A Guerra do Alvorecer
1 Fui atacado pela minha sobrinha
- Onde estou? — Ruas totalmente desertas casas e prédios totalmente limpos, e simétricos, como se tivessem acabado de ser construídos e tivessem sido desenhado pelo melhor arquiteto do mundo — Estou com minha mochila nas costas e fone no ouvido. Olho no relógio e são 17:45, o horário exato que chego do trabalho — Todas essas construções tem uma mistura do que mais existe de contemporâneo hoje em dia com traços gritantes da arquitetura da Grécia antiga – Espera… Eu conheço essas ruas, ou pelo menos são incrivelmente parecidas com as ruas do meu bairro. Continuo andando, admirando cada casa da minha rua que subitamente viraram grandes maravilhas da arquitetura. Avisto a uns 50 metros de mim, uma casa que me é tão familiar que me deu um aperto no peito – era a minha casa – fui andando vagarosamente em direção á ela; o portão que lembro era pequeno, agora é grande, e com suas barras de ferros formando curvas maravilhosas, sua cor, é de um dourado reluzente que parece ouro. Admirei por uns dez minutos essa maravilha de ferro – que mais parece ouro.
E então empurro o portão que está aberto e entro, sem o menor receio. – meu pequeno quintal, agora está maior e com um jardim maravilhoso, com vinhas para todos os lados e bastante outros pés de frutas e flores -. Continuo andando enquanto me delicio com essas uvas – as uvas mais doces e saborosas que já comi em toda minha vida! E logo penso — daria uns ótimos litros de vinho-. Cheguei agora nas escadas – agora toda em mármore, tão limpas que eu podia enxergar meu reflexo no chão. Minha porta agora é toda branca com gravuras na madeira – empurro-a e subo o segundo lance de escada. Estranho o silencio total, normalmente minha cachorra deveria vir me lamber e meu sobrinho me abraçar – enfim, devem estar na avenida -. Fiz o que faço sempre quando chego em casa depois do trabalho – jogo minha mochila no sofá, tiro meu boné e tudo que tem em meus bolsos e coloco-os na mesa, e então vou até o meu quarto, onde minha mãe deve estar deitada, tirando seu cochilo da tarde. E para minha surpresa ela não está. Então saio pela casa a procurando, e não acho ninguém. Volto até a mesa e não tem nenhum bilhete. Pego meu celular e vou em direção ao meu quarto na intenção de deitar em minha cama e ligar pra uma de minhas irmãs pra saber onde foram, e lógico, reclamar porque não avisaram que iam sair.
Chegando ao quarto, então, me deparei com algo que realmente me assustou e me paralisou – uma mulher, silhueta magra de estatura média. Ela estava virada de frente para a janela, cabelos levemente enrolados cujo seu corpo estava coberto por um vestido branco que ia até os pés descalços da moça que estava imóvel, ombros caídos e seus braços pousados ao lado de seu corpo totalmente relaxado. Seu cabelo reluzia um castanho claro, com os raios do pôr do sol a contemplar a mulher. – Eu estava completamente paralisado, mal sabia o que pensar e muito menos o que fazer -. Então um raio de sol acertou meu olho ao mesmo tempo em que um vento com cheiro da brisa do mar acertou meu rosto. Vento que seria capaz de derrubar meu boné se eu estivesse com o mesmo. Essa brisa despertou em mim a sensação de que eu estava correndo perigo. Então meu corpo por si só fez o que se esperava de um lutador de kung-fu — cerrei os punhos, tomei conhecimento do espaço que eu tinha ao meu redor e levantei guarda na altura do meu rosto, isso em frações de segundos – Então a mulher lentamente se virou ao meu encontro. E para o meu total espanto era Gabi, minha sobrinha. Com a surpresa, abaixei minha guarda na hora e minhas pernas fraquejaram – sim, é ela. Mas seu rosto está sem expressão nenhuma, seu olhos estão vazios como o infinito abandonado por todas estrelas e galáxias.
Tento falar, mas a voz não sai. Procuro de toda forma me concentrar até que consigo parar de tremer retomar uma postura defensiva e sinto aos poucos o ar enchendo meus pulmões minha visão focando e a voz voltando a minha garganta, e a única coisa que consigo pensar em falar é – Quem é você? – A mulher desprende os lábios e aos poucos forma um sorriso maligno em sua boca, e então ela finalmente fala com ironia e uma expressão maligna:
- Dal? Você não se lembra de mim? Sou eu, sua sobrinha querida, Gabi.
E essa resposta apenas me deixa mais assustado. Então respondo – Se uma coisa que você não é nesse mundo, é a Gabrielli. Mas se bem que você sabe ser sínica igual a ela – Não a espero responder e logo arrumo coragem não sei de onde para levantar minha voz – Enfim, quem você é ou não, já não me interessa mais. E Já que você é a única por aqui, me responda, porque meu bairro está tão diferente e onde está minha família? E eu não vou perguntar duas vezes – Eu esperava que ela fosse me atacar de alguma forma, mas não, ela abre a boca e solta uma gargalhada demoníaca e estrondosa, risada que bagunçou mais ainda minha mente, coisa que eu não achei que fosse possível no estado que eu estava. Depois de alguns segundos de tortura ela me respondeu no mesmo tom irônico, porém com mais seriedade no que falava:
— Só podia ser filho de quem é mesmo. Tão arrogante tão seguro de si, tão destemido... Isso chega a me excitar, sempre tive uma grande queda por aquele velho barbudo. Mas ele se mostrou não merecedor da minha paixão. Ele pisou em mim, me humilhou perante aquela mulherzinha de quinta. Sinceramente? Não sei o que ele viu nela. Eu posso ser quem eu quiser e o que eu quiser. Já ela? Não passa de uma víbora.
Eu já não sabia nem como confrontá-la mais, e não fazia ideia do que ela estava falando, queria sair logo dali para procurar minha família, mas a única coisa que eu podia fazer no momento era tentar arrancar dela as informações que eu precisava, então continuei a confrontá-la do melhor modo que eu podia no momento – Para uma mulher que não tem olhos eu não podia esperar que ela tivesse sã consciência do que fala. Mas vamos entrar num acordo... Eu não sei onde estou e nem onde minha família está e não faço ideia de quem está possuindo o corpo da minha sobrinha, então o que me resta é embarcar na sua loucura, então vamos lá... Primeiro me diga quem é meu pai, segundo você, que ai eu tento o conhecer e convencê-lo de te dar o que você precisa, que é de uma boa transa.
Ela sorriu e respondeu:
- Menino como você é depravado. Isso que dá andar com os filhos daquele bêbado barrigudo.
A cada palavra dela eu ficava mais confuso, mas eu não podia demonstrar fraqueza, pois odeio fazer isso. Então decidi mexer na ferida das mulheres para tentar desequilibra-la — Aliás, te imagino aquelas bruxas da saga Harry Potter que ficam nas ruas mais esquisitas do beco diagonal — Enquanto eu pronunciava essas palavras eu via se formar no rosto da minha suposta sobrinha uma carranca horrível com sede de morte. O vestido branco se transformou num véu preto, a mulher que antes era minha sobrinha se tornou numa mulher adulta, até que bonita se não fosse pelo rosto entorpecido de raiva. Ela começou a subir, empurrada por uma fumaça preta e roxa escura. Então ela começou a cuspir algumas palavras pausadamente:
— Maldito seja você, garoto. Tenho dó da sua vida daqui pra frente, eu própria me encarregarei de arrancar de dentro de você sua alma e ceifá-la em tortura eterna. Se prepare garoto, se prepare.
Foi então que ela se lançou voando sobre mim com sua mão esticada e sua boca de abrindo como a de um leão faminto pronto pra engolir sua caça. Cai e bati minha cabeça no chão e desmaiei.
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