Eu tinha plena consciência de onde eu estava, mas esse sonho era tão real que eu podia sentir os pêlos dos meus braços se ouriçarem por conta do vapor quente e fedorento que saia de todos os lugares. Essa sensação me era muito familiar, eu já estive aqui. Um sensação de terror subiu dos dedos dos meus pés até a ponta dos meus cabelos e eu paralisei completamente quando me dei conta de onde eu estava... Nas profundezas do mundo inferior. Eu tentava de todos os modos acordar, mas algo me prendia ali, era quase como um coma (não que eu já tivesse num coma, mas pelo menos parecia com o que as pessoas diziam sobre). De repente eu vi um ponto de luz acender na minhas frente, eu não tinha como dizer a distância porque a escuridão era total. Essa luz foi se intensificando mas não revelava nada. Cada vez mais forte. Fechei meus olhos pois estava com medo de ficar cego, mas de nada adiantou porque eu continuava a ver essa luz. Quando eu pensei que fosse se consumido por ela, eu acordei.

A primeira coisa, ou melhor, pessoa que vi foi Bianca. A garota estava sentada no meu colo, pois não tinha espaço entre as poltronas do avião para ela ficar em pé. O lado esquerdo do meu rosto ardia, eu não sabia certamente o porquê, mas provavelmente ela deve ter me dados uns tapas.

— Porra, cara. Todos pensamos que você estava em coma. — Falou a garota.

E pela palavra 'todos' eu pensei que se referia a todos nossos amigos, mas não. Ao meu redor estavam todos de verdade. Passageiros, bombeiros, aeromoças, comissários de bordo, co-piloto e até o próprio piloto.

O que... O que está acontecendo? — Eu ainda não conseguia raciocinar direito.

— Estamos há 30 minutos tentando fazer você acordar. — Falou Leo que parecia ser o único que não tinha enlouquecido ali.

O QUÊ?— Gritei — 30 minutos? Mas... Mas me pareceu apenas alguns minutos.— Falei mais atordoado ainda.

— O que te pareceu apenas alguns minutos? — Perguntou um dos dois bombeiros que estava a me encarar.

— Hmmm... Só um sonho... — Falei sem passar credibilidade alguma. Ninguém comprou a história, mas resolveram não contestar, pois eu imagino que tudo que eles queriam naquele momento era esvaziar a aeronave.

Agora podemos ir.— Falei ao mesmo tempo que levantava e pegava um garrafa d'água da mão de Dan.

— O senhor se sente melhor? — Perguntou o piloto.

Sim, senhor. Obrigado a todos.— Falei dando uma olhada e sorriso tímido e rápido para todos. O micão foi real!

Pegamos nossas armas que aos olhos dos humanos comuns pareciam tudo, menos coisas que não poderiam entrar num avião. Nessa hora me bateu curiosidade em saber o que eles viam no lugar das armas.

Eu saí apressado do avião sentido o desembarque. Minha cabeça ainda estava uma bagunça e meus amigos pareciam entender isso, pois andavam todos atrás de mim sem me perguntar nada, apenas especulando um com o outro sobre o que poderia ter acontecido.

Tivemos sorte de pegarmos um vôo direto para Guarulhos. Agora estávamos há poucas horas de casa. No aeroporto pegamos um ônibus executivo que ia até o aeroporto de Congonhas. Quando me dei conta de que congonhas ficava há 15 minutos de distância da minha casa, meu coração apertou. Lembrei das minhas mães, da minha família e até da minha vizinhança que num dia comum eu não suportava. As lágrimas começaram a descer devagar, mas em poucos segundos se transformaram em uma verdadeira crise de choro daquelas que saem catarro do nariz e você não consegue falar. Meus sentimentos estavam mais bagunçados que meus pensamentos, se é que isso é possível. Lelo estava do meu lado. Ele sempre foi muito sensível e expert em lidar com crises alheias. Para tentar me acalmar ele apenas passou seu braço em torno dos meus ombros me puxou para ele. Seu corpo era gelado, mas eu conseguia sentir o calor de sua aura. Isso foi o suficiente para que eu começasse a me organizar novamente.

Dentro de meia hora chegamos na estação de metrô do Carandiru. O estava brilhando fortemente, na minha cabeça o sol tinha se posto a umas 3 horas atrás apenas. Mas isso foi em Nova Iorque.

Entrar no parque da Juventude novamente foi estranho. Há alguns dias (que pareciam décadas), nós tínhamos travado umas de nossas primeiras batalhas com monstros. Giu foi salva da morte por sua mãe Afrodite, e tudo isso só para chegarmos em nosso novo lar.

Nem noção do dia da semana eu tinha mais, então parei uma garota que passava por mim e perguntei. Hoje era dia 1 de abril de 2014, 13:35 da tarde, terça-feira.

Seguimos em direção ao sino. Flashes de memória da batalha explodiam na minha cabeça e atiçava meus extintos de guerreiro. Até storm sentiu a tensão e começou a brilhar.

— Agora o que fazemos? Não temos a pedra e nem Jujubs para nos levar para o outro lado. — Falou Marti com a voz cansada.

Todos olhavam pra mim como se eu soubesse, mas não sabia. Logo me lembrei que eu era o líder nessa missão, então fiz a única coisa que me veio à cabeça; parei fechei os olhos e me concentrei. Lembrei do que Afrodite disse aqui um pouco antes de ir embora... "rezem para seus pais". Então foi o que fiz; pedi a Poseidon que clareasse meus pensamentos e organizasse meus sentimentos para que me permitisse ver a chave de entrada para casa.

Como num estalar de dedos, eu sabia o que tínhamos que fazer... Pedir licença.

Nós só precisamos pedir licença.— Falei num tom simplista.

— Como assim pedir licença? — Perguntou Agatha.

Ok... Hum...— Eu estava pensando numa situação que fizesse mais sentido para eles. — Ok, entendi! Seguinte... Vocês tem que ir até a base do sino, pedir licença em voz alta e clara e subir na base do sino com o pé direito primeiro. Quem vai primeiro? — Todos olhavam para mim como se ainda não tivessem entendido nada — Ok... Eu vou e vocês observam. — Me dirigi na direção do sino, parei na sua base e falei em alto e bom tom: Com licença. — Em seguida coloquei meu pé direito na base e o esquerdo em seguida. Na mesma hora tive a sensação que eu fui sugado para dentro de mim mesmo. E num piscar de olhos eu estava na base da colina do lado de fora do acampamento meio-sangue.

Não demorou nem 10 segundos e Dan apareceu ao meu lado. Em seguida, Lelo, Agatha, Bianca e Martinato.

Simples, né!?— Falei olhando para eles, mas não esperei uma resposta e comecei a subir a colina em direção a entrada do acampamento.

Guardando a entrada estava Erick, filho de Hermes e Anna, filha de Dionísio. Ambos os dois são meus amigos e vieram para o acampamento comigo.

Antes que pudéssemos alcançar a entrada, Anna largou sua espada no chão quando nos viu e saiu correndo em nossas direção. Ela deu um longo abraço em cada um de nós na ordem de quem estava mais perto dela. Enquanto ela me abraçava eu percebi o quão amedrontado eu estava em falhar na missão e quebrar nosso grupo.

Bianca não pareceu muito confortável com o entusiasmo de Anna, mas seu sorrisinho tímido demonstrou simpatia pelo jeito doido da garota.

— Pelo amor de Deus, gente. Eu estava quase morrendo de ansiedade, medo e preocupação, tudo ao mesmo tempo. Por quê vocês demoraram tanto? Olha só minhas unhas. Eu não tenho mais unhas. Roí tudo de ansiedade. Todo mundo está muito louco lá dentro. Esse Leonardo maldito sumiu de repente. Dionísio vai te transformar numa vinha. Ele está furioso. A vadia da Gabrielli já arrumou um macho pra se pegar. Eu to muito afim de uma menina chamada Bella do chalé Deméter. — Anna fala demais e não pararia se alguém não interrompesse.

— Cala a boca, Anna. — Gritou Lelo rindo com o susto que a garota levou.

Ain, seu grosso. — Respondeu a filha de Dionísio que parecia ter ficado sentida, mas logo passou. — Vamos entrar. Dionísio disse que se vocês completassem a missão, teria festa. Hoje é dia de festa. — Ela parecia uma metralhadora de palavras.

Olhar para o rosto sorridente e aliviado desses cinco semi deuses que passaram por tanta dificuldade comigo, é definitivamente algo que me encheu de alegria. Bianca estava a salvo, e todos aqueles que foram comigo também. Olhei para cima, o céu estava azul. Agradeci.