir meu corpo atingindo o chão.
—-------------------------- Agatha narra a partir de agora ----------------------------------
Os músculos do meu braço ardiam, mas eu estava conseguindo me erguer quando uma mão dura como pedra agarrou minha mão e me puxou para cima. Quando consegui ver o rosto da criatura fui nocauteada com uma pancada que nem ao menos consegui ver de onde veio. Cai no chão com a visão embaçada, a cabeça e o lugar onde a pancada acertou doíam demais. Não tinha forças para pensar e nem me levantar. Fui erguida pelo pescoço até não conseguir tocar mais o chão com os pés. A visão ainda estava embaçada, mas consegui distingui os traços do que me erguia. Eu só posso estar delirando... Será que nem aqui o xadrez deixa minha cabeça em paz? Então, fui lançada com uma boneca de pano. Quando bati no chão tudo girou, se eu fosse atingida novamente, tenho certeza que iria desmaiar. Tive tempo de me recompor e levantar meu tronco. Agora a visão estava melhor e consegui olhar ao redor. Eu estava numa sala redonda com tochas espalhadas por todo o diâmetro. No centro da sala pude ver que tinha uma espécie de tabuleiro de xadrez. Falei pra mim mesma que era coisa da minha cabeça.
Eu estava completamente desarmada, minha mochila estava na beira do buraco e lá perto estava meu escudo e minha espada. Levantei-me, mas antes de ir na direção das minhas coisas analisei o espaço em busca de perigos. Quando olhei para trás, lá estava a coisa que havia me nocauteado. Pulei para trás a tempo de me livrar de outro golpe. E realmente, eu não estava delirando... Ali estava um peão preto tamanho humano.
— Semideusa de Atena. Aceite este duelo e poderá morrer com dignidade. – A voz vinha do peão a minha frente, mas ele não tinha boca.
— Por mais que seja tentador uma partidinha agora, vamos ter que deixar pra depois.— Rapidamente pulei pra trás peguei minha espada e meu escudo, mas não tive tempo nem de pensar no meu próximo passo quando o peão sumiu no chão e reapareceu na minha frente me socando novamente, consegui me defender com o escudo, mas fui lançada para trás com a força do golpe. Levantei-me rapidamente, mas o peão agora estava do meu lado e me atingiu novamente. Fui lançada para o lado, meu escudo voou de minhas mãos e atingi a parede e escorreguei até o chão. Pus-me em pé novamente com dificuldade, agora era hora de usar a inteligência.
— Eu aceito seu desafio.— Quando terminei a frase o peão já estava na minha frente novamente pronto para atacar, mas ele desarmou o soco pegou no meu braço e me levou para o tabuleiro.
— Seja bem-vinda, semideusa. Queira se apresentar. – Falou uma voz que não consegui ver de onde vinha. Quando estava prestes a abrir minha boca para falar, um buraco na outra extremidade do tabuleiro se abriu e de lá saiu um homem gordo de pele moreno usando uma túnica de cor crua e uma espécie de chapéu na cabeça, parecia mais com um barquinho de papel preto. Seus traços eram Indianos.
— Sou Agatha Hurba, filha de Atena.— Enchi o peito e me apresentei olhando em seus olhos, eu não iria passar insegurança ou medo num duelo.
— Sou Ragendra Gaznévida, chefe da dinastia Gaznévida que dominava a India 1.500 anos atrás. Sou um dos criadores desse jogo milenar que vocês chamam de xadrez. Você só terá seus amigos de volta... – Ele apontou para a extremidade à minha esquerda e de lá surgiram do chão, amarrados e dentro de uma espécie de jaula, Rê, Marti, Dan e Jazy. -... se você me vencer nessa partida. E poderão seguir seu caminho pela única saída daqui... – Ele apontou para a porta lá em cima.
— Como terei certeza que você cumprirá com o que está falando?— Não poderia confiar em ninguém dali em diante.
— Você não terá, mocinha. – Ele gargalhou – Sua única escolha é essa. Seu amigos estão desacordados, você está desarmada e já te foi provado que você não é párea para meus peões.
Ele estava certo... Fiz uma pequena oração para minha mãe... — Vamos acabar logo com isso!
— Ótimo... Mas caso você perca, o que é óbvio que acontecerá. Estão todos mortos! – Um frio subiu pela minha espinha. Essa seria a mais importante partida da minha vida.
Com um estalar de dedo do imperador, sugiram do chão todas as peças. Eu fiquei do lado branco, logo, poderia começar o jogo.
— Peão 2 b, avançar.— A peça se arrastou pelo tabuleiro.
— Peão 2 a, avançar. – Jogou o imperador.
Assim se foram uns 20 minutos de jogo.
— Devo admitir que estou surpreso, semideusa. – Falou o imperador mais ainda assim com um ar de desdém. Eu já perdi 6 dos meus peões, 1 cavalo e uma torre, enquanto ele só perdeu 4 peões e 1 torre.
Mais vinte minutos se passaram e com eles a maioria das minhas peças, agora só me restava um peão, um torre, um cavalo, um bispo, o rei e a rainha. Ele não deixava uma brecha para eu atacar e isso já estava me deixando nervosa.
Mais dez minutos e só me restava um cavalo, um bispo e o rei.
— Pronta para se despedir dos seus amigos e de sua vida, semideusa? – Falou o imperador rindo.
— Estou pronta para acabar com sua raça e com esse seu cinismo. — Praticamente cuspi essas palavras. Não havia chance de eu perder para esse bosta! Respirei fundo e me concentrei... O jeito era induzi-lo a abrir uma brecha. – Observando bem seu jogo, imperador... Posso perceber que você não tem nenhuma jogada que possa fazer que inclua seu rei! Isso geralmente é medo de iniciante. — Nenhum de nós havia mexido seus reis ainda, mas ele é um imperador, seu orgulho não deixará que eu o chame de iniciante.
— Garota estúpida! Você não ouviu o que eu disse? Eu criei este jogo! Eu criei todas as jogadas medíocres que você me mostrou agora! – Parece que minha provocação estava funcionando. Mas isso não bastava.
— Então me prove que você é quem diz ser, faça igual a mim.— Respirei fundo e ordenei – Rei 5 a, avançar. Mexa seu rei!— Era tudo ou nada, se ele não se desconcentrasse agora, era meu fim. Coloquei meu rei ao alcance do bispo que ele não movia desde o começo do jogo. Se ele não focasse na minha provocação seria o fim.
— VAMOS! — Gritei e ele se perdeu em seus pensamentos. A vantagem de lidar com reis é que dificilmente eles são equilibrados e seus egos são maiores que tudo.
— Re-rei 8 d, avançar – Meu coração subiu na garganta. Eu não podia acreditar. Melhor impossível. Mas agora eu tinha que ser rápida antes que ele percebesse e fizesse alguma coisa.
— REI 8 D, AVANÇAR! — Ele gritou e correu em minha direção. Eu não tinha para onde correr, dei um passo para trás tropecei e cai enquanto meu rei avançava sobre o dele, e ele se aproximava de mim com a espada em punho. Seria meu fim mesmo depois de ter vencido o inventor do xadrez?
Quando faltava apenas um passo para que ele decepasse minha cabeça eu fechei os olhos e aguardei... Nada aconteceu. Abri os olhos devagar e vi um tabuleiro vazio exceto por mim. Eu havia vencido.
Levantei-me depressa e corri na direção dos meninos. As celas se abriram e desceram para dentro do solo, largando-os no chão. As coisas deles estavam atrás da cela. Ajoelhei-me ao lado do Rezende e dei-lhe uns tapinhas em seu rosto e enfim ele acordou e logo se levantou para ajudar a acordar os outros.
—---------------------- A partir daqui a narração volta para mim (Gabriel)-------------------------
— O que aconteceu aqui, Agatha?— Perguntei enquanto tentava acordar o Dan, que como sempre era o mais difícil de acordar.
— Fui desafiada para uma partida de xadrez por um imperador que se dizia um dos criadores do xadrez. Se eu tivesse perdido, o que quase aconteceu... Ele e suas peças vivas iriam nos matar. Mas usei o orgulho dele contra ele mesmo e o fiz perder – Contou a filha de Atena.
— Obrigado Deus, por eu ter escolhido você para vir comigo já que eu sou uma negação no xadrez. – Sim, eu sou um bosta nesse jogo. – Por onde vamos sair agora?— Joguei a dúvida no ar.
— Vamos ter que escalar a parede. Agora aquela porta está aberta e é o único jeito de sair daqui. – Olhei para cima e realmente a porta estava aberta agora.
Para subir não foi tão difícil como para descer. Rapidamente conseguimos alcançar a porta e saímos apressados pelo corredor. Depois de uns 15 minutos de caminhada e várias bifurações e encruzilhadas chegamos ao que parecia ser o fim do corredor que estávamos. Nos aproximamos devagar. Jazy farejou dentro do buraco:
— Não, não chegamos. Venham ver. – O sátiro entrou dentro do buraco e o seguimos. Quando cheguei na abertura não pude acreditar no que eu via. Era o mar, um mar muito estranho, mas era o mar. Pulei uma altura de 2 metros e cai na areia da praia. Logo atrás veio os outros.
— Essa água está estranha. – Falou Dan.
— Muito.— Falei tentando descobrir o que era.
Dan foi apressado em direção ao mar e quando Jazy se deu conta, correu atrás dele e eu o segui, e antes que Dan pudesse tocar a água cristalina o sátiro o segurou.
— Calma, vamos fazer um teste primeiro. – O sátiro tirou o pote vazio que outrora guardava a planta que ele usou para descobrir o caminho, e o jogou na água. No exato momento que o pote tocou na água, ele se desmanchou. – Eu sabia que tinha algo errado. Esse é o mar ácido. Só filhos de Poseidon, um sátiro ou um espírito da natureza saberia que tem algo de errado com essa água. – Todos estavam boquiabertos. Por pouco Dan não perde a mão.
— O que fazemos agora? – Perguntou Marti para ninguém em especifico.
— Eu conheço essa lenda. – Falou Jazy – Nós temos que atravessá-lo para chegar numa ilha que logo conseguiremos enxergar. Mas como? Esse é o problema.
Sentamos-nos na areia para pensar em algo. Eu olhava aquele mar procurando uma forma de atravessá-lo. Quando lá no fundo uma onda começou a se formar e foi ficando cada vez maior e maior.
— Dan...— Chamei a atenção dele.
— Sim, estou vendo. – Falou ele sem tirar os olhos da onda.
— Gente... Levantem-se.— Apontei para a onda e todos viram o porquê de se levantar.
— CARALHO, CARALHO, CARALHO – Marti, Jazy e Agatha começaram a andar para trás enquanto eu e o Dan ficamos encarando o tsunami que se formava acima de nós. Nos olhamos e sem abrirmos a boca sabíamos o que tínhamos que fazer.
Ao mesmo tempo erguemos os dois braços enquanto a onda se dobrava para nos engolir. Nos concentramos e juntos seguramos a onda gigante. Era pesada demais! Dentro de poucos segundos nossos braços tremiam, as veias de todo nosso corpo saltavam. Nossas pernas começaram a tremer, eu ia tentar falar algo mas minha mandíbula estava cerrada. Nossas pernas começaram a ceder e nossas camisas já estavam ensopadas de suor. Não aguentaríamos por muito mais tempo. Mas ai tive uma ideia, mas não tinha como falar pro Dan, então tentei algo que me veio à cabeça; ligação empática:
“Dan...”
“Caralho Rezende... Co- como?”
“Não sei! Só presta atenção! Precisamos quebrar essa onda, e o único jeito é você soltando para atacar a base dela”
“Mas você não vai aguentar!”
“Vou sim! Vai logo!”
“Segura firme.”
Então ele soltou e eu cai de joelhos. Meu corpo inteiro doía, não iria aguentar muito tempo. Ele golpeava a onda com a força do pensamento de vários jeitos e nada a fazia ceder. Foi então que eu ouvi a Agatha gritar:
— DE BAIXO PARA CIMA!
E assim ele fez. Meu nariz começou a sangrar e eu senti que estava prestes a desmaiar quando a onda começou perder força e cair para os lados. Cai no chão tonto e com a visão embaçada enquanto Dan segurava a água ao nosso redor e a mandava de volta pro seu lugar. Tudo se acalmou e eu apaguei.
Acordei morrendo de dor de cabeça com todos estavam ao redor – Quanto tempo eu fiquei apagado? — Perguntei enquanto ia me levantando com o corpo muito dolorido.
— Só 10 minutos, porque te curei. Você tinha rompido o músculo do trapézio direito e um da perna esquerda. – Falou Marti.
— Valeu, cara.— O agradeci enquanto estendia o braço pra ele me ajudar a levantar. – Agora precisamos encontrar um jeito de atravessar esse mar.
— Já encontramos. – Respondeu Agatha.
— Você encontrou, né!? – Falou Dan para ela.
— Que seja. – Falou a menina um pouco sem jeito – Enfim... Observando ao redor enquanto você estava desmaiado, percebi que a madeira das árvores daqui são imune ao ácido da água. Então, já começamos a construir um bote.
— Genial, gata!— Parabenizei a filha de Atena.- Vamos terminar isso então!— Já tínhamos perdido muito tempo.
Passamos mais uns 20 minutos terminando o bote de madeira, o colocamos no mar e ele não se dissolveu. Subimos á bordo e Jazy que pode dar hiper pulos deu o empurram para sairmos da areia e logo ele pulou á bordo também. Remamos apenas cinco minutos e avistamos a pequena ilha com alguns coqueiros. Até chegar em terra firme foram apenas dez minutos. Logo ao desembarcamos, começamos a procurar a entrada.
Jazy cavava rapidamente com suas patas de bode, mas foi Marti que encontrou a entrada. Era tapada com uma tampa de concreto que era mais pesada do que parecia. Destampamos o buraco com espaço para entrar um de cada vez e logo todos nos enfiamos lá dentro. Eu fui o último e quando cheguei lá embaixo me deparei com uma sala redonda gigantesca com dezenas de entrada. Todos encararam Jazy, mas não dissemos nada, apenas aguardamos o sátiro dar a ordem. Foi então quando ele se sentou no chão e perguntou se algum de nós tinha uma folha de papel. Imediatamente todos começaram a procurar nas mochilas e nos bolsos. O que me surpreendeu foi que encontrei na minha mochila um caderno de rascunho sem pauta e alguns lápis de desenho. Dan achou o mesmo. Claro... Um estudante de arquitetura e um estudante de design. Agradeci Dionísio mentalmente.
O sátiro fez pássaro um de origami e começou tocar sua flauta. De repente o pássaro ganhou vida e entrou no corredor atrás de nós.
— Vamos seguir o pássaro! – Ninguém questionou Jazy, só o seguimos mesmo sem entender nada.
Com nossas armas a iluminar o caminho seguimos o pássaro origami por vinte minutos até nos depararmos com uma câmara cheia d’água. O pássaro foi em direção a água e continuou a bater asas para o fundo da câmara.
— Temos que pular. – Disse Jazy – O origami não desmanchou. Isso significa que pela menos ácida ela não é.
Demos de ombros, mas eu quis pular primeiro, já que a água era meu habitat. Já debaixo d’água percebi que podia respirar, o que não me surpreendeu. Vi o pássaro entrar por um buraco que cabia uma pessoa. Submergi e dei sinal para que os outros viessem. Quando pularam eu afundei e apontei a entrada. Foi Jazy, Agatha, Dan, Marti e eu atrás.
Quando faltava só eu e Marti eu ouvi um barulho e olhei para trás, portas se abriram e quatro mulheres com rabo de sereia saíram e agarram Marti pelas pernas e o arrastaram em direção de um dos buracos pelo qual elas saíram. Mas eu fui mais rápido e ordenei que a água jogasse a sereia para o lado e ela soltou o filho de Apolo. Marti nadou desesperado para cima, seu ar já estava no fim. Rapidamente me pus entre as sereias que ao contrário dos contos, eram horrendas, e o garoto. Saquei storm e esperei que elas atacassem. A pedra brilhava intensamente e isso pareceu afugentar as sereias monstros. Mas então uma delas se encorajou e atacou com uma lança que não sei de onde surgiu. Desviei a primeira estocada com o escudo e ataquei sua arma com storm e a lança cortou-se ao meio como manteiga, olhei para a arma surpreso e olhei para os inimigos, elas estavam perplexas. Aproveitei a brecha e me lancei rapidamente em direção da primeira que me atacou e a decepei a cabeça e logo ela se desmanchou em pó. As outras tentaram fugir, mas ordenei que a água as empurrassem de volta para mim. A primeira que ataquei desviou da espada, mas a acertei com um chute em sua costela e em seguida estoquei a espada em seu peito nu. As outras duas ainda tentavam fugir, mas não queria matar ninguém pelas costas. Então mais rápido que elas nadei por cima e parei a sua frente. Elas só tiveram tempo de ver o golpe final que separou o tronco do resto do corpo das duas, e logo se desmancharam em pó.
Subi ao encontro de Marti:
— Resolvido!— Falei – Vamos.
Mergulhamos novamente e entramos no buraco pelo qual os outros haviam entrado. Marti já estava ficando sem fôlego quando o túnel se dobrou pra cima e encontramos uma escada. Lá no topo estavam os outros nos esperando numa câmara vazia.
— Vamos. Se corrermos ainda conseguimos acompanhar o origami. – Apressou Jazy.
Não tínhamos tempo de conversa, apenas o seguimos. Ele subiu uma escada de mais ou menos sete metros de altura até chegarmos num corredor limpo ao contrário dos outros que era pedroso e arenoso. A pressa para alcançar o origami nos deixou desatentos. Percebemos isso quando um cão infernal surgiu das sombras e pulou sobre Marti. Dan que estava logo atrás agiu rápido e atravessou a fera com sua lança.
O sangue escorria aos montes do ombro de Marti que gritava de dor. Olhei a ferida e vi que os dentes da fera foram fundo. Arranquei minha camisa, rasguei-a e envolvi firmemente o ombro do garoto para estancar o sangue. Jazy abriu a mochila e tirou um pote com ambrosia e a deu para ele. Rapidamente ele parou de agonizar:
— Vamos, me levantem. Precisamos sair daqui logo.- Falou o garoto de Apolo.
— Marti, você tem certeza?— Perguntei.
— Sim, tenho. Estou perdendo muito sangue, logo irei desmaiar. Temos que aproveitar o efeito da ambrósia. Enquanto andarmos vou tentar me curar sozinho. – Como sempre Marti era firme e convicto no que decidia.
— Vem, você vai nas minhas costas. – Falou Dan para Marti.
Saímos apressadamente pelo corredor, porém muito mais atentos. Andamos por cerca de vinte minutos quando chegamos numa sala ampla com tochas nas paredes e apenas uma poltrona onde sentado estava um menino de uns 7 anos completamente nu e com uma espécie de chapéu pontudo em cima. A criança se levantou e uma voz de criança soou na minha cabeça e percebi que na dos outros também:
“Quem são vocês? O que vocês querem?”
— Eu sou... – Falou Jazy mas a criança colocou o dedo na frente da boca e fez ‘shhh’ como que se pedisse silêncio.
“Vocês não precisam falar, apenas pensem que eu conseguirei ouvi-los” – Falou o pequeno garoto em nossas mentes.
Então mentalmente respondi “Sou Gabriel Rezende, filho de Poseidon”.
O menino olhou para todos e soube que os outros estavam se apresentando também “Agora digam o que querem!” Ele parecia nervoso.
“Estamos seguindo um passarinho de origami que veio nessa direção” Pensei.
“Sim, ele foi por ali.” O menino apontou para um portão à minha esquerda.
“Obrigado, garoto.” Pensei e o lancei um sorriso.
“O portão está fechado e não se abrirá enquanto um de vocês não me revelarem o maior segredo de suas vidas em voz alta para que todos ouçam.” Falou a criança em nossa mente. Ele parecia se divertir com isso agora.
“Quem é você?” Perguntei.
“Sou Harpócrates. Deus do silencio e do segredo.” Falou o menino em nossa cabeça. “E eu quero o segredo do...” Ele olhava de um para o outro, até que ele parou em Jazy “... do menino bode!” Ele parecia animado com a escolha.
Jazy ficou sem reação e mais pálido do que já é.
“Vamos, sátiro. Vamos brincar.” O menino pulava e batia palmas.
Eu não conseguia ouvir os pensamentos de Jazy, mas sabia que o segredo que ele tinha era muito sério no momento em que as lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto. Um tempo se passou e Jazy ainda estava em choque. Até que ele pareceu tomar coragem, secou as lágrimas, levantou a cabeça, respirou fundo e disse em alto e bom som:
— Eu sou gay!
O clima pesou. Isso não era grande coisa para mim e para os outros. Mas eu não sabia que também havia homossexualismo entre sátiros. Mas esse pensamento logo me pareceu muito tosco. O pequeno deus pulava de alegria e satisfação, não caçoando do sátiro, mas sim porque ele teve o que queria, o maior segredo de alguém.
“Agora vocês podem ir.” Falou o Harpócrates e ao mesmo tempo o portão estalou e se abriu.
Em silêncio seguimos em direção ao portão. Marti ainda permanecia acordado, porém muito fraco. O silêncio perpetuou até chegarmos numa parede em inclinada parecida como a que descemos para entrar no labirinto. No exato momento em que achamos uma fenda no topo dessa parede vimos o origami passar por ela. Jazy escalou e entrou na fenda e fomos atrás. Fui o último a passar por ela, o sol embaçou minha visão, mas pude distinguir a única, imponente e belíssima estátua da liberdade.
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