A Guerra do Alvorecer
29 Destino: Casa
O responsável pelo volante agora era Leonardo. Eu não fazia ideia que ele sabia dirigir, mas estávamos tão cansados que quando ele se ofereceu para dirigir ninguém ao menos se lembrou do fato de ele ter apenas 16 anos e no Brasil só ser permitido tirar a carta de motorista aos 18. Apenas entramos no carro e seguimos estrada.
Pelo o que Jazy nos contou, levaríamos ao menos 5 horas para chegar ao aeroporto, então aproveitamos para tirar um cochilo. Acordei com os raios do pôr do sol no meu rosto. Estávamos perto de começar a atravessar a ponte do Bronx para Manhattan.
— Eu preciso mijar. — Falou Lelo.
— Sério, cara? Não tem como segurar até o aeroporto? — Perguntei.
— Eu até pensei em segurar, mas olhe mais a frente... Nós vamos parar no trânsito. — Falou ele. E ele tinha razão.
— Beleza...— Concordei e em seguida ele pegou a primeira saída para o bairro do Bronx.
Paramos na primeira loja de conveniência que vimos. O sol já havia se posto e a noite chegado. A cidade brilhava e parecia ter vida própria.
— Acordem.— Falei pros outros que estavam nos bancos de trás e imediatamente Agatha, Marti e Bianca acordaram. Bianca um pouco assustada, mas se acalmou logo que viu todos nós no carro.
— Vamos dar uma parada de 15 minutos para comer algo e ir ao banheiro. — Falei.
— Onde nós estamos? — Agatha foi a primeira a perguntar.
— No Bronx. — Respondeu Bianca. — Minha melhor amiga mora aqui. — Completou ela e pude sentir o tom de tristeza em suas palavras. Ninguém falou nada sobre o assunto.
Dan ainda estava dormindo, como de praxe. — Marti, faz o favor de acordar esse morto.— Marti se virou para trás e deu um tapa da cara dele. O que o fez dar o salto do banco e falar algo que me pareceu "Eu acabo contigo, Jeremiah". Todos começaram a rir da cara de dele.
— Paramos um pouco para ir ao banheiro e comer algo. Estamos no Bronx.— Situei Dan. Todos desceram do carro e eu lembrei. — Peguem suas espadas.
— Pra que espadas? Nós só vamos na conveniência. — Questionou Dan.
— A última vez que algum dos nossos entrou num bar, a Thay encontrou um semideus morto e foi atacada por um monstro.— Lembrei Dan do que tinha acontecido quando ainda não tínhamos chegado no nosso acampamento. Ele apenas gesticulou como quem tivesse visto sentido no que falei e abriu o porta malas.
Lelo entrou correndo na loja de conveniência e foi direto ao banheiro. Calmamente todos fomos atrás.
Quando sai do banheiro e bati os olhos nos lanches naturais que estavam no balcão, minha barriga roncou tão alto que eu acho que o atendente ouviu porquê na mesma hora ele olhou para mim.
— Good evening. (Boa noite) — Falei para o rapaz que eu não pude deixar de reparar que era muito bonito. Pensei em ceder ao meu vício em flertar, mas logo lembrei que de nada adiantaria porquê minha vida agora não era mais minha, praticamente. — Can I have two of this natural sandwiches, a large coffee and this chocolate bar, please? (Eu quero dois desses sanduiches naturais, um café grande e essa barra de chocolate, por favor.)
— For now, sir. — (Para já, senhor.) — Respondeu o garoto olhando nos meus olhos.
— Oh, please. Sir no. You may call me just Gabriel. (Oh, por favor. Senhor não. Você pode me chamar apenas de Gabriel) — Se lembra do vício em flertar? Então...
Agora ele tinha um sorriso no rosto em quanto me servia os dois sanduíches. Os outros cinco chegaram ao mesmo tempo e se sentaram no balcão comigo. Dan de um lado e Lelo de outro.
— So, Gabriel. Where are you from? (Então, Gabriel. De onde você é?) — Perguntou o rapaz e eu pude sentir os olhares dos cinco ao meu lado sobre mim, mas não olhei para nenhum deles senão eu começaria a rir.
— Me and my friends are from Brazil. (Eu e meus amigos somos do Brasil.) — Respondi aposto que com o rosto vermelho de vergonha por conta dos cincos malditos estarem me encarando e dando risadinhas.
— Oh, nice. I like brazilian people. You guys are really fun. (Oh, legal. Eu gosto de brasileiros. Vocês são muito divertidos.) — Falou o rapaz.
O papo entre mim e o rapaz continuou.
— Vamos esperar no carro. E você paga. — Cochichou Dan no meu ouvido e foi em direção a porta da loja com os outros quatro atrás.
Depois que terminei de comer, olhei no relógio e me assustei porque já tinha se passado 30 minutos e estranhei pois ninguém veio me chamar. Me levantei nas pressas, expliquei para o rapaz (que a propósito se chama Mike) que nós tínhamos que pegar um vôo pro Brasil ainda essa noite. Paguei a conta e com o troco veio um guardanapo com a seguinte mensagem: "I kow you can't have a cellphone, so when you come to NYC again... Show up!!" (Eu sei que você não pode ter um celular, então quando você vier para NYC novamente... Apareça!!) e uma carinha sorridente piscando. Como ele sabe que eu não posso ter um celular? Olhei confuso para ele, mas ele continuava com o mesmo sorriso meigo no rosto. E fiquei espantado com a possibilidade de ele ser um semideus, mas logicamente eu não iria perguntar.
— I will! (Eu vou.)— Foi tudo que consegui responder antes de virar as costas ainda espantado.
Mike era alguns centímetros mais alto que eu. Sua pele levemente bronzeada acentuava o brilho de seus olhos castanhos escuros atrás de seus óculos redondos. Cabelo negro, enrolado e rebelde e barba por fazer. Enquanto me encaminhava até a porta de saída uma mistura de borboletas no estômago e um frio da espinha, me dava a sensação de estar com as pernas fracas. Aposto que estava andando estranho e pagando "micão" pro cara. Quando fechei a porta de vidro atrás de mim, dei uma última olhada para dentro da loja e lá estava Mike atrás do balcão me assistindo ir embora.
Chegando no carro vi as armas de todos no banco de trás, mas não os achei. Imediatamente me preocupei e storm começou a brilhar e vibrar no meu quadril. Segurei sua empunhadura, fechei os olhos e segui meus instintos. Andei por dois quarteirões me afastando completamente do movimento nas ruas. Eu ia passar por um beco quando ouvi a voz de Lelo. Parei me encostei na parede e dei devagar, com a respiração presa olhei para dentro do beco e rapidamente avistei Dan, Lelo, Agatha e Marti desarmados, e na frente deles um homem desconhecido segurando Bianca com uma lâmina em seu pescoço.
Eu não podia entrar naquele embate, pois nada mudaria. Ninguém poderia atacar enquanto ele estivesse com uma lâmina no pescoço da garota. Respirei fundo e me concentrei; primeiro eu senti todo fluxo de água que tinha ao redor. Infelizmente nada estava a um alcance suficiente pra que eu pudesse manipular de tão longe. Olhei ao meu redor... A loja que eu estava parado em frente tinha apenas dois andares e já estava fechada. Calculei bem e vi que poderia chegar ao telhado dela com meus poderes. Então comecei a escalar a fachada da loja e em segundos cheguei na cobertura dela.
Abaixado olhei para o beco e nada havia mudado, então comecei a pensar o que fazer quando ouvi um grito de dor de Bianca e o cara mandando todos se afastarem. Continuei a ouvir os gemidos da garota, o que significava que ela estava viva, mas eu não sabia por quanto tempo. Então resolvi fazer a primeira coisa que veio na minha mente. Pulei. Eram mais de seis metros de altura. Só fui notado quando e afundei storm no ombro direito do cara até o fim da lâmina. No mesmo instante ele explodiu em pó dourado. Era um monstro.
Bianca caiu no chão com a mão na garganta, mas logo Martinato já estava com suas mãos curandeiras sobre ela.
— Alguém consegue me explicar o que aconteceu aqui?— Perguntei, tentando não me exaltar.
— Enquanto você estava lá com o seu crush, nós fomos atacados. — Falou Dan num tom irônico. Reação normal de ciúmes.
— Eu pensei que eu tinha dito para ficarem com suas armas. — Repreendi.
— Não ia adiantar de nada. — Respondeu Bianca com a voz fraca. — A culpa foi minha, eu que sai correndo atrás dele... Era um metamorfo. Ele queria me atrair, então ele se transformou na pessoa que eu mais odeio no mundo... O cara que matou minha mãe. — As lágrimas escorriam pelo rosto da filha de Apolo.
— Mas você não matou ele no seu apartamento?— Perguntei confuso, pois na visão que tive com ela, o cara havia sido torrado pelo seu poder de raios do sol.
— Sim... Eu acho que sim. Eu não me lembro muito bem do que eu fiz naquela noite. Só lembro direito do corpo da minha mãe no chão da cozinha, muito sangue, o rosto dele e um clarão amarelo. — Explicou a garota nitidamente ficando mais nervosa ainda.
Abracei-a. No começou puder sentir-la desconfortável no meu abraço, mas logo ela se deixou encaixar nos meus braços chorando.
— Vamos... Nosso acampamento nos espera. — Falei e seguimos em direção ao carro.
Do Bronx até o aeroporto demorou mais 1 hora e meia por conta do trânsito.
Quando chegamos lá, já passava das 10 da noite. Conseguimos os últimos 6 lugares no avião no último minuto. Tivemos que atravessar o aeroporto correndo para pegar o avião a tempo, mas conseguimos embarcar e agora estávamos voltando para casa. Sentei na minha poltrona e logo o sono veio à tona e meu último pensamento antes de adormecer foi o rosto de sorridente de Mike.
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