A Guerra do Alvorecer
22 Hello, New York
Quem me conhece bem, sabe que meu sonho sempre foi viajar o mundo, mas que meu primeiro destino sempre foi Nova Iorque. Amo o campo, amo o litoral, mas sem dúvida alguma eu pertenço à cidade. Os arranha céus, o barulho, as luzes, a noite e aquela coisa da cidade nunca dormir. A cidade não me deixa em perspectiva, a cidade me coloca dentro dela para que tudo funcione para dar vida a algo muito maior. E até o que não tem vida se torna referências em nossas lembranças e tudo de repente parece ter mais sentido.
Nunca passou pela minha cabeça que eu chegaria nessa cidade com uma missão de vida ou morte, e muito menos com super poderes ou com um pai olimpiano. Eu não fazia ideia de onde estávamos, só era possível enxergar a estátua da liberdade. Precisávamos encontrar algum lugar seguro urgentemente pro Marti se alimentar e descansar. Ele tinha conseguido segurar um pouco do fluxo de sangue e ainda estava acordado, porém, muito fraco.
— Precisamos encontrar um lugar seguro.— Falei. Todos estavam encantados com a vista que tínhamos e Jazy estava com um sorriso bobo e lágrimas nos olhos por estar de volta a sua terra natal. – Jazy, a área é sua. – Ele despertou do sonho acordado:
— Sure... Sigam-me. – Ainda não me acostumei com ele misturando as duas línguas. Nós tínhamos saído à beira da Baía de Nova Iorque. – Nós estamos no Liberty State Park em Jersey City. É um bairro residencial. Vamos achar um hotel afastado do movimento do centro da cidade onde a concentração de monstros é muito maior. . – Enquanto ele falava, nós já tínhamos saído da beira do rio.
No Brasil o outono tinha acabado de começar, e aqui eu imagino que seja primavera. O céu estava aberto e o clima agradável. Olhei para o sol e deduzi que eram mais ou menos 4 da tarde. Eu tinha uma certa noção de quanto tempo passamos no labirinto; parecia que passamos umas 4 horas lá embaixo, mas não sei se o tempo funciona do mesmo jeito lá dentro como funciona aqui em cima. Aqui anoitece por volta das 8 da noite, então o sol ainda estava em seu auge.
Antes de sairmos andando pelas ruas, lembrei a todos de trocarmos de roupas para não chamarmos atenção. Eu estava sem camisa, pois mais cedo tinha tirado a minha para estancar o sangue do ombro do Marti, todos estávamos sujos e com alguns cortes pelo corpo que marcou nossas roupas de sangue. Encontramos um amontoado de árvores altas e com os troncos largos, então entre elas conseguimos nos vestir com as roupas que havia na mochila que Dionísio preparou para nós. As roupas nos serviram perfeitamente, eram discretas, confortáveis e ao mesmo tempo estilosas. E percebemos que na mochila de cada um havia uma carteira preta com duzentos dólares cada, também um passaporte falso e mais no fundo uma sacola plástica com dez dracmas. Tudo que precisaremos estava ali.
Seguimos Jazy por Jersey City durante uns vinte minutos. Eu não cansava de admirar a arquitetura tão simples e ao mesmo tempo tão planejada daqueles tímidos sobrados americanos. Eu me senti realmente num filme americano. As ruas eram impecavelmente limpas e bem arborizadas. E durante esses vinte minutos eu consegui me esquecer um pouco do porquê de estar ali e apenas saboreei um pouco da minha grande vontade de conhecer Nova Iorque.
— Chegamos! – Anunciou Jazy.
Estávamos de frente a um prédio de sete andares. Suas fachadas eram bem simples e até um pouco acabada. Como muitos prédios dos bairros residenciais de Nova Iorque, todo seu acabamento era de tijolinhos de barro. Nesses sete andares as janelas, e as pequenas varandas todas com vasos de flores, tinha uma sequência só, o que logo mostrou que todos os quartos eram do mesmo tamanho. Alguns segundos se passaram enquanto examinávamos em silêncio aquele prédio. Eu fui o primeiro que avançou e adentrou a porta de vidro do hotel, e eles vieram logo atrás em silêncio.
O hall de entrada do hotel era simples; logo de frente havia um balcão e atrás dele uma mulher sentada numa cadeira com os pés em cima do balcão enquanto mexia no celular com os fones no ouvido. Apoiei-me no balcão e ela não reparou minha presença.
— Good afternoon. (boa tarde) – Falei num tom de voz alto e a mulher se assustou, logo tomou uma postura e tirou os fones de ouvido.
— Goo-good afternoon. How can I help you, guys? (Bo-boa tarde. Como posso ajudar vocês?) – Falou a mulher ainda meio afobada.
— Do you have any vacancies? (Vocês tem alguma vaga?)— Fui direto. Eu quero ser o mais rápido possível.
— Yes, we have! But, we have badrooms only for two. Do you want to get three? (Sim, nós temos! Mas, nós temos quartos apenas para dois. Você quer três?) – Nós estávamos em cinco, mas não poderíamos gastar dinheiro com três suítes e muito menos ficarmos separados.
— No no! I need only one badroom. It’s enough for us! (Não não! Eu preciso apenas de um quarto. É suficiente para nós. A mulher estranhou, aposto que ela estava pensando que iríamos fazer uma suruba no quarto de hotel.
— Ok... How much time do you mean to stay? (Ok... Por quanto tempo pretendem ficar?) – Perguntou a balconista e parei para pensar alguns segundos... O ideal seria apenas tomarmos um banho, nos alimentarmos e dormimos por algumas horas para que o Marti pudesse se curar. Mas então já seria noite, ou seja, mais perigoso para sairmos pela cidade atrás de Bianca Almeida, porém, como Dionísio nos avisou, ela não sobreviveria a mais tempo no estado em que ela se encontra.
— Just a few hours. We’ll leave until 11 o’clock.— Falei para a mulher e percebi que todos olharam incrédulos para mim, menos Dan. Então Jazy me puxou de canto e começou a falar praticamente sussurrando.
— Gabriel, você tem noção do que significa semi-deuses saírem por Nova Iorque à noite? Não, você não tem! Então eu sugiro que fiquemos por essa noite e então saímos em missão. – Ele realmente falava sério, mas eu não tinha outra opção. Não vou falhar na missão e muito menos deixar um dos nossos sozinho correndo risco de vida. Eu ia abrir a boca para protestar quando Dan tomou à frente.
— E você, Jazy, tem noção do é estar sozinho, desarmado, sem dinheiro e com uma mãe morta, provavelmente assassinada numa cidade desse tamanho? Até onde sei o tempo que você passou preso do lado de fora do acampamento você tinha Joseph ao seu lado, essa menina não tem ninguém. Nós temos armas, nós temos comida, nós temos dinheiro, nós temos poderes e mais do que nunca, nós temos coragem. – Essa última frase mudou feição no rosto de Jazy, Marti e Agatha de espanto para compreensão, como se eles tivessem levado um tapa na cara para entender.
Não foi preciso que eu dissesse nada. E por causa desse tipo de reação do Dan que eu confiava minha vida a ele. Então, virei as costas sem dizer nada e me voltei novamente à balconista e entreguei meu passaporte falso.
Subimos as escadas de madeira, elas eram cobertas por um tapete vinho estampado, isso abafava o barulho de nossos tênis nos degraus. Nas paredes haviam quadros de paisagens e bustos de pessoas. O estilo de pintura com tintas em tons pastéis e as molduras douradas denunciavam a longa idade daqueles quadros. Nosso quarto ficava no último andar. Cruzamos poucas pessoas nas escadas. Quando chegamos no corredor do nosso andar pude ter certeza então, que todos os corredores eram exatamente iguais; piso de madeira cobertos pelo mesmo tapete que cobre as escadas, algumas mesas com espelhos em cima se espalhavam de dois em dois quartos. Todas as portas eram brancas com maçanetas douradas.
Paramos em frente ao quarto 79 no fim do corredor à direta e girei a chave na fechadura. O quarto era simples, como todo o resto do hotel, porém, muito bem arrumado e cheiroso. O quarto contava com uma cama king-size, um criado-mudo nos dois lados da cama com uma abajour cada um, um guarda-roupa médio, uma escrivaninha e uma cômoda com uma TV LCD tamanho médio.
— Nada mal. – Comentou Marti deitando na cama.
— Vou ficar por aqui mesmo. – Falou Dan depois de ter pego um travesseiro e deitado no chão ao lado da cama. Ele sempre gostou de dormir no chão puro, isso nunca foi novidade pra ninguém.
— E eu vou tomar banho. – Falou Agatha já indo em direção ao banheiro.
— E eu vou pedir algo pra comermos.— Falei sentando no outro lado da cama enorme onde estava o telefone grudado na parede. Jazy sentou no parapeito da janela e ficou olhando lá pra fora com uma feição que mostrava felicidade e preocupação ao mesmo tempo. Pedi duas pizzas, uma de queijo e uma de pepperoni, os dois únicos sabores que o hotel tinha. Pedi também 2 hambúrgueres e uma coca-cola de dois litros. Sim, eu perguntei se eles tinham algo mais saudável no cardápio, eles disseram que não e então me lembrei que estávamos nos Estados Unidos, se você quiser comer algo saudável, faça você mesmo.
Desliguei o telefone e voltei minha atenção ao sátiro. No inicio pensei que ele estava estranho por causa da revelação que ele foi obrigado a fazer no labirinto:
— E ai, cara. O que te perturba?— Continuei sentado na beirada da cama. Do outro lado, Marti já tinha adormecido.
— A missão, cara. A missão. – Falou ele sem tirar os olhos de algo do lado de fora. Olhei mais em seus olhos e percebi que ele não olhava pra lugar nenhum. Estava perdido em pensamentos.
— Corta essa.— Eu não era amigo dele nem nada, mas já havíamos criado uma ligação, e eu tinha o dom de ler as pessoas. – Tem algo que te perturba. Algo a mais do que aquela revelação no labirinto. E antes que você fale qualquer coisa, saiba que o fato de você ser gay, realmente não nos importa. Falo isso em nome de todos aqueles que você ajudou a levar para o acampamento. Não importa o sexo de quem você ame ou transe. Afinal, não sei se você percebeu, mas a maioria de nós não é hétero, e isso me inclui.— Ele ficou espantado com o que eu acabara de dizer.
— Vo-você...? – Ele não sabia o que falar e eu dei risada.
— Cara... Eu sou um ser humano e eu amo outros seres humanos. O gênero de cada um é apenas um detalhe.— Ele pareceu confuso – Não se preocupe com isso, trate isso com naturalidade que logo tudo ao seu redor fará o mesmo com você.
Ele respirou fundo e voltou a olhar para o nada.
— Eu amo alguém. Outro sátiro. – Falou ele ainda olhando para o nada – Aquele pássaro em origami, eu ganhei dele. Quando fui mandado para o Brasil em missão, ele me deu aquele origami e me disse que quando eu pedisse, o pássaro me levaria até ele onde quer que ele estivesse, e então eu o usei para que pudéssemos sair do labirinto. Eu arrisquei mesmo sem saber se ele estava em Nova Iorque, ou se ele estava vivo depois de todo esse tempo sem nos vermos ou nos falarmos. – Ele deu uma pausa e logo continuou, mas agora se voltou para mim – Sabe, Gabriel... Minha vontade é sair agora daqui e ir até o acampamento atrás dele. A saudade está me matando. – Agora eu senti que ele me implorava por algo, e sendo o capitão nessa missão, eu soube ou que era.
— Vamos devagar...— Eu me confundi – Acampamento? Outro acampamento aqui em Nova Iorque?
— Sim! – Afirmou ele – Antigamente havia apenas o acampamento que você conhece. Aquele foi o primeiro a ser criado. Na dimensão do acampamento que você conhece, ele se localiza no Brasil. Logo um semi-deus que está em outro país fazer a transição para ele, é muito difícil e demorado, então foram criados outros pelo mundo.
Isso era muito confuso para mim, pois, eu me baseio nos livros de Rick Riordan para me localizar nesse novo mundo. Mas percebi que questionar o que Jazy havia me dito era perda de tempo.
— O.K...— Falei organizando as informações – E onde fica esse acampamento?
Os olhos dele brilharam – Ele fica na Stone Hill Road, depois do Stone Hill River na Ward Pound River Reservation. Daqui levaremos em torno de 3 horas de carro.
— Escuta... Estou vendo em seus olhos sua ansiedade e esperança, a única coisa que posso te prometer, é que faremos de tudo para te levar a ele, beleza? — Mal terminei de falar e ele pulou em cima de mim me abraçando e eu retribui o abraço quando bateram na porta. Levantei-me fui até ela e olhei pelo olho mágico. Era um homem com bandejas na mão. Abri a porta:
— Hi, good afternoon.(Oi, boa tarde.) – Falei.
— Good afternoon, Sir. (Boa tarde, senhor.) – Falou o garçom.
Peguei as bandejas, agradeci ao homem e as coloquei em cima da cômoda. Quando me virei percebi que ele ainda estava parado na porta, olhei para Jazy e ele falou:
— A gorjeta.
— Ah, claro.— No Brasil não é normal esse negócio de gorjeta – Wait a minute.(Espere um minuto.) – Falei para o garçom, fui até minha mochila e tirei uma nota de dez dólares da carteira e entreguei a ele. O garçom agradeceu e foi embora, fechei a porta no exato momento que Agatha saia do banheiro já vestida:
— Meu Deus, que cheiro maravilhoso. – Falou a filha de Atena já indo em cima das bandejas.
— Acorda Dan. Acorda Marti. Comida seus porras! – Eu não sabia como eles não tinham acordado com aquele cheiro maravilhoso.
Dan só acordou depois do terceiro grito. Comemos até o último pedaço de pizza e então me levantei satisfeito e fui para o banho. Abri o chuveiro no quente por impulso e me incomodei com a temperatura da água e logo coloquei no frio. A comida mais o banho me revigoraram e curaram cada corte e cada dor muscular que eu estava sentindo. Sai do banheiro me sentindo outra pessoa. Logo em seguida Dan foi tomar banho e eu me joguei na cama e adormeci instantaneamente.
Meu corpo adormeceu pelo cansaço, mas minha mente continuou em seu ritmo desenfreado. Aos poucos meus pensamentos foram se acalmando e tive aquela sensação que eu conhecia bem, outro sonho...
De repente eu estava num beco escuro, nos dois prédios haviam aquelas escadas de ferro do lado de fora do prédio e eu logo soube, estava em Nova Iorque. Vi uma silhueta humana entrar no beco e rapidamente me joguei para trás de uma daquelas lixeiras grandes e verdes que vemos nos filmes americanos. Eu tinha certeza que aquela pessoa tinha me visto, meu instinto de perigo falhou então imediatamente procurei storm na minha bainha, mas não havia bainha e storm nenhuma. Continuei agachado esperando pelo ataque, mas nada aconteceu. Olhei cuidadosamente pelo canto da lixeira e vi o homem subir a escada e entrar por uma janela no terceiro andar do prédio, me levantei rapidamente e fiz o mesmo. Enquanto eu subia as escadas, reparei que meus pés não faziam barulho e então num choque tive consciência de que estava num sonho, tentei acordar, mas não consegui. O que me restou foi seguir aquela pessoa.
Quando cheguei no terceiro andar olhei pela janela e puder ver uma mulher adulta de camisola e cabelos castanhos lutando contra aquela pessoa armada que logo percebi que era um homem, pelo jeito que se movia e pelo tipo físico. Percebi que a mulher sabia lutar, mas a luta ainda não tinha acabado porque o homem que eu não conseguia ver o rosto não queria matá-la. Então, depois de sofrer alguns golpes bem aplicados, o homem perdeu a paciência e num golpe só ele cortou a garganta da mulher. Vi ela cair e engasgar com o próprio sangue e eu não podia fazer nada. O homem assistiu ela agonizar até que a vida deixasse seu corpo, para então continuar uma buscar pela casa. Fui atrás dele me escondendo por mais que eu soubesse que ele não me viria, mas o instinto falou mais alto.
Depois de procurar em cada canto da casa, ele chegou num quarto pequeno onde só havia uma cama de solteiro, uma cômoda com uma TV em cima, um guarda-roupa pequeno e uma escrivaninha com um notebook ligado em cima. O homem procurou atrás da porta e em baixo da cama. Mas foi quando ele abriu o guarda roupa que uma menina de mais ou menos um metro e setenta, pele branca e cabelo ruivo saltou sobre o homem com uma faca na mão. Eu vi que a mira dela era no pescoço dele, mas num reflexo ele desviou a mão dela e a faca entrou em seu ombro. Ele gritou e caiu no chão. A menina correu em direção à porta, mas o homem ainda conseguiu segurar seu tornozelo o que a fez cair. Ela se debateu um pouco e acertou um chute descalço em seu rosto o que a fez soltá-la. Rapidamente ela se levantou, pegou a chave da porta e trancou o homem do lado de dentro do quarto.
Passei pela porta correndo como se fosse um fantasma a tempo de ver a reação da menina ao se deparar com a mãe morta no chão da cozinha. Nesse momento uma lágrima caiu do meu olho e eu pude sentir a dor da menina ao perceber que ali poderia ser uma das minhas mães. A menina se ajoelhou gritando desesperadamente e segurando sua mãe em seus braços. Nem um minuto se passou quando um barulho a avisou que o assassino de sua mãe tinha arrombado a porta.
Pude ver um sentimento pior do que o ódio tomar conta dos olhos da menina. As lágrimas que desciam pelo seu rosto evaporaram. A menina se levantou com fúria correndo pelo seu corpo inteiro. Ela ficou parada esperando o homem passar pela porta da cozinha. Quando ele parou à porta, a menina começou a brilhar intensamente e isso incomodou o assassino, mas não a mim. Seu brilho era amarelo, poderoso e quente. No primeiro passo que ele deu em sua direção com espada em punho, ela explodiu em raios. Pude ver tudo que aconteceu durante a explosão; tudo queimou menos ela mesma e o corpo de sua mãe. Em poucos segundos o corpo do assassino pegou fogo por inteiro e rapidamente até seus ossos viraram cinzas.
Aos poucos a meninas foi perdendo o brilho e caiu de joelhos novamente chorando sobre o corpo de sua mãe. E depois de alguns minutos a menina ainda atordoada se levantou e começou falar sozinha:
— Minha tia. Preciso avisar minha tia Lucy. – Dentre soluços ela foi cambaleando ao seu quarto, jogou algumas roupas numa mochila preta florida e antes de sair pela porta do apartamento deu uma última olhada para sua mãe.
A segui pelas ruas de seu bairro. Numa placa de trânsito vi que eu estava em Hell’s Kitchen. Ela corria e parava chorando, mas não parou de andar em nenhum momento. A todo o momento ela olhava para trás a procura de alguém, mas era de madrugada, não havia ninguém na rua. Depois de minutos nesse ritmo ela parou numa rua de pequenos prédios dos dois lados. Numa placa de esquina vi que ela havia entrado numa na rua West 47th e parou no prédio de número 50 e tocou a campainha algumas vezes até ser atendida. Não consegui ouvir o que a outra pessoa falou no interfone, mas logo a porta se abriu e a menina entrou. Só podia ser a tia da menina, e a menina só podia ser Bianca Almeida.
Minha visão começou a ficar embaçada e eu fui voltando à minha consciência até que acordei. Sentei-me rapidamente respirando afobado.
— Eu sei pra onde devemos ir.— Falei olhando para frente, mas do meu lado estava Jazy.
— Como assim, Gabriel? Você sonhou? – Perguntou o sátiro ansioso ao meu lado.
— Sim... Não... Foi mais uma visão.— Falei ainda ofegante – Eu vi seu apartamento, vi sua mãe sendo morta e vi para onde ela foi logo em seguida.
— Ela quem? Bianca Almeida, a filha de Apolo? – Perguntou Jazy surpreso.
— Sim, ela mesma.— Confirmei – Precisamos ir. – Falei me levantando ainda atordoado.
— Ei, respira. Respira. – Falou Jazy enquanto me balançava pelos ombros. Segui seu conselho e respirei fundo e consegui me acalmar. Olhei no relógio, já eram 9:30 da noite.
— Ei cara, você não dormiu? – Perguntei ao sátiro tentando organizar meus pensamentos.
— Não, estou muito ansioso. – Não era pela missão, mas sim para ver seu amado.
— Tudo bem... Daqui uma hora e meia nós partimos!— Falei puxando uma cadeira e sentando ao lado da janela onde Jazy já estava observando a rua.
Durante essa uma hora e meia, conversamos sobre meu sonho, contei onde era o apartamento de Bianca e para onde ela foi. Falamos sobre o seu amado que se chama Albert. Falamos sobre o acampamento de Nova Iorque. Especulamos sobre meus sonhos no tártaro. Sobre quem tinha poder suficiente para sequestrar a deusa da magia. Ele estava muito curioso para saber como eu via a homossexualidade e como isso era tratado entre meus amigos. Até que o relógio marcou 10:45 da noite e fomos acordar os outros. Jazy tinha muita coisa a me perguntar ainda, mas não havia mais tempo.
Em quinze minutos estávamos todos prontos e então descemos. Acertei a conta com o hotel que deu 50 dólares, e saímos pelo hotel.
— Para onde iremos? – Perguntou Marti.
— Hell’s Kitchen.— Respondi.
— Pera, esse não é o bairro do Demolidor da Marvel? – Perguntou Dan.
— Exato, irmão.— Abri um sorriso.
— Mas porque para lá? – Perguntou Agatha e então comecei a explicar meu sonho/visão. Depois que terminei, Jazy começou explicar o trajeto que estávamos fazendo:
— Estamos na Central Avenue. Poderíamos seguí-la até Union City onde vamos tentar pegar uma balsa à essa hora para atravessarmos o Hudson River e já chegarmos à Hell’s Kitchen. Mas seguir uma reta nos expõe mais ainda e somos mais facilmente seguidos. Vamos mudar pulando de avenidas paralelas.
Andamos mais ou menos 30 minutos quando Jazy percebeu que haviam três silhuetas com blusa e capuz na cabeça nos seguindo e silenciosamente avisou todos. Senti a adrenalina tomar conta do meu corpo enquanto eles se aproximavam, mas ninguém tinha certeza ainda se era monstro mesmo. Olhei para Jazy e vi-o respirar fundo tentando sentir o cheiro, então ele arregalou os olhos e logo pensei que realmente eram monstros. Mas ele mexeu os lábios e eu entendi “semi-deus”. Tomei um susto. Mas logo parei e me virei para eles e outros me seguiram.
Calmamente eles tiraram o capuz e revelaram seus rostos. Eram dois homens e uma mulher. O da esquerda devia ter 1,80 metros, tinha cabelos pretos lisos sobre a testa. Devia ter seus 20 anos e tinha corpo atlético pelo que dava para perceber sob o moletom preto. O cara do meio era um pouco mais baixo que o outro, negro um pouco mais escuro que Dan, tinha ombros mais largos e era mais corpulento, seu cabelo crespo formava um pequeno Black Power e aparentava ser um pouco mais novo que o outro. A mulher tinha mesma altura que o cara ao seu lado, tinha cabelos pretos, lisos e longos caídos em uma trança sobre seu ombro direito. Seu rosto asiático tinha um olhar poderoso.
— Jake. What’re you doing here? Who’s that guys? (Jake. O que está fazendo aqui? Quem são esses?)— Jazy deu um passo a frente quando reconheceu o semideus da esquerda.
— Well, well, well. This is Jazy, the youngest satyr of the camp. (Ora, ora, ora. Este é Jazy, o mais novo sátiro do acampamento.) – Falou Jake ao reconhecer Jazy – Dude, I was so tired of that people in that camp. I couldn’t handle them anymore, so, I leave. (Cara, Eu estava de saco cheio daquele pessoal do acampamento. Eu não os aguentava mais, então, fui embora.)
— What do you mean with “I leave”? (O que você quer dizer com “fui embora”.) – Perguntou Jazy sem entender nada.
— I received a very good offer and I accepted it. Now, I’m not loyal to the Olympus anymore. (Eu recebi uma oferta muito boa e a aceitei. Agora, não sou mais leal ao Olimpo.) — Falou o Semideus – Oh forgive my impoliteness. He’s is Anwar Hefestus's son, and she’s Akemi Demeter's daughter. He’s from South Africa, and she’s from Hong Kong. (Oh, perdoe minha falta de educação. Ele é Anwar, filho de Hefesto, e ela é Akemi, filha de Deméter.)
— Tell me why you were following us, now. (Me diga porquê vocês estavam nos seguindo, agora.) – Eu já tinha perdido a paciência e sabia que ele era encrenca, então vamos encurtar isso.
— Oh, calm down, man. I was about to ask you what do you want in my city. ( Oh, se acalme, cara. Eu estava prestes a perguntar à vocês o que vocês queriam na minha cidade.)
— This’s definitely not your business! (Isto definitivamente não é da sua conta.) – Respondi.
— You must be brazilians. I should noticed later. (Vocês devem ser brasileiros. Eu deveria ter percebido antes.)— Falou o semideus.
— My advise to you is to say what you want, now. We have a mission and we are in a hurry. (Eu te aconselho a dizer logo o que você quer. Nós temos uma missão e temos pressa.)
— We have a mission, too. We need to kill a Apolo’s daughter. But, unfortunately, we’ll have to kill you first. (Nós temos uma missão também. Temos que matar uma filha de Apolo. Mas infelizmente teremos que matar vocês primeiro.) – Falou o Jake enquanto desembainhava sua espada e tirava seu escudo das costas. Percebi que sua velocidade e técnica eram superiores à minha.
— Cuidado, eles são mais experientes que nós.— Falei para os outros enquanto os três vinham em disparada. Já estávamos preparados. Jake fixava seu olhar no meu. Ele me escolheu para a luta. Não saber de quem ele era filho, era uma desvantagem, mas ele não sabia quem era meu pai também, estávamos quites.
Nossas espadas cruzaram e eu senti sua força que não era maior que a minha, mas a maior contra eu já havia lutado antes. Enquanto disputávamos força percebi que Agatha e Jazy estavam duelando com a filha de Demeter e Dan e Marti contra o filho de Hefesto.
No fim o duelo não deu em nada. Percebemos que nossas forças eram iguais e nos afastamos. Novamente ele avançou com sangue nos olhos, pulou e desceu sua espada em direção a minha cabeça, ele não quer apenas nos derrotar, se dermos brechas irão nos matar. Levantei meu escudo e quando a espada o tocou o desviei a espada para um lado e rolei para o outro.
Marti estava de longe atirando flechas em Anwar enquanto Dan o atacava ferozmente, mas o filho de Hefesto era durão e conseguia lidar com os dois. Agatha e Jazy atacavam sincronizadamente, mas a filha de Deméter escapava com movimentos graciosos.
Agora era minha vez de atacar. Corri na direção do inimigo estoquei uma, duas vezes e soltei um chute frontal no peito dele, mas ele foi mais rápido e conseguiu segurar minha perna. Rapidamente rodei meu corpo no ar e mirei um chute em seu rosto com a outra perna. Para escapar do chute, ele teve que soltar meu tornozelo. Quando voltei à guarda ele já estava me atacando novamente. Me defendia com o escudo e com a espada, mas percebi que não conseguiria fazer aquilo por muito tempo. Me concentrei em storm e ataquei a espada do inimigo com mais força. Seu ataque parou quando encontrou storm e sua espada foi em direção ao chão, mas não saiu da mão de seu esgrimista. Aproveitei a chance e ataquei seu rosto com meu escudo. Pela força do ataque era para ele ter caído nocauteado, mas seu rosto apenas foi para trás eu um corte se abriu de baixo de seu olho direito.
— I’m a son of Ares. You can’t bring me down with that! (Eu sou um filho de Ares. Você não pode me derrubar com isso!) – Agora estava explicado toda essa força, pericia e resistência.
— So... (Então...) – Falei enquanto estourava um cano d’água que passava a baixo de nós. Um buraco se abriu e criou uma parede d’água entre nós. Larguei meu escudo e pulei com storm em mãos. Eu conseguia ver exatamente onde ele através da água. Ele não esperava o ataque, então desci storm com força total em direção à sua cabeça. Por reflexo ele defendeu com seu escudo não aguentou o ataque repentino fortalecido pela água. Ele caiu apoiado em seu braço direito, e eu pousei do pulo em pé com storm rachando o escudo do inimigo. Quando o escudo se partiu em dois, ele me chutou fortemente nas costas e isso me fez cair para frente, mas tive tempo de rolar sobre meu ombro e me voltar à ele. Agora nenhum dos dois tinha escudo.
Mais perto de mim estava Dan e Marti contra o filho de Hefesto que já tinha sua roupa toda rasgada por flechas. Dan estava com o rosto sangrando, e o braço esquerdo quebrado, mas conseguia se virar com sua lança e apenas um braço. Marti estava com o escudo de Dan e agora atacava o inimigo diretamente.
Agatha e Jazy pareciam estar se saindo melhor. Akemi estava sangrando mais, mas ainda tinha um olhar determinado no rosto. Então de repente a filha de Deméter soprou algo em sua mão na direção do rosto de Jazy. O sátiro ficou verde e caiu desmaiado no chão. Quando a asiática avançou para finalizar o sátiro, Agatha lançou uma de suas adagas que escondia na parte de trás da bainha e acertou a semideusa na coxa esquerda. Isso a fez parar na metade do caminho apenas para se defender de outro golpe de Agatha que foi muito rápida.
Me concentrei na água que jorrava atrás do filho de Ares e o ataquei com golpes d’água. Mas mesmo de costas, o semideus conseguiu desviar dos três ataques seguidos e então correu em minha direção. Ele expandiu sua aura e pulou em cima de mim como um leão. Não aguentei o peso do ataque e cai de costas com nossas espadas soltando faíscas. Consegui tirar ele de cima de mim com um chicote d’água que fiz enrolar em seu pescoço. Com os pés fora do chão e se debatendo, Jake conseguiu girar e romper o chicote. Rapidamente formei outro e consegui arrancar a espada de sua mão e a joguei para longe. Ele se concentrou em seus punhos irromperam em uma aura vermelha, e ele avançou correndo e desferiu um soco que eu parei com storm, mas com a força fui jogado com força à parede de uma barbearia que havia atrás de mim. Com o braço esquerdo ele socou na direção do meu rosto, mas acertou a parede. Um buraco se abriu ao lado da minha cabeça, e ali soube que eu não poderia vacilar mais. Juntei minhas últimas forças e com a água que jorrava do chão fiz uma grande bolha e a trouxe até nós. De repente estávamos boiando dentro da bolha. Agora eu me movia muito mais rápido. Sai de sua mira e me movi para trás dele. Enquanto eu o atacava com chutes e socos eu decidia se ele iria viver ou não. Eu não queria ter sangue de semideus nas mãos, mas também não queria ser aquele se fodia por ter poupado alguém que não me pouparia. Eu sabia que me lembraria daquilo pelo resto da minha vida. Eu não contava em ter que enfrentar semideuses traidores. Em pensamentos pedi perdão a Ares e Poseidon, mirei o golpe, fechei os olhos e perfurei seu coração com storm.
Eu não sabia o que pensar e nem sabia o que estava sentindo. Eu acabara de tirar a vida de alguém, pois não tinha escolha. Desmanchei a bolha ao meu redor e fui ajudar os outros. Agatha tinha Akemi em seu domínio. Jake estava preso numa parede por uma flecha que atravessa seu braço. Encarei Agatha, seu olhar era de pesar e dor. Mas ela tinha que ir em frente. A filha de Atena fechou os olhos e rasgou a garganta da filha de Demeter.
Marti tinha uma flecha em mira, bastava soltar os dedos que seguravam a flecha e tudo estava acabado. O filho de Apolo respirou fundo quando Dan se aproximou dele, segurou sua mão e falou:
— Juntos.
O filho de Hefesto não chorava e não implorava, apenas mirava os dois que tinha seu futuro nas mãos. Dan puxou os dois dedos de Marti e a flecha voou com o destino certo: a cabeça de Anwar.
Estava feito. Nossas vidas mudariam dali em diante para sempre. Me senti enjoado, mas me concentrei e fui na direção de Jazy que estava estirado no chão.
— Os batimentos cardíacos dele estão fracos. – Falou Marti – Vou ter que agir logo.
O filho de Apolo grudou sua boca na do sátiro e sugou algo. Logo ele cuspiu uma gosma verde e colocou suas duas mãos brilhantes sobre o peito de Jazy que depois de alguns segundos voltou a respirar normalmente e logo acordou.
O sátiro olhou ao redor e viu os três corpos e olhou para nossos rostos:
— Não se torturem, fizeram o que devia ser feito. – Falou o sátiro ao ver o pesar em nossos rostos. – Vamos logo embora daqui. – Falou o sátiro já se levantando.
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