A Guerra Olimpiana
2 Capítulo 2
–O que você está fazendo há essa hora aqui fora? Perdeu a noção do perigo?
–Escalando. Não é óbvio? O que mais eu estaria fazendo pendurada numa parede? Dançando?
–Se eles te pegarem aqui vão mandar matar tanto você quanto eu, por ser seu cúmplice, mesmo eu não sendo.
–Ninguém obrigou você a me ajudar! Ou há mais alguém aqui? Alguém com uma faca que me quer viva?
Ele ficou quieto, sem saber como argumentar.
–Ahn... Mesmo assim você não deveria estar aqui. Já passou do horário de dormir. Se alguém te pegar você será morta!
–Okay. Vou continuar escalando para o meu quarto então!
–E como você pretende entrar?
–Pela janela, quem sabe?
–Boa sorte, então.
–Por quê?
–Seu quarto não tem janelas.
–Ahn... E como eu entro então? Se não há janelas...
–Pela porta, talvez.
–Jura? Pensei que eu iria atravessar a parede! Ou voar e arrancar o telhado!
–Boa sorte tentando. Mas só eu tenho a chave.
–Ótimo! Dê-me a chave e me deixe dormir. Estou cansada e imunda, preciso de um banho.
–E porque eu deveria?
–Fala sério! Só me entrega essa chave e me deixa ir para o meu quarto, antes que eu grite e os guardas nos peguem!
–O que eu ganho com isso?
–O que você quer? Dinheiro?
–Hum... O que você tem pra me oferecer? Além da sua vida?
–Talvez um punhal, ou uma espada... Eu não tenho muita coisa...
–Hum... Tá, pode ser, o punhal serve.
–Okay... Vamos lá então! Ele está no meu baú.
–Hoje você vai dormir aqui, comigo. Para evitar problemas maiores.
–O quê? – Pergunto indignada, gritando, sem me importar com a possibilidade de alguém escutar.
–Isso mesmo que você ouviu, durma aqui comigo esta noite. Há muitos guardas e monstros lá fora. Não quero ser morto por um deles.
–Ahn, eu poderia ir sozinha... Pelos cantos. Ninguém iria me ver. Garanto que não iriam.
–Não! Eles veriam sim! Eles conseguem ver tudo. Talvez não te matem, mas será apenas para te poupar para um futuro pior que uma morte rápida e indolor.
–E porque você se importa? Há pouco tempo eu era sua inimiga! Você deveria me matar enquanto pode.
–Você nunca foi minha inimiga!
Ele deu um passo para frente, na minha direção. Em resposta, dei um passo para trás, evitando uma proximidade que naquele momento não era o que eu queria.
–Eu sei que você não está do lado deles. Eu também não estou. Não acho certo o que eles estão fazendo. Confie em mim...
Dei um passo para trás, com receio.
–E porque eu deveria confiar em você? Não sei nem o seu nome!
–Eu acabei de salvar a sua vida! O que mais eu preciso fazer para ganhar a sua confiança? E meu nome é Dylan.
–Eu... Okay, mas onde eu vou dormir?
–Ahn, eu tenho uma cama de casal... Você pode dormir comigo se você quiser...
Fiquei com vergonha de dormir com um menino, mas eu não tinha outra escolha mesmo...
–Tudo bem, mas não chegue perto de mim! Eu não preciso de uma faca para te matar!
–Nossa! Okay, irei ficar bem longe!
Tentei desviar o olhar ao perceber que estava sorrindo, mas ele viu mesmo assim.
–Para uma filha de Atena, você é linda...
Senti minhas bochechas queimarem. Esperava que ele não tivesse percebido.
–Ahn, obrigada... E você para um filho de algum deus que eu não sei qual é, até que não é tão arrogante como eu havia pensado.
Ele sorriu, um sorriso lindo, iluminado, apaixonante. E eu sorri de volta, talvez inconscientemente, mas sorri, o máximo que pude.
–Vem, vamos dormir. Amanhã já vamos para a guerra. Não queremos arriscar nossa possível última noite de sono.
–Amanhã?
–É, iam nos mandar hoje, mas acharam melhor treinar um pouco.
–Ah...
Deitamo-nos, lado a lado, e ficamos olhando para o teto que se erguia acima de nossas cabeças até adormecermos.
***
Acordamos de madrugada. Eu podia ver o sol raiando no horizonte. Os raios de sol entravam pela janela. Levantei-me e fui ao banheiro. O quarto de Dylan era bem maior que o meu, mas os móveis eram basicamente os mesmos. Fiz minha higiene matinal e troquei de roupa. Ouvi alguém batendo na porta do banheiro.
–Clary, você está aí? Achei que você tinha fugido! Fiquei preocupado.
–Sim, só um minuto.
Abri a porta. Dylan estava parado me olhando com seus olhos cor de mel.
–O que aconteceu, Dylan?
–Nada, eu só acho melhor você ir logo para o seu quarto. Este é o único horário que os guardas estão todos dormindo. Precisamos ir agora se não quiser que alguém nos veja.
–Ah... Okay. Vamos então? Precisamos nos apressar!
Ele me entregou a chave e eu olhei-o sem compreender.
–Achei que você não iria me entregar a chave. Você ainda tem que pegar seu punhal. Ou não o quer mais?
–Não precisa mais. Você vai precisar de todas as armas que conseguir reunir hoje, na batalha.
–Obrigada. Mais alguma coisa?
–Posso te pedir uma coisa? Nada de mais...
–Claro.
–Lute ao meu lado hoje na batalha. Vamos derrotar juntos os nossos inimigos. Você e eu. Contra todos eles. Seremos lembrados eternamente. Começaremos uma revolução!
Sorri para ele, mas ele estava sério. Ele tinha um olhar triste, desamparado. Provavelmente eu também estava assim. A guerra iminente era assustadora. Fomos preparados para guerras no acampamento, mas nunca fomos para uma de verdade.
–Dylan, você quer mesmo derrotar os titãs ao invés dos deuses? Ou isso é uma armadilha?
–Sim, eu quero. Não quero ficar aqui nem mais um minuto. Tendo que fingir lealdade a esses monstros.
–Então eu vou bolar um plano. E eu e você vamos derrotá-los. Juntos.
Ele deu um passo para frente e encarou meus olhos. Eu não resisti e puxei-o para um beijo. Naquele momento nada mais importava. Nem a guerra, nem os deuses ou titãs, nem os monstros e nem os guardas que entravam pela porta.
***
***
Meu sangue gelou, fiquei paralisada.
–Rápido pela janela Clary!
–O que vocês estão fazendo?!
–Rápido, fuja!
–Só se você for comigo, Dylan!
–Vai sozinha! Eu te acho depois!
Olhei para ele. Aquele olhar preocupado, tão encantador.
–Tudo bem, eu vou. Mas eu volto pra te encontrar!
Ele sussurrou uma última coisa em meu ouvido, me causando arrepios e então me empurrou para a janela. No momento em que os guardas iriam me pegar ele puxou a espada e começou a lutar.
***
Não me lembro de muita coisa, tudo passava pela minha mente como um filme em que você avança para ver mais rápido. Em um momento eu estava descendo a parede de escalada, no outro eu estava correndo em meio à guerra e depois eu estava esfaqueando um monstro. A todo instante eu me lembrava daqueles olhos dourados e preocupados me mandando embora. Eu não conseguia acreditar que havia deixado ele para trás. Espantei este pensamento e continuei correndo. Eu já estava sem fôlego quando me lembrei do que ele havia dito: “A caverna”.
Depois de uns dez ou vinte minutos consegui chegar até a caverna. Ele ainda não estava lá, mas eu sabia que ele viria, isto é, se não matassem ou aprisionassem ele por ter me ajudado. Esse pensamento deixou meu coração pesado. E se ele tivesse morrido tentando me ajudar? Chega! Não posso ficar aqui me lamentando. Eu fiquei tão preocupada que esqueci minhas armas!
Saí da caverna e comecei a caminhar. Depois de um tempo achei algumas facas e espadas, talvez de monstros que tenham sido desintegrados. Achei uma mochila também. Peguei-a e coloquei tudo dentro. A mochila era mágica, não tinha fundo. Peguei também ambrosia, néctar, comida mortal, poções e mais algumas coisas que eu achei jogadas por aí.
Voltei correndo para a caverna, pois já estava quase escuro. O sol já havia desaparecido e a lua subia pelo céu. Havia muitas estrelas naquela noite. Entrei e coloquei a mochila no chão para servir como travesseiro. Para algo cheio de espadas e escudos até que a mochila não era tão dura assim. Deitei-me, mas todas as coisas que haviam acontecido em menos de 24 horas voltaram pros meus pensamentos. Parecia impossível dormir, mas eu estava mais cansada do que imaginava. Em menos de dez minutos eu estava dormindo.
***
Acordei assustada. Havia sonhado com o castelo. Dylan estava sendo torturado pelos seguidores de Urano. Ele gritava meu nome e estava desesperado. Sangue escorria de suas costas e pingava no chão. Eu via uma palavra se formar no chão, com o sangue dele: “Morte”.
Levantei-me e peguei um pouco de comida na minha mochila. Também peguei um pedaço de papel e tinta e escrevi uma carta. Rezei para minha mãe e em pouco tempo uma coruja branca e dourada apareceu. Enrolei a carta em seu bico e disse-lhe para que procurasse por Dylan. Ela levantou voo e foi embora. Fiquei novamente sozinha, em minha caverna.
***
Não me lembro de ter pegado no sono, mas acordei com o barulho de passos. Eram passos lentos, como se alguém estivesse mancando. Sentei-me e ajeitei o cabelo em um rabo de cavalo. Peguei a espada que havia deixado pendurada na parede da caverna — aquela que os guardas não levaram para o palácio — e fui em direção ao som. Ao me aproximar percebi uma leve alteração na respiração do ferido, mas prossegui. Levantei a espada e parei em frente àquele garoto. Era Dylan. Ele estava cheio de arranhões e sua perna sangrava. Quando ele me viu seus olhos brilharam, e provavelmente os meus também. Peguei-o pelo braço e levei-o para dentro. Improvisei uma tala para ele e cuidei de seus ferimentos. Dei ambrosia e néctar e deixei-o descansar.
Após aproximadamente duas horas ele acordou. Seus ferimentos já estavam praticamente curados e sua perna não sangrava mais. Mas suas costas ainda levavam as marcas das chibatadas que ele havia levado. Por minha culpa. Sentei-me ao lado dele e ele me olhou, confuso, enquanto eu lhe oferecia mais ambrosia.
— O que aconteceu, Dylan?
— Nada demais.
—Eu sei que você está mentindo, Dylan.
—Isso não é motivo para ficar preocupada.
—Então pode me contar.
—Você não vai desistir de saber não é?
—Não.
—Okay, eu vou falar.
Ele fez uma pausa dramática e então continuou.
—Quando você saiu, eu lutei com os guardas, mas eles chamaram reforços. Eram muitos. Eu resisti por algum tempo, mas algum deles chamou Urano. Ele veio até o meu quarto e me olhou, daquela maneira assustadora, e durante meu momento de pânico os guardas me pegaram e eu fui levado à masmorra. Eu seria levado para a forca hoje, mas fugi. Um dos guardas é semideus como nós, filho de Hécate, e ele também não está do lado dos titãs, mas quando eles o encontraram levaram-no para o palácio. Assim como nós ele só jurou lealdade porque era isso ou a morte. Eu contei pra ele o nosso plano e ele vai nos ajudar. Mas ele não pode impedir os outros de me baterem. Alguns tentaram me matar, mas Urano me queria vivo, não sei ao certo por que. Disseram-me que ele queria presenciar minha morte e mostrar aos seu exército o que acontece com traidores. Mas seu plano falhou, porque eu fugi. E o primeiro lugar que eles irão procurar é aqui, por isso temos que fugir. Vamos pra guerra, vamos achar aliados e invadir o palácio.
— Sim, mas não temos armadura, nem nada.
— É, eu não tinha pensado nisso.
—Achou que era só chegar lá e gritar “Quem quer invadir um palácio cheio de monstros faça uma fila indiana!”?
—Na verdade, era mais ou menos esse o plano.
—Percebe-se de longe que você não é um filho de Atena.
—Ainda bem, como eu ia ficar com você se fossemos irmãos?
Senti minhas bochechas queimarem e ele me lançou um sorriso divertido.
—Vamos lutar.
Pegamos as poucas armas que ainda tínhamos e saímos da caverna. A luz invadiu meus olhos, mas assim que pude enxergar um exército se aproximava. E não parecia nada amigável.
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